A IRA DOS ANJOS
Sidney Sheldon



A Ira dos Anjos (Rage of Angels) - Sidney Sheldon
autor: Sidney Sheldon
gnero: Literatura Estrangeira
1980. 312 p.

 sinopse


O livro conta a histria de Jennifer Parker,uma iniciante no ramo de
advocacia, que chegou  Nova Iorque com a inteno de se tornar
assistente do promotor distrital, Robert Di Silva. Porm, as coisas no
correm bem, e Jennifer  ameaada de perder sua licena. A partir da,
comea o envolvimento da moa com Adam Warner, um belo advogado com a
perspectiva de se tornar o novo senador dos Estados Unidos e, depois,
presidente, e Michael Moretti, um poderoso mafioso que est disposto a
espalhar o terror por onde quer que passe, e a quem atrapalhe seus
planos. jennifer tem um filho com Adam, mas no fala isso para ele. O nome
do menino  Joshua. Alm do garoto no saber quem na verdade era seu pai
sua me, Jennifer, escondeu de Michael Moretti (grande mafioso e
extremamente perigoso), o nome do pai do garoto, o que faz com que no fim
do livro, Michael queira se vingar de Jeniffer.







. . . Fala-nos dos exrcitos secretos do mal,  Cimon. . .
Os seus nomes no podem ser pronunciados em voz alta  para que no profanem os lbios dos mortais,  pois vieram das trevas mpias  e atacaram os cus,  mas foram
expulsos pela ira dos anjos. . .

Nova Yorque: 4 de Setembro de 1969

 Os caadores preparavam-se para a matana.  H dois mil anos atrs, em Roma, o torneio teria decorrido no Circo de Nero ou no Coliseu, onde lees vorazes se teriam
aproximado silenciosamente da vtima, numa arena de sangue e de areia, ansiosos por a despedaarem. Mas agora estava-se no civilizado sculo vinte, e o circo era
o Edifcio do Tribunal Criminal do Centro de Manhattan, Sala de Audincias Nmero  Dezasseis.  Em vez de Suetnio havia um estengrafo do tribunal,  encarregado
de registar o acontecimento para a posteridade, e dzias de homens da Imprensa e de visitantes atrados pelos ttulos dirios sobre o julgamento do homicdio faziam
bicha no exterior da sala, s sete horas da manh, para assegurarem o seu lugar.  O acusado, Michael Moretti, um homem calado e elegante de pouco mais de trinta
anos, estava sentado no banco dos rus. Era alto e magro, com o rosto formado por planos  convergentes que Lhe davam um ar severo e feroz. O seu curto cabelo preto
estava penteado  moda, tinha um queixo saliente  com uma cova inesperada e profundos olhos verde-escuros. Usava um impecvel fato cinzento, camisa azul-clara com
uma gravata de seda de um azul mais escuro e sapatos de verniz feitos de encomenda.  excepo dos olhos, que  percorriam constantemente a sala, Michael Moretti
parecia  calmo.   O leo que o atacava era Robert Di Silva, o impetuoso Procurador Distrital para a Comarca de Nova Iorque,  representante do povo. Se Michael Moretti
irradiava calma,  Robert Di Silva irradiava dinamismo; vivia a vida como se estivesse cinco minutos atrasado para um encontro. Estava em constante  movimento, lutando
em segredo contra antagonistas invisveis.  Tinha uma constituio robusta e vigorosa e o cabelo, com um corte antiquado, comeava j a branquear. Na sua juventude,
Di Silva fora pugilista, e o nariz e o rosto conservavam as cicatrizes dessa actividade. Um dia matara um homem no ringue, mas nunca o lamentara. Nos anos que se
seguiram, teve ainda de aprender o que era a compaixo.  Robert Di Silva era um homem de uma ambio desmedida  que conseguira alcanar a sua posio actual sem
o auxlio do  dinheiro nem das relaes. Durante a sua ascenso,  revestira-se da aparncia de um civilizado servidor do povo;  mas, no  ntimo, era um lutador
inato, um homem que no esquecia  nem perdoava.  Em circunstncias normais, o Procurador Distrital Di Silva  no se teria encontrado hoje nesta sala de audincias.
Tinha  um grande grupo de pessoal, e qualquer um dos seus ajudantes  superiores estava apto a encarregar-se deste caso. Mas Di  Silva soubera, desde o incio, que
ia ser ele prprio a tratar do  caso Moretti.  Michael Moretti era notcia de primeira pgina e genro de  Antonio Granelli, capo di capi, chefe da maior famlia
da Mafia da zona oriental. Antonio Granelli estava a ficar velho e era voz corrente que Michel Moretti estava a preparar-se para ocupar o lugar do sogro. Moretti
estivera implicado em dzias de crimes, desde a mutilao de pessoas at ao  assassnio, mas nunca nenhum procurador distrital conseguira  provar o que quer que
fosse. Havia demasiadas proteces  cautelosas entre Moretti e aqueles que executavam as suas  ordens. O prprio Di Silva tinha passado trs anos a tentar reunir
provas contra Moretti. Ento, de sbito, Di Silva fora bem sucedido.  Camillo Stela, um dos soldati de Moretti, tinha sido preso por um crime cometido durante um
assalto. Para salvar a vida, Stela concordou em cantar. Foi a msica mais  maravilhosa que Di Silva ouviu em toda a sua vida, uma cano  que ia pr de rastos a
mais poderosa famlia da Mafia da zona oriental que ia mandar Michael Moretti para a cadeira  elctrica e fazer de Robert Di Silva governador da Albnia.  Outros
governadores de Nova Yorque tinham conseguido chegar   Casa Branca: Martin Van Buren, Grover Cleveland, Teddy Roosevelt e Franklin Roosevelt. Di Silva tencionava
ser o prximo.  A programao do tempo estava perfeita. As eleies
governamentais iam efectuar-se no prximo ano.  Di Silva tinha sido abordado pelo mais poderoso chefe  poltico do estado.
- Com toda a publicidade que est a adquirir com este caso, voc  um dos favoritos para ser proposto e eleito  governador, Bobby. Deite a mo a Moretti e ser
o nosso  candidato.
 Robert Di Silva no fizera as coisas ao acaso. Preparou o caso contra Michael Moretti com um cuidado meticuloso. Ps os seus ajudantes a reunir provas, a juntar
todos os  fragmentos soltos, a cortar todas as vias legais de fuga que  o advogado de Moretti tentasse explorar. Um a um, todos os  meios de evaso tinham sido
fechados.  Tinham sido necessrias quase duas semanas para escolher o jri, e o Procurador Distrital insistira em seleccionar  seis "pneus sobressalentes" - jurados
substitutos - como uma precauo contra um possvel julgamento incorrecto. Em alguns  casos em que tinham estado envolvidas figuras importantes da  Mafia, certos
jurados haviam desaparecido ou sofrido  inexplicveis acidentes fatais. Di Silva providenciara para que este jri fosse sequestrado desde o incio, fechado   chave
todas as noites num lugar onde ningum pudesse  aproximar-se dele.  A chave do caso contra Michael Moretti era Camillo Stela, e a principal testemunha de Di Silva
encontrava-se fortemente protegida.  que o Procurador Distrital recordava-se bem de mais do exemplo de Abe Kid Twist?, Reles, a testemunha governamental que cara"
de uma janela do sexto andar do Half Moon Hotel, em Coney Island, embora se encontrasse guardado por meia dzia de polcias. Robert Di Silva  escolhera ele prprio
os guardas de Camillo Stella e, antes  do julgamento, Stella tinha sido levado em segredo, todas as  noites, para locais diferentes. Agora, com o julgamento em
 curso, Stella era mantido em segurana numa cela isolada, guardado por quatro agentes armados. Ningum estava autorizado a aproximar-se dele, pois a deciso de
Stela em testemunhar baseava-se na sua convico de que o Procurador Distrital Di Silva seria capaz de o proteger da vingana de Michel  Moretti.  Estava-se na
manh do quinto dia de julgamento.  Era o primeiro dia de Jennifer Parker no tribunal. Estava sentada no banco do promotor pblico com mais cinco jovens ajudantes
do procurador distrital que, juntamente com ela, tinham prestado juramento naquela manh. Jennifer Parker era uma esbelta rapariga de vinte e quatro anos de cabelo
escuro e tez plida, com um rosto inteligente e volvel e de pensativos olhos verdes. Tinha um rosto mais atraente do que belo, um rosto que reflectia orgulho,
coragem e sensibilidade, um rosto que no era fcil esquecer. Estava sentada muito direita, como se se defrontasse com invisveis fantasmas do passado.  O dia comeara
muito mal para Jennifer Parker. A cerimnia  do juramento, no gabinete do Procurador Distrital, estava  marcada para as oito horas da manh. Jennifer arranjara
cuidadosamente a roupa, na noite anterior, e pusera o relgio a despertar para as seis, de modo a poder ter tempo de lavar  a cabea.  O relgio no despertou.
Jennifer acordou s sete e meia e entrou em pnico. Fez uma malha na meia quando partiu o salto do sapato e foi obrigada a mudar de fato. Acabava de bater com a
porta do seu minsculo apartamento, quando  descobriu que deixara as chaves l dentro. Tinha planeado ir  de autocarro para o Edifcio do Tribunal Criminal, mas
isso agora estava fora de questo, e correu para apanhar  um txi, que era um luxo a que no podia dar-se e foi conduzida por um motorista que Lhe explicou, ao
longo de todo o trajecto, o motivo pelo qual se aproximava o fim do mundo.  Quando, por fim, Jennifer chegou, ofegante, ao Edifcio do Tribunal Criminal, no nmero
115 da Leonard Street, estava quinze minutos atrasada.  Havia vinte e cinco advogados reunidos no gabinete do Procurador Distrital, a maior parte deles acabados
de sair da Faculdade de Direito, jovens vidos e excitados com o facto de irem trabalhar para o Procurador Distrital da Comarca de Nova Yorque.  O gabinete era
magnfico, com almofadas de madeira e decorado com um bom gosto sbrio. Havia uma grande secretria   frente da qual se encontravam trs cadeiras, uma  confortvel
cadeira de couro por trs dela, uma mesa de  reunies com doze cadeiras em volta e estantes repletas de livros de Direito.  Nas paredes havia fotografias autografadas
de J. Edgar Hoover John Lindsay, Richard Nixon e Jack Dempsey.  Quando Jennifer entrou no gabinete, desfazendo-s em  desculpas, Di Silva encontrava-se a meio de
um discurso. Fez  uma pausa, desviou a ateno para Jennifer e perguntou:
 - Que raio pensa a senhora que isto  - um ch'?
 - Lamento imenso, eu. . .
 - Quero l saber que lamente! No volte a chegar atrasada ! Os outros olharam para Jennifer, disfarando cuidadosamente  a sua solidariedade.  Di Silva voltou-se
para o grupo e falou de improviso:
 - Conheo o motivo pelo qual aqui se encontram. Vo  andar por a o tempo suficiente para me interrogarem  minuciosamente e aprenderem meia dzia de truques de
tribunal  e  depois vo achar que esto preparados e ir-se-o embora para  se tornarem em importantes advogados de Direito Penal. Mas  talvez um de vs - talvez
- seja suficientemente bom para  ocupar um dia o meu lugar - Di Silva fez um sinal ao seu  ajudante. - F-los prestar juramento.  E eles juraram em voz baixa.
Quando tudo acabou, Di Silva disse:
 - Muito bem. Que Deus nos ajude! Este gabinete  o palco da  aco, mas no percam a esperana. Vo mergulhar o nariz em investigaes legais e em minutas de documentos
 intimaes, procuraes - todas aquelas coisas maravilhosas  que vos ensinaram na Faculdade de Direito. No vo poder  ocupar-se de um julgamento antes de um ou
dois anos.  Di Silva fez uma pausa para acender um charuto curto e  grosso.
 -Neste momento estou a ocupar-me de um processo.
 Talvez alguns de vs tenham j lido a esse respeito - o tom da sua voz tornara-se sarcstico. - Posso utilizar meia dzia  de vocs para me levarem recados. -
A mo de Jennifer foi a  primeira a erguer-se. Di Silva hesitou durante um momento e.  em seguida, escolheu-a, juntamente com outros cinco.  - Dirijam-se  Sala
de Audincias Dezasseis.  Quando abandonaram a sala, foram-lhes entregues cartes  de identificao. Jennifer no se sentira desencorajada pela  atitude do Procurador
Distrital. Tem de ser duro.., pensou.  Desempenha um cargo duro. E agora trabalhava para ele.  Fazia parte da equipa do Procurador Distrital da Comarca de  Nova
Iorque! Os anos interminveis passados naquela droga  da Faculdade de Direito tinham chegado ao fim. Os seus  professores tinham conseguido que o Direito parecesse
 atractivo. e antiquado mas, por trs disso, Jennifer fora sempre capaz  de descortinar a Terra Prometida: o verdadeiro Direito que se ocupava dos seres humanos
e das suas loucuras. Jennifer fora a segunda do seu curso e tinha sido mencionada na Revista de Direito. Obtivera aprovao,  primeira tentativa, no exame para
exercer advocacia enquanto que a tera parte dos que tinham ido com ela, falhara. Sentia que compreendia Robert Di Silva, e tinha a certeza de que seria capaz de
desempenhar qualquer misso de que ele a incumbisse.  Jennifer fizera bem o seu trabalho. Sabia que existiam  quatro seces diferentes a cargo do Procurador Distrital
-  Julgamentos, Apelaes, Contas e Fraudes - e perguntava a si prpria para qual delas iria ser designada. Havia mais de  duzentos ajudantes de procurador distrital
na cidade de Nova Iorque e cinco procuradores distritais, um para cada  municpio. Mas, como  evidente, o municpio mais importante  era Manhattan: Robert Di Silva.
 Jennifer encontrava-se agora sentada na sala de audincias, no banco do promotor pblico, vendo trabalhar Robert Di Silva, um Juiz poderoso e implacvel.  Jennifer
olhou de relance para o ru, Michael Moretti. Apesar de tudo o que Jennifer lera a seu respeito, no podia convencer-se de que Michael Moretti fosse um assassino
?.Parece um jovem actor de cinema num cenrio de tribunal,?, pensou Jennifer. Estava ali sentado, sem se mexer, e s os profundos olhos negros traam a perturbao
interior que  devia sentir. Moviam-se sem cessar, examinando todos os  cantos da sala como se tentassem descobrir um meio de evaso. Mas no havia hiptese. Di
Silva providenciara nesse sentido.  Camillo Stela estava no banco das testemunhas. Se Stela fosse um animal, teria sido uma doninha. possua um rosto esguio e atormentado,
com lbios finos e dentes amarelos e salientes. Os olhos eram dardejantes e manhosos e duvidava-se  dele antes mesmo de ele abrir a boca. Robert Di Silva tinha
conscincia das fraquezas da sua testemunha, mas no se importava com elas. O que lhe interessava era aquilo que Stela tinha para dizer. Tinha para contar histrias
de terror que nunca contara antes e que tinham um inconfundvel toque de verdade.  O Procurador Distrital encaminhou-se para o lugar das  testemunhas onde Camillo
Stela tinha prestado juramento.
- Mr. Stela, quero que este tribunal saiba que o senhor  uma testemunha relutante e que, para o persuadir a prestar declaraes, o Estado concordou em autoriz-lo
a apelar para acusao menor de homicdio involuntrio no assassnio de que  acusado.  verdade?
 - Sim, senhor - o brao direito estremecia-lhe.
 - Mr. Stela, conhece o acusado, Michael Moretti?
 - Sim, senhor - conservava o olhar afastado do banco dos rus em que Michael Moretti estava sentado.
 - Qual era a natureza do vosso relacionamento?
 - Trabalhei para Mike.
 - H quanto tempo conhece Michael Moretti?
 - H cerca de dez anos - a sua voz quase no se ouvia.
 - Pode falar mais alto, por favor?
 - H cerca de dez anos - agora era o pescoo que lhe estremecia.
 - Considerava-se ntimo do acusado?
 - Objeco! - Thomas Colfax ps-se de p. O advogado de defesa de Michael Moretti era um homem alto e grisalho, de uns cinquenta anos de idade, consigliere do
Sindicato e um dos mais sagazes advogados de Direito Penal do pas. - O Procurador Distrital est a tentar manipular a testemunha.
 - Objeco aceite - declarou o Juiz Lawrence Waldeman.
 - Vou reformular a pergunta. Que tipo de trabalho executou  para Mr. Moretti?
 - Eu era uma espcie daquilo a que se pode chamar de eliminador de dificuldades.
 - Poderia ser um pouco mais explcito?
 - Sim. Se surgia algum problema. . . Se algum punha o p em ramo verde. . . Mike mandava-me meter o tipo na ordem.
 - Como  que fazia isso?
 - Sabe. . . msculo.
 - Pode dar um exemplo ao jri?
 Thomas Colfax erguera-se.
 - Objeco, Vossa Honra. Esta linha de interrogatrio  imaterial.
 - Objeco recusada. A testemunha pode responder.
 - Bom, Mike empresta dinheiro a juros, no ? H alguns anos atrs, Jimmy Serrano atrasou-se nos pagamentos e Mike mandou-me dar uma lio a Jimmy.
- Em que consistiu essa lio?
 - Parti-lhe as pernas. Sabe... - explicou Sela, muito srio  - se se deixa passar um tipo, todos os outros vo querer fazer a mesma coisa.
 Pelo canto do olho, Robert Di Silva via as reaces  horrorizadas no rosto dos jurados.
 - Em que negcios estava metido Michael Moretti, para alm da usura?
 - Jesus! Diga o senhor!
 - Gostaria que fosse o senhor a diz-lo, Mr. Stela.
 - Bem, no cais, Mike ganhou bastante dinheiro com o sindicato. O mesmo aconteceu com a indstria do vesturio. Mike estava metido no jogo, em juke boxes, na recolha
do lixo, no fornecimento de roupas. Coisas assim.
 - Mr. Stela, Michael Moretti  acusado de ter assassinado Eddie e Albert Ramos. Conhecia-os?
 - Oh,  claro.
 - Encontrava-se presente quando eles foram mortos?
 - Sim - todo o seu corpo parecia estremecer.
 - Quem  que os matou realmente?
 - Mike. - Por um segundo, o seu olhar cruzou-se com o de Michael Moretti, e Stela desviou rapidamente o seu.
 - Michael Moretti?
 - Sim.
 - Qual foi o motivo que o acusado invocou para querer que os irmos Ramos fossem mortos?
 - Bem, Eddie e A1 dirigiam um registo de...
 - Era uma agncia de apostas? Apostas ilegais?
 - Sim. Mike descobriu que eles estavam a passar por cima dele. Tinha de Lhes dar uma lio porque faziam parte dos homens dele, sabe? Ento pensou...
 - Objeco !
 - Aceite. A testemunha deve limitar-se aos factos.
 - Os factos foram que Mike me mandou convidar os rapazes...
 - Eddie e Albert Ramos?
 - Sim. Para uma pequena festa no Pelican.  um clube de praia privado - o brao comeou-lhe de novo a tremer e Stela, apercebendo-se disso, agarrou-o com a outra
mo.
 Jennifer Parker voltou-se para olhar Michael Moretti.  Continuava impassvel, a observar tudo, o rosto e o corpo  imveis.
- O que se passou ento, Mr. Stela?
 - Fui buscar Eddie e A1 e levei-os para o estacionamento.
Mike encontrava-se l,  espera. Quando os tipos saram do carro, desviei-me e Mike comeou a disparar.
 - Viu cair os irmos Ramos?
 - Sim, senhor.
 - E estavam mortos?
 - Pelo menos foram enterrados como se estivessem mortos.
 Ouviu-se uma onda de murmrios atravs da sala do tribunal. Di Silva esperou que se restabelecesse o silncio.
 - Mr. Stela, sabe que as declaraes que acaba de prestar nesta sala de audincias podem ser tomadas contra si?
 - Sim, senhor.
 - E que est sob juramento e que a vida de um homem se encontra em perigo?
 - Sim, senhor.
 - O senhor viu o acusado, Michael Moretti, matar dois homens, a sangue-frio, por lhe terem sonegado dinheiro?
 - Objeco! Ele est a manipular a testemunha.
 - Recusada.
 O Procurador Distrital Di Silva olhou para as caras dos jurados, e, aquilo que viu, disse-lhe que a sua causa estava ganha. Voltou-se para Camillo Stela.
 - Mr. Stela, sei que precisou de muita coragem para entrar  nesta sala de audincias e testemunhar. Em nome do povo deste estado, quero apresentar-lhe os meus
agradecimentos Di Silva voltou-se para Thomas Colfax. - A testemunha  sua.
 Thomas Colfax ergueu-se com dignidade.
 - Muito obrigado, Mr. Di Silva. - Consultou de relance o relgio da parede e, em seguida, virou-se para o estrado do juiz. -  quase meio-dia, Vossa Honra. Preferia
que o meu contra-interrogatrio no fosse interrompido. Posso solicitar que o tribunal seja agora suspenso para almoo e que eu  contra-interrogue durante a tarde?
 - Muito bem - o Juiz Lawrence Waldman bateu na mesa com o martelo. - Este tribunal fica suspenso at s duas horas.
 Todos os que se encontravam na sala de audincias se  levantaram e atravessaram a porta lateral em direco s respectivas dependncias. Os jurados comearam a
abandonar a sala, uns atrs dos outros. Quatro agentes armados rodearam Camillo Stela e escoltaram-no atravs de uma porta situada perto da frente da sala de audincias
e que conduzia  sala das testemunhas.  Di Silva viu-se imediatamente rodeado de reprteres.
 - Quer prestar alguma declarao?
 - Como pensa que vai terminar o caso, senhor Procurador Distrital?
 - De que modo vai proteger Stela quando isto acabar?
 Se as circunstncias fossem outras, Robert Di Silva no teria tolerado uma tal intromisso na sala de audincias mas neste momento, dadas as suas ambies polticas,
necessitava de manter a imprensa do seu lado, e assim esforou-se por os tratar com delicadeza.  Jennifer Parker continuava sentada, observando o Procurador Distrital
esquivar-se s perguntas dos jornalistas.
 - Vai conseguir uma prova de culpabilidade?
 - No sou adivinho - Jennifer ouviu a resposta humilde de Di Silva. -  para isso que temos jris, senhoras e  senhores. Os jurados  que tero de decidir se Mr.
Moretti est inocente ou culpado.
 Jennifer viu que Michael Moretti se levantava. Tinha uma expresso calma e tranquila. Pueril foi a palavra que veio  mente de Jennifer. Era-lhe difcil acreditar
que ele fosse culpado de todas as coisas terrveis de que o acusavam. Se  eu tivesse de escolher o culpado?,, pensou Jennifer, "escolhia Stela, o `Tremeliques?.Os
jornalistas tinham-se afastado e Di Silva conferenciava agora com alguns elementos da sua equipa. Jennifer teria
dado tudo para ouvir o que diziam.  Jennifer viu um homem dizer algo a Di Silva, destacar-se
do grupo que rodeava o Procurador Distrital e encaminhar-se a toda a pressa para Jennifer. Era portador de um enorme sobrescrito de papel manilha.
 - Miss Parker?
 Jennifer ergueu os olhos, surpreendida.
 - Sim?
 - O chefe quer que entregue isto a Stela. Diga-lhe que procure recordar-se destas datas. Colfax vai tentar deitar abaixo o seu testemunho, esta tarde, e o chefe
quer ter a  certeza de que Stela no vai baralhar tudo. Entregou o sobrescrito a Jennifer e ela olhou para Di Silva. HLembrou-se do meu nome,?, pensou. ?. bom
sinal."
 -  melhor ir j. O Procurador Distrital est convencido de que no vai ser fcil para Stela.
 - Sim, senhor. - E Jennifer apressou-se.
 Encaminhou-se para a porta atravs da qual vira desaparecer
Stela. Um agente armado barrou-lhe a passagem.
 - Posso ajud-la, menina?
 - Servio do Procurador Distrital - declarou Jennifer num tom decidido. Puxou do carto de identificao e mostrou-lho. - Tenho de entregar um sobrescrito a Mr.
Stela da parte de Mr. Di Silva.
 O guarda examinou cuidadosamente o carto, depois abriu a porta e Jennifer viu-se no interior da sala das  testemunhas. Era uma sala pequena e de aspecto desconfortvel,
cujo  mobilirio consistia numa secretria quebrada, num sof velho e em algumas cadeiras de madeira. Stela estava sentado numa delas e o brao tremia-lhe freneticamente.
Encontravam-se na sala quatro agentes armados.  Quando Jennifer entrou, um dos guardas interpelou-a:
 - Alto l! Ningum pode entrar aqui!
 - No h problema, A1.  servio do Procurador Distrital - esclareceu o guarda que se encontrava do lado de fora.
 Jennifer estendeu o sobrescrito a Stela.
 - Mr. Di Silva quer que o senhor refresque a sua memria no que respeita a estas datas.
 Stela piscou os olhos e continuou a estremecer. Quando Jennifer se preparava para sair do Edifcio do  Tribunal Criminal para ir almoar, passou pela porta aberta
 de uma sala de audincias deserta. No resistiu a entrar por uns momentos.  Havia quinze filas de bancos para o pblico, de cada lado da zona do fundo. Em frente
da bancada do juiz estavam duas mesas compridas, a da esquerda com o letreiro Queixoso e a da direita com o letreiro Ru. A zona dos jurados era  constituda por
duas filas de oito cadeiras.  uma vulgar  sala de audincias", pensou Jennifer, modesta, feia at - mas  o corao da liberdade.., Esta sala e todas as outras
salas de tribunal como ela, representavam a diferena entre a  civilizao e a selvajaria. O direito a um julgamento por um  jri  constitudo por pessoas iguais
a ns era o que sossegava a alma de todos os pases livres. Jennifer pensou em todas as naes do mundo que no possuam esta pequena sala, pases em que cidados
eram arrancados das suas camas a meio da noite e torturados e assassinados por inimigos annimos por razes desconhecidas: Iro, Uganda, Argentina, Peru, Brasil,
Romnia, Rssia, Checoslovquia. . . a extenso da lista era deprimente.  Se os tribunais americanos fossem algum dia despojados do seu poder,?, pensou Jennifer,
se negassem aos cidados o direito ao julgamento por um jri, ento a Amrica deixaria de existir como nao livre.  Fazia agora parte do sistema e, ao encontrar-se
ali, de p, Jennifer foi invadida por um  irresistvel sentimento de orgulho. Iria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para o honrar, para ajudar a preserv-lo.
 Permaneceu ali durante muito tempo e, por fim, preparou-se  para sair. Vindo do fundo do trio, ouvia-se um sussurro distante que se foi tornando cada vez mais
forte e que, finalmente, se transformou num pandemnio. As campainhas de alarme comearam a tocar. Jennifer ouviu o som de ps que corriam pelo corredor e viu polcias
que, com as armas apontadas, se precipitavam para a entrada principal do Palcio da Justia.  O primeiro pensamento de Jennifer foi que Michael Moretti se evadira,
que conseguira, de qualquer maneira, transpor a  barreira de guardas. Saiu rapidamente para o corredor. Era  uma confuso. As pessoas corriam desvairadas de um
lado para o outro, gritando ordens por cima do rudo estridente das  campainhas. A polcia de choque tomara posies junto das  portas de sada. Os jornalistas,
que tinham estado a telefonar os seus artigos, precipitavam-se para o corredor tentando descobrir o que se estava a passar.  Quase ao fundo do trio, Jennifer viu
o Procurador Distrital Robert Di Silva que, furioso e de rosto muito corado, dava instrues a meia dzia de polcias.  Meu Deus! Vai ter um ataque cardaco", pensou
Jennifer.  Abriu caminho por entre a multido e dirigiu-se para ele, pensando que talvez pudesse ser-lhe til. Ao aproximar-se, um dos agentes que estivera de guarda
a Camillo Stela  levantou os olhos e viu Jennifer. Ergueu um brao, apontou  para ela e, cinco segundos depois, Jennifer Parker sentiu-se  agarrada, algemada e
presa.  Encontravam-se quatro pessoas no gabinete do Juiz Waldman, o  Procurador Distrital Robert Di Silva, Thomas Colfax e Jennifer.
 - Tem direito a mandar chamar um advogado antes de prestar qualquer declarao = informou-a o Juiz Waldman -, e tem tambm o direito de se calar. Se. . .
 - No preciso de nenhum advogado, Vossa Honra! Posso explicar o que aconteceu.
 Robert Di Silva estava to inclinado para ela que Jennifer conseguia ver-lhe latejar uma veia na tmpora. - Quem lhe pagou para entregar aquele embrulho a Camillo
Stela?
 - Pagar-me? Ningum me pagou! - A voz de Jennifer tremia de indignao.
 Di Silva pegou no j conhecido sobrescrito de papel manilha,  que se encontrava sobre a secretria do Juiz Waldman.  - Ningum lhe pagou? Foi ter com a minha testemunha,
sem mais nem menos, para lhe entregar isto? - Agitou o sobrescrito e o corpo de um canrio amarelo caiu sobre a  secretria. Tinham-lhe partido o pescoo. Jennifer
fitou-o, horrorizada.
 - Eu. . . um dos seus homens. . . deu-me. . . .
 - Qual dos meus homens?
 - Eu. . . eu no sei.
 - Mas sabe que era um dos meus homens. - Na sua voz  transparecia um tom de incredulidade.
 - Sim. Vi-o falar consigo, em seguida encaminhou-se  para mim, entregou-me o sobrescrito, e disse-me que o senhor  queria que eu o levasse a Mr. Stela. Ele. .
. ele at sabia  o meu nome.
 - Aposto que sim. Quanto  que lhe pagaram?
  um pesadelo", pensou Jennifer. Vou acordar a qualquer  momento, sero seis horas da manh, vou vestir-me e ser admitida na equipa do Procurador Distrital."
 - Quanto? - A ira dele era to violenta que obrigou Jennifer  a pr-se de p.
 - Est a acusar-me de. . . ?
 - Acus-la! - Robert Di Silva cerrou os punhos. Minha  senhora, ainda nem sequer comecei. Na altura em que sair da priso, j estar velha de mais para gastar
esse  dinheiro.
 - No h dinheiro nenhum! - E Jennifer olhou-o com ar de desafio.
 Thomas Colfax tinha estado sentado l atrs, escutando a conversa em silncio.
 - Perdoe-me, Vossa Honra, mas receio que isto no nos leve a nenhum lado.
 - Concordo - replicou o Juiz Waldman. Voltou-se para o Procurador Distrital. - O que tenciona fazer? Stela continua a querer ser contra-interrogado?
 - Contra-interrogado?  um caso perdido! Est completamente  apavorado. No voltar a comparecer.
 - Se eu no puder contra-interrogar a principal testemunha  de acusao, Vossa Honra, terei de declarar o julgamento incorrecto.
 Todos os que se encontravam na sala sabiam o que isso significaria: Michael Moretti iria abandonar a sala de  audincias como homem livre.  O Juiz Waldman olhou
para o Procurador Distrital.
 - Disse  sua testemunha que pode ser presa por  desobedincia ao tribunal?
 - Sim. Stela est com mais medo deles do que de ns Voltou-se para dirigir a Jennifer um olhar maldoso. - Est convencido de que j no o podemos proteger.
 - Nesse caso, receio que a este tribunal no reste outra alternativa seno garantir o pedido da defesa e declarar o julgamento incorrecto - disse lentamente o
Juiz Waldman.
 E Robert Di Silva para ali estava, a ouvir a sua causa ser destruda. Sem Stela, no haveria causa. Michael Moretti encontrava-se agora fora do seu alcance, mas
Jennifer no. La obrig-la a pagar pelo que lhe fizera.
 - Vou dar instrues para que o acusado seja libertado e o jri desfeito - informou o Juiz Waldman.
 - Obrigado, Vossa Honra - agradeceu Thomas Colfax. No havia no seu rosto qualquer sinal de triunfo.
 - Se no h mais nada. . . - comeou o Juiz Waldman.
 - H ainda uma coisa! - Robert Di Silva voltou-se para Jennifer Parker. - Quero que seja detida por obstruo   justia, por interferir com uma testemunha num
caso capital,  por conspirao, por... - A ira tornava-o incoerente.  De to furiosa que estava, Jennifer recuperou a voz.
 - O senhor no pode provar uma nica dessas acusaes porque no so verdadeiras. Eu... eu posso ter culpa de ser estpida, mas  a nica coisa de que sou culpada.
Ningum me subornou para fazer o que quer que fosse. Pensei que  estava a entregar um embrulho da sua parte.  O Juiz Waldman olhou para Jennifer e disse:
 - Qualquer que tenha sido a motivao, as conseqncias foram extremamente infelizes. Vou pedir que a Seco de Apelao faa uma investigao e, se as circunstncias
o  justificarem, que inicie contra si o processo de excluso da  Ordem dos Advogados.
 Jennifer sentiu um desfalecimento sbito.
 - Vossa Honra, eu. . .
 - Por agora  tudo, Miss Parker.
 Jennifer permaneceu ali por um momento, fitando-lhes os rostos hostis. Nada mais tinha a dizer.  O canrio amarelo que estava em cima da secretria tinha dito
tudo.  osis de silncio, vendo Jennifer Parker na televiso. Ergueu o copo para brindar  sade dela e bebeu o contedo de um trago.  Jennifer Parker no se limitou
a aparecer nas notcias da tarde - era a notcia da tarde. A histria de ela ter  entregue um canrio morto  testemunha principal do Procurador  Distrital era
irresistvel. Todos os canais de televiso apresentavam imagens de Jennifer abandonando o gabinete do  Juiz Waldman, tentando sair  fora do Palcio da Justia,
 assediada pelas perguntas da imprensa e do pblico.  Jennifer no podia acreditar na sbita e horrorosa  publicidade de que estava sendo rodeada. Atacavam-na de
todos  os lados: reprteres da televiso e da rdio, e jornalistas. Queria desesperadamente livrar-se deles, mas o seu orgulho impedia-a  de o fazer.
- Quem lhe entregou o canrio amarelo, Miss Parker?,?
 - J alguma vez tinha visto Michael Moretti?.?
- Sabia que Di Silva tencionava servir-se deste caso para chegar a governador?"
 - O Procurador Distrital diz que vai expuls-la da Ordem dos Advogados. Tenciona tomar algumas medidas?.,
 A todas as perguntas que lhe faziam, Jennifer respondia, com os lbios apertados.
 - No tenho comentrios.
 Nas notcias da noite, da CBA, chamaram-Lhe Parker do Caminho Errado", a rapariga que partira na direco errada. Um jornalista do ABC referia-se a ela como o
Canrio  Amarelo". No NBC um comentador desportivo comparou-a a Roy Riegels, o futebolista que atirara a bola para a baliza da sua prpria equipa.  No Tony's Place,
um restaurante de que Michael Moretti era proprietrio, estava a decorrer uma festa. Havia uma  dzia de homens na sala, bebendo e fazendo uma enorme  barulheira.
 Michael Moretti estava sozinho, sentado junto do bar, num Os advogados discutiam por todo o lado o episdio Jennifer Parker. Metade deles acreditava que ela tinha
sido subornada pela Mafia e, a outra metade, que ela se deixara enganar  inocentemente. Mas, fosse qual fosse o lado em que se  encontravam, todos eram unnimes
num ponto: a curta carreira  de Jennifer Parker como advogada tinha terminado.  Durara exactamente quatro horas.  Nascera em Kelso, Washington, uma pequena cidade
dedicada   indstria da madeira, fundada em mil oitocentos e quarenta e sete por um explorador escocs saudoso da ptria, que lhe deu o nome da sua cidade natal
da Esccia.  O pai de Jennifer era advogado e trabalhara primeiro para as empresas de serrao que dominavam a cidade e, mais tarde,  para os trabalhadores dessas
mesmas serraes. As mais antigas recordaes que Jennifer conservava da sua infncia ali eram muito agradveis. O estado de Washington era, para as  rianas, um
local sado de um livro de contos, cheio de montanhas espectaculares, de glaciares e parques nacionais. Fazia ski, andava de canoa e, j mais crescida, trepava
pelo gelo dos glaciares e fazia excurses a lugares com nomes maravilhosos: Ohanapecosh, Nisqually, lago Cle Elum,  cataratas de Chenuis, Horse Heaven, vale de
Yakima. Com o  pai,
Jennifer aprendeu a fazer alpinismo no monte Rainier e a  esquiar em Timberline.  O pai dispunha sempre de tempo para ela, enquanto que a me, encantadora e irrequieta,
andava misteriosamente ocupada  e raras vezes se encontrava em casa. Jennifer adorava o pai. Abner Parker era uma mistura de sangue ingls, irlands e escocs.
Tinha uma estatura mediana, cabelo preto e olhos de um azul-esverdeado. Era um homem compassivo e com um arreigado sentido de justia. No se interessava pelo
dinheiro, mas sim pelas pessoas. Era capaz de ficar sentado a conversar com Jennifer, horas a fio, falando-lhe dos casos que  tinha entre mos e dos problemas das
pessoas que iam ao seu pequeno e modesto escritrio, e s alguns anos depois  que Jennifer compreendeu que ele conversava com ela porque no tinha mais ningum
com quem partilhar as coisas. Assim que saa da escola, Jennifer corria para o Palcio da Justia para ver trabalhar o pai. Se o tribunal no estava em sesso,
vagueava pelo escritrio dele, ouvindo-o discutir os casos com os clientes. Nunca falavam na ida dela para a  Faculdade de Direito; era algo que consideravam assente.
 Quando Jennifer tinha quinze anos, comeou a trabalhar com o pai durante as frias de Vero. Numa idade em que as outras raparigas marcavam encontros com rapazes
e tinham namorados certos, Jennifer embrenhava-se em aces judiciais  e testamentos.  Os rapazes interessavam-se por ela, mas raras vezes saa. Quando o pai lhe
perguntava o motivo, replicava:
 - So todos to jovens, pap.
 Sabia que um dia havia de casar com um advogado como o pai.  No dia em que Jennifer fez dezasseis anos, a me abandonou a   cidade com o filho do vizinho do lado,
que tinha dezoito  anos, e o pai de Jennifer morreu serenamente. O seu corao  s deixou de bater sete anos depois, mas morreu no momento em que ouviu a notcia
acerca da mulher. Toda a
cidade estava a par do assunto e manifestou a sua  solidariedade o que,  claro, piorou tudo, pois Abner Parker  era um homem orgulhoso. Foi ento que comeou a
beber. Jennifer fez tudo o que pde para o consolar, mas foi intil, e nada voltou a ser como dantes.  No ano seguinte, quando chegou a altura de ir para o  colgio,
Jennifer quis ficar em casa com o pai, mas ele no  lhe deu ouvidos.
 - Vamos ser scios, Jennie - declarou-lhe. - Tira depressa  esse curso de Direito.
 Quando obteve o diploma, matriculou-se na Universidade de Washington, em Seattle, para estudar Direito. Durante o primeiro ano lectivo, enquanto os colegas de
Jennifer  mergulhavam num mar impenetrvel de contratos, delitos,  propriedades, procedimento civil e direito criminal, Jennifer  sentia-se como se tivesse regressado
a casa. Mudou-se para o dormitrio da Universidade e arranjou emprego na Biblioteca de Direito.  Jennifer adorava Seattle. Aos domingos, ela e um estudante indiano
chamado Ammini Williams e uma enorme e ossuda rapariga irlandesa chamada Josephine Collins iam remar em Green Lake, no centro da cidade, ou assistiam s corridas
da Taa de Ouro no lago Washington e viam passar os hidroavies  de cores brilhantes.  Havia em Seattle grandes clubes de jazz, e o preferido de Jennifer era o
Peet's Poop Deck onde, em vez de mesas, havia  caixotes com pranchas de madeira no topo.   tarde, Jennifer, Ammini e Josephine encontravam-se no The Hasty Tasty,
uma espelunca onde comiam as melhores batatas fritas caseiras do mundo.  Havia dois rapazes que se interessavam por Jennifer: um jovem e atraente estudante de Medicina,
chamado Noah Larkin e  um estudante de Direito chamado Ben Munro; de vez em quando, Jennifer aceitava encontrar-se com eles, mas  estava demasiado ocupada para
pensar em romances srios.  O Inverno era frio, hmido e ventoso e parecia chover todo o tempo. Jennifer vestia um espesso casaco aos quadrados azuis e verdes,
que absorvia as gotas de chuva na sua l  felpuda e que lhe fazia brilhar os olhos como esmeraldas.  Passeava  chuva, perdida nos seus pensamentos secretos, sem
poder adivinhar que todos eles iriam ficar para sempre  gravados na sua memria.  Na Primavera, as raparigas desabrochavam nos seus vestidos  de algodo claro.
Havia seis associaes de estudantes numa das ruas da Universidade e os seus membros costumavam  reunir-se no relvado a ver passar as raparigas, mas Jennifer tinha
qualquer coisa que os fazia sentir-se tmidos. Possua uma qualidade especial que lhes era difcil definir, tinham a sensao de que ela alcanara j algo de que
eles andavam ainda  procura.  No Vero, Jennifer ia sempre a casa visitar o pai. Este mudara muito. Nunca estava embriagado, mas tambm no estava sempre sbrio.
Refugiava-se numa fortaleza emocional onde nada o poderia voltar a atingir.  Morreu quando Jennifer frequentava o ltimo perodo da Faculdade de Direito. A cidade
recordava-se, e foram quase cem pessoas ao funeral de Abner Parker, pessoas que ele tinha  ajudado, aconselhado e de quem fora amigo ao longo de todos aqueles anos.
Jennifer chorou a sua dor longe de todos. Perdera mais do que um pai. Perdera um mestre e um mentor. Depois do funeral, Jennifer regressou a Seattle para terminar
 os estudos. O pai tinha-lhe deixado menos de um milhar de dlares e ela precisava de tomar uma deciso sobre o que iria fazer da sua vida. Sabia que no podia
regressar a Kelso para exercer advocacia, pois seria sempre vista ali como a rapariguinha cuja me fugira com um adolescente:  Devido  sua brilhante mdia de curso,
Jennifer teve  entrevistas com uma dzia das mais importantes firmas  jurdicas do pas e recebeu vrias propostas.  Warren Oakes, o seu professor de Direito Criminal,
disse - lhe:
 -  um verdadeiro tributo, minha jovem.  muito difcil,  para uma mulher entrar numa boa firma jurdica.
 O dilema de Jennifer era que j no tinha nem lar nem  razes. No tinha a certeza onde queria viver.  Pouco antes de terminar o curso, o problema de Jennifer
foi resolvido. O Professor Oakes pediu-lhe que fosse procur-lo depois da aula.
 - Recebi uma carta do gabinete do Procurador Distrital de Manhattan, pedindo-me que recomende o meu aluno mais  brilhante para a sua equipa. Interessada?
 - Nova Yorque.
 - Sim, senhor. - Jennifer estava to atordoada que a  resposta foi imediata.
 Voou para Nova Iorque para fazer o exame de admisso para advogada no foro e regressou a Kelso para fechar o  escritrio do pai. Foi uma experincia ao mesmo tempo
amarga  e doce, cheia de recordaes do passado e Jennifer teve a  sensao de ter crescido naquele escritrio.  Arranjou um emprego como ajudante na biblioteca
de Direito  da Universidade, para passar o tempo at a informarem se tinha passado no exame em Nova Iorque.
 -  um dos mais difceis do pas - advertiu-a o Professor Oakes.
 Mas Jennifer sabia.  No mesmo dia recebeu a informao de que tinha passado e uma proposta do gabinete do Procurador Distrital de Nova Iorque.  Uma semana mais
tarde, Jennifer encontrava-se a caminho do leste.  Descobriu um minsculo apartamento (espaoso, gua e luz, lareira, boa localizao e precisando de algumas obras,
dizia o anncio) ao fundo da Terceira Avenida, com uma  lareira fingida e situado num alto prdio de quatro andares  sem elevador. ?.O exerccio vai fazer-me bem,?,
disse Jennifer para com os seus botes. Em Manhattan no havia montanhas para escalar, nem rpidos para percorrer. O apartamento consistia numa pequena sala de
estar com um sof que se transformava numa cama desconfortvel, numa minscula casa de banho com uma janela que algum pintara h muito tempo com tinta preta, para
que no se visse l para dentro. O mobilirio parecia ter sido doado pelo Exrcito de Salvao. Bom, no  vou morar neste lugar durante muito tempo, pensou Jennifer.
 apenas provisrio, at eu me afirmar como advogada.?,  Isso fora o sonho. A realidade era que se encontrava em Nova Iorque h menos de setenta e duas horas, fora
despedida da equipa do Procurador Distrital e estava sujeita a ser expulsa da ordem dos advogados.  Jennifer desistiu de ler jornais e revistas e deixou de ver
televiso pois, para onde quer que se virasse, era a si mesma que via. Sentia as pessoas olharem-na na rua, no autocarro e no mercado. Comeou a refugiar-se no
seu pequeno apartamento  e recusava-se a atender o telefone e a responder  campainha  da porta. Pensou fazer as malas e regressar a Washington.  Pensou dedicar-se
a qualquer outra actividade. Pensou suicidar-se. Passou longas horas a redigir cartas para o Procurador Distrital Robert Di Silva. Metade das cartas eram  acusaes
severas  sua insensibilidade e falta de  compreenso. A outra metade eram desculpas abjectas, rogando-Lhe que lhe concedesse outra oportunidade. No chegou a mandar
nenhuma  delas.  Pela primeira vez na sua vida, Jennifer sentia-se dominada por um sentimento de desespero. No tinha amigos em Nova Iorque, no tinha ningum com
quem falar.  Passava o dia fechada no apartamento e, noite j alta, saa furtivamente para percorrer as ruas desertas da cidade. Os vagabundos que povoavam a noite
nunca a abordavam. Talvez  visse a sua prpria solido e desespero reflectidos nos olhos dela.  Vezes sem conta, enquanto caminhava, Jennifer visionava no seu esprito
a cena da sala de audincias, mas alterava-lhe sempre o desfecho.
Um homem destacou-se do grupo que rodeava Di Silvu e dirigiu-se para ela a toda a pressa. Era portador de um  sobrescrito de papel munilhu.  Miss Parker ?  Sim.
 O chefe quer que entregue isto a Stela.  Jennifer olhou-o com frieza. Mostre-me a sua identificao,  por favor.
 O homem entrou em pnico e fugiu.  Um homem destacou-se do grupo que rodeava Di Silva e dirigiu-se pura ela a toda a pressa. Era portador de um  sobrescrito papel
manilhu.  Miss Parker ?  Sim.  O Chefe quer que entregue isto a Stela. Confia o sobrescrito nas suas mos.  Jennifer abriu o sobrescrito e viu l dentro o canrio
 morto. Vou mand-lo prender.  Um homem destacou-se do grupo que rodeava Di Silva e dirigiu-se para ela a toda a pressa. Era portador de um  sobrescrito de papel
manilha. Passou por ela, aproximou-s e de outro jovem ajudante do Procurador Distrital e estendeu-Lhe o sobrescrito. O chefe quer que d isto n Stela.  Podia reconstituir
a cena quantas vezes quisesse, mas nada mudara. Um estpido erro tinha-a destrudo. E, no entanto  quem disse que ela estava destruda? A imprensa? Di Silva? No
voltara a ouvir falar na sua excluso da Ordem dos  Advogados e, at isso acontecer, continuava a ser advogada. H firmas jurdicas que me fizeram propostas?,,
recordou Jennifer.  Invadida por um novo sentido de determinao, Jennifer pegou na lista das firmas com quem contactara e comeou a fazer uma srie de telefonemas.
Nenhum dos homens com quem pediu para falar a atendeu, e nem um nico dos seus telefonemas obteve resposta. Levou quatro dias a compreender  que era o pria da
profisso legal. A agitao provocada pelo caso tinha-se desvanecido, mas todos ainda se lembravam.  Jennifer continuou a telefonar a patres em perspectiva, passando
do desespero  indignao  frustrao e de novo ao desespero. Pensava no que iria fazer durante o resto da vida e, de todas as vezes, chegava sempre  mesma concluso:
 tudo o que queria fazer, a nica coisa que lhe importava na realidade, era exercer advocacia. Era advogada, e, se Deus o permitisse, at a impedirem de o fazer,
havia de descobrir uma maneira de exercer a sua profisso.  Comeou a fazer a ronda dos escritrios dos advogados de Manhattan. Entrava sem ser anunciada, dizia
o nome   recepcionista e pedia para ver o chefe do pessoal. De vez em  quando prometiam-lhe uma entrevista mas, nessas alturas,  Jennifer tinha a sensao de que
era apenas por curiosidade. Era uma aberrao e queriam ver como  que ela era em pessoa. Na maior parte das vezes informavam-na simplesmente de que no havia vagas.
 Ao cabo de seis semanas, o dinheiro de Jennifer comeou a esgotar-se. Gostaria de se ter mudado para um apartamento mais barato, mas no havia apartamentos mais
baratos. Passou  a prescindir do pequeno-almoo e do almoo, e jantava numa das pequenas dinnetes ' de esquina onde a comida era m mas os preos acessveis: descobriu
o Steak & Brew e o Roast-and-Brew onde, por uma quantia modesta, lhe serviam um prato principal, toda a salada que conseguia comer e toda a cerveja que conseguia
beber. Jennifer detestava cerveja, mas alimentava.  Quando Jennifer esgotou a lista de grandes firmas judiciais, armou-se com uma lista de firmas mais pequenas
e comeou a telefonar-lhes, mas at a a sua reputao a precedera.  Recebeu bastantes propostas de homens interessados nela, mas nenhuma oferta de emprego. Comeava
a sentir-se desesperada.  Muito bem?,, pensou, como um desafio. Se ningum me quer contratar, vou abrir o meu prprio escritrio." O problema era que isso custava
dinheiro. Dez mil dlares, pelo menos. Precisaria do suficiente para a renda, telefone, uma secretria, livros de Direito, uma mesa e cadeiras, papelada.  . nem
sequer tinha dinheiro para os selos.
 Jennifer tinha contado com o seu ordenado como ajudante do Procurador Distrital, mas isso,  claro, ficara fora de questo. Podia tirar da ideia qualquer indemnizao
por  despedimento; no tinha sido despedida; fora decapitada. No,  no tinha possibilidades de abrir o seu prprio escritrio, por muito pequeno que fosse. A soluo
era encontrar algum com quem partilhar o escritrio.  Jennifer comprou um exemplar do New York Times e comeou a  procurar nos anncios das ofertas. S quando
se encontrava j no fundo da pgina  que descobriu um pequeno  anncio que dizia: Precisa-se/cavalheiro exercendo profisso  liberal para partilhar pequeno escritrio
com outros 2 cavalheiros tambm exercendo profisso liberal. Renda  acessvel.  As duas ltimas palavras atraram enormemente Jennifer. No era um cavalheiro exercendo
uma profisso liberal, mas o seu sexo no devia ter importncia. Recortou o anncio e, tomando o metropolitano, dirigiu-se  morada indicada.  Era um velho prdio
quase em runas, ao fundo da Broadway. O  escritrio ficava no dcimo andar e a tabuleta da porta dizia:



 KENNETH BAILEY
 INVEST GAlES DE PRIMEIRA
E por baixo:
 AG NCIA DE C BRANAS ROCKEFELLER

 Jennifer respirou fundo, abriu a porta e entrou. Viu-se no meio de um escritrio pequeno e sem janelas. Havia amontoadas  na sala trs secretrias e cadeiras manchadas,
e duas delas estavam ocupadas.  Sentado a uma das secretrias encontrava-se um homem de meia-idade, calvo e pobremente vestido, que se debruava sobre alguns papis.
Encostado  parede oposta, noutra  secretria, estava um homem com mais de trinta anos. Tinha  cabelo cor de tijolo e olhos de um azul-vivo. O rosto era  plido
e sardento. Vestia uns jeans muito apertados, uma T-shirt e sapatos de lona sem meias. Estava a falar ao telefone.
 - No se preocupe, Mrs. De sser, tenho dois dos meus melhores detectives a trabalhar no seu caso. Por estes dias devemos ter notcias do seu marido. Receio ter
de lhe pedir mais algum dinheiro para as despesas... No, no vale a pena mand-lo pelo correio. Os correios so terrveis. Esta tarde tenho de ir para os seus
lados. Vou a busc-lo. Pousou o auscultador, ergueu os olhos e viu Jennifer.  Ps-se de p, sorriu e estendeu uma mo vigorosa e firme.
 - Sou Kenneth Bailey. Em que posso ser-lhe til?
 Jennifer percorreu com o olhar a sala pequena e abafada e respondeu, pouco segura:
 - Eu... eu vim por causa do anncio.
 - Ah! - Havia nos seus olhos uma expresso de surpresa.
 O tipo careca fitava Jennifer.
 - Este  Otto Wenzel - informou Kenneth Bailey. -  a Agncia de Cobranas Rockefeller.
 Jennifer acenou com a cabea.
 - Ol! - Voltou-se de novo para Kenneth Bailey. - E o senhor  as Investigaes de Primeira?
 -  verdade. Qual  o seu negcio?
 - O meu...? - E depois, compreendendo: - Sou advogada.
 Kenneth Bailey observou-a com ar cptico.
 - E quer montar um escritrio aqui ?
 Jennifer olhou de novo em redor do lgubre escritrio e imaginou-se sentada  secretria desocupada, entre estes dois homens.
 - Talvez v procurar mais um pouco - respondeu. No tenho a  certeza. . .
 - A sua renda seria apenas de noventa dlares mensais.
 - Por noventa dlares mensais, eu podia at comprar todo o prdio - replicou Jennifer. Voltou-se para sair.
 - Eh, espere um minuto.
 Jennifer deteve-se.
 Kenneth Bailey passou a mo pelo queixo plido.
 - Vou fazer um acordo consigo. Sessenta. Quando o seu negcio comear a prosperar, falamos num aumento.
 Era uma proposta vantajosa. Jennifer sabia que, por aquela quantia, no conseguiria nunca arranjar um lugar vago em mais nenhum stio. Por outro lado, no tinha
hiptese de atrair clientes a este lugar infernal. Havia ainda outra  coisa a considerar. No possua os sessenta dlares.
 - Aceito - declarou Jennifer.
 - No vai arrepender-se - prometeu Kenneth Bailey. Quando   que quer trazer as suas coisas?
 - J c esto.
O prprio Kenneth Bailey pintou o letreiro da porta. Dizia o seguinte:

Jennifer Parker
LICenciaDA EM DIREITO

 Jennifer observou o letreiro, possuda de sentimentos  confusos. Nos momentos de maior depresso, nunca lhe ocorrera que havia de ver o seu nome escrito por baixo
dos de um detective particular e de um cobrador de facturas. No entanto, ao olhar para a tabuleta ligeiramente torta, no podia deixar de se sentir orgulhosa. Era
advogada. A tabuleta da porta provava-o.  Agora que Jennifer tinha um escritrio, s lhe faltavam os clientes.  Jennifer j nem sequer tinha dinheiro para ir ao
Steak & Brew. Preparava um pequeno-almoo de torradas e caf na chapa que colocara sobre o aquecedor elctrico da sua  minscula casa de banho. No almoava e ia
jantar ao Chock  Full O'Nuts ou no Zum Zum, onde serviam grandes pedaos de wurst ', fatias de po e salada de batata quente.  Todas as manhs chegava  sua secretria
s nove horas em ponto, mas nada mais tinha para fazer a no ser ouvir Ken Bailey e Otto Wenzel falarem ao telefone.  Os casos de Ken Bailey pareciam consistir,
na maior parte das vezes, em descobrir esposas e crianas desaparecidas, e, ao princpio, Jennifer convencera-se de que ele era um homem  desonesto, fazendo promessas
extravagantes e cobrando  avultados adiantamentos. Mas Jennifer depressa aprendeu que Ken Bailey trabalhava muito e cumpria quase sempre. Era brilhante e esperto.
 Otto Wenzel era um enigma. O seu telefone tocava  constantemente. Levantava o auscultador, murmurava algumas palavras, escrevia qualquer coisa num bocado de papel
e  desaparecia durante horas.
 - Oscar faz recuperaes - explicou um dia Ken Bailey a Jennifer.
 - Recuperaes?
 - Sim. As companhias de cobrana utilizam-no para  recuperarem automveis, aparelhos de televiso, mquinas de lavar. . . e coisas assim. - Olhou para Jennifer
com  curiosidade. - J arranjou alguns clientes?
 -Tenho algumas coisas em perspectiva - respondeu Jennifer num tom evasivo.
 Ele fez um sinal com a cabea.
 - No se deixe abater. Toda a gente comete erros.
 Jennifer sentiu-se corar. Queria dizer que ele sabia a seu respeito.  Ken Bailey estava a desembrulhar uma enorme e grossa sanduche de rosbife.
 -  servida?
 Tinha um aspecto delicioso.
 - No, obrigada - disse Jennifer com firmeza. - Nunca almoo.
 - Okuy.
 Viu-o enterrar os dentes na suculenta sanduche. Ele reparou  na expresso dela e insistiu:
 - Tem a certeza que. . . ?
 - No, obrigada. Eu... eu tenho um encontro.
 Ken Bailey viu Jennifer sair do escritrio e o seu rosto  ficou pensativo. Orgulhava-se da sua habilidade para ler o  carcter das pessoas, mas Jennifer Parker
deixava-o  intrigado. Pelas notcias da televiso e dos jornais, ficara convencido de que algum pagara a esta rapariga para destruir a causa  contra Michael Moretti.
Depois que conhecera Jennifer, Ken j no estava assim to seguro. Fora casado uma vez e sofrera muito,  e agora tinha as mulheres em fraca conta. Mas qualquer
coisa lhe dizia que esta era especial. Era encantadora, brilhante e muito orgulhosa. Jesus!?,, disse para consigo.  No sejas louco! J te chega um assassnio na
conscincia.?,  Emma Lazarus ' era uma idiota sentimental?,, pensou Jennifer.  Entreguem-me as vossas multides cansadas, pobres e  confusas que desejam respirar
livremente. . . Deixai vir a  mim os que no tm lar, os aoitados pelo vento. .?   Realmente, dizia Jennifer para consigo.  Qualquer pessoa que organizasse reunies
de boas-vindas, em Nova Iorque, perderia o negcio em menos de uma hora. Em Nova Iorque, ningum se importa que estejamos vivos ou mortos. Deixa-te de lamentaes!
 Mas era difcil. O seu peclio ficara  reduzido a dezoito dlares, a renda do apartamento estava  atrasada, e a comparticipao na renda do escritrio tinha  dois
dias de atraso. No tinha dinheiro para continuar mais tempo em Nova Iorque, e tambm no possua o suficiente para partir.  Jennifer percorrera as Pginas Amarelas,
telefonando por ordem alfabtica para escritrios de advogados, tentando  arranjar emprego. Fez as chamadas de cabines pblicas porque estava demasiado atrapalhada
para deixar que Ken Bailey e Otto Wenzel ouvissem as suas conversas. Os resultados eram quase sempre os mesmos. Ningum estava interessado em contrat-la. Teria
de regressar a Kelso e arranjar emprego como ajudante de advogado, ou como secretria de um dos amigos do pai. Como ele teria ficado desiludido! Era uma derrota
amarga, mas no havia outra alternativa. Regressaria a casa como uma falhada. O problema imediato a enfrentar era o transporte. Folheou o New York Post da tarde
e  descobriu um anncio em que procuravam algum para partilhar  as despesas de viagem at Settle. Havia um nmero de telefone e Jennifer telefonou para l. No
obteve resposta. Decidiu tentar de novo no dia seguinte.  No dia seguinte, Jennifer foi pela ltima vez ao escritrio. Otto Wenzel encontrava-se ausente, mas Ken
Bailey estava l, ao telefone, como de costume. Vestia blue jeans e uma camisola de caxemira com decote em bico.
 - Descobri a sua mulher - dizia ele. - O nico problema,  amigo,  que ela no quer ir para casa... Eu sei. Quem  que consegue entender as mulheres?. . . Okay.
Vou dizer-Lhe onde  que ela est e o senhor pode tentar murmurar-lhe  palavrinhas doces, a ver se ela volta. - Deu a morada de um hotel do centro da cidade. -
O prazer foi todo meu. -  Desligou e deu meia volta para encarar Jennifer. - Hoje  atrasou-se.
 - Mr. Bailey, eu... eu receio ter de partir. Assim que puder, mando-Lhe o resto do dinheiro que Lhe devo.
 Ken Bailey recostou-se na cadeira e ps-se a observ-la. O seu olhar fez Jennifer sentir-se pouco  vontade.
 - Pode ser? - perguntou ela.
 - De volta a Washington?
 Jennifer fez que sim com a cabea.
 - Antes de se ir embora, poderia prestar-me um pequeno favor? - comeou Ken Bailey. - Um amigo meu, que  advogado, tem andado atrs de mim para lhe distribuir
algumas  intimaes, e eu no tenho tempo para isso. Paga doze cntimos e meio por cada intimao, mais a quilometragem. Quer ajudar-me?
 Uma hora depois, Jennifer Parker encontrava-se nos  sumptuosos escritrios da Peabody & Peabody. Era este o tipo  de firma em que ela sonhara trabalhar um dia
como scia plena e  com um encantador gabinete de canto. Acompanharam-na a  uma pequena sala das traseiras onde uma secretria com ar  preocupado Lhe estendeu um
mao de intimaes.
 - Aqui tem.  melhor registar a quilometragem. Tem carro,  no tem?
 - No, eu receio que...
 - Bom, se for de metropolitano, tome nota das tarifas.
 - Est bem.
 Jennifer passou o resto do dia a distribuir um dilvio de  intimaes em Bronx, Brooklyn e Queens. s oito horas da  noite j tinha feito cinquenta dlares. Regressou
gelada e  exausta ao seu minsculo apartamento. Mas, pelo menos, tinha ganho algum dinheiro, o primeiro desde que chegara a  Nova Iorque. E a secretria dissera-Lhe
que havia muitas mais  intimaes para entregar. Era um trabalho duro, tinha de correr a cidade de ls a ls e, alm disso, era humilhante. Tinham-lhe batido com
portas na cara, tinham-na insultado,  ameaado e recebera duas propostas dbias. A perspectiva de  enfrentar outro dia como aquele era desencorajante; e, no entanto,
enquanto pudesse continuar em Nova Iorque, havia " esperana, por muito leve que fosse.  Jennifer preparou um banho quente e meteu-se l dentro,  afundando-se lentamente
na banheira e sentindo uma sensao de prazer quando a gua lhe envolveu o corpo. No se  dera ainda conta de como estava exausta. Todos os msculos pareciam doer-lhe.
Achou que aquilo de que necessitava era um bom jantar para a fazer sentir mais animada. Ia  fazer uma extravagncia. Vou oferecer-me um verdadeiro restaurante com
toalhas e guardanapos?,, pensou Jennifer.Talvez haja at msica suave e vou beber um copo de vinho branco e. . . "  Os pensamentos de Jennifer foram interrompidos
pelo toque da campainha da porta. Era um som estranho. No tinha recebido uma nica visita desde que se mudara para ali, havia dois meses. S podia ser a antiptica
senhoria por causa da renda em atraso. Jennifer ficou quieta, esperando que ela se fosse embora sentindo-se demasiado fraca para se mexer.  A campainha tocou de
novo. Contrariada, Jennifer saiu da  banheira tpida. Enfiou um roupo de pano turco e  encaminhou-se para a porta.
 - Quem ?
 - Miss Jennifer Parker? - perguntou uma voz masculina do outro lado da porta.
 - Sim.
 - Chamo-me Adam Warner. Sou advogado.
 Intrigada, Jennifer ps a corrente na porta e entreabriu uma nesga. O homem que se encontrava  entrada aparentava trinta  e poucos anos era alto, louro e de ombros
largos, com perscrutadores olhos azul-acinzentados por trs dos culos com uma armao grossa. Vestia um fato feito por medida, que devia ter custado uma fortuna.
 - Posso entrar? - perguntou ele.
 Os ladres no usavam fatos feitos por medida, nem sapatos  Gucci, nem gravatas de seda. Nem tinham mos esguias e sensveis com unhas cuidadosamente tratadas.
 - Um momento.
 Jennifer soltou a corrente e abriu a porta. Quando Adam Warner entrou Jennifer olhou em volta do apartamento com uma s sala, observando-o atravs dos olhos dele,
e estremeceu. Tinha aspecto de ser um homem habituado a coisas melhores.
 - Em que posso ser-lhe til, Mr. Warner?
 Enquanto falava Jennifer soube de sbito por que motivo ele se encontrava ali, e foi tomada por uma rpida sensao  de entusiasmo. Era por causa de um dos empregos
a que se  candidatara! Desejou estar vestida com um lindo e elegante  roupo azul-escuro, que o seu cabelo estivesse penteado, que...
 - Sou membro da Comisso Disciplinar da Associao do Foro de Nova Iorque, Miss Parker - declarou Adam Warner.
- O Procurador Distrital Robert Di Silva e o Juiz Lawrence Waldman requereram  Diviso de Apelao que desse incio ao seu processo de excluso da Ordem dos Advogados.
 Os escritrios de Needham, Finch, Pierce e Warner ficavam  situados em Wall Street, nmero trinta, e ocupavam todo o piso superior do edifcio. Havia cento e vinte
e cinco  advogados na firma. Os gabinetes eram luxuosos e tinham  aquela elegncia sbria prpria de uma organizao que representava alguns dos maiores nomes da
indstria.  Adam Warner e Stewart Needham estavam a tomar o seu ntual ch da manh. Stewart Needham, que andava pelos seus sessenta anos, era um homem activo e
bem disposto. Tinha uma barba  Vandyke, cuidadosamente tratada, e vestia um fato de tweed com colete. Parecia pertencer a uma era mais antiga mas, como centenas
de antagonistas seus tinham aprendido, com grande desgosto, ao longo dos anos, a  mentalidade de Stewart Needham estava inteiramente enquadrada  no sculo vinte.
Era um tit, mas o seu nome s era conheci  do em crculos muito reduzidos. Preferia manter-se afastado e  utilizar a sua considervel influncia para atacar os
efeitos da  legislao, os altos compromissos governamentais e a
poltica  nacional. Nascera na Nova Inglaterra e fora sempre taciturno.  Adam Warner era casado com Mary Beth, sobrinha de  Needham, e era o protegido dele. O pai
de Adam fora um  senador respeitado. O prprio Adam era um advogado  brilhante. Quando obteve o diploma magna eum laude 1, da  Faculdade de Direito de Harvard,
recebeu propostas de firmas ? jurdicas de prestgio de todo o pas. Escolheu Needham,  Finch e Pierce e, sete anos mais tarde, tornou-se scio. Adam  era fisicamente
atraente e fascinante, e a sua inteligncia parecia acrescentar-lhe uma dimenso suplementar. Possua uma  confiana em si prprio que as mulheres achavam provocante.
 Adam desenvolvera havia muito tempo um sistema para  dissuadir as clientes femininas excessivamente apaixonadas.  Estava casado h catorze anos com Mary Beth e
no aprovava  os casos extraconjugais.
 - Mais ch, Adam? - ofereceu Stewart Needham.
 - No, obrigado. - Adam Warner detestava ch mas,  de h oito anos para c, bebia-o todas as manhs s porque  no queria ferir a susceptibilidade do seu scio.
Era uma infuso preparada pelo prprio Needham e tinha um sabor horrvel.  Stewart Needham tinha duas coisas em mente e, como de costume, comeou pela notcia agradvel:
 - Ontem  noite reuni-me com alguns amigos - disse  Needham. Alguns amigos significava um grupo das mais  importantes personalidades do pas. - Esto a pensar
pedir-te  que te candidates a senador dos Estados Unidos, Adam.  Adam foi invadido por uma sensao de jbilo. Conhecendo a  natureza reservada de Stewart Needham,
Adam tinha a  certeza de que a conversa fora mais do que casual, ou ento  Needham no teria tocado no assunto.
 - A questo,  claro,  saber se ests interessado. Isso  significaria uma grande mudana na tua vida.
 Adam Warner tinha conscincia disso. Se vencesse a eleio,  teria de mudar-se para Washington, D.C., abandonar a  advocacia, iniciar uma vida completamente nova.
Tinha a certeza de que isso agradaria a Mary Beth; no que lhe dizia respeito Adam j no estava to seguro. E, no entanto, fora habituado a assumir as responsabilidades.
Tinha tambm de admitir que sentia um certo prazer no poder.
 - Estou muito interessado, Stewart.
 Stewart Needham acenou com a cabea, satisfeito.
 - ptimo. Eles vo ficar contentes. - Serviu-se de outra chvena da horrvel beberagem e, como por acaso, tocou no outro assunto que tinha em mente. - H um pequeno
trabalho  que a Comisso Disciplinar da Associao do Foro gostaria que  executasses, Adam. No deve levar mais do que uma ou duas horas.
 - O que ?
 -  o julgamento de Michael Moretti. Aparentemente, algum se aproximou de uma das jovens ajudantes de Di Silva e  a subornou.
 - Li qualquer coisa a esse respeito. O canrio.
 -Exacto. O Juiz Waldman e Bobby gostariam que o nome dela fosse riscado da lista da nossa honrada profisso.
Eu tambm. Cheira que tresanda.
 - O que querem eles que eu faa?
 - Que faas uma ligeira investigao, que verifiques se essa tal Parker se comportou ilegal ou imoralmente e que, em seguida, recomendes o processo de excluso
da Ordem dos Advogados. Ser notificada para apresentar a sua defesa e eles trataro do resto.  pura rotina.  Havia algo que intrigava Adam.
 - Porqu eu, Stewart? Temos aqui dzias de jovens advogados  que podiam ocupar-se disto.
 - O nosso respeitvel Procurador Distrital perguntou  especificamente por ti. Quer ter a certeza de que nada vai  falhar. Como ambos sabemos - acrescentou em tom
seco -, Bobby no  o homem mais misericordioso do mundo. Quer ver a pele dessa tal Parker pregada na parede.  Adam Warner continuou sentado, pensando na sua agenda
ocupada.
 - Nunca se sabe quando se poder precisar de um favor do Procurador Distrital, Adam. Quidpro quo 1.  apenas  rotina.
 - Muito bem, Stewart. - E Adam ps-se de p.
 - Tens a certeza de que no queres mais ch?
 - No, obrigado. Estava bom, como sempre.
 Quando Adam regressou ao seu gabinete, tocou a campainha  para chamar uma das suas ajudantes paralegais, Lucinda, uma inteligente e jovem negra.
 - Cindy, obtenha-me todas as informaes que puder sobre uma  advogada chamada Jennifer Parker.
 - O canrio amarelo - respondeu ela, com um sorriso.
 Toda a gente sabia.  Ao fim daquela tarde, Adam Warner estava a estudar a acta da aco legal no caso do Povo de Nova Iorque contra Michael  Moretti. Robert Di
Silva recebera-a das mos de um mensageiro especial. J passava muito da meia-noite quando Adam terminou. Pedira a Mary Beth que comparecesse sem ele a um jantar
e mandara que Lhe trouxessem sanduches. Quando  Adam acabou de ler a acta, no Lhe restavam dvidas que Michael Moretti teria sido considerado culpado pelo jri,
se  o destino no tivesse intervindo na pessoa de Jennifer Parker. Di Silva tinha conduzido o processo sem uma nica falha.  Adam voltou-se para a acta do depoimento
prestado mais tarde no gabinete do Juiz Waldman.
DI SILVA: Tem um curso superior?
PARKER: Sim, senhor.
DI SILvA: E possui o diploma da Faculdade de Direito ?
Parker: Sim, senhor.
DI SILVA: E um desconhecido entrega-Lhe um embrulho,  diz-Lhe que o leve a uma testemunha chave num julgamento de  homicdio, e a senhora f-lo, sem mais  nem menos?
No acha que isso ultrapassa os limites  da estupidez ?
Parker: No foi assim que as coisas se passaram.
DI SILVA: A senhora  que o disse.
PARKER: O que eu queria dizer  que no me passou pela  cabea que se tratasse de um desconhecido. Pensei  que pertencesse  sua equipa.
DI SILVA: O que  que a levou a pensar isso?
Parker: J Lhe disse. Vi-o falar consigo, em seguida  encaminhou-se para mim com este sobrescrito,  chamou-me pelo meu nome e disse-me que o senhor  queria que
eu o entregasse  testemunha. Passou-se  tudo to depressa que. . .
DI SILVA: No creio que se tivesse passado assim to  depressa. Acho que levou tempo a planear. Levou  tempo a arranjar algum que u subornasse para o  entregar.
Parker: No  verdade. Eu. . .
DI SILVA: O que  que no  verdade? Que a senhora no sabia que estava a entregar o sobrescrito?
Parker: Eu no sabia o que se encontrava l dentro.
DI SILVA: Ento  verdade que algum Lhe pagou.
Parker: No vou deixar que o senhor distora o sentido  das minhas palavras. Ningum me pagou nada.
DI SILVA: F-lo como se se tratasse de um favor?
Parker: No. Pensei estar a seguir as suas instrues.
DI SILVA: Disse que o homem a chamou pelo seu nome.
Parker: Sim.
DI SILVA: Como  que ele sabia o seu nome?
Parker: No sei.
DI Silva: Deixe-se disso. Deve ter qualquer ideia. Talvez  tivesse adivinhado. Talvez tivesse olhado em redor  da sala de audincias e dito:.?Est ali algum com
 ar de se chamar Jennifer Parker. " Acha que foi as sim ?
PARKER:J lhe disse. No sei.
DI sILvA: H quanto tempo  amante de Michel Moretti ?
PARKER: Mr. Di Silva, j recapitulmos tudo. Est a interrogar-me h cinco horas. Estou cansada. Nada  mais tenho a acrescentar. Posso retirar-me?
DI sIlvA: Se sair dessa cadeira, mando-a prender. Encontra-se  em muito maus lenis, Miss Parker. S  h uma maneira de sair disto. Deixe-se de mentiras  e trate
de dizer a verdade.
PARKER: Eu disse-Lhe a verdade. Contei-Lhe tudo o que sabia.
DI SILVA: Excepto o nome do indivduo que lhe entregou  o sobrescrito. Quero o nome dele e quero saber  quanto Lhe pagou.
A acta tinha ainda mais trinta pginas. Robert Di Silva  fizera tudo para confundir Jennifer Parker. Todavia, ela  insistia na sua verso dos factos.  Adam fechou
a acta e esfregou os olhos, fatigado. Eram duas horas da madrugada.  Amanh comearia a tratar do caso Jennifer Parker.  Para surpresa de Adam Warner, o caso Jennifer
Parker no ia ser resolvido to facilmente. Como homem metdico que era, Adam procedeu a uma investigao sobre o passado de Jennifer Parker. Tanto quanto pde
determinar, no estava implicada em crimes e nada tinha que a ligasse a Michael Moretti.  Havia algo acerca do caso que perturbava Adam. A defesa de Jennifer Parker
era demasiado inconsistente. Se estivesse  a trabalhar para Moretti, ele t-la-ia protegido com uma histria razoavelmente plausvel. Do modo como as coisas se
 apresentavam, a sua histria era de uma infantilidade to transparente que chegava a possuir um toque de verdade. Ao meio-dia, Adam recebeu um telefonema do Procurador
Distrital.
 - Como vo as coisas, Adam?
 - Bem, Robert.
 - Compreendo que est a fazer um papel de refinado patife no  caso Jennifer Parker.
 Adam Warner pestanejou ao ouvir aquela frase.
 - Sim, concordei em fazer uma recomendao.
 - Vou afast-la durante muito tempo. - Adam ficou surpreendido com o dio que transparecia na voz do Procurador Distrital.
 - Calma, Robert. Ela ainda no foi excluda da Ordem dos Advogados.
 Di Silva emitiu um risinho sarcstico.
 - Encarrego-o disso, meu amigo. - O tom da sua voz modificou-se. - Ouvi uns rumores a respeito da sua prxima ida para Washington. Quero que saiba que pode contar
com todo o meu apoio.
 Que era considervel, como Adam sabia. O Procurador Distrital andava no mundo h muito tempo. Sabia como  que se faziam as coisas e sabia tambm como aproveitar
ao mximo
aquela informao.
 - Obrigado, Robert. Fico-lhe muito grato.
 - O prazer  todo meu, Adam. Espero as suas notcias.
 Referia-se a Jennifer Parker. O quid pro quo que Stewart Needham mencionara e em que a rapariga servia de joguete. Adam Warner pensou nas palavras de Robert Di
Silva: Vou afast-la durante muito tempo." Pela leitura da acta, Adam ficara convencido de que no existia qualquer prova material contra Jennifer Parker. A no
ser que ela confessasse ou que
aparecesse algum com uma informao que provasse  cumplicidade criminosa Di Silva no poderia tocar na  rapariga. Ele contava com Adam para o vingar.  As palavras
frias e rspidas da acta eram incisivas mas, apesar disso, Adam desejava ter podido ouvir o tom da voz de Jennifer Parker quando ela negara a sua culpa.  Havia
casos urgentes reclamando a ateno de Adam, casos importantes que envolviam clientes de nomeada. Teria sido fcil ir para a frente e executar as ordens de Stewart
 Needham, do Juiz Lawrence Waldman e de Robert Di Silva, mas o instinto de Adam Warner fazia-o hesitar. Pegou de novo na ficha de Jennifer Parker, rabiscou umas
notas e comeou a fazer algumas chamadas interurbanas.  Adam tomara uma responsabilidade e tencionava cumpri-la o melhor que pudesse. Estava por de mais familiarizado
com as longas e fatigantes horas de estudo e com o trabalho rduo que era necessrio para se ser advogado e para se passar no exame de admisso ao foro. Era um
prmio que levava anos a alcanar e no se sentia disposto a privar ningum dele, a
no ser que tivesse a certeza de que havia uma justificao para tal.  Na manh seguinte, Adam Warner encontrava-se a bordo de um avio para Seattle, Washington.
Teve encontros com os professores de Direito de Jennifer Parker, com o chefe de uma firma jurdica onde ela trabalhara como escrevente  durante dois veres, e com
alguns dos antigos condiscpulos  de Jennifer.  Stewart Needham telefonou a Adam, para Seattle.
 - O que ests a a fazer, Adam? Tens aqui muito trabalho  tua espera. Esse caso Parker devia ter sido mais rpido.
 - Surgiram alguns problemas - respondeu Adam, cauteloso.  - Regresso dentro de um ou dois dias, Stewart.  Houve uma pausa.
 - Compreendo. No percamos com ela mais tempo do que o necessrio.
 Quando Adam Warner saiu de Seattle, tinha a sensao de conhecer Jennifer Parker quase to bem como ela se conhecia a si prpria. Construra uma imagem dela no
seu esprito, um bilhete de identidade mental, a partir das peas fornecidas pelos seus professores de Direito, pela senhoria, por membros da firma jurdica onde
trabalhara como escrevente, e pelos condiscpulos. A imagem que Adam construra no se  assemelhava em nada  imagem que Robert Di Silva lhe dera. A no ser que
Jennifer Parker fosse a mais consumada actriz de todos os tempos, no havia possibilidade de se ter envolvido numa tramia para libertar um homem como Michael Moretti.
 Agora, decorridas quase duas semanas sobre aquela conversa  matinal com Stewart Needham, Adam Warner encontrava-se  perante a rapariga cujo passado andara a investigar.
Adam tinha visto fotografias de Jennifer nos jornais, mas  estas no o tinham preparado para o impacto que ela causava em pessoa. Mesmo vestida com um velho roupo,
sem pintura, e  com o cabelo castanho-escuro molhado, ela era de fazer cortar a respirao.
 - Fui designado para investigar o seu papel no julgamento de Michael Moretti, Miss Parker - disse Adam.
 - Ah, foi? - Jennifer sentiu-se invadir pela ira. Comeou como uma fasca e tornou-se numa chama que explodiu no seu ntimo. Ainda no tinham desistido. Iam faz-la
pagar para o resto da vida. Estava a comear a ficar farta.  Quando Jennifer falou, a sua voz tremia.
 - No tenho nada para Lhe contar! V-se embora e diga-lhes o  que lhe apetecer. Fiz uma coisa estpida mas, que eu saiba, no existe nenhuma lei contra a estupidez.
O  Procurador Distrital est convencido de que algum me  subornou. Fez um gesto desdenhoso com a mo. - Se eu tivesse  dinheiro, acha que estaria a viver num stio
destes? - A sua  voz comeava a ficar sufocada. - Eu. . . eu estou-me nas tintas para o que tencionam fazer. S quero que me deixem em paz. V-se embora, por favor!
 Jennifer deu meia volta e refugiou-se na casa de banho, fechando a porta com violncia.  Ficou encostada ao lavatrio, respirando fundo e limpando as lgrimas
dos olhos. Reconhecia que se comportara de um modo estpido.  a segunda vez?,, pensou, desgostosa. Devia  ter tratado Adam Warner de outra maneira. Devia ter tentado
 explicar, em vez de o atacar. Talvez, nesse caso, no fosse excluda da Ordem dos Advogados. Mas sabia que isso no passava de um sonho. O facto de mandarem algum
 interrog-la era uma farsa. O prximo passo seria entregarem-lhe uma notificao para apresentar a sua defesa, e o maquinismo formal seria posto em movimento.
Haveria uma comisso de inqurito formada por trs advogados que fariam a sua  recomendao ao Conselho Disciplinar que, por sua vez,  apresentaria o seu relatrio
ao Conselho de Administrao. A  recomendao era bvia: excluso da Ordem dos Advogados.  Ficaria proibida de exercer advocacia no estado de Nova  Iorque. Jennifer
pensou, amargurada: isto tem um lado bom. Posso constar do Guinness Book of Records com a mais curta carreira de Direito da histria.?,  Meteu-se de novo no banho
e recostou-se, deixando que a  gua ainda morna a envolvesse aliviando-lhe a tenso. Neste momento, sentia-se demasiado cansada para se importar com o que pudesse
vir a acontecer. Fechou os olhos e deixou voar a pensamento. Estava meio adormecida quando o frio da gua a despertou. No fazia a mnima ideia de quanto tempo
 estivera na banheira. Contrariada, saiu e comeou a secar-se  com uma toalha. J no sentia fome. A cena com Adam Warner
tinha-lhe tirado o apetite.  Jennifer penteou o cabelo, ps creme na cara, e resolveu ir para a cama sem jantar. De manh telefonaria por causa da viagem para Seattle.
Abriu a porta da casa de banho e entrou na sala de estar.  Adam Warner estava sentado numa cadeira, folheando uma revista. Ergueu o olhar quando Jennifer entrou
nua na sala.
 - Desculpe - disse Adam. - Eu. . .
 Jennifer deu um pequeno grito assustada e correu para a casa de banho, onde vestiu o roupo. Quando regressou para enfrentar outra vez Adam, Jennifer estava furiosa.
 - O interrogatrio acabou. Pedi-lhe que se retirasse.
 Adam pousou a revista e disse, muito sereno:
 - Miss Parker, acha que podemos discutir isto calmamente por  uns momentos?
 - No! - A raiva anterior apossava-se novamente de Jennifer. - Nada mais tenho para lhe dizer, nem ao seu  maldito conselho disciplinar. Estou farta de ser tratada
 como. . como se fosse uma espcie de criminosa!
 - Eu chamei-Lhe criminosa? - perguntou Adam em tom brando.
 - O senhor. . . no  para isso que est aqui?
 - J lhe disse por que motivo estou aqui. Fui encarregado de investigar e recomendar ou no o processo de excluso da Ordem dos Advogados. Quero ouvir a sua verso
da histria.
 - Compreendo. E como  que posso suborn-lo?
 O rosto de Adam endureceu.
 - Lamento, Miss Parker. - Ps-se de p e comeou a dirigir-se para a porta.
 - Espere um minuto! - Adam voltou-se. - Perdoe-me - disse ela. - Eu... Todos me parecem inimigos. Peo-lhe que me desculpe.
 - Aceito as suas desculpas.
 De sbito, Jennifer deu conta do roupo ligeiro que tinha vestido.
 - Se continua a querer fazer-me perguntas, vou vestir-me e depois podemos conversar.
- De acordo. J jantou?
 Ela hesitou.
 -Eu...
 - Conheo um restaurantezinho francs que  ideal para interrogatrios.
 Era um local sossegado e agradvel, na Avenida Cinqenta e Seis, no East Side.
 - Este lugar no  conhecido de muita gente - explicou Adam Warner quando se sentaram. - Pertence a um jovem casal francs que trabalhava em Les Pyrnes. A comida
 excelente.
 Jennifer tinha de acreditar na palavra de Adam. Sentia-se incapaz de apreciar o que quer que fosse. No comera durante todo o dia, mas estava to nervosa que no
conseguia que a comida lhe passasse pela garganta. Tentou acalmar-se, mas era impossvel. Por muito que ele fingisse, Jennifer no  podia esquecer que o homem fascinante
que se encontrava  sua frente era o inimigo. E Jennifer tinha de admitir que ele era fascinante. Era divertido e atraente e, noutras circunstncias, Jennifer teria
apreciado muito a noite; mas estas no eram outras circunstncias. Todo o seu futuro estava nas mos  deste desconhecido. As prximas duas horas iam decidir que
rumo tomaria o resto da sua vida.  Adam fazia os possveis para tentar acalm-la. Regressara havia pouco de uma viagem ao Japo, onde se tinha encontrado  com funcionrios
superiores do governo. Tinham oferecido um  banquete especial em sua honra.
 - J alguma vez comeu formigas cobertas de chocolate?
- perguntou Adam.
 - No.
 Ele sorriu.
 - So melhores do que os gafanhotos cobertos de chocolate.
 Falou sobre uma caada que fizera no ano anterior, no Alaska, em que tinha sido atacado por um urso. Falou em tudo menos naquilo pelo qual ali se encontravam.
 Jennifer tinha estado a couraar-se para o momento em que Adam comeasse a interrog-la, mas quando ele finalmente tocou no assunto, todo o seu corpo ficou rgido.
 Tinha terminado a sobremesa quando ele anunciou, em tom calmo:
 - Vou fazer-lhe algumas perguntas, mas no quero que fique preocupada. Okay ?
 Jennifer sentiu um n sbito na garganta. No tinha a  certeza de conseguir falar. Acenou com a cabea.
 - Quero que me diga exactamente o que se passou naquele dia,  na sala de audincias. Tudo aquilo de que se recordar, tudo o que sentiu. Leve o tempo que quiser.
 Jennifer tinha-se preparado para o desafiar, para lhe dizer que fizesse o que lhe apetecesse. Mas agora, sentada em  frente de Adam Warner, escutando a sua voz
calma, a
Resistncia de Jennifer desaparecera. Toda a experincia estava ainda to viva no seu esprito que, s de pensar nela, se sentia  sofrer.
Passara mais de um ms a tentar esquecer. E agora ele pedia-lhe que repetisse tudo de novo.  Respirou fundo, trmula e respondeu:
 - Muito bem.
 Vacilante, Jennifer comeou a repetir o que se passara na sala do tribunal, mas, a pouco e pouco, o tom da sua voz tornou-se mais rpido,  medida que ia revivendo
tudo. Adam escutava-a calmamente, observando-a em silncio.  Quando Jennifer terminou, Adam perguntou-lhe:
 - O homem que lhe deu o sobrescrito. . . encontrava-se  no gabinete do Procurador Distrital na manh em que prestou juramento?
 - J pensei nisso. Para ser sincera, no me lembro. Havia muita gente no gabinete, naquele dia, e eram todos  desconhecidos.
 - J tinha visto o homem em algum lado?
 Jennifer abanou a cabea, desamparada.
 - No consigo recordar-me. Acho que no.
 - Disse que o viu falar com o Procurador Distrital, pouco antes de se ter dirigido a si para lhe dar o sobrescrito. Viu o Procurador Distrital entregar-lhe alguma
coisa?
 - Eu. . . no.
 - Viu mesmo esse indivduo falar com o Procurador Distrital,  ou estava apenas no meio do grupo que o rodeava?
 Jennifer fechou os olhos durante uns segundos, tentando recordar aquele momento.
 - Lamento. A confuso era to grande. Eu. . . eu no sei.
 - Faz alguma ideia de como  que ele ter podido descobrir o  seu nome?
 - No.
- Ou por que motivo a escolheu?
 - Isso  fcil. Talvez fosse capaz de reconhecer uma idiota  primeira vista. - Abanou a cabea. - No. Lamento, Mr. Warner, mas no fao a mnima ideia.
 - Tem havido muitas presses. O Procurador Distrital Di ; Silva andou muito tempo atrs de Michael Moretti. At voc aparecer, este caso foi incontestvel. O P.D.
no est nada satisfeito consigo.
 - Eu tambm no estou nada satisfeita comigo. - Jennifer no  podia censurar Adam Warner pelo que estava prestes a fazer. Estava apenas a cumprir a sua misso.
Tinham feito tudo para a apanharem e haviam-no conseguido. Adam Warner no  era responsvel; era apenas um simples instrumento.
Jennifer sentiu uma sbita e opressiva necessidade de ficar sozinha. No queria que mais ningum presenciasse a sua desgraa.
 - Desculpe - pediu ela. - Eu... eu no estou a sentir-me  muito bem. Gostaria de ir para casa, por favor.
 Adam observou-a durante uns momentos.
 - Acha que ficaria melhor se eu lhe dissesse que vou  recomendar que o seu processo de excluso da Ordem dos  Advogados seja arquivado?
 Levou alguns segundos para que as palavras de Adam fossem  entendidas. Jennifer olhou para ele, sem conseguir falar, perscrutando-lhe o rosto, contemplando aqueles
olhos azul-acinzentados por trs dos culos de armao grossa.
 - Est. . . est a falar a srio?
 -  muito importante para si ser advogada, no ? - inquiriu  Adam.
 Jennifer pensou no pai e no seu confortvel escritoriozinho, nas conversas que costumavam ter, nos longos anos passados na Faculdade de Direito, e nas suas esperanas
e sonhos. Vamos ser scios. Tira depressa esse curso de Direito.,?
 - Sim - murmurou Jennifer.
 - Se conseguir vencer um comeo difcil, tenho a impresso de que ser uma excelente advogada.  Jennifer esboou um sorriso de gratido.
 - Obrigada. Vou tentar.
 Repetiu muitas vezes aquelas palavras para si prpria. Vou tentar." No importava que compartilhasse um escritrio  pequeno e sombrio com um maltrapilho detective
particular e  com um homem que recuperava carros. Era um escritrio  jurdico. Ela era membro da profisso legal e iam deix-la exercer Direito. Sentia-se exultar.
Olhou para Adam e soube que iria ficar eternamente grata a este homem.  O empregado comeara a retirar os pratos da mesa. Jennifer  tentou falar, mas o que saiu
foi algo entre o riso e um soluo.
 - Mr. Warner. . .
 - Depois de tudo o que passmos juntos, parece-me que devia chamar-me Adam - disse ele, em tom grave.
 - Adam. . .
 - Sim?
 - Espero no estragar o nosso relacionamento mas murmurou  Jennifer -, estou a morrer de fome!
As semanas que se seguiram passaram a correr. Jennifer viu-se ocupada desde manh cedo at altas horas da noite, distribuindo citaes - ordens do tribunal para
se comparecer  a fim de se responder numa aco legal - e intimaes - ordens do tribunal para se comparecer como testemunha. Ela sabia que no tinha a menor hiptese
de entrar para uma grande firma jurdica visto que, depois do escndalo em que estivera envolvida, no passava pela cabea de ningum  contrat-la. Restava-lhe
apenas descobrir uma maneira de  arranjar certa reputao, de comear tudo de novo.  Entretanto, havia na sua secretria o monte de citaes e intimaes da Peabody
& Peabody. Embora isso no significasse  exactamente exercer advocacia, sempre eram doze cntimos e  meio, mais as despesas.  Por vezes, quando J?nifer trabalhava
at mais tarde, Ken  Bailey convidava-a para jantar. Tinha uma aparncia cnica, mas Jennifer sentia que isso no passava de uma fachada. Tinha o pressentimento
de que era um solitrio. Graduara-se pela Universidade de Brown, era esperto e lia muito. No conseguia imaginar por que motivo ele se sentia satisfeito em passar
a sua vida trabalhando num escritrio lgubre,  tentando localizar maridos e mulheres extraviados. Era como  se se tivesse resignado a ser um falhado e receasse
tentar a sua sorte.  Uma vez em que Jennifer se referiu ao seu casamento, ele resmungou.
 - Isso no lhe diz respeito.
 Jennifer nunca mais tocou no assunto.  Otto Wenzel era completamente diferente. Aquele homem  baixinho e barrigudo vivia um casamento feliz. Considerava Jennifer
como uma filha e levava-lhe constantemente sopas e bolos feitos pela mulher. Infelizmente, a mulher era uma  pssima cozinheira, mas Jennifer esforava-se por comer
tudo  o que Otto Wenzel trazia, pois no queria ferir-lhe a  sensibilidade. Numa sexta-feira  noite, Jennifer foi  convidada para jantar em casa dos Wenzel. Mrs.
Wenzel tinha feito couve estufada, que era a sua especialidade. A couve estava mal cozida, a carne do recheio era dura e o arroz estava meio  cru. Todo o prato
nadava num lago de gordura de frango. Jennifer atacou-o corajosamente, engolindo bocados muito pequenos e espalhando a comida em volta do prato, para dar ideia
de que estava a comer.  - Gosta? - inquiriu Mrs. Wenzel com um sorriso.  - ...  um dos meus pratos favoritos.  Dali em diante, Jennifer passou a jantar todas
as sextas-feiras em casa dos Wenzel, e Mrs. Wenzel preparava  sempre o prato favorito de Jennifer.  Uma manh, Jennifer recebeu um telefonema da secretria particular
de Mr. Peabody, Jr.
 - Mr. Peabody gostaria de v-la hoje de manh, s onze horas. Seja pontual, por favor.
 - Sim, minha senhora.
 At essa altura, Jennifer s tinha contactado com  secretrias e amanuenses da empresa Peabody. Era uma firma  grande e prestigiosa, uma daquelas para as quais
os jovens  advogados sonhavam ser convidados a ingressar. Enquanto se dirigia para o encontro, Jennifer ps-se a fantasiar. Se o prprio Mr. Peabody queria v-la,
tinha de ser por causa de
Algo importante. Talvez se tivesse feito luz no seu esprito e fosse oferecer-lhe um lugar de advogada na empresa, dar-lhe uma oportunidade de mostrar o que valia.
Ela ia surpreend-los a todos. Talvez um dia a empresa viesse a chamar-se Peabody, Peabody & Parker.  Jennifer esperou trinta minutos no corredor, fora do escritrio
e, s onze horas em ponto, entrou na recepo. No  queria parecer demasiado ansiosa. Fizeram-na aguardar duas horas e, finalmente, foi introduzida no gabinete
de Mr. Peabody, Jr. Era um homem alto e magro que usava um fato completo e sapatos mandados fazer de encomenda em Londres.  No a convidou a sentar-se.
 - Miss Potter. . . - O tom da sua voz era alto e  desagradvel.
- Parker.
 Pegou numa folha de papel que se encontrava em cima da secretria.
 - Isto  uma intimao. Gostava que a entregasse.
 Naquele momento, Jennifer sentiu que no ia tornar-se membro da firma.  Mr. Peabody, Jr., estendeu a intimao a Jennifer e declarou  :
 - A sua gratificao ser de quinhentos dlares.
 Jennifer estava certa de que o compreendera mal.
 - Disse quinhentos dlares?
 - Exactamente. Isto se for bem sucedida,  claro.
 - H qualquer problema - conjecturou Jennifer.
 - H, sim - admitiu Mr. Peabody, Jr. - H mais de um ano que andamos a tentar intimar este indivduo. Chama-se William Carlisle. Vive numa propriedade, em Long
Island, e nunca sai de casa. Para ser sincero, j uma dzia de pessoas tentaram intim-lo. Tem um mordomo que lhe serve de guarda-costas e que afasta toda a gente.
 - No estou a ver como  que eu. . . - comeou Jennifer.
 Mr. Peabody, Jr., inclinou-se para a frente.
 - Est aqui em jogo muito dinheiro. Mas no posso levar William Carlisle ao tribunal, a no ser que o consiga  intimar, Miss Potter. - Jennifer no se deu ao trabalho
de o corrigir.
- Acha que consegue tratar disto?
 Jennifer pensou no que poderia fazer com os quinhentos dlares.
 - Hei-de descobrir uma maneira.
 s duas horas daquela mesma tarde, Jennifer encontrava-se em frente da imponente quinta de William Carlisle. A casa era jorgiana e erguia-se no meio de dez acres
de belos  terrenos cuidadosamente tratados. Um caminho particular  conduzia  fachada da casa, que era ladeada por abetos  graciosos. Jennifer pensara muito no
problema. Uma vez que era  impossvel entrar na casa, a nica soluo era arranjar  maneira de fazer sair Mr. William Carlisle.  A meio do caminho estava um carro
de jardim. Jennifer observou o carro durante uns momentos e, em seguida,  encaminhou-se para ele,  procura dos jardineiros. Encontrou trs a trabalhar, e todos
eles japoneses.
 Jennifer dirigiu-se aos homens.
 - Quem  o encarregado?
 Um deles endireitou-se.
 - Sou eu.
 - Tenho um trabalhinho para os senhores. . . - comeou Jennifer.
 - Lamento, Miss. Muito ocupados.
 - So s cinco minutos.
 - No. Impossvel.
 - Pago-lhes cem dlares.
 Os trs homens interromperam o trabalho e olharam para ela.
 - Paga-nos cem dlares por cinco minutos de trabalho?
perguntou o jardineiro-chefe.
 - Isso mesmo.
 - O que temos de fazer. . .?
 Cinco minutos mais tarde, o carro de jardim deteve-se  entrada da residncia de William Carlisle e Jennifer e os  trs jardineiros apearam-se. Jennifer olhou
em redor, escolheu uma bela rvore junto da porta principal e ordenou-lhe:
 - Arranquem-na.
 Eles tiraram as ps do carro e comearam a cavar. Ainda no tinha decorrido um minuto quando a porta principal se abriu repentinamente e um homem enorme, fardado
de mordomo,  saiu vociferando.
 - Que diabo esto vocs a fazer?
 - Viveiro de Long Island - disse Jennifer em tom resoluto. -  Vamos arrancar todas estas rvores.
 -  impossvel! Mr. Carlisle teria um ataque! - Voltou-se  para os jardineiros. - Parem com isso!
 - Olhe, senhor - disse Jennifer. - Estou apenas a cumprir a  minha misso. - Olhou para os jardineiros: - Continuem a cavar, amigos!
 - No! - gritou o mordomo. - Digo-lhes que houve um engano! Mr. Carlisle no mandou arrancar rvores nenhumas.
 Jennifer encolheu os ombros e replicou:
 - O meu chefe disse-me que sim.
 - Onde  que posso entrar em contacto com o seu chefe?
 Jennifer consultou o relgio.
 - Saiu para Brooklyn em servio. Deve regressar ao  escritrio por volta das seis horas.
 O mordomo fitou-a, furioso.
 - Um minuto! No faam nada at eu voltar!
- Continuem a cavar - ordenou Jennifer aos jardineiros.
 O mordomo voltou as costas e entrou rapidamente em casa, atirando com a porta. Momentos depois, a porta abriu-se e o mordomo regressou, acompanhado por um homenzinho
de meia-idade.
 - Importa-se de me dizer que diabo se passa aqui?
 - O que tem o senhor com isso? - inquiriu Jennifer.
 - J lhe digo o que  que eu tenho com isso - vociferou ele. - Sou William Carlisle e acontece que esta propriedade  minha.
 - Nesse caso, Mr. Carlisle - atalhou Jennifer -, tenho uma coisa para si. - Meteu a mo ao bolso e estendeu-lhe a intimao. Depois voltou-se para os jardineiros:
- J podem parar de cavar.
 No dia seguinte, de manh cedo, Adam Warner telefonou. Jennifer reconheceu-lhe logo a voz.
 - Pensei que gostaria de saber - disse Adam - que o processo de expulso da Ordem dos Advogados foi oficialmente  arquivado. Escusa de continuar preocupada.  Jennifer
fechou os olhos e proferiu uma aco de graas, silenciosa.
 - Eu. . . eu no sei exprimir-lhe a minha gratido pelo que o senhor fez.
 - A justia nem sempre  cega.
 Adam no se referiu  cena que tivera com Stewart Needham e  com Robert Di Silva. Needham ficara desapontado, mas encarara o facto com serenidade.  O Procurador
Distrital continuara como um touro furioso.
 - Deixou que aquela puta se safasse? Jesus Cristo, ela pertence  Mafia, Adam! No percebeu isso? Ela est a engan-lo !
 E continuou a falar at Adam ficar farto.
 - Toda a evidncia contra ela era circunstancial, Robert.
Ela estava no lugar errado na altura errada, e foi apanhada numa ratoeira. Isso, para mim, no significa que pertena  Mafia.  Por fim, Robert Di Silva acabara
por declarar:
 - Okay, ela continua sendo advogada. S peo a Deus que exera em Nova Iorque pois, no minuto em que ela puser o p nas minhas salas de audincia, liquido-a.
Agora, ao falar com Jennifer, Adam no contou nada disto. Jennifer arranjara um inimigo de morte, mas no havia nada a fazer. Robert Di Silva era um homem vingativo
e Jennifer era um alvo vulnervel. Era inteligente, idealista, dolorosamente jovem e sedutora.  Adam sabia que no devia voltar a v-la.  Havia dias, semanas e
meses em que Jennifer tinha vontade de desistir. A tabuleta da porta continuava a anunciar Jennifer Parker, Licenciada em Direito, mas isso no enganava ningum,
 e muito menos Jennifer. No estava a exercer advocacia:  passava os dias  chuva, ao granizo e  neve, entregando citaes e intimaes a pessoas que a odiavam
por isso mesmo.  Uma vez por outra aceitava uma causa pro bono 1, ajudando os  velhos a arranjar cartes de racionamento, resolvendo  diversos problemas jurdicos
dos negros e porto-riquenhos do ghetto e de outras pessoas desprivilegiadas. Mas sentia-se presa numa ratoeira.  As noites eram ainda piores do que os dias. Pareciam
no ter fim, pois Jennifer sofria de insnias, e os seus sonhos eram povoados de demnios. Tudo comeara na noite em que a me abandonara Jennifer e o pai, e ela
no tinha sido capaz de esconjurar aquilo que lhe causava os pesadelos.  A solido oprimia-a. Por vezes saa com jovens advogados mas, como era inevitvel, Jennifer
dava consigo a compar-los  com Adam Warner, e todos eles ficavam muito aqum. Jantavam, iam ao cinema ou ao teatro e depois travava-se uma luta  porta de casa
dela. Jennifer nunca tinha a certeza se esperavam que fosse com eles para a cama porque a tinham levado a jantar, ou porque tinham sido obrigados a subir e a descer
quatro ngremes lanos de escadas. Havia alturas em que se sentia seriamente tentada a dizer Sim, apenas para ter algum com ela durante a noite, algum a quem
abraar, algum  a quem se entregar. Mas necessitava de ter na sua cama mais do que um corpo ardente que falasse; necessitava de algum que se preocupasse com ela,
algum com quem ela se pudesse preocupar.  Os homens mais interessantes que faziam propostas a Jennifer  eram todos casados, e ela recusava-se redondamente a sair
com qualquer deles. Recordava uma frase do admirvel filme de Billy Wilder, O Apartamento: Quando se ama um homem casado, no se deve usar rmel.?, A me de Jennifer
destrura um casamento, matara o pai de Jennifer. No poderia  nunca esquec-lo.  Chegou o Natal e a vspera de Ano Novo, e Jennifer passou-os  sozinha. Tinha cado
um forte nevo e a cidade parecia um gigantesco carto de boas-festas. Jennifer percorreu as ruas, vendo os transeuntes dirigirem-se apressados para o  calor dos
lares e das famlias, e sentia-se invadida por uma  dolorosa sensao de vazio. O pai fazia-lhe uma falta  terrvel. Ficou satisfeita quando as frias acabaram.
O ano de mil novecentos e setenta vai ser melhor", disse Jennifer para com os seus botes.  Nos dias em que Jennifer se sentia pior, Ken Bailey  procurava anim-la.
Levava-a ao Madison Square Garden para  ver jogar os Rangers, a uma discoteca e, uma vez por outra, ao teatro ou ao cinema. Jennifer sabia que ele se sentia atrado
por ela mas, no entanto, continuava a manter uma barreira entre eles.  Em Maro, Otto Wenzel decidiu mudar-se para a Florida com a mulher.
 - Os meus ossos esto a ficar demasiado velhos para estes Invernos de Nova Iorque - explicou ele a Jennifer.
 - Vou sentir a sua falta. - E Jennifer era sincera ao diz-lo. Tinha-se-lhe afeioado muito.
 - Tome conta de Ken.
 Jennifer olhou-o com uma expresso zombeteira.
 - Ele nunca lhe contou, pois no?
 - No me contou o qu?
 Ele hesitou, e por fim respondeu:
 - A mulher suicidou-se. Ele sente-se culpado.
 Jennifer ficou abalada.
 - Que horror! Por. . . por que motivo  que ela fez isso?
 - Apanhou Ken na cama com um jovem loiro.
 - Oh, meu Deus !
 - Deu um tiro em Ken e depois voltou a arma contra si prpria. Ele sobreviveu. Ela no.
 - Que horror! No fazia a mnima ideia que. . . que. . .
 - Eu sei. Ele sorri bastante, mas a sua vida  um inferno.
 - Obrigada por mo ter dito.
Quando Jennifer regressou ao escritrio, Ken comentou
- Com que ento o velho Otto vai deixar-nos.
- Pois vai.
Ken Bailey sorriu.
- Parece-me que vamos ficar sozinhos no mundo.
- Parece que sim.
E de certo modo?, , pensou Jennifer,  verdade.
 Agora Jennifer via Ken com outros olhos. Almoavam e jantavam juntos, e Jennifer no conseguia detectar nele quaisquer sinais de homossexualidade, mas Jennifer
sabia que Otto Wenzel lhe dissera a verdade: Ken Bailey trazia consigo o seu inferno particular.  Comeavam a aparecer alguns clientes. De um modo geral vinham
pobremente vestidos, desnorteados e, por vezes, apresentavam-lhe casos completamente loucos.  Prostitutas vinham pedir a Jennifer que lhes tratasse da cauo, e
Jennifer surpreendia-se com o facto de algumas delas serem muito jovens e bonitas. Elas tornaram-se numa pequena mas contnua fonte de rendimento. No conseguia
descobrir quem  que as mandava ter com ela. Quando falou nisso a Ken Bailey, este encolheu os ombros num gesto de ignorncia e foi-se embora.  Sempre que um cliente
vinha consultar Jennifer, Ken Bailey  saa discretamente. Era como um pai orgulhoso que encorajava  Jennifer a progredir.  Ofereceram a Jennifer diversos casos
de divrcio e ela  recusou-os. No podia esquecer-se do que um dos seus  professores de Direito dissera um dia: O divrcio , para a prtica do Direito, o mesmo
que a proctologia  para a prtica da Medicina." A maior parte dos advogados que se encarregam de casos de divrcio tm m reputao. A mxima era que  se um casal
via vermelho, os advogados viam verde. Um advogado  de divrcios altamente cotado era conhecido por bombardeiro,  pois servia-se de violentos explosivos legais
para ganhar a causa do cliente e, durante o processo, destrua com frequncia o marido, a mulher e os filhos.  Alguns dos clientes que iam ao escritrio de Jennifer
eram diferentes, o que a deixava intrigada.  Andavam bem vestidos, tinham um ar influente e os casos que lhe apresentavam no eram os casos insignificantes que
Jennifer se habituara a tratar. Havia doaes de propriedades que montavam a considerveis importncias em dinheiro, processos legais que qualquer outra firma se
sentiria  encantada em representar.
 - Quem lhe falou de mim? - informava-se Jennifer.
 As respostas que obtinha eram sempre evasivas. Foi um amigo. . . Li a seu respeito. . . mencionaram o seu nome numa festa... S quando um dos clientes, ao explicar
os seus  problemas, se referiu a Adam Warner,  que se fez luz no  esprito de Jennifer.
 - Mr. Warner mandou-o ter comigo, no foi?
 O cliente ficou embaraado.
 - Bem, para dizer a verdade, ele sugeriu que talvez fosse prefervel eu no mencionar o nome dele.
 Jennifer resolveu telefonar a Adam. Afinal de contas, devia-lhe muito. la ser educada, mas formal. Naturalmente no ia deix-lo ficar com a impresso que estava
a telefonar-Lhe por outro motivo que no fosse manifestar-lhe o seu  reconhecimento. Ensaiou repetidas vezes a conversa, em  pensamento. Quando, finalmente, Jennifer
arranjou coragem para telefonar,  uma secretria informou-a de que Mr. Warner se encontrava na  Europa e que no devia regressar seno dali a algumas  semanas.
Foi um anticlmax que deixou Jennifer desanimada.  Deu consigo a pensar em Adam Warner cada vez mais  frequentemente. Continuava a recordar a noite em que ele
viera ao seu apartamento e o modo terrvel como ela se tinha  comportado. Ele fora maravilhoso em tolerar a sua atitude infantil quando descarregara sobre ele a
sua raiva. Agora, para alm de tudo o que tinha feito por ela, estava a mandar-lhe  clientes.  Jennifer aguardou trs semanas e depois telefonou de novo
a Adam. Desta vez encontrava-se na Amrica do Sul.
 - Quer deixar algum recado? - perguntou a secretria.
 Jennifer hesitou.
 - No.
 Jennifer tentou afastar Adam do pensamento, mas foi-lhe impossvel. Perguntava a si prpria se seria casado ou  comprometido. Interrogava-se o que seria ser Mrs.
Adam  Warner. Perguntava a si prpria se estaria louca.  De vez em quando Jennifer encontrava o nome de Michael Moretti nos jornais ou nas revistas semanais. Sara
um  extenso artigo na revista New York sobre Antonio Granelli e  as famlias da Mafia da zona oriental. Dizia-se que a sade de Antonio Granelli era precria e
que o genro, Michael Moretti, estava a preparar-se para tomar conta do imprio. A revista Life publicou um artigo acerca do modo de vida de Michael Moretti e, para
terminar, fazia referncia ao julgamento de Moretti. Camillo Stela estava a cumprir uma pena de priso em Leavenworth, enquanto Michael Moretti se encontrava em
liberdade. Recordava aos leitores o modo como Jennifer Parker  destrura o caso que o teria condenado  priso ou  cadeira elctrica. Quando Jennifer leu o artigo,
o seu  estmago revoltou-se. A cadeira elctrica? Teria sentido um prazer enorme em accionar ela prpria o interruptor.  A maior parte dos clientes de Jennifer
no eram importantes,  mas aprendia muito com eles.  medida que os meses passavam, Jennifer comeou a conhecer todas as salas do  Edifcio do Tribunal Criminal,
em Centre Street, nmero cem, assim como as pessoas que as habitavam.  Quando um dos seus clientes era preso por roubo em lojas, por estrangulamento, prostituio
ou droga, Jennifer dirigia- se ao centro da cidade para tratar da cauo, e o regateio era um modo de vida.
 - A cauo  de quinhentos dlares.
 - Vossa Honra, o ru no possui esse dinheiro. Se o tribunal  reduzir a cauo para duzentos dlares, ele poder regressar  ao trabalho e continuar a sustentar
a famlia.
 - Muito bem. Duzentos.
 - Obrigada, Vossa Honra.
 Jennifer conheceu o superintendente da sala de acusaes para onde eram mandadas cpias dos mandatos de captura.
 - Outra vez, Parker! Pelo amor de Deus, voc nunca dorme?
 - Ol, Tenente. Um cliente meu foi apanhado numa rusga.
Posso ver a lista de detenes? Chama-se Connery. Clarence  Connery.
 - Diga-me uma coisa, querida. Porque  que vem aqui s trs da manh para defender um vadio?
 Jennifer sorriu.
 - Mantm-me afastada da rua.
 Familiarizou-se com o tribunal nocturno, que tinha lugar na Sala Duzentos e Dezoito do tribunal de Centre Street. Era um mundo duvidoso e apinhado de gente, com
o seu prprio calo  secreto. A princpio, Jennifer sentia-se desconcertada com ele.
 - Parker, o seu cliente foi condenado por aairpatn.
 - O meu cliente foi condenado por qu?
 - Aairpatn. Assalto nocturno, com Arrombamento, Introduo,  Residncia, Pessoa, Armado, Tentativa de homicdio,  Noite. Entendeu?
 - Entendi.
- Encontro-me aqui em representao de Miss Luna Tarner.
 - Jesus Cristo!
 - Pode dizer-me quais so as acusaes?
 - Espere. Vou procurar a ficha. Luna Tarner. Esta  das violentas... aqui est. Prosti. Apanhada pela CWAC, l em baixo.
 - Quack?
 - Voc  nova aqui, no ? CWAC  a brigada City-Wide
Anti-Crime. Uma prosti  uma puta, e l em baixo  o sul da Avenida Quarenta e Dois. Topou?
 - Topei.
 O tribunal nocturno deprimia Jennifer. Enchia-se de uma mar humana que entrava e saa sem cessar, atirada para as margens da justia.  Todas as noites eram ouvidos
mais de cento e cinqenta casos. Havia prostitutas, travesti, bbados malcheirosos e gastos, e viciados pela droga. Havia porto-riquenhos,  mexicanos, judeus, irlandeses,
gregos e italianos, acusados  de violao, furto, posse de armas ou droga, assalto ou prostituio. Todos eles tinham uma coisa em comum: eram  pobres. Eram pobres,
frustrados e vencidos. Era a escria, os  inadaptados que a sociedade opulenta ignorava. Grande parte  deles vinha de Central Harlem e, porque j no havia lugar
no  sistema prisional, todos eles,  excepo dos delinquentes  mais perigosos, eram mandados embora ou multados. Voltavam
para casa, em St. Nicholas Avenue, em Morningside e nas avenidas de Manhattan onde, em trs milhas quadradas e meia, viviam duzentos e trinta e trs mil negros,
oito mil porto-riquenhos e cerca de um milho de ratazanas.  A maior parte dos clientes que iam ao escritrio de Jennifer eram pessoas que tinham sido esmagadas
pela pobreza, pelo sistema, por elas prprias. Eram pessoas que j h muito se tinham resignado. Jennifer achava que os receios deles faziam aumentar a sua prpria
autoconfiana. No se sentia superior a eles. Tinha a certeza de que no podia considerar-se um extraordinrio exemplo de sucesso mas, apesar disso,  verificava
que existia uma grande diferena entre ela e os  seus clientes: nunca iria desistir.  Ken Bailey apresentou Jennifer ao Padre Francis Joseph Ryan. O Padre Ryan
tinha quase sessenta anos e era um homem  alegre e cheio de vida, com cabelo grisalho encaracolado que  lhe tapava as orelhas. Tinha o ar de quem necessitava permanentemente
de um corte de cabelo. Jennifer simpatizou logo com ele.  Uma vez por outra, quando um dos seus paroquianos  desaparecia, o Padre Ryan vinha ter com Ken e pedia-lhe
os  seus servios. Ken encontrava invariavelmente o marido, mulher, filha ou filho errantes. Nunca chegava a apresentar a conta.
 -  para desconto dos meus pecados - explicava Ken.
 Numa tarde em que Jennifer se encontrava sozinha, o Padre Ryan entrou inesperadamente no escritrio.
 - Ken no est, Padre Ryan. J no vem hoje.
 - Na verdade, era a si que eu queria ver, Jennifer - disse o Padre Ryan. Sentou-se na desconfortvel cadeira de madeira  em frente  secretria de Jennifer. -
Um amigo meu est
com um pequeno problema.
 Era assim que ele comeava sempre as conversas com Ken.
 - Sim, Padre?
 -  uma antiga paroquiana, e a pobre coitada est com dificuldade em receber o dinheiro da Segurana Social. Mudou-se para os meus stios h alguns meses e um
maldito computador perdeu todas as fichas dela, com os diabos!
 - Estou a compreender.
 - Era isso que eu esperava - disse o Padre Ryan, pondo-se de  p. - Receio que ela no tenha dinheiro para lhe pagar.
 Jennifer sorriu.
 - No se preocupe com isso. Vou tentar resolver as coisas.
 Tinha pensado que seria um assunto simples, mas levou-lhe quase trs dias a conseguir que o computador fosse programado  de novo.  Uma manh, decorrido um ms,
o Padre Ryan entrou no  escritrio de Jennifer e disse:
 . - Lamento incomod-la, minha querida, mas tenho um  amigo que est com um pequeno problema. Receio que ele  no tenha. . . Hesitou.  . . . dinheiro - adivinhou
Jennifer.
 - Ah!  isso! Exactamente. Mas o desgraado necessita  imenso de ajuda.
; - Muito bem. Fale-me dele.
 - Chama-se Abraham Wilson.  filho de um dos meus  paroquianos. Abraham est em Sing Sing t condenado a priso  perptua, por ter assassinado o proprietrio de
uma loja  de bebidas alcolicas durante um assalto  mo armada.
 - Se ele foi considerado culpado e se est a cumprir a sua  pena, no vejo como  que eu possa ajudar, Padre.
 O Padre Ryan olhou para Jennifer e suspirou.
 - O problema no  esse.
 - No?
 - No. H algumas semanas, Abraham matou outro homem - um  preso chamado Ryamond Thorpe. Vo julg-lo  por assassnio e pedir a pena de morte.  Jennifer tinha
lido qualquer coisa acerca do caso.
 - Se bem me lembro, matou o homem  pancada.
 -  isso que dizem.
 Jennifer pegou num bloco de apontamentos e numa caneta.
 - Sabe se houve testemunhas?
 - Receio que sim.
 - Quantas?
 - Oh, mais ou menos cem. Passou-se no ptio da cadeia,  sabe?
 -  terrvel. O que quer que eu faa?
 - Que ajude Abraham - respondeu o Padre Ryan com  simplicidade.
 Jennifer pousou a caneta.
 - Padre, s o seu Chefe poder ajud-lo. - Recostou-se  na cadeira. - Ele tem trs coisas contra ele.  negro,  um assassino declarado e matou outro homem perante
cem  testemunhas. Partindo do princpio de que o fez, no existem  fundamentos para a defesa. Se outro preso estivesse a amea-lo, havia guardas a quem ele poderia
ter pedido auxlio. Em vez disso, praticou a justia pelas suas prprias mos. No  existe no mundo nenhum jri que no o tivesse condenado.
 - Mas, no entanto, ele  ainda um ser humano. No poderia  falar com ele?
 Jennifer suspirou.
 - Falo com ele, se  isso que quer, mas no prometo nada.
 O Padre Ryan fez um gesto de assentimento.
 - Compreendo. Isso talvez significasse demasiada  publicidade.
 Estavam ambos a pensar no mesmo. Abraham Wilson no era o nico a ter coisas contra ele.  A priso de Sing Sing fica situada na cidade de Ossining, trinta milhas
para o interior de Manhattan, na margem  oriental do rio Hudson, por cima de Tappan Zee e de  Harverstraw
Bay.  Jennifer dirigiu-se para l de autocarro. Tinha telefonado ao subdirector e ele providenciara para que ela pudesse ver Abraham Wilson, que era mantido em
priso celular.   Durante a viagem de autocarro, Jennifer foi invadida por um sentimento de determinao que h muito no sentia. Ia a caminho de Sing Sing para
se encontrar com um possvel cliente acusado de homicdio. Este era o tipo de caso para o qual tinha estudado, para o qual se preparara. Sentia-se  advogada pela
primeira vez desde h um ano, mas reconhecia
Que estava a ser idealista. No ia encontrar-se com um cliente.  Ia dizer a um homem que no podia represent-lo. No lhe  convinha envolver-se num caso a que tinham
dado uma vasta publicidade, e que ela no tinha possibilidade de ganhar.  Abraham Wilson teria de descobrir outra pessoa que o  defendesse.  Um taxi a cair de velho
levou Jennifer da paragem do  autocarro at  penitenciria, situada em setenta acres de  terreno perto do rio. Jennifer tocou  campainha da entrada lateral e
um guarda abriu a porta, conferiu o nome dela pelo da sua lista e conduziu-a ao gabinete do subdirector. O subdirector era um homem corpulento e forte, com um antiquado
corte de cabelo  militar e tinha o rosto marcado pela acne. Chamava-se Howard Patterson.
 - Gostaria que me dissesse tudo o que sabe a respeito de Abraham Wilson - comeou Jennifer.
 - Se anda  procura de auxlio, no  aqui que o vai  encontrar. - Patterson deu uma olhadela para o dossier que tinha  sua frente, em cima da secretria. - Wilson
tem  passado a vida a entrar e a sair da cadeia. Aos onze anos foi apanhado a roubar automveis, aos treze foi preso por  estrangulamento, aos quinze foi preso
por violao, aos  dezoito tornou-se proxeneta, cumpriu uma pena por ter mandado uma das suas pequenas para o hospital. . . - Folheou o dossier.
Resumindo: punhaladas, assaltos  mo armada e, por fim, o mximo - assassnio.
 Era um relato deprimente.
 - H alguma probabilidade de Abraham Wilson no ter assassinado Raymond Thorpe? - perguntou Jennifer.
 - No pense nisso. - Wilson  o primeiro a confess-lo e, mesmo que o negasse, no faria a mnima diferena. Temos  cento e vinte testemunhas.
 - Posso falar com Mr. Wilson?
 Howard Patterson ps-se de p.
 -  claro, mas acho que est a perder tempo.
 Abraham Wilson era o ser humano mais repelente que Jennifer  tinha visto em toda a sua vida. Era negro como o carvo, o  nariz tinha sido partido em vrios stios,
faltavam-lhe os dentes da frente e possua uns olhos matreiros no rosto marcado por cicatrizes de facadas. Tinha cerca de um metro e noventa de altura e possua
uma constituio vigorosa. Tinha enormes ps chatos que o obrigavam a arrastar-se pesadamente.  Se Jennifer procurasse uma palavra para descrever Abraham  Wilson,
teria sido ameaador. Imaginava a impresso
que este homem causaria num jri.  Abraham Wilson e Jennifer Parker estavam sentados numa sala de visitas rigorosamente protegida, separados por uma grossa rede
de arame e com um guarda especado  porta. Wilson acabara de ser trazido da priso celular e a claridade obrigava-o a piscar os olhos grandes e redondos. Se Jennifer
tinha vindo a este encontro com a sensao de que  provavelmente no iria ocupar-se deste caso, agora, depois de  ter visto Abraham Wilson, adquirira a certeza
absoluta. Apenas se  sentou em frente dele, sentiu o dio que emanava daquele  homem.  Jennifer iniciou a conversa.
 -Chamo-me Jennifer Parker. Sou advogada. O Padre Ryan pediu-me que viesse falar consigo.
 Abraham Wilson cuspiu atravs da rede, salpicando Jennifer  de saliva.
 - O filho da puta desse benfeitor.
 " um ptimo comeo,?, pensou Jennifer. Teve o cuidado de no limpar a saliva do rosto.
 - H alguma coisa que Lhe faa falta aqui, Mr. Wilson?
 Ele brindou-a com um sorriso desdentado.
 - Um cu, minha linda. Prcebeu?
 Ela ignorou aquelas palavras.
 - Quer contar-me o que se passou?
 - Eh, se quer saber a histria da minha vida, tem de me pagar por ela. Vou vend-la p'r cinema. Se calhar at sou eu a representar.
 A ira que brotava dele era assustadora. Jennifer ansiava por sair dali. O subdirector tivera razo. Estava a perder tempo.
 - Receio no poder fazer nada para o ajudar, a no ser que o senhor me ajude a mim, Mr. Wilson. Prometi ao Padre Ryan que, pelo menos, viria falar consigo.
 Abraham Wilson fez novamente um sorriso desdentado.
 -  muito simptica, meu amor. Tem a certeza que no vai mudar de ideias acerca daquele cu?
 Jennifer ps-se de p. J estava farta.
 - Odeia toda a gente?
 - Olhe, boneca, meta-se na minha pele, eu meto-me na sua e depois falemos de dio.
 Jennifer continuava de p, olhando para aquele repulsivo rosto negro, tentando digerir o que ele dissera e por fim  sentou-se devagar.
 - Quer contar-me a sua verso da histria, Abraham?
 Ele fitou-a nos olhos, sem dizer nada. Jennifer ficou   espera, observando-o, tentando imaginar o que seria possuir aquele rosto negro coberto de cicatrizes.
Pensou em quantas
cicatrizes estariam ocultas na alma daquele homem.  Ficaram ambos calados durante muito tempo. Por fim, Abraham Wilson declarou:
 - Matei o filho da puta.
- Por que motivo o matou?
 Ele encolheu os ombros.
 - O maricas vinha para mim com um enorme facalho, e...  - No tente enganar-me. Os presos no andam por a com facalhes.
 O rosto de Wilson endureceu.
 - Ponha-se a cavar, senhora. No a mandei c vir. Ps-se de  p. - E no volte a chatear-me, 't a ouvir? Tenho mais que fazer.
 Voltou-lhe as costas e dirigiu-se para o guarda. Um momento  depois, tinham desaparecido. E pronto. Jennifer podia, pelo menos, dizer ao Padre Ryan que tinha falado
com o homem. Nada mais podia fazer.  Um guarda conduziu Jennifer para fora do edifcio. Enquanto  atravessava o ptio em direco ao porto principal, ia pensando
em Abraham Wilson e na impresso que ele lhe causara. O homem desagradava-lhe e, por esse motivo, estava a fazer uma coisa que no tinha o direito de fazer: estava
a julg-lo. Declarara-o j culpado, embora ele no tivesse  ainda sido julgado. Talvez algum o tivesse atacado, no com uma faca,  claro, mas com uma pedra ou
um tijolo. Jennifer  deteve-se e ficou ali, indecisa. O seu instinto dizia-lhe que regressasse a Manhattan e esquecesse Abraham Wilson.  Jennifer deu meia volta
e encaminhou-se de novo para o gabinete do subdirector.
 - Ele  um caso difcil - explicou Howard Patterson. Sempre  que podemos, tentamos a reabilitao em vez do castigo, mas  Abraham Wilson foi longe de mais. A nica
coisa capaz de o acalmar ser a cadeira elctrica.  Que lgica mais estranha", pensou Jennifer.
 - Ele contou-me que o homem que matou o atacara com um facalho.
 - Acredito que seja possvel.
 A resposta surpreendeu-a.
 - O que quer dizer com esse seja possvel"? Est a dizer que um dos condenados poderia ter-se apoderado de uma faca? De uma faca de talho?
 Howard Patterson encolheu os ombros.
 - Miss Parker, temos aqui mil duzentos e quarenta  condenados, e alguns deles tm muito engenho. Venha comigo. Vou mostrar-lhe uma coisa.
 Patterson conduziu Jennifer atravs de um extenso corredor e deteve-se em frente de uma porta fechada  chave. Escolheu uma chave de um enorme chaveiro, abriu
a porta e acendeu a luz. Jennifer entrou atrs dele num compartimento pequeno e despido, com prateleiras embutidas na parede.
 -  aqui que guardamos a caixa de surpresas dos  prisioneiros. - Encaminhou-se para uma enorme caixa e  levantou a tampa.
 Jennifer olhou para o interior da caixa, sem poder acreditar no que via.
 Ergueu os olhos para Howard Patterson e declarou:
 - Quero falar outra vez com o meu cliente.
 Jennifer preparou-se para o julgamento de Abraham Wilson como nunca o fizera para qualquer outra coisa em toda a sua vida. Passou horas interminveis na biblioteca
de Direito a consultar processos e defesas, e com o seu cliente, tentando obter dele todos os fragmentos de informao que podia. No foi uma tarefa fcil. Wilson
mostrou-se agressivo e  sarcstico desde o princpio.
 - Quer saber coisas a meu respeito, amor? Dei a minha primeira foda aos dez anos. Que idade tinha voc?
 Jennifer esforou-se por ignorar o seu dio e o seu  desprezo, pois estava convencida de que encobriam um profundo receio. E assim Jennifer persistiu, procurando
saber como tinha sido a vida de Wilson at a, como eram os pais dele, o que tinha transformado o rapaz num homem. Ao cabo de algumas  semanas, a relutncia de
Abraham Wilson deu lugar ao interesse e, por fim, o interesse deu lugar  fascinao. At quele momento, nunca tivera motivos para pensar nele prprio  em termos
de que espcie de pessoa era, ou porqu.  As perguntas estimulantes de Jennifer comearam a despertar  recordaes, algumas apenas desagradveis, outras  insuportavelmente
dolorosas. Diversas vezes, durante as  sesses, quando Jennifer interrogava Abraham Wilson a respeito do pai, que Lhe tinha dado frequentes tareias brutais, Wilson
 pedia a Jennifer que o deixasse sozinho. Ela ia-se embora,  mas voltava sempre.  Se at ali Jennifer tivera pouca vida privada, agora no  tinha nenhuma. Quando
no estava com Abraham Wilson, encontrava-se no escritrio, sete dias por semana, desde  manh cedo at muito depois da meia-noite, lendo tudo o Que conseguia descobrir
sobre os crimes de assassnio e de  homicdio, voluntrio e involuntrio. Estudou centenas de  decises do tribunal de apelao, depoimentos, declaraes sob  juramento,
testemunhos, moes e actas. Debruou-se sobre  processos de inteno e premeditao, autodefesa, risco duplo  e loucura temporria.  Estudou maneiras de conseguir
que a acusao fosse reduzida  a homicdio involuntrio.  Abraham no planeara matar o homem. Mas iria um jri acreditar nisso? Especialmente um jri local. Os
habitantes
Da cidade detestavam ter os prisioneiros no meio deles. Jennifer pediu uma mudana de jurisdio o que lhe foi concedido. O julgamento iria ter lugar em Manhattan.
 Jennifer tinha uma deciso importante a tomar: iria deixar que Abraham Wilson testemunhasse? O aspecto dele era  repugnante mas, se os jurados pudessem ouvi-lo
contar a sua verso da histria, talvez sentissem alguma compaixo por ele. O problema era que o facto de pr Abraham Wilson no estrado iria levar a acusao a
revelar o passado e o  cadastro de Wilson, incluindo o assassnio anterior que ele cometera.  Jennifer perguntava a si prprio qual dos ajudantes de  procurador
distrital  que Di Silva iria designar para seu  opositor. Havia meia dzia deles muito bons que se ocupavam  de julgamentos de homicdio, e Jennifer familiarizou-se
com as suas tcnicas.  Passou o mximo de tempo possvel em Sing Sing, examinando o  local do crime, no ptio do recreio, falando com guardas e com Abraham, e entrevistou
dzias de presos que tinham presenciado o assassnio.
 - Raymond Thorpe atacou Abraham Wilson com uma faca - dizia Jennifer. - Uma enorme faca de talho. Debe  -la visto.
 - Eu? No vi faca nenhuma.
 -  claro que viu. O senhor encontrava-se aqui.
 - Minha senhora, eu no vi nada.
 Nenhum deles queria envolver-se.
Por vezes Jennifer arranjava tempo para tomar uma refeio  normal, mas geralmente engolia uma sanduche rpida no r situado no rs-do-cho do Palcio da Justia.
Estava a comear a perder peso e tinha vertigens. Ken Bailey estava a ficar preocupado com ela. Levou-a ao ?rlini, em frente ao Palcio da Justia, e encomendou
para um almoo substancial.
- Anda a tentar matar-se? - perguntou ele.
-  claro que no.- Tem-se visto ultimamente ao espelho?
- No.
Ele observou-a e disse:
- Se voc tivesse um bocadinho de juzo, desistia deste caso.
 - Porqu?
 - Porque voc est a colocar-se numa situao difcil. Dizem-se coisas por a, Jennifer. A imprensa anda louca,  esto ansiosos por recomear a atac-la.
 - Sou advogada - declarou Jennifer com obstinao. Abraham  Wilson tem direito a um julgamento imparcial. Vou tentar que assim seja. - Reparou na expresso ansiosa
de Ken Bailey. - No se preocupe. O caso no vai ter assim tanta publicidade.
 - Ah, no? Sabe quem  a acusao?
 - No.
 - Robert Di Silva.
 Jennifer chegou  entrada do Edifcio do Tribunal Criminal,  por Leonard Street, e abriu caminho por entre as pessoas que se agitavam no trio, por entre os polcias
fardados, os detectives vestidos como hippies, os advogados que se  identificavam pelas pastas que traziam na mo. Jennifer  passou pelo grande balco circular
das informaes, onde nunca  existira nenhum funcionrio e tomou o elevador para o sexto  andar. Ia falar com o Procurador Distrital. Passarara-se  quase um ano
desde o seu ltimo encontro com Robert Di Silva, e Jennifer no se sentia entusiasmada com este. la inform-lo de que desistia da defesa.  Jennifer levara trs
noites em claro para tomar a sua  deciso. Por fim chegou  concluso de que, em primeiro  lugar, estavam os interesses do seu cliente. O caso Wilson no era assim
to importante para que Di Silva se encarregasse dele. O nico motivo, portanto, pelo qual o Procurador Distrital  lhe concedia a sua ateno pessoal, era o facto
de Jennifer estar metida nele. Di Silva queria vingar-se. Tencionava dar uma lio a Jennifer. Por isso ela acabara por concluir que no tinha outra alternativa
seno renunciar  defesa de Wilson. No podia deixar que o executassem por causa de um erro que ela cometera um dia. Com ela afastada do caso, Robert Di Silva iria
provavelmente tratar Wilson com mais indulgncia. Jennifer ia salvar a vida de Abraham Wilson. Teve a estranha sensao de reviver o passado quando saiu , sexto
andar e se encaminhou para a porta j sua conhecida
com a indicao Procurador Distrital, Comarca de Nova Iorque. L dentro, o mesmo secretrio estava sentado  mesa  mesa.
- Sou Jennifer Parker. Tenho uma audincia com...
- Pode entrar - respondeu o secretrio. - O Procurador distrital est  sua espera.
Robert Di Silva encontrava-se de p, por trs da secretria, mascando um charuto hmido enquanto dava ordens a dois ajudantes. Calou-se quando Jennifer entrou.
- Estava convencido de que no ia aparecer.
- Estou aqui.
- Pensei que j tinha fugido e abandonado a cidade. O que pretende?
Havia duas cadeiras em frente da secretria de Robert Di Silva, mas ele no convidou Jennifer a sentar-se.
- Vim aqui para falar do meu cliente, Abraham Wilson.
Robert Di Silva sentou-se, reclinou-se na cadeira e fingiu
- Abraham Wilson... ah, sim.  aquele assassino negro ?e matou um homem  pancada, na priso. No devia dar-se trabalho de o defender. - Olhou para os seus dois
ajudantes e  eles abandonaram a sala.
- Ento, advogada?
- Gostaria de fazer um apelo.
Robert Di Silva contemplou-a com um ar de surpresa exagerada. Quer dizer que veio aqui tentar um acordo? A senhora surpreende-me. Estava convencido de que uma pessoa
com o u enorme talento legal conseguiria livr-lo sem dificuldades maior.
- Mr. Di Silva, sei que isto parece um caso extremamente simples - comeou Jennifer -, mas h circunstncias  atenuantes. Abraham Wilson foi. . .
O Procurador Distrital, interrompeu-a.
- Deixe-me pr isto em linguagem legal, para que a senhora  possa compreender, advogada. Pode pegar nas suas  circunstncias atenuantes e met-las no cu! - Ps-se
de p, e ando voltou a falar a voz tremia-lhe de raiva. - Fazer um acordo consigo, minha senhora? A senhora lixou-me a vida! H um cadver e o seu tipo vai pagar
por isso. Est a ouvir? Vou fazer tudo para que ele seja mandado para a cadeira.
 - Vim aqui para me demitir do caso. O senhor podia reduzir  isto a uma acusao de homicdio involuntrio. Wilson : j foi condenado a priso perptua. O senhor
podia...
 - No pense nisso! Ele  acusado de assassnio puro e simples !
 Jennifer tentou dominar a sua fria.
 - Pensei que o jri  que ia decidir isso.
 Robert Di Silva sorriu sem alegria.
 - No calcula como me sensibiliza ver uma especialista como a senhora entrar no meu gabinete para me ensinar a lei.
 - No poderamos esquecer os nossos problemas pessoais? Eu.
. . - No enquanto eu for vivo. D cumprimentos meus ao seu amigo Michael Moretti.
 Meia hora mais tarde Jennifer tomava caf com Ken Bailey.  - No sei o que hei-de fazer - confessou Jennifer. - Pensei  que, se me afastasse do caso, Abraham Wilson
teria mais hipteses. Mas Di Silva no quis chegar a um acordo. No anda atrs de Wilson, anda atrs de mim.  Ken Bailey observou-a com ar pensativo.
 - Talvez ele esteja a tentar psicanalis-la. Quer assust-la.
 - E estou assustada. - Bebeu um gole de caf. Estava amargo. -  um caso difcil. Voc devia ver Abraham Wilson.  Bastar ao jri olhar para ele para votar a condenao.
 - Quando  o julgamento?
 - Daqui a quatro semanas.
 - Posso ajud-la em alguma coisa?
 - Pode, sim. Livre-me de Di Silva.
 - Acha que tem alguma possibilidade de obter uma absolvio  para Wilson?
 - Vendo as coisas pelo lado pessimista, estou a tentar a minha primeira causa contra o Procurador Distrital mais  esperto do pas, que se quer vingar de mim, e
o meu cliente  um negro assassino declarado, que cometeu um novo homicdio  perante cento e vinte testemunhas.
 - Horrvel. Qual  o lado optimista?
 - Eu ser atropelada esta tarde por um camio.
 Agora j s faltavam trs semanas para o julgamento.  Jennifer conseguira que Abraham Wilson fosse transferido para  a priso de Riker's Island. Foi posto na Casa
de Recluso para Homens, a maior e mais antiga cadeia da ilha. Noventa e cinco por cento dos seus companheiros de priso encontravam-se ali aguardando o julgamento
por felonias: homicdio, fogo posto, violao, assalto  mo armada e sodomia.  Os carros particulares no estavam autorizados a entrar na ilha, e Jennifer foi
transportada por um pequeno autocarro verde at ao edifcio de controlo, em tijolo cinzento, onde mostrou a sua identificao. Numa guarita verde,  esquerda do
edifcio, encontravam-se dois guardas armados, e, por trs d?la, situava-se um porto onde todos os visitantes no  autorizados eram obrigados a parar. Depois do
edifcio de  controlo, Jennifer foi conduzida ao longo de Hazen Street, a  pequena estrada que atravessava os terrenos da priso, at ao Edifcio Central Anna M.
Kross, onde Abraham Wilson foi  levado ? presena dela, na sala de consultas, com os seus oito  cubculos reservados para os encontros advogado/cliente.  Enquanto
percorria o corredor para se ir encontrar com Abraham Wilson, Jennifer ia pensando: Isto deve parecer-se com a sala de espera do Inferno." Ouvia-se uma cacofonia
incrvel. A priso era construda em tijolo, ao, pedra e ladriLhos. Os portes de ao estavam sempre a abrir-se e a  fechar-se com estrondo. Havia mais de uma
centena de homens em cada bloco celular, conversando e gritando ao mesmo tempo, com dois aparelhos de televiso sintonizados para canais diferentes, e um sistema
sonoro transmitia country rock. Havia trezentos guardas de servio no edifcio, e os ?seus berros faziam-se ouvir por cima da sinfonia da priso. ? Um dos guardas
tinha dito a Jennifer: A sociedade da  priso  a sociedade mais bem-educada do mundo. Se um preso d um encontro a outro, pede imediatamente desculpa. Os  presos
tm uma memria excelente . Sentada em frente de Abraham Wilson, Jennifer ia pensando: "A  vida deste homem est nas minhas mos. Se ele mor', ser  porque eu faltei
ao prometido.?, Perscrutou-lhe os ?os e viu o desespero que se reflectia neles.
- Vou fazer tudo o que puder - prometeu Jennifer.
Trs dias antes do incio do julgamento de Abraham Wilson,  Jennifer soube que o juiz ia ser o Ilustre Lawrence Waldman, que presidira ao julgamento de Michael
Moretti e que tentara expulsar Jennifer da Ordem dos Advogados.  s quatro horas da madrugada de uma segunda-feira, nos finais de Setembro de mil novecentos e setenta,
o dia marcado  para o incio do julgamento de Abraham Wilson, Jennifer acordou cansada e com os olhos pisados. Tinha dormido mal, sonhando constantemente com o
julgamento. Num dos sonhos,  Robert Di Silva tinha-a posto no banco das testemunhas e fizera-lhe perguntas sobre Michael Moretti. Sempre que Jennifer tentava responder,
os jurados interrompiam-na com uma cantilena: Mentirosa! Mentirosa! Mentirosa!  Os sonhos eram todos diferentes, mas tinham algo em comum. No ltimo, Abraham Wilson
estava preso  cadeira elctrica. Quando Jennifer se inclinou para o confortar, ele ?cuspiu-lhe na cara. Jennifer acordou a tremer, e no  conseguiu voltar a adormecer.
Ficou sentada numa cadeira at  de manh e viu nascer o dia. Estava demasiado nervosa para comer. Queria ter conseguido dormir durante a noite. Queria po estar
to tensa. Queria ver este dia acabado.  Enquanto tomava banho e se vestia, teve um pressentimento da  condenao. ? Apetecia-lhe vestir-se de preto, mas escolheu
um modelo ll?banel verde que tinha comprado em saldo no Loehmann's. s oito e meia, Jennifer Parker chegou ao Edifcio do  Tribunal Criminal para iniciar a defesa
do caso do Povo do  Estado de Nova Iorque contra Abraham Wilson. Havia uma  multido  entrada, e o primeiro pensamento de Jennifer foi  que ?esse acontecido um
acidente. Viu uma bateria de cmaras televiso e de microfones, e antes que Jennifer tivesse  podido compreender o que se estava a passar, viu-se cercada  de reprteres.
- Miss Parker,  a primeira vez que vem ao tribunal desde que arruinou o caso Michael Moretti ao Procurador Distrital, no ? - perguntou um reprter.
Ken Bailey tinha-a avisado. Era ela, e no o seu cliente, o centro das atenes. Os reprteres no se encontravam ali como observadores objectivos; estavam ali
como abutres e ela ia servir-lhes de alimento.  Uma jovem de jeans empurrou um microfone para o rosto de Jennifer.
 -  verdade que o Procurador Distrital Di Silva anda louco para a apanhar?
 - No tenho comentrios a fazer. - E Jennifer comeou a abrir caminho em direco  entrada do edifcio.
 - O Procurador Distrital declarou ontem  noite que pensa que a senhora no devia ser autorizada a exercer advocacia nos tribunais de Nova Iorque. Quer dizer alguma
coisa a esse respeito?
 - No tenho comentrios a fazer. - Jennifer alcanara quase a entrada.
 - No ano passado, o Juiz Waldman tentou irradi-la da Ordem dos Advogados. Vai pedir-lhe que se demita de. . .  Jennifer estava no interior do Palcio da Justia.
 O julgamento tinha sido marcado para a Sala Trinta e Sete. O corredor de acesso estava apinhado de gente que tentava entrar, mas a sala de audincias j se encontrava
cheia.  Havia muito barulho e pairava no ar uma atmosfera carnavalesca. Tinham sido reservadas filas suplementares para os membros da imprensa. "Di Silva providenciou
nesse sentido, pensou Jennifer.  Abraham Wilson estava sentado no banco dos rus, e a sua estatura elevava-se como uma montanha agoirenta acima dos que o rodeavam.
Vestia um fato azul-escuro que lhe ficava demasiado apertado e uma camisa branca e gravata azul que Jennifer lhe tinha comprado. Mas no serviam de nada. Abraham
Wilson parecia-se com um perigoso assassino de fato azul-escuro. Podia muito bem ter vindo com as roupas da cadeia, pensou Jennifer com desalento.  Wilson olhava
com ar provocante em redor da sala de audincias, fitando ameaadoramente aqueles que o observavam.  Jennifer conhecia agora o seu cliente o bastante para entender
que aquela agressividade era um modo de ocultar o medo; mas o que dominava toda a gente - incluindo o  juiz e o jri - era uma impresso de hostilidade e de dio.
Aquele gigante era uma ameaa. Olhavam-no como algum a ser receado, algum que era necessrio  destruir.  No havia na personalidade de Abraham Wilson um nico
lao que inspirasse simpatia. No havia na sua aparncia  nada que pudesse despertar compaixo. Havia apenas aquele  rosto disforme e coberto de cicatrizes, com
o nariz partido e  falta de dentes, aquele corpo enorme que inspirava receio.  Jennifer encaminhou-se para o banco dos rus e sentou-se  ao lado de Abraham Wilson.
 - Bom dia, Abraham.
 Ele olhou-a de relance e disse:
 - Pensei que no viesse.
 Jennifer recordou-se do seu sonho. Fitou-lhe os olhos  pequenos e fendidos.
 - Sabia que eu estaria aqui.
 Ele encolheu os ombros com indiferena.
 - Tanto faz, de uma maneira ou de outra. Eles vo-me  deitar a mo, querida. Vo acusar-me de assassnio e vo  fazer uma lei a dizer que me podem queimar com
azeite e de  pois queimam-me com azeite. Isto no vai ser um julgamento.  Vai ser um espectculo. Espero que tenha trazido pipocas.
 Houve um movimento em volta da mesa da acusao e  Jennifer, erguendo os olhos, viu o Procurador Distrital Di  Silva tomar o seu lugar na mesa, junto de uma bateria
de  ajudantes. Ele olhou para Jennifer e sorriu. Jennifer sentiu-se  invadida por uma crescente sensao de pnico.
 - Todos de p - ordenou um oficial de diligncias, e o  Juiz Lawrence Waldman entrou, vindo da sala onde os juzes : e?nvergavam a toga.
 - Escutai ! Escutai ! Que as pessoas ligadas  Seco  Trinta e Sete deste Tribunal se aproximem, prestem  depoimento e sero ouvidas. Preside o Ilustre Juiz Lawrence
? ?Valdman.  Abraham Wilson foi o nico que recusou levantar-se.
 - Levante-se! - murmurou Jennifer pelo canto da boca.
 - Que se lixem, querida. Tero de me vir arrastar.
 Jennifer tomou entre as suas a mo gigantesca do negro.
 - De p, Abraham. Vamos dar cabo deles.
 Ele contemplou-a durante um longo momento, e em seguida ps-se de p, muito devagar, dominando-a com a sua elevada  estatura.
? O Juiz Waldman ocupou o seu lugar no estrado. A assistncia  voltou a sentar-se. O oficial de diligncias entregou ao
juiz uma agenda do tribunal.
 - O Povo do Estado de Nova Iorque contra Abraham Wilson,  acusado do assassnio de Raymond Thorpe.
 O instinto natural de Jennifer teria sido encher o estrado do jri com negros mas, por causa de Abraham Wilson, decidiu no o fazer. Wilson no era um deles. Era
um renegado, um assassino, a ovelha ranhosa da raa negra.?. Poderiam  conden-lo mais facilmente do que os brancos. Deste modo,  Jennifer limitou-se a tentar afastar
do jri os fanticos  mais declarados. Mas os fanticos no andam pelo mundo a dar  conselhos. Calam os seus preconceitos,  espera de se poderem vingar.  Ao fim
da tarde do segundo dia, Jennifer tinha esgotado as suas dez recusas peremptrias. Sentia que o seu voir dire - o interrogatrio dos jurados - era tosco e desajeitado,
 enquanto que o de Di Silva era fluente e hbil. Ele tinha o  condo de pr os jurados  vontade, de lhes atrair a confiana, de lhes conquistar a amizade.  ?.Como
pude eu esquecer-me de que Di Silva  um excelente  actor, interrogou-se Jennifer.  Di Silva no usou as recusas peremptrias at Jennifer ter esgotado as suas,
e ela no conseguia entender porqu. Quando descobriu o motivo, era tarde de mais. Di Silva fora mais esperto do que ela. Entre os ltimos possveis jurados a serem
interrogados, encontravam-se um detective particular, um director bancrio e a me de um mdico todos  eles sociedade - e agora Jennifer j no podia fazer nada
para os afastar do jri. O Procurador Distrital tinha-a encurralado.  Robert Di Silva ps-se de p e comeou o seu depoimento inaugural.
 - Se o tribunal autoriza - voltou-se para o jri - e as senhoras e senhores do jri tambm, gostaria, em primeiro lugar, de lhes agradecer o terem perdido o vosso
tempo  precioso para tomarem parte neste caso. - Sorriu com ar  compreensivo. - Sei o que pode significar um jri  desmembrado. Todos vs tendes empregos  vossa
espera,  famlias que necessitam da vossa ateno. " como se fosse um deles?,, pensou Jennifer, o dcimo terceiro jurado.  - Prometo roubar-vos o menos tempo possvel.
Este , na verdade, um caso muito simples. O ru est sentado acoli  raham Wilson. O ru  acusado pelo estado de Nova Iorque do  assassnio de um companheiro
na Priso de Sing Sing, raymond Thorpe. No restam dvidas de que o fez. Ele  confessou-o. A advogada de Mr. Wilson vai alegar autodefesa. O Procurador Distrital
voltou-se para contemplar a enorme estatura de Abraham Wilson, e os olhos dos jurados seguim-no  automaticamente. Jennifer podia ver-lhes as reaces no rosto.
Esforou-se por se concentrar naquilo que o  Procurador Distrital Di Silva estava a dizer.
- H alguns anos atrs, doze cidados muito parecidos connosco, tenho a certeza, deliberaram pr Abraham Wilson numa penitenciria. Devido a certos tecnicismos
legais, no e  permitido discutir convosco o crime que Abraham Wiln  cometeu. Posso, no entanto, dizer-vos que aquele jri acreditava sinceramente que, encarcerando
Abraham Wilson, a impedi-lo de cometer outros crimes. Mas, tragicamente, estavam enganados. Apesar de encarcerado, Abraham Wilson i capaz de bater, de matar, para
satisfazer o seu desejo de sangue. Sabemos agora, por fim, que existe apenas uma maneira  de impedir que Abraham Wilson volte a matar. E essa maneira  executando-o.
Isso no ir devolver a vida a  Raymond Thorpe, mas talvez poupe as vidas de outros homens que, caso contrrio, poderiam vir a ser as prximas vtimas do ru. Di
Silva caminhou ao longo do estrado do jri, fitando cada jurado nos olhos.
- Disse-vos que este caso no ir roubar-vos muito tempo. Vou  explicar-vos por que motivo o afirmei. O ru que se encontra ali sentado - Abraham Wilson - assassinou
um homem a sangue-frio. Ele prprio confessou o crime. Mas, meesmo que no tivesse confessado, existem testemunhas que provaram Abraham Wilson cometer esse assassnio
a sangue-frio.
Mais de cem testemunhas, alis. ?Analisemos a expresso "a sangue-frio". O homicdio, seja qual for o seu motivo, repugna-me e sei que a vs  tambm.Mas, por vezes,
os homicdios so cometidos por razes que podemos, pelo menos, compreender. Imaginemos que algum ameaa com uma arma a pessoa que amamos - um filho, um marido,
uma mulher. Bom, se tivermos uma pistola,  podemos premir o gatilho para salvar a vida da pessoa que amamos. Os senhores e eu podemos no perdoar uma coisa dessas,
mas tenho a certeza de que podemos, pelo menos, compreend-la. Tomemos outro exemplo. Se fossem subitamente  acordados, a meio da noite, por um intruso que ameaava
 matar-vos e se tivessem uma oportunidade de o liquidar para salvarem a vossa vida, se o fizessem - bem, creio que todos ns compreendemos como  que isso podia
acontecer. E isso no nos transformaria em criminosos violentos ou em pessoas perversas, pois no? Era algo que tnhamos feito na exaltao do momento. - A voz
de Di Silva tornou-se mais dura. - Mas assassinio a sangue frio  algo completamente diferente. Tirar a vida a outro ser humano, sem a desculpa de quaisquer sentimentos
ou paixes, faz-lo por dinheiro, por drogas, ou pelo simples prazer de matar. . .  Ele estava deliberadamente a influnciar o jri, embora sem ultrapassar os limites,
para que no houvesse nenhum erro que pudesse anular o processo ou revogar a sentena.  Jennifer observava o rosto dos jurados, e no lhe restavam dvidas de que
Robert Di Silva os tinha na mo. Concordavam  com tudo o que ele dizia. Abanavam a cabea, acenavam e franziam as sobrancelhas. Faziam tudo excepto aplaudi-lo.
Ele era um maestro e o jri era a sua orquestra. Jennifer  nunca vira nada semelhante. Sempre que o Procurador Distrital mencionava o nome de Abraham Wilson - e
mencionava-o em quase todas as frases - o jri olhava instintivamente para o ru. Ela tinha-lhe recomendado repetidas vezes que podia olhar para todos os lados
da sala excepto para o estrado dos jurados, porque o seu ar de desafio era exasperante. Agora, com grande horror seu, Jennifer reparou que os olhos de Abraham Wilson
estavam presos no estrado do jri, fitando os jurados. Parecia destilar agresso.
 - Abraham. . . - chamou Jennifer em voz baixa.
 Ele nem se voltou.  O Procurador Distrital estava a terminar o seu depoimento inaugural.
 - A Bblia diz: Olho por olho, dente por dente." Isso  vingana. O estado no est a clamar vingana. Est a pedir justia. Justia para o desgraado que Abraham
Wilson  assassinou a sangue-frio - a sangue-frio. Obrigado. O ? Procurador Distrital sentou-se. Quando Jennifer se levantou para se dirigir ao jri, sentiu a sua
hostilidade e impacincia. Ela tinha lido livros sobre a 'f?rnia como os advogados conseguem ler o pensamento dos ?rris e tinha ficado cptica. Agora no. Estava
a receber  distinta e claramente a mensagem do jri. Tinham j decidido que o cliente dela era culpado, e sentiam-se impacientes por Jennifer estar a faz-los perder
tempo, obrigando-os a  continuar no tribunal, quando poderiam estar l fora a fazer  coisas ?tais importantes, como afirmara o amigo Procurador  Distrital. Jennifer
e Abraham Wilson eram o inimigo.  Jennifer respirou fundo e comeou.
 - Se Vossa Honra autoriza. - Em seguida voltou-se para os jurados: - Senhoras e senhores, a razo pela qual temos s?alas de audincias, a razo pela qual nos encontramos
hoje aqui,  que a lei, na sua prudncia, sabe que h sempre dois lados do mesmo caso. Ao ouvirmos o ataque que o Procurador  Distrital fez ao meu cliente, ao ouvi-lo
declarar o meu cliente culpado sem o benefcio do veredicto de um jri - do vosso veridicto - poderamos pensar que no  assim.  Observou as caras deles,  procura
de um sinal de  solidariedade ou de apoio. No encontrou nenhum. Fez um  esforo para prosseguir.
 - O Procurador Distrital Di Silva utilizou repetidas vezes a frase: Abraham Wilson  culpado. .? Isso  mentira. O  Juiz ?Valdman pode dizer-vos que nenhum ru
 culpado at que um juiz ou um jri o declarem culpado.  para descobrir isso que nos encontramos todos aqui, no ? Abraham Wilson foi acusado de assassinar um
companheiro em Sing Sing. Mas ?Abraham Wilson no matou por dinheiro nem por droga. ?Matou para salvar a sua prpria vida. Esto lembrados  daqueles exemplos inteligentes
que o Procurador Distrital vos  deu ?quando explicou a diferena entre matar a sangue-frio e a sangue-quente. Matar a sangue-quente  quando se protege ?algum
que amamos, ou quando nos defendemos. Abraham ?VVilson matou em autodefesa, e digo-vos agora que qualquer ?um de ns nesta sala de audincias, em circunstncias
 idnticas, teria feito exactamente a mesma coisa.  eo Procurador Distrital e eu concordamos num ponto: todas  as pessoas tm o direito de proteger a sua prpria
vida. Se  Abraham Wilson no tivesse agido do modo como o fez, estaria  agora morto. - A voz de Jennifer transparecia sinceridade. No  ardor da sua convico, esquecera-se
do nervosismo.
- Peo a todos que se lembrem de uma coisa: segundo a lei deste estado, a acusao tem de provar que, para l de  qualquer suspeita aceitvel, o acto de matar no
foi cometido  em autodefesa. E antes de este julgamento terminar,  apresentaremos uma evidncia slida de que Raymond Thorpe foi  mor? to quando tentava assassinar
o meu cliente. Obrigado.
 Comeou o desfile de testemunhas pelo estado. Robert Di Silva no perdera uma nica oportunidade. As suas testemunhas  de carcter pelo falecido, Raymond Thorpe,
incluam um padre, guardas prisionais e outros condenados. Uma a uma, subiram ao estrado e atestaram o carcter slido e o temperamento pacfico do falecido.  Sempre
que o Procurador Distrital acabava de interrogar uma testemunha, voltava-se para Jennifer e dizia:
 - A testemunha  sua.
 E Jennifer respondia sempre:
 - No h contra-interrogatrio.
 Sabia que no valia a pena tentar desacreditar as  testemunhas de carcter. Quando chegaram ao fim, poder-se-ia  pensar que Raymond Thorpe fora injustamente privado
da  santidade. Os guardas, a quem Robert Di Silva preparara com todo o cuidado, declararam que Thorpe fora sempre um preso exemplar que andava por Sing Sing a praticar
boas aces, pensando apenas em ajudar o prximo. O facto de Raymond Thorpe ter sido condenado por assaltos a bancos e violaes era uma falha minscula num carcter
de uma integridade quase perfeita.  O que prejudicou bastante a j fraca defesa de Jennifer foi a
descrio fsica de Raymond Thorpe. Era um homem de  constituio frgil e tinha apenas um metro e setenta de  altura. Robert Di Silva insistiu nesse facto e no
deixou que os  jurados o esquecessem. Pintou um quadro vivo de como Abraham Wilson atacara  traio o homem mais baixo do que ele e esmagara a cabea de Thorpe
de encontro a um edifcio de cimento, no recreio, provocando-lhe morte instantnea.  Enquanto Di Silva falava, os olhos dos jurados mantinham-se cravados na figura
gigantesca do ru sentado  mesa, e que fazia parecer anes aqueles que se encontravam perto dele. Provavelmente nunca chegaremos a saber o que levou Abraham Wilson
a atacar este homenzinho inofensivo e  indefeso. . . - dizia o Procurador Distrital.  De sbito, o corao de Jennifer deu um salto. Uma palavra  que Di Silva acabara
de pronunciar, concedera-lhe a  oportunidade de que necessitava.  . .. Poderemos no saber nunca a razo do traioeiro ataque do ru, mas h uma coisa que sabemos,
senhoras e senhores. . . no foi porque o homem assassinado constitusse uma ameaa para Abraham Wilson. Autodefesa? - Voltou-se para o Juiz Waldman. - Vossa Honra,
pode por favor ordenar ao  ru que se levante?  O Juiz Waldman olhou para Jennifer.
 - O advogado de defesa tem alguma objeco?
 Jennifer calculava o que ia seguir-se, mas reconhecia que qualquer objeco da sua parte s poderia ser prejudicial.
 - No, Vossa Honra.
 - Levante-se o ru - disse o Juiz Waldman.
 Abraham Wilson continuou sentado durante uns momentos, com uma expresso de desafio no rosto; depois, muito devagar,  ergueu o seu metro e noventa de altura.
 - Est aqui um oficial de diligncias, Mr. Galin, cuja  altura  um metro e setenta, a altura exacta do homem  assassinado, Raymond Thorpe. Mr. Galin, quer fazer
o favor de  se aproximar e de se colocar ao lado do ru?
 O oficial de diligncias aproximou-se de Abraham Wilson e ficou junto dele. O contraste entre os dois homens era  caricato. Jennifer sabia que tinha sido vencida
de novo, mas  no havia nada a fazer. A impresso visual no poderia apagar-se nunca. O Procurador Distrital ficou a olhar para os dois  homens durante uns momentos,
e depois perguntou ao jri,  quase num murmrio:
 - Autodefesa ?
 O julgamento estava a correr pior do que Jennifer sonhara nos seus mais terrveis pesadelos. Sentia que o jri estava ansioso por ver o julgamento terminado para
poder proferir um veredicto de culpa.  Ken Bailey encontrava-se sentado entre a assistncia, e, durante um intervalo, Jennifer teve oportunidade de trocar algumas
palavras com ele.
 - No  um caso fcil - disse Ken, compreensivo.  Espero que voc no tenha tido King Kong como cliente. Santo Deus, uma pessoa assusta-se s de o olhar.
 - Ele no tem culpa.
 - Como diz a anedota, ele podia muito bem ter ficado em casa. Que tal vo as coisas com o nosso estimado Procurador Distrital?
 Jennifer esboou um sorriso triste.
 - Mr. Di Silva mandou-me esta manh um recado. Tenciona  afastar-me da advocacia.
 Quando terminou o desfile das testemunhas de acusao e Di Silva pousou a pasta, Jennifer levantou-se e disse:
 - Gostaria de chamar Howard Patterson ao estrado.
 O subdirector de Sing Sing ergueu-se de m vontade e  encaminhou-se para o banco das testemunhas, com todos os olhos fixos nele. Robert Di Silva ps-se muito srio
enquanto Patterson prestava juramento. O pensamento de Di Silva  galopava, calculando todas as probabilidades. Sabia que tinha ganho a causa. Tinha j preparado
o discurso da vitria.  Jennifer estava a dirigir-se  testemunha.
 - Pode, por favor, contar ao jri os seus antecedentes, Mr. Patterson?
 O Procurador Distrital Di Silva tinha-se posto de p.
 - Para poupar tempo, o estado prescinde dos antecedentes da testemunha, e declaramos que Mr. Patterson  o subdirector  da Priso de Sing Sing.
 - Obrigada - disse Jennifer. - Parece-me que o jri deve ser informado de que Mr. Patterson teve de ser intimado a vir aqui hoje. Encontra-se aqui como testemunha
hostil. -  Jennifer virou-se para Patterson: - Quando lhe pedi que viesse aqui voluntariamente e testemunhasse a favor do meu cliente, o senhor recusou.  verdade?
 - Sim.
 - Quer dizer ao jri o motivo pelo qual teve de ser intimado  a vir aqui?
 - Com todo o prazer. Tenho lidado toda a vida com homens
como Abraham Wilson. So conflituosos de nascena.  Robert Di Silva estava inclinado para a frente, na cadeira, e sorria, com os olhos fixos nos jurados.
 - Observe como ela se est a enforcar - segredou ele a um dos seus ajudantes.
 - Mr. Patterson - continuou Jennifer -, Abraham Wilson no  est a ser aqui julgado por ser conflituoso. Est a ser julgado para salvar a vida. No quer ajudar
um ser humano que foi injustamente acusado de um crime capital?
 - Se foi acusado injustamente, quero. - O nfase daquele  injustamente provocou uma expresso de entendimento no rosto dos jurados.
 - Antes deste caso, j houve assassnios na priso, no houve?
 - Quando se encerram centenas de homens violentos num ambiente artificial, isso leva-os a gerar uma enorme  hostilidade e h. . .
 - Diga apenas sim ou no, por favor, Mr. Patterson.
 - Sim.
 - Desses assassnios que ocorreram durante a sua actividade,  poderia dizer que existiu uma diversidade de motivos?
 - Bom, suponho que sim. s vezes. . .
 - Sim ou no, por favor.
 - Sim.
 - A autodefesa foi alguma vez um motivo para alguns desses assassnios cometidos na priso?
 - Bom, s vezes. . . - E vendo a expresso do rosto de Jennifer: - Sim.
 - Portanto, com base na sua vasta experincia,   inteiramente possvel ou no que Abraham Wilson estivesse de  facto a defender a sua prpria vida quando matou
Raymond Thorpe?
 - No me parece que. . .
 - Perguntei se  possvel. Sim ou no?
 - No  muito provvel - respondeu Patterson, obstinado.  Jennifer voltou-se para o Juiz Waldman.
 - Vossa Honra, quer fazer o favor de ordenar  testemunha  que responda  pergunta?
 O juiz Waldman baixou o olhar para Howard Patterson.
 - A testemunha deve responder  pergunta.
 - Sim.
 Mas o facto de toda a sua atitude dizer no" fora registado pelo jri.
 - Se o tribunal autoriza - disse Jennifer -, intimei a testemunha a trazer algum material que gostaria agora de apresentar como evidncia.
 O Procurador Distrital Di Silva levantou-se.
- Que espcie de material?
 - Uma evidncia que justificar a nossa alegao de  autodefesa.
 - Objeco, Vossa Honra.
 - O que  que est a objectar? - perguntou Jennifer. - Ainda  no viu nada.
 - O tribunal recusar uma deciso at ver a evidncia.
Encontra-se aqui em jogo a vida de um homem. O acusado tem direito a toda a considerao possvel - disse o Juiz Waldman.
 -Obrigada, Vossa Honra. - Jennifer voltou-se para Howard Patterson: - Trouxe aquilo? - perguntou.
 - Sim. Mas estou a fazer isto contra a minha vontade - respondeu ele com um aceno de cabea e de lbios apertados.
 - Parece-me que j o demonstrou claramente, Mr. Patterson.  Podemos ver, por favor?
 Howard Patterson olhou para a zona da assistncia, onde estava sentado um homem com um uniforme de guarda prisional.  O guarda ergueu-se e avanou, transportando
uma caixa fechada de madeira.  Jennifer pegou nela.
 - A defesa gostaria de apresentar esta prova como Testemunho  A, Vossa Honra.
 - O que  isso? - inquiriu o Procurador Distrital Di Silva.
 - Chamam-lhe uma caixa de surpresas?,.
 Houve um riso abafado entre os espectadores.
 O Juiz Waldman olhou para Jennifer.
 - Disse uma caixa de surpresas, - perguntou devagar.
- O que contm essa caixa, Miss Parker?
 - Armas. Armas que foram feitas pelos presos, em Sing Sing, para. . .
 - Objeco! - O Procurador Distrital pusera-se de p, com voz trovejante. Aproximou-se rapidamente do estrado.
- Estou disposto a dar um desconto  inexperincia da minha colega, Vossa Honra mas, se ela tenciona exercer Direito Penal, ento sugiro que estude as regras bsicas
dos  testemunhos. No h nenhum testemunho que ligue o contedo  desta dita caixa de surpresas?, ao caso que est a ser julgado neste tribunal.
 - Esta caixa prova. . .
 - Esta caixa no prova coisa nenhuma. - O tom da voz do Procurador Distrital era fulminante. Voltou-se para o Juiz Waldman. - O estado objecta  apresentao do
testemunho como sendo imaterial e irrelevante.
 - Objeco aceite.
 E Jennifer ficou a ver a sua causa desmoronar-se. Tudo estava contra ela: o juiz, o jri, Di Silva, o testemunho. O seu cliente iria para a cadeira elctrica,
a no ser que...
 Jennifer respirou fundo.
 - Vossa Honra, este testemunho  absolutamente  imprescindvel  nossa defesa. Acho...
 O Juiz Waldeman interrompeu-a.
 - Miss Parker, este tribunal no tem tempo nem competncia  para lhe dar lies de Direito, mas o Procurador Distrital tem toda a razo. Antes de ter entrado nesta
sala  de audincias, devia ter-se familiarizado com as regras  bsicas dos testemunhos. A primeira regra diz que no se podem apresentar  provas que no tenham
sido devidamente preparadas para o efeito. No h nada no registo que nos diga que o falecido se encontrava ou no armado. Por isso, a questo dessas armas   descabida.
O seu pedido  indeferido.  Jennifer continuou de p, sentindo o sangue subir-lhe ao  rosto.
 - Lamento - insistiu ela -, mas no  descabida.
 - Chega! Se quiser faa uma objeco.
 - No quero fazer objeco nenhuma, Vossa Honra. O senhor est a negar ao meu cliente os seus direitos.
 - Miss Parker, se continua, prendo-a por desrespeito ao tribunal.
 - No me interessa o que me possa fazer - disse Jennifer. -  O terreno foi preparado para a apresentao deste testemunho.
Foi o prprio Procurador Distrital quem o preparou.
 - O qu? Eu nunca. . . - protestou Di Silva.
 Jennifer voltou-se para o estengrafo do tribunal.
 - Quer fazer o favor de ler o depoimento de Mr. Di Silva, comeando pela linha Provavelmente nunca chegaremos a saber o que levou Abraham Wilson a atacar. . .
?
 O Procurador Distrital olhou para o Juiz Waldman.
 - Vossa Honra, vai permitir..?
 O Juiz Waldman ergueu a mo. Depois voltou-se para Jennifer.  - Este tribunal no precisa que a senhora lhe ensine as leis, Miss Parker. Quando este julgamento
terminar ser presa por desrespeito ao tribunal. No entanto, como se trata de um caso capital, vou ouvi-la. - Voltou-se para o estengrafo do tribunal: - Pode continuar.
 O estengrafo do tribunal virou algumas pginas e comeou a   ler.
 - Provavelmente nunca chegaremos a saber o que levou Abraham Wilson a atacar este homenzinho inofensivo e  indefeso...?.
 - Chega - interrompeu Jennifer. - Obrigada. - Olhou para Robert Di Silva e falou lentamente. - Foram estas as suas palavras, Mr. Di Silva. Provavelmente nunca
chegaremos  a saber o que levou Abraham Wilson a atacar este homenzinho  inofensivo e indefeso. . . ,? - Virou-se para o Juiz Waldman. - A palavra-chave, Vossa
Honra,  indefeso. Uma vez que o prprio Procurador Distrital disse a e?te jri que a vtima estava indefesa, deixou-nos uma porta aberta para podermos no abandonar
a hiptese de que a vtima  poderia no estar indefesa, que poderia, de facto, ter uma  arma. Aquilo que  sugerido no interrogatrio directo pode ser  admissvel
no contra-interrogatrio.  Seguiu-se um longo silncio.
 O Juiz Waldman voltou-se para Robert Di Silva.
 - O raciocnio de Miss Parker est correcto. O senhor deixou uma porta aberta.
 Robert Di Silva olhava-o sem poder acreditar.
 - Mas eu s. . .
 - O tribunal autoriza que a prova seja apresentada como Testemunho A.
 Jennifer respirou fundo, agradecida.
 - Obrigada, Vossa Honra. - Pegou na caixa fechada,
segurou-a nas mos e voltou-se para enfrentar o jri. - Senhoras e senhores, no seu discurso final, o Procurador  Distrital vai dizer-vos que aquilo que ides ver
nesta caixa  no constitui uma prova directa. E ter razo. Vai dizer-vos que  no existe qualquer relao entre estas armas e o falecido. E  ter razo. Estou
a apresentar-vos esta prova por outro motivo. Desde h alguns dias, tendes vindo a ouvir falar do modo como o ru cruel e conflituoso, que mede um metro e noventa
de altura, atacou injustificadamente Raymond Thorpe, que media apenas um metro e setenta. A imagem que vos foi to cuidadosa e falsamente apresentada pela acusao
 a de um rufia sdico e assassino que matou outro internado sem razo. Mas pensem no seguinte: no haver sempre qualquer motivo?  Inveja, dio, cobia, qualquer
coisa? Estou convencida - e aposto a vida do meu cliente - que houve um motivo para esse assassnio. O nico motivo, tal como o prprio  Procurador Distrital vos
disse, que justifica o matar-se  algum: autodefesa. Um homem lutando para proteger a sua prpria vida. Ouviram Howard Patterson declarar que, durante a sua actividade,
ocorreram assassnios na priso, que os  condenados fabricam armas mortais. Isso significa que   possvel que Raymond Thorpe estivesse equipado com uma dessas
armas, que de facto tivesse sido ele a atacar o ru e que o ru,  tentando proteger-se, tivesse sido forado a mat-lo - em  autodefesa. Se decidirem que Abraham
Wilson assassinou  Raymond Thorpe de um modo cruel - e sem qualquer motivao - ento devem apresentar um veredicto de culpa. Se, no  entanto, depois de verem esta
prova tiverem alguma dvida aceitvel,  vosso dever apresentarem um veridicto de no- culpado - A caixa fechada comeava a pesar-lhe nas mos. - A primeira vez
que olhei para dentro desta caixa, no pude acreditar no que os meus olhos viam. Tambm os senhores podero ter dificuldade em acreditar - mas peo-lhes que se
lembrem de que foi aqui trazida contra a vontade do  subdirector da Priso de Sing Sing. Isto, senhores e  senhoras,  uma coleco de armas confiscadas, feitas
s escondidas pelos presos de Sing Sing.  Quando Jennifer se encaminhou para o estrado do jri, simulou tropear e perder o equilbrio. A caixa caiu-lhe das mos,
a tampa saltou, e o seu contedo espalhou-se pelo cho da sala de audincias. Houve um sobressalto. Os jurados comearam a pr-se de p, para poderem ver melhor.
Olhavam  espantados para a medonha coleco de armas que tinha cado da caixa. Eram umas cem, de todos os tamanhos, formas e  feitios. Machados de fabrico caseiro
e facas de talho, estiletes e tesouras mortferas com pontas afiadas, chumbos para espingardas de presso de ar e um enorme cutelo com uma aparncia perversa. Havia
arames delgados com cabos de madeira, usados para estrangular, uma p de cabedal, uma pina de gelo afiada, uma faca de mato.  A assistncia e os reprteres estavam
agora de p,  estendendo os pescoos para conseguirem ver melhor o arsenal espalhado no cho. O Juiz Waldman batia furiosamente com o martelo, tentando restabelecer
a ordem. O Juiz Waldman olhou para Jennifer com uma expresso que ela no conseguiu decifrar. Um beleguim aproximou-se rapidamente para apanhar o contedo espalhado
da caixa. Jennifer afastou-o com um gesto.
 - Obrigada - disse ela - Eu fao-o.
 Perante o olhar dos espectadores e dos jurados, Jennifer ps-se de joelhos e comeou a apanhar as armas e a met-las de novo na caixa. Trabalhava devagar, manuseando
as armas com cuidado, olhando inexpressivamente para cada uma delas antes de a guardar. Os jurados tinham retomado os seus  lugares, mas observavam todos os movimentos
que ela ia  fazendo. Jennifer levou cinco minutos para repor as armas na  caixa, perante a irritao do Procurador Distrital Di Silva.  Quando Jennifer acabou de
guardar na caixa a ltima arma do mortfero arsenal, levantou-se, olhou para Patterson e, em seguida, voltando-se para Di Silva, disse:
 - A testemunha  sua.
 Era demasiado tarde para reparar o mal que tinha sido feito.
 - No h contra-interrogatrio - declarou o Procurador Distrital.
 - Nesse caso gostaria de chamar Abraham Wilson ao estrado.
 - Nome?
 - Abraham Wilson.
 - Pode falar mais alto, por favor?
 - Abraham Wilson.
 - Mr. Wilson, matou Raymond Thorpe?
 - Sim, senhora.
 - Pode dizer ao tribunal porqu?
 - Ele ia matar-me.
 - Raymond Thorpe era um homem muito mais baixo do que o senhor. Est mesmo convencido de que ele seria capaz de o matar?
 - Ele veio para mim com uma faca que o tornava mais alto.  Jennifer tinha deixado de fora dois objectos da caixa de surpresas". Um era uma faca de talho incrivelmente
afiada; o outro era um enorme par de tenazes de metal.
 - Foi esta a faca com que Raymond Thorpe o ameaou?
 - Objeco! O ru no tem possibilidade de saber. . .
 - Vou reformular a pergunta. Esta faca  parecida com aquela com que Raymond Thorpe o ameaou?
 - Sim, senhora.
 - E estas tenazes?
 - Sim senhora.
 - J antes tinha tido problemas com Thorpe?
 - Sim, senhora.
 - E quando ele se encaminhou para si com estas duas armas, o senhor viu-se forado a mat-lo para proteger a sua prpria vida?
 - Sim, senhora.
 - Obrigada.
 Jennifer voltou-se para Di Silva.
 - A testemunha  sua.
 Robert Di Silva ps-se de p e aproximou-se lentamente do banco das testemunhas.
- Mr. Wilson, j tinha matado anteriormente, pois j?
 - Cometi um erro e estou a pagar por ele. Eu. . .
 - Poupe-nos o seu sermo. Responda apenas sim ou no.
 - Sim.
 - Ento uma vida humana no tem muito valor para si.
 - Isso no  verdade. Eu. . .
 - Acha que cometer dois assassnios  dar valor  vida humana? Quantas pessoas teria o senhor assassinado se no desse valor  vida humana? Cinco? Dez? Vinte?
 Ele estava a espicaar Abraham Wilson e Wilson estava a comear a ceder. Tinha as maxilas cerradas e a clera  reflectia-se-Lhe no rosto. Tem cuidado!,?
 - S matei duas pessoas.
 - S! O senhor s matou duas pessoas! - O Procurador Distrital abanou a cabea com uma expresso falsamente consternada. Aproximou-se mais do banco das testemunhas
e ergueu os olhos para o ru. - Aposto que deve sentir-se muito  importante por ser to alto. Deve sentir-se um pouco como Deus. Sempre que lhe apetece, pode matar
uma pessoa aqui, matar outra acol. . .  Abraham Wilson tinha-se posto de p, erguendo a sua elevada  estatura.
 - Seu filho da puta!
 No!?,, suplicou Jennifer intimamente. No?"
 - Sente-se! - trovejou Di Silva. - Foi assim que perdeu a calma quando assassinou Raymond Thorpe?
 - Thorpe estava a tentar matar-me.
 - Com isto? - Di Silva exibiu a faca de talho e o par de tenazes. - Tenho a certeza de que o senhor poderia ter-lhe tirado aquela faca. - Brandiu as tenazes. -
E teve medo disto? - Voltou-se para o jri e mostrou as tenazes com um ar depreciativo. - Isto no parece assim to mortal. Se o falecido tivesse conseguido dar-lhe
com elas na cabea, ter- lhe-ia feito um pequeno galo. O que vem a ser exactamente este par de tenazes, Mr. Wilson?
 - So esmagadores de testculos - elucidou Abraham Wilson com suavidade.
 O jri esteve reunido durante oito horas.  Robert Di Silva e os seus ajudantes abandonaram a sala de audincias para um pequeno intervalo, mas Jennifer continuou
 no seu lugar, incapaz de se afastar.  Quando o jri se encaminhou para fora da sala, Ken Bailey foi ter com Jennifer.
 - Que tal um caf?
 - No sou capaz de engolir nada.
 Ficou sentada na sala de audincias, receando mexer-se, mal se dando conta das pessoas que a rodeavam. Acabara tudo. Tinha feito o que pudera. Fechou os olhos
e tentou  rezar, mas o medo era demasiado forte. Sentia-se como se,  juntamente com Abraham Wilson, estivesse prestes a ser  condenada  morte.  O jri estava a
regressar  sala, com as caras severas e agourentas, e o corao de Jennifer comeou a bater mais depressa. As expresses deles faziam-na adivinhar que iam declar-lo
culpado. Pensou que ia desmaiar. Por causa dela, ia ser executado um homem. Nunca deveria ter-se ocupado daquele caso em primeiro lugar. Que direito tinha ela de
 tomar nas suas mos a vida de um homem? Devia estar louca quando pensara poder vencer algum to experiente como Robert Di Silva. Queria correr para os jurados
antes que eles pudessem pronunciar o seu veredicto e dizer: Esperem! Abraham Wilson no teve um julgamento imparcial. Peo-vos que deixem que outro advogado o defenda.
Algum melhor do que eu. ,?  Mas era demasiado tarde. Jennifer lanou uma olhadela para o rosto de Abraham Wilson. Estava sentado, imvel como uma esttua. Sentia
que agora ele no destilava dio, mas apenas um profundo desespero. Quis dizer-lhe algo que o  confortasse, mas no encontrou palavras.  O Juiz Waldman estava a
falar.
 - O jri tomou alguma deciso?
 - Sim, Vossa Honra.
 O juiz fez um sinal com a cabea e o escrivo dirigiu-se ao presidente do jri, pegou no bocado de papel que ele Lhe  estendeu e foi entreg-lo ao juiz. O corao
de Jennifer  parecia querer saltar-lhe do peito. No conseguia respirar. Desejava fazer parar este momento, imobiliz-lo para sempre antes que o veredicto fosse
lido.  O Juiz Waldman estudou o bocado de papel que tinha nas mos; em seguida olhou lentamente em redor da sala de  audincias. Os seus olhos detiveram-se nos
membros do jri,  em Robert Di Silva, em Jennifer e, por fim, em Abraham Wilson.
- Levante-se o ru.
 Abraham Wilson ps-se de p, com movimentos lentos e cansados, como se toda a energia o tivesse abandonado.  O Juiz Waldman leu o pedao de papel.
 - Este jri considera o ru, Abraham Wilson, no culpado.  Houve um silncio momentneo e o resto das palavras do juiz foi abafado pelo barulho dos espectadores.
Jennifer  estava de p, aturdida, incapaz de acreditar no que ouvia.  Voltou-se para Abraham Wilson, sem conseguir falar. Ele  fitou-a por um instante com os seus
olhos pequenos e maldosos. E ento, aquele rosto ameaador abriu-se no sorriso mais  rasgado que Jennifer tinha visto em toda a sua vida.  Inclinou-se e abraou-a,
e Jennifer tentou reprimir as lgrimas.  A imprensa rodeava Jennifer, pedindo-lhe uma declarao, crivando-a de perguntas.  O que se sente quando se derrota o Procurador
Distrital?.,  Pensava que ia ganhar esta causa,  O que faria se tivessem mandado Wilson para a cadeira elctrica?.,  Jennifer abanava a cabea a todas as perguntas.
No  conseguia falar com eles. Tinham vindo aqui para assistirem a  um espectculo, para verem um homem ser perseguido at  morte.  Se o veredicto tivesse sido
outro... nem queria pensar nisso. Jennifer comeou a recolher os seus papis e a met- los
numa pasta.  Um meirinho aproximou-se dela.
 - O Juiz Waldman deseja falar-lhe, Miss Parker.
 Esquecera-se de que a esperava uma citao por desrespeito ao tribunal, mas isso j no lhe parecia importante. A nica coisa que interessava era o facto de ter
salvo a vida de  Abraham Wilson.  Jennifer lanou um olhar rpido para a mesa da acusao. O Procurador Distrital Silva guardava furiosamente papis numa pasta
censurando com aspereza um dos seus ajudantes. Sentiu o olhar de Jennifer. Os seus olhos encontraram os dela e no foram necessrias palavras.  O Juiz Lawrence
Waldman estava sentado  secretria quando Jennifer entrou.
 - Sente-se, Miss Parker - ordenou em tom breve. Jennifer  sentou-se. - No permitirei, nem a si nem a mais ningum, que  transforme a minha sala de audincias
num espectculo de  feira.
 Jennifer corou.
 - Eu tropecei. No pude evitar que. . .
 O Juiz Waldeman ergueu a mo.
 - Por favor. Poupe-me.
 Jennifer apertou os lbios com fora.
 - Outra coisa que no vou tolerar no meu tribunal  a insolncia. - Jennifer contemplou-o muito sria, sem dizer nada. - Esta tarde, a senhora ultrapassou os limites.
 Compreendo que o seu ardor excessivo foi em defesa da vida de  um homem. Por esse motivo, decidi no a citar por desrespeito.
 - Obrigada, Vossa Honra. - Jennifer teve de fazer um esforo para falar.
 O rosto do juiz estava impenetrvel quando continuou:
 - Quase sempre, quando termina uma causa, sinto se a justia foi ou no foi feita. Neste caso, muito francamente, no tenho a a certeza.
 Jennifer ficou  espera que ele prosseguisse.
 -  tudo, Miss Parker.
 Nas edies da tarde dos jornais e no noticirio da noite, na televiso, Jennifer Parker aparecia de novo nos ttulos, mas desta vez como herona. Era o David
jurdico que  assassinara Golias. Havia fotografias dela, de Abraham Wilson  e do Procurador Distrital Di Silva publicadas nas primeiras  pginas. Jennifer devorou
avidamente todas as palavras dos
artigos, saboreando-as. Era uma vitria muito doce depois de toda a vergonha por que passara antes.  Para comemorar, Ken Baileu levou-a a jantar ao Luchow's, e
Jennifer foi reconhecida pelo gerente e por diversos  clientes. Desconhecidos tratavam Jennifer pelo seu nome e  davam-lhe os parabns. Era uma experincia estonteante.
 - Como se sente, agora que  uma celebridade? - perguntou  Ken com um sorriso.
 - Estou estupidificada.
 Algum mandou uma garrafa de vinho para a mesa.  - No preciso de beber - declarou Jennifer. - Sinto-me como se esteja j embriagada.  Mas tinha sede e bebeu trs
copos de vinho enquanto  comentava o julgamento com Ken.
 - Eu estava em pnico. Sabe o que significa ter-se nas mos a vida de outra pessoa?  como fazer-se de contas que se  Deus. Consegue imaginar algo mais assustador
do que isso? Quero dizer, eu sou de Kelso. . . podemos mandar vir outra garrafa de vinho, Ken?
 - Tudo o que quiser.
 Ken encomendou um banquete para ambos, mas Jennifer estava demasiado excitada para conseguir comer.
 - Sabe o que me disse Abraham Wilson da primeira vez que o vi? Disse-me: Meta-se na minha pele, eu meto-me na sua e depois falemos de dio.,? Estive hoje na pele
dele,  Ken, e sabe uma coisa? Pensei que o jri me ia condenar a mim. Sentia-me como se fosse ser executada. Amo Abraham Wilson.  Podemos mandar vir mais vinho?
 - Voc no comeu nada.
 - Estou cheia de sede.
 Ken contemplava-a, preocupado, enquanto Jennifer continuava  a encher e a esvaziar o copo.
 - Devagar.
 Ela agitou a mo, rejeitando a observao dele com  graciosidade.
 -  vinho da Califrnia.  como beber gua. - Engoliu outro trago. - Voc  o meu melhor amigo. Sabe quem   que no  o meu melhor amigo? O grande Robert Di Sliva.
Di Sivla.
 - Di Silva.
 - Esse tambm. Odeia-me. Viu a cara dele hoje? O-o-oh, estava furioso! Disse que ia correr comigo do tribunal. Mas no o fez, pois no?
 - No, ele. . .
 - Sabe o que eu acho? O que eu acho realmente?
 -Eu...
 - Di Silva pensa que eu sou Ahab e que ele  a baleia branca ?.
 - Creio que isso pertence ao passado.
 - Obrigada, Ken. Posso contar sempre consigo. Vamos pedir outra garrafa de vinho.
 - No acha que j bebeu bastante?
 - As baleias tm sede - Jennifer emitiu um risinho abafado.
- Sou eu. A grande baleia branca. J lhe disse que amo Abraham Wilson?  o homem mais belo que encontrei em toda a minha vida. Fitei-o nos olhos, Ken, meu amigo,
e ele  belo! J alguma vez viu os olhos de Di Silva? O-o-oh! So gelo! Isto , ele  um iceberg. Mas no  m pessoa. J lhe falei de Ahab e da grande baleia branca?
 - J.
 - Amo o velho Ahab. Amo toda a gente. Sabe porqu, Ken? Porque Abrahm Wilson est vivo esta noite. Est vivo. Vamos mandar vir outra garrafa de vinho para festejar.
. .
 Eram duas horas da manh quando Ken Bailey levou Jennifer  para casa. Ajudou-a a subir os quatro lanos de escadas e a entrar no pequeno apartamento. A subida
obrigava-o a  respirar com dificuldade.
 - Sabe - disse Ken -, estou a sentir os efeitos de todo aquele vinho.
 Jennifer olhou-o, condoda.
 - As pessoas que no aguentam no deviam beber.
 E perdeu os sentidos.
 Foi acordada pelo toque estridente do telefone. Jennifer estendeu cuidadosamente a mo para o aparelho, e o ligeiro movimento provocou-lhe dores em todo os terminais
nervosos do corpo.
 - Sim. . .
 - Jennifer? Fala Ken.
 - Sim, Ken.
 - Est com uma voz terrvel. Sente-se bem?
 Ela meditou no assunto.
 - No me parece. Que horas so?
 -  quase meio-dia. Era melhor vir at c. Isto parece um inferno.
 - Ken. . . acho que estou a morrer.
 - Escute. Levante-se. . . devagar. . . tome duas aspirinas e um duche frio, beba uma chvena de caf quente e talvez sobreviva.
 Quando Jennifer chegou ao escritrio, uma hora mais tarde,  sentia-se melhor. No bem?,, pensou Jennifer, mas melhor. .,  Os dois telefones estavam a tocar quando
entrou no  escritrio.
-  para si - anunciou Ken, sorridente. - Ainda no pararam! Voc precisa de uma central telefnica.
 Recebeu telefonemas de jornais e de revistas nacionais, da televiso e de estaes de rdio que queriam fazer artigos  extensos sobre Jennifer. Tornara-se notcia
durante a noite. Houve outros telefonemas, do gnero daqueles com que ela ? sonhara. Firmas jurdicas que outrora a tinham recebido  mal, telefonavam-lhe agora
para lhe perguntarem quando  que lhe convinha marcar um encontro.  No seu escritrio do centro da cidade, Robert Di Silva  gritava ao seu primeiro ajudante.
 - Quero que abra uma ficha confidencial sobre Jennifer Parker. Quero ser informado de todos os clientes que ela  aceitar. Percebeu?
 - Sim, senhor.
 - Ponha-se a andar!
 - Ele j no  nenhum pobretanas e eu sou um principiante.  Tem trabalhado com o crdito durante toda a vida.  - O safado veio dar-me graxa e pediu-me que interviesse
junto de Mike. Eu respondi-Lhe: Olha, pesano, sou apenas um soldado, sabes?" Se Mike precisa de outro atirador, no tem necessidade de o procurar no meio da merda.
 - Ele estava a tentar levar-te, Sal.
 - Bom, eu lixei-o bem. Ele no tem conhecimentos e, neste negcio, quem no tem conhecimentos no  nada.
 Estavam a conversar na cozinha de uma casa de campo de estilo holands com trezentos anos de idade, no norte do  estado de New Jersey.  Encontravam-se trs deles
no compartimento: Nick Vito, Joseph Colella e Salvatore Florzinha" Fiore.  Nick Vito era um indivduo de ar cadavrico, com lbios finos quase invisveis, e cavados
olhos verdes mortios.  Calava sapatos de duzentos dlares e pegas brancas.  Joseph Big Joe" Colella era uma gigantesca laje humana, um monlito de granito e,
quando caminhava, parecia um edifcio em movimento. Um dia tinham-lhe chamado horta. .?Colella tem nariz de batata, orelhas de couve-flor e  crebro do tamanho
de uma ervilha. "  Colella tinha uma voz suave e de tom elevado, e bons modos ilusrios. Possua um cavalo de corrida e tinha uma habilidade fantstica para acertar
nos vencedores. Era um chefe de famlia com mulher e seis filhos. As suas  especialidades eram as armas, o cido e as correntes. A  mulher de Joe, Carmelina, era
catlica praticante e aos domingos,  quando no trabalhava, Colella levava sempre a famlia   igreja.  O terceiro homem, Salvatore Fiore, era quase ano. Media
um metro e meio e pesava cinquenta e sete quilos. Tinha o rosto inocente de um menino de coro e era to hbil com armas de fogo como com uma faca. As mulheres sentiam-se
extraordinariamente atradas por este homenzinho, que se gabava de ter mulher, meia dzia de amigas e uma bela amante. Fiore j fora jockey, e correra em todas
as pistas desde Pimlico at Tijuana. Quando o comissrio das corridas de Hollywood Park interditou Fiore por ter drogado um cavalo, o ,_corpo do comissrio foi
encontrado a flutuar no lago Tahoe, uma semana mais tarde.  Os trs homens eram soldati da Famlia de Antonio Granelli,  mas fora Michael Moretti que os levara
para l, e eles pertenciam-lhe de corpo e alma.  Na sala de jantar estava a decorrer uma reunio de Famlia. Sentados  cabeceira da mesa, encontrava-se Antonio
Granelli,  capo da mais poderosa Famlia da Mafia da Costa Oriental. Com  setenta e dois anos de idade, conservava ainda um aspecto vigoroso, com os ombros e o
peito largos como os de um trabalhador, e uma juba branca. Nascido em Palermo, na Siclia, Antonio Granelli viera para a Amrica aos quinze anos e fora trabalhar
para o cais, na zona ocidental, no sul de Manhattan. Aos vinte e um anos, era o brao direito do chefe das docas. Os dois homens tiveram uma discusso e, quando
o chefe desapareceu misteriosamente, Antonio Granelli tomou o seu lugar. Quem quisesse trabalhar nas docas tinha de lhe pagar. Utilizara o dinheiro para iniciar
a sua ascenso para  o poder, e progredira rapidamente, alargando as suas  actividades ao emprstimo de dinheiro a juros e s apostas  ilcitas,  prostituio,
 droga e ao assassnio. Ao longo dos anos,  tinha sido processado trinta e duas vezes e condenado apenas uma, por assalto menor. Granelli era um homem cruel, com
a astcia prtica de um campnio e uma total amoralidade.   esquerda de Granelli encontrava-se Thomas Colfax, o consigliere da Famlia. H vinte e cinco anos atrs,
Colfax tivera um futuro brilhante como advogado corporativo, mas defendera uma pequena companhia de azeite que mais tarde se descobriu ser controlada pela Mafia
e, pouco a pouco, foi sendo seduzido a tratar de outras causas para a Mafia at  que, por fim, com o decorrer dos anos, a Famlia Granelli passou a ser o seu nico
cliente. Era um cliente muito lucrativo e Thomas Colfax tornou-se um homem rico, possuidor de herdades  realmente extensas e tinha contas bancrias em todo o mundo.
  direita de Antonio Granelli estava Michael Moretti, seu genro. Michael era ambicioso, caracterstica essa que  enervava Granelli. Michael no se ajustava ao
padro da  Famlia. O seu pai, Giovanni, um primo afastado de Antonio Granelli, tinha nascido no na Siclia, mas sim em Florena. Isso s contribua para tornar
suspeita a Famlia Moretti - toda a gente sabia que no se podia confiar nos Florentinos.  Giovanni Moretti viera para a Amrica e abrira uma  sapataria, que geria
honestamente, sem ter sequer uma sala  nas traseiras para jogo, usura ou prostitutas. O que fazia dele  um estpido.  O filho de Giovanni, Michael, era completamente
diferente.  Frequentara Yale e a Escola Comercial Wharton. Quando Michael terminou os estudos, fez um pedido ao pai: queria conhecer o seu parente afastado, Antonio
Granelli. O velho sapateiro foi falar com o primo e combinou-se o encontro. Granelli estava convencido de que Michael ia pedir-lhe um emprstimo para poder meter-se
num negcio qualquer, talvez  abrir uma sapataria como o pateta do pai. Mas o encontro revelara-se uma surpresa.
 - Sei como faz-lo enriquecer - comeou Michael Moretti.  Antonio Granelli olhou para o jovem descarado e sorriu, tolerante.
 - J sou rico.
 - No. Est  convencido de que  rico.
 O sorriso desvaneceu-se.
 - De que raio ests tu a falar, garoto?
 E Michael Moretti explicou-lhe.
 A princpio, Antonio Grane? fora muito cauteloso,  analisando todos os conselhos de Michael. Tudo correra muito bem. Enquanto que at a, a Famlia Granelli tinha
estado envolvida em vantajosas actividades ilegais, sob a orientao de Michael Moretti comeou a expandir-se. Dentro de cinco anos a Famlia estava metida em dzias
de negcios legais, incluindo carne enlatada, fornecimento de roupas,  restaurantes, companhias de camies de transporte e produtos  farmacuticos. Michael descobriu
empresas aflitas que  necessitavam de financiamentos e a Famlia entrava nelas como  scio menor e, a pouco e pouco, tomava conta delas, despojando-as de todos
os fundos existentes. Antigas companhias com  reputaes impecveis encontraram-se de sbito na bancarrota. Desde que um negcio apresentasse um lucro satisfatrio,
Michael deitava-lhe a mo e aumentava tremendamente os lucros pois, nesses negcios, os trabalhadores eram  controlados pelos sindicatos dele, e a companhia segurava-os
 numa das companhias de seguros pertencentes  Famlia, e compravam  os seus carros a um dos vendedores de automveis da ?Famlia. Michael criou um gigante simbitico,
uma srie de negcios atravs dos quais o consumidor era constantemente ordenhado - e o leite corria para a Famlia.  Apesar dos seus xitos, Michael Moretti reconhecia
que tinha um problema. Uma vez que mostrara a Antonio Granelli os ricos e propcios horizontes da empresa legal, Granelli j no precisava dele. Saa-lhe caro porque,
a princpio, ele  tinha persuadido Antonio Granelli a dar-lhe uma percentagem, a qual todos estavam convencidos de que seria muito  insignificante. Mas,  medida
que as ideias de Michael  Moretti comearam a dar frutos e os lucros aumentaram, Granelli pensou duas vezes. Michael soube por acaso que Granelli tinha  feito uma
reunio para discutir o que  que a Famlia havia de fazer dele.
 - No me agrada ver todo este dinheiro a ir para o garoto - dissera Granelli. - Temos de nos livrar dele.  Michael lograra aquele esquema ao casar na Famlia.
Rosa, a filha nica de Antonio Granelli, tinha dezanove anos. A me morrera ao d-la  luz; Rosa tinha sido educada num convento e s vinha a casa durante as frias
 O pai adorava-a e fazia tudo para a proteger e resguardar. Foi durante umas frias, numa Pscoa, que Rosa conheceu Michael Moretti. Quando regressou ao convento,
estava loucamente apaixonada  por ele. A recordao do seu aspecto moreno levava-a a fazer coisas, quando estava sozinha, que as freiras lhe  diziam serem pecados
contra Deus.  Antonio Granelli sentia-se desiludido por a filha o  considerar apenas um homem de negcios bem sucedido mas, com  o rodar dos anos, as condiscpulas
de Rosa foram-lhe mostrando  artigos de jornal e de revistas sobre o seu pai e sobre o seu verdadeiro negcio, e sempre que o governo fazia uma  tentativa para
processar e condenar um dos membros da Famlia Granelli, Rosa era sempre posta a par. Nunca discutia esse assunto com o pai, e assim ele continuou feliz com a
convico de que a filha era uma inocente e que lhe tinham  poupado o choque de conhecer a verdade.  A verdade, se ele a tivesse descoberto, teria surpreendido
Granelli, pois Rosa achava o negcio do pai terrivelmente excitante. Detestava a disciplina das freiras do convento e isso, por sua vez, levou-a a detestar toda
e qualquer autoridade. Nos seus devaneios, via o pai como uma espcie de  Robin dos Bosques, provocando a autoridade, desafiando o governo. O facto de Michael Moretti
ser um homem importante na  organizao do pai, tornava-o ainda mais excitante para ela.  Desde o incio, Michael foi muito cuidadoso com o modo como tratava Rosa.
Quando conseguia estar a ss com ela, trocavam beijos e abraos ardentes, mas Michael nunca tentou  ir longe de mais. Rosa era virgem e desejava - impaciente -
 entregar-se ao homem que amava. Foi Michael quem ofereceu resistncia.
 - Respeito-te demasiado, Rosa, para ir contigo para a cama antes de estarmos casados.
 Na realidade, era Antonio Granelli que ele respeitava  demasiado. Ele cortava-me os tomates?,, pensava Michael.  E assim aconteceu que, na altura em que Antonio
Granelli estava a discutir a melhor maneira de se livrar de Michael Moretti, Michael e Rosa foram procur-lo para lhe anunciarem  que estavam apaixonados e que
tencionavam casar. O velho gritou e enfureceu-se e apresentou uma centena de  motivos pelos quais isso s aconteceria por cima do cadver  de algum. Mas, por fim,
o verdadeiro amor triunfou e Michael e Rosa casaram numa cerimnia cuidadosamente preparada.  Depois do casamento, o velho chamara Michael de lado.
 - Rosa  tudo o que me resta, Michael.  melhor que a faas feliz. Sabes o que quero dizer, Mike?
 - Sei.
 - Nem putas nem amantes. Entendido? Rosa gosta de cozinhar. Faz por ir jantar todas as noites a casa. Quero orgulhar-me  de te ter como genro.
 - Vou fazer os impossveis, Tony.
 -Ah, a propsito, Mike - dissera Antonio Granelli, como por acaso -, agora que s membro da Famlia, aquela percentagem que te dei. . . talvez devssemos alter-la.
 Michael deu-lhe uma pancadinha no brao.
 - Obrigado, Pap, mas chega-nos muito bem. Poderei comprar a Rosa tudo o que ela quiser.
 E afastara-se, deixando o velho de olhos arregalados. Aquilo passara-se sete anos atrs e os anos que se seguiram foram maravilhosos para Michael. A vida com Rosa
era  agradvel e fcil e ela adorava-o, mas Michael sabia que se  ela morresse ou se o abandonasse, passaria bem sem ela.  Precisaria apenas de encontrar algum
para fazer aquilo que  ela lhe
fazia. No amava Rosa. Michael no se achava capaz de amar 'outro ser humano; era como se lhe faltasse qualquer coisa.  No tinha sentimentos pelas pessoas, s
pelos animais. Quando Michael fizera dez anos, tinham-lhe oferecido um cachorrinho pastor escocs. Os dois eram inseparveis. Seis semanas mais tarde, o co tinha
sido atropelado e o condutor fugira; e quando o pai de Michael se ofereceu para lhe  comprar outro co, Michael recusara. Depois disso, no voltou  a ter mais nenhum
co.  Michael tinha crescido vendo o pai trabalhar como um escravo  para ganhar alguns tostes, e Michael decidira que isso nunca iria suceder-lhe. Tinha sabido
o que queria desde o momento em que ouvira falar pela primeira vez no seu famoso  primo afastado, Antonio Granelli. Havia vinte e seis Famlias  de Mafia nos Estados
Unidos, cinco delas na cidade de Nova Iorque, e a do seu primo Antonio era a mais poderosa. Desde a mais tenra infncia que Michael ouvira contar  histrias da
Mafia. O pai falara-Lhe sobre a noite das  Vsperas Sicilianas, em dez de Setembro de mil novecentos e trinta e um, em que a balana do poder mudara de mos. Nessa
nica noite, os Jovens Turcos da Mafia organizaram um golpe  sangrento que aniquilou mais de quarenta Mustache Petes, a  velha guarda que viera da Itlia e da Siclia.
 Michael pertencia  nova gerao. Tinha-se libertado da antiga mentalidade e introduzira ideias novas. Uma comisso nacional de nove homens controlava agora todas
as Famlias, e Michael sabia que um dia havia de dirigir essa comisso.  Michael estava agora a observar os dois homens sentados  mesa da sala de jantar da casa
de campo de New Jersey.  Antonio Granelli ainda viveria durante alguns anos mas, com sorte, no seriam muitos.  Thomas Colfax era o inimigo. O advogado estivera
contra Michael desde o princpio. A medida que aumentava a  influncia de Michael sobre o velho, diminua a de Colfax.  Michael tinha trazido cada vez mais homens
dos seus para a Organizao, homens como Nick Vito, Salvatore Fiore e Joseph Corella, que lhe eram inteiramente fiis. Thomas  Colfax no gostara disso.  Quando
Michael foi acusado dos assassnios dos irmos Ramos, e Camillo Stela concordou em testemunhar contra ele no tribunal, o velho advogado tinha acreditado que ia
 finalmente ver-se livre de Michael, pois o Procurador  Distrital tinha preparado o caso com o mximo cuidado.  Durante a noite, Michael planeou uma maneira de
se safar. s quatro da manh, foi a uma cabina e telefonou a Joseph Colella.
 - Na prxima semana, alguns advogados recm-formados vo prestar juramento na equipa do Procurador Distrital.
Podes arranjar-me os nomes deles?
 -  claro, Mike.  fcil.
 - Mais uma coisa. Telefona para Detroit e diz-lhes que metam um novato num avio - um dos rapazes deles que nunca tenha sido preso. - E Michael desligou.
 Duas semanas mais tarde, Michael Moretti estivera sentado na sala de audincias a observar os novos ajudantes do  Procurador Distrital. Estudara-os com muito cuidado,
passando  os olhos de rosto em rosto, procurando e julgando. Aquilo que tinha idealizado fazer era perigoso, mas a grande audcia do plano poderia dar resultado.
Estava a lidar com jovens  principiantes que estariam demasiado nervosos para fazerem  muitas perguntas, e ansiosos por serem teis e por se tornarem  notados.
Bem, algum iria certamente tornar-se notado.  Por fim, Michael escolhera Jennifer Parker. Agradou-Lhe o facto de ela ser inexperiente, de estar tensa, mas de
procurar dissimul-lo. Agradou-lhe o facto de se tratar de uma mulher e de ser mais impressionvel do que os homens. Quando Michael se deu por satisfeito com a
sua deciso, voltou-se para um homem vestido de cinzento que se encontrava sentado  entre os espectadores e fez um sinal com a cabea na direco  de  Jennifer.
Foi tudo.  Michael ficou muito atento quando o Procurador Distrital terminou o seu interrogatrio quele filho da puta, Camillo Stela. Tinha-se voltado para Thomas
Colfax e dito: A  testemunha  sua. Thomas Colfax pusera-se de p.  quase meio-dia. Se Vossa Honra autoriza, preferia que o meu contra- interrogatrio no fosse
interrompido. Posso pedir que o  tribunal seja suspenso agora para o almoo e que eu contra- interrogue durante a tarde,  E fora anunciado um intervalo. Era agora
o momento!  Michael viu o seu homem caminhar como por acaso para se juntar aos homens que rodeavam o Procurador Distrital. O
homem misturou-se com o grupo. Passados alguns momentos,  aproximou-se de Jennifer e estendeu-lhe um grande  sobrescrito. Michael deixou-se ficar sentado, contendo
a  respirao, desejando que Jennifer pegasse no sobrescrito e  se dirigisse para a sala das testemunhas. Foi o que ela fez.  S quando a viu regressar de mos
vazias  que Michael Moretti sossegou.  Isso passara-se h um ano. Os jornais tinham mortificado a rapariga, mas o problema era dela. Michael no voltara a pensar
em Jennifer Parker at que, h pouco tempo, os jornais tinham comeado a publicar artigos sobre o julgamento de Abraham Wilson. Tinham desenterrado o velho caso
Michael Moretti e o papel que Jennifer Parker desempenhara nele. Tinham publicado a fotografia dela. Era uma rapariga  deslumbrante, mas havia mais qualquer coisa
- existia nela um ar de independncia que o excitava. Contemplou a fotografia durante muito tempo.  Michael comeou a seguir o julgamento de Abraham Wilson com
 um interesse cada vez maior. Durante o jantar que os rapazes tinham organizado para festejar a vitria, aps ter sido declarada a anulao do processo de Michael,
Salvatore Fiore propusera um brinde: O mundo viu-se livre de mais uma maldita advogada.  Mas o mundo no se tinha livrado dela, pensou Michael. Jennifer Parker
tinha regressado, cheia de fora, e disposta  a lutar. Michael gostou disso.  Tinha-a a visto na televiso, na noite anterior, discutindo a sua vitria sobre Robert
Di Silva, e Michael ficara  estranhamente satisfeito.
 - No  a advogada que tu ludibriaste, Mike? - perguntara  Antonio Granelli.
 - , . Ela tem miolos, Tony. Talvez possamos servir-nos dela um dia destes.
 No dia seguinte ao veredicto de Abraham Wilson, Adam Warner telefonou.
 - Telefonei apenas para a felicitar.
 Jennifer reconheceu-lhe imediatamente a voz, e isso afectou-a mais do que imaginava ser possvel.
 - Fala. . .
 -Eu sei. Meu Deus, pensou Jennifer. Porque terei dito isto,  No havia motivos para dar a entender a Adam quantas vezes pensara nele durante os ltimos meses.
 - Queria dizer-lhe que achei que conduziu a causa Abraham  Wilson de uma forma brilhante. Voc merecia ganh-la.
 -Obrigada. .?Vai desligar?,, pensou Jennifer. Nunca mais voltarei a v-lo. Provavelmente anda demasiado ocupado  com o seu harm."
 - Estava a pensar se gostaria de vir jantar comigo uma noite destas - dizia Adam Warner.
 Os homens detestam as raparigas demasiado impacientes."
 - Pode ser esta noite?
 Jennifer notou-lhe o sorriso na voz.
 - Receio que a minha primeira noite livre seja na sexta-feira. Est ocupada?
 - No. - Quase respondeu:  claro que no.?,
 - Quer que a v buscar a casa?
 Jennifer pensou no seu pequeno e triste apartamento com o sof enrugado, na tbua de engomar armada a um canto.
 - Ser melhor encontrarmo-nos em qualquer lado.
 - Gosta da comida do Lutce?
 - Posso responder-lhe depois de l ter ido?
 Ele riu.
 - Que tal s oito horas?
 - s oito horas est perfeito.
 Perfeito. Jennifer pousou o auscultador e deixou-se ficar sentada, invadida por uma sensao de euforia. Isto  ridculo", pensou ela. Se calhar  casado e tem
duas dzias  De filhos." Uma das primeiras coisas que Jennifer notara em Adam, quando tinham jantado juntos,  que ele no usava aliana.  uma prova inconcludente",
pensou desapontada. Devia existir uma lei que obrigasse todos os maridos a usar 'aliana. "  Ken Bailey entrou no escritrio.
 - Como est a advogada-chefe? - Olhou-a com mais ateno. - Est com o ar de quem acaba de engolir um cliente.
 - Ken, quer fazer-me uma investigao sobre uma pessoa? -  pediu Jennifer aps uma ligeira hesitao.
 Ele aproximou-se da secretria dela, pegou num bloco e num lpis.
 - Estou pronto. Quem ?
 Ela comeou a dizer o nome de Adam, mas depois parou sentindo-se idiota. Que direito tinha ela de se intrometer na vida privada de Adam Warner? Pelo amor de Deus,
disse para com os seus botes, ele s te convidou para jantar,  no te pediu que casasses com ele." - Deixa l.  Ken pousou o lpis.
 - Como queira.
 - Ken. . .
 - Sim?
 - Adam Warner. Chama-se Adam Warner.
 Ken olhou-a surpreendido.
 - Que diabo, voc no precisa que eu faa uma investigao  sobre ele. Basta ler os jornais.
 - O que sabe a esse respeito?
 Ken Bailey deixou-se cair pesadamente numa cadeira, em frente de Jennifer, e juntou os dedos.
 - Vejamos.  scio da Needham, Finch, Pierce e Warner; Faculdade de Direito de Harvard; pertence a uma abastada famlia da alta sociedade; deve ter trinta e tal
anos. . .  Jennifer olhou-o com curiosidade.
 - Como  que sabe tantas coisas sobre ele?  Ele pestanejou.
 - Tenho amigos que ocupam lugares importantes. Diz-se que vo propor Mr. Warner para candidato ao Senado dos Estados Unidos. Diz-se at que tencionam candidat-lo
s presidenciais. Ele possui aquilo a que chamam carisma.
Certamente que sim,? pensou Jennifer. Tentou que a sua prxima pergunta parecesse natural.
 - E sobre a sua vida privada?
 Ken Bailey olhou-a com uma expresso de estranheza.
 -  casado com a filha de um ex-Secretrio da Marinha.  sobrinha de Stewart Needham, o scio de Warner.
 Jennifer sentiu-se desanimar. Ento era isso.
 Ken estava a observ-la, intrigado.
 - Porqu este sbito interesse em Adam Warner?
 - Simples curiosidade  Muito depois de Kan Bailey se ter ido embora, Jennifer continuava sentada, pensando em Adam. Convidou-me para jantar por deferncia profissional.
Quer felicitar-me. Mas j o fez pelo telefone. Que importa? Vou v-lo outra vez. Pergunto  a mim mesma se ir lembrar-se de me dizer que  casado.  claro que no.
Bom, vou jantar com Adam na sexta-feira  noite e depois acaba tudo."  Ao fim daquela tarde, Jennifer recebeu um telefonema da Peabody & Peabody. Era do prprio
scio principal.
 - Tenho andado a pensar nisto h algum tempo - disse ele. - Gostava de saber se a senhora e eu poderamos almoar  juntos um dia destes.
 O seu tom informal no enganou Jennifer. Tinha a certeza de que a ideia de almoar com ela no lhe ocorrera seno depois de ter lido a respeito da sentena de
Abraham Wilson. Certamente que no queria encontrar-se com ela para discutir a distribuio de intimaes.
 - Pode ser amanh? - sugeriu ele. - No meu Clube.
 No dia seguinte encontraram-se para almoar. O Peabody mais velho era um indivduo plido e afectado, uma verso mais antiga do filho. O colete no conseguia esconder-lhe
uma barriga incipiente. Jennifer simpatizou to pouco com o pai como simpatizara com o filho.
 - Temos uma vaga na nossa empresa para um advogado jovem e inteligente, Miss Parker. Para comear, podemos oferecer-Lhe quinze mil dlares por ano.
 Enquanto o ouvia falar, Jennifer ia pensando no que aquela oferta teria significado para ela h um ano atrs, quando  precisara desesperadamente de um emprego,
quando precisara de algum que acreditasse nela.
 - Tenho a certeza de que, dentro de alguns anos, poder tornar-se scia da nossa firma - dizia ele.
 Quinze mil dlares por ano e sociedade.?, Jennifer pensou no pequeno escritrio que partilhava com Ken, e no seu  minsculo e pobre apartamento, num quarto andar
sem elevador,  com a lareira fingida.  Mr. Peabody entendeu o silncio dela como um consentimento.
 - Bom. Gostaramos que comeasse o mais depressa possvel.
Talvez pudesse comear na segunda-feira. Eu. . .
 - No.
 - Oh ! Bem, se no Lhe convm na segunda-feira. . .
 - No, no posso aceitar a sua proposta, Mr. Peabody -  respondeu Jennifer, para seu prprio espanto.
 - Compreendo. - Seguiu-se uma pausa. - Talvez pudssemos  comear com vinte mil dlares por ano.- Reparou na expresso do rosto dela. - Ou vinte e cinco mil. Porque
no pensa bem?
 - J pensei bem. Vou continuar a trabalhar sozinha.
 Os clientes comeavam a aparecer. No eram muitos nem muito ricos, mas eram clientes. O escritrio estava a tornar-se demasiado pequeno para ela.  Uma manh, depois
de Jennifer ter feito esperar dois  clientes na entrada, enquanto se ocupava de um terceiro, Ken
disse-lhe:
 - Isto assim no pode ser. Voc tem de sair daqui e arranjar  um escritrio decente na parte alta da cidade.
 Jennifer fez um sinal de aquiescncia com a cabea.
 - Eu sei. Tenho andado a pensar nisso.
 Ken debruou-se sobre alguns papis, para no ser obrigado a  olhar para ela.
 - Vou sentir a sua falta.
 - O que  que est para a a dizer? Voc vai comigo.
 Ele demorou alguns momentos a compreender o significado daquelas palavras. Ergueu o olhar e um sorriso aberto  enrugou-lhe o rosto sardento.
 - Ir consigo? - Olhou em redor da sala exgua e sem janelas. - E abandonar tudo isto?
 Na semana seguinte, Jennifer e Ken Bailey mudaram-se para um escritrio maior, no quarteiro quinhentos da Quinta Avenida. As novas instalaes estavam mobiladas
com  simplicidade e compunham-se de trs salas pequenas: uma para Jennifer, outra para Ken e a terceira para uma secretria.  A secretria que contrataram era uma
rapariga chamada Cynthia Ellman, acabada de sair da Universidade de Nova Iorque.
 - Por agora no vai ter muito que fazer - desculpou-se Jennifer -, mas as coisas iro aparecendo.
 - Oh, claro que sim, Miss Parker. - A voz da rapariga transparecia venerao pela herona.
 Quer ser como eu?,, pensou Jennifer. Que Deus no o permita ! "
 Ken Bailey entrou e disse:
 - Olhe, sinto-me sozinho naquele enorme gabinete. E se esta noite fssemos jantar e depois ao teatro?
 - Receio que. . . - Estava cansada e tinha algumas  instrues para ler, mas Ken era o seu melhor amigo e no  podia dizer-lhe que no.
 - Adorava ir.
 Foram ver Aplauso, e Jennifer gostou imenso. Lauren Bacall  era completamente fascinante. Depois, Jennifer e Ken foram cear ao Sardi ' s.
 - Tenho dois bilhetes para o ballet, sexta-feira  noite -  disse Ken, depois de terem encomendado a ceia. - Pensei que pudssemos. . .
 - Lamento, Ken - interrompeu Jennifer. - Na sexta-feira   noite estou ocupada.
 - Ah! - A sua voz saiu estranhamente desinteressada.
 De vez em quando Jennifer surpreendia Ken a observ-la, quando pensava que ela no o estava a ver, e havia no seu rosto uma expresso que Jennifer no conseguia
definir. Sabia que Ken vivia sozinho, embora ele nunca falasse sobre nenhum  dos seus amigos nem comentasse a sua vida privada. Ela no podia esquecer aquilo que
Otto lhe contara, e  perguntava a si mesma se o prprio Ken saberia o que  pretendia da vida. Desejava poder ajud-lo de qualquer maneira.  Jennifer tinha a impresso
de que nunca mais chegava sexta- feira.  medida que se aproximava o dia do jantar com Adam Warner, Jennifer sentia cada vez mais dificuldade em se concentrar no
trabalho. Deu consigo a pensar  constantemente em Adam. Reconhecia que estava a ser ridcula.  Tinha visto o homem uma nica vez em toda a sua vida, e no entanto
 no conseguia afast-lo do esprito. Tentou pensar friamente  e convencer-se de que era por ele a ter salvo quando estivera quase a ser excluda da Ordem dos Advogados,
e por  em seguida lhe ter mandado clientes. Isso era verdade, mas  Jennifer sabia que era mais do que isso. Era algo que no  conseguia explicar, nem sequer a si
mesma. Era um sentimento  que nunca experimentara antes, uma atraco que nunca tinha  sentido por nenhum outro homem. Procurava imaginar como seria  a mulher de
Adam Warner. Era, sem dvida, uma das mulheres eleitas que, todas as quartas-feiras, transpunham a porta vermelha de Elizabeth Arden para, durante um dia  inteiro,
se embelezarem dos ps  cabea. Devia ser  insinuante e sofisticada, com a aura requintada da alta sociedade.  Na sexta-feira mgica, s dez horas da manh, Jennifer
fez uma marcao para um novo cabeleireiro italiano onde Cynthia  Lhe dissera que iam os modelos. s dez e meia, Jennifer telefonou a cancel-la. s onze, fez de
novo a marcao.  Ken Bailey convidou Jennifer para almoar, mas esta sentia-se demasiado nervosa para conseguir comer. Em vez disso, foi  s compras ao Bendel's,
onde adquiriu um vestido curto de chiffon verde-escuro que se harmonizava com a cor dos seus olhos, um par de elegantes sapatos castanhos e uma bolsa a condizer.
Sabia que estava a ir alm das suas posses, mas no conseguia parar.   sada, passou pela seco de perfumaria e, num impulso louco, comprou um frasco de perfume
Joy. Era uma loucura porque o homem era casado.  Jennifer saiu do escritrio s cinco horas e foi a casa mudar de roupa. Passou duas horas a tomar banho e a vestir-se
para Adam e, quando terminou, olhou-se ao espelho com ar crtico.  Ento, como num desafio, desmanchou o cabelo cuidadosamente  penteado e atou-o com uma fita verde.
Est melhor assim", pensou ela. Sou uma advogada que vai jantar com outro advogado.,. Mas, quando fechou a porta,  sada, deixou  atrs de si uma suave fragrncia
de rosas e jasmim.  O Lutce no era aquilo que Jennifer imaginara. Uma bandeira  francesa flutuava por cima da entrada da pequena casa citadina. L dentro, um
trio estreito conduzia a um pequeno bar e, por trs, havia um solrio claro e alegre, com  mobilirio de verga e toalhas aos quadrados. Jennifer foi  recebida
 entrada pelo proprietrio, Andr Soltner.
 - Posso ser-lhe til?
 - Venho encontrar-me com Mr. Adam Warner. Creio que cheguei cedo de mais.
 Ele indicou a Jennifer o pequeno bar.
 - Quer tomar uma bebida enquanto espera, Miss Parker?
 - Seria agradvel - respondeu Jennifer. - Obrigado.
 - J Lhe mando um empregado.
 Jennifer sentou-se e divertiu-se a observar as mulheres  cobertas de jias e envoltas em peles de marta, que chegavam com os seus acompanhantes. Jennifer tinha
lido e ouvido falar do Lutce. Era conhecido por ser o restaurante favorito de Jacqueline Kennedy e por ter uma comida excelente.  Um homem com aspecto distinto
e de cabelo grisalho  aproximou-se de Jennifer.
 - Posso fazer-lhe companhia por um momento? - perguntou ele.  Jennifer endireitou-se.
 - Estou  espera de algum - comeou ela. - Ele devia estar aqui. . .
 Ele sorriu e sentou-se.
 -Isto no  um convite, Miss Parker. - Jennifer olhou-o, surpreendida, incapaz de o reconhecer. - Sou Lee Browning, da Holland and Browning. - Era uma das mais
prestigiosas firmas jurdicas de Nova iorque. - Quero apenas felicit-la pelo modo como conduziu o julgamento Wilson.
 - Obrigada, Mr. Browning.
 - A senhora correu um grande risco. Era uma causa perdida. -  Observou-a durante um momento. - A regra  que quando se est do lado errado de uma causa perdida,
devemos assegurar-nos de que  uma causa onde no haja publicidade envolvida. O truque  iluminar os vencedores e esconder os vencidos. A senhora enganou muitos
de ns. J pediu alguma
bebida?
 -No...
 - Posso...? - Fez um sinal a um empregado. - Victor,
traz-nos uma garrafa de champanhe, est bem? Dom Perignom.
 -  para j, Mr. Browning.
 Jennifer sorriu.
- Est a tentar impressionar-me?
 Ele riu em voz alta.
 - Estou a tentar contrat-la. Suponho que deve estar a receber muitas propostas.
 - Algumas.
 - A nossa empresa ocupa-se quase sempre de questes corporativas, Miss Parker, mas alguns dos nossos clientes mais ricos excedem-se com frequncia e necessitam
de um advogado de defesa de Direito Penal. Creio que poderamos fazer-lhe uma proposta muito tentadora. Importa-se de passar pelo meu escritrio para discutirmos
este assunto?
 - Obrigada, Mr. Browning. Sinto-me muito lisonjeada, mas acabo de me mudar para o meu prprio escritrio. Tenho esperana que resulte.  Ele olhou-a longamente.
 - Vai resultar. - Ergueu os olhos quando algum se aproximou e, pondo-se de p, estendeu a mo. - Adam, como ests?
 Jennifer levantou o olhar e viu Adam Warner apertando a mo a Lee Browning. O corao de Jennifer comeou a bater mais depressa e sentiu-se corar. Rapariguinha
idiota?  Adam Warner olhou para Jennifer e para Browning e perguntou:
 - Conhecem-se?
 - Estamos a comear a conhecer-nos - respondeu Lee Browning, com um grande -vontade. - Chegaste um pouco cedo de mais.
 - Ou mesmo a tempo. - Pegou no brao de Jennifer. - Desejo- te melhor sorte para a prxima vez, Lee.
 O chefe aproximou-se de Adam.
 - Quer a sua mesa agora, Mr. Warner, ou prefere tomar primeiro uma bebida no bar?
 - Vamos j para a mesa, Henri.
 Quando se sentaram, Jennifer percorreu a sala com os olhos e reconheceu meia dzia de celebridades.
 - Este lugar  como um quem  quem - comentou.
 Adam olhou para ela.
 - Agora .
 Jennifer sentiu-se corar de novo. Pra com isso, louca.?, Pensava em quantas outras raparigas Adam tinha levado ali, enquanto a mulher ficava em casa, esperando
por ele.  Interrogava-se se alguma delas teria chegado a saber que ele  era casado, ou se ele teria conseguido ocultar-lhes sempre esse facto. Bom, ela tinha uma
vantagem. Vai ter uma surpresa, Mr. Warner", pensou Jennifer.  Encomendaram bebidas, pediram o jantar e iniciaram uma conversa banal. Jennifer deixou que Adam falasse
a maior parte do tempo. Era espirituoso e fascinante, mas ela estava escudada contra o seu fascnio. No era fcil. Deu consigo a sorrir das suas anedotas, a rir
das suas histrias.  No vai lucrar nada com isso", pensou Jennifer. Ela no estava  procura de uma aventura. O espectro da me  perseguia-a. Havia no ntimo de
Jennifer uma paixo profunda  que ela receava explorar, que receava libertar.  Tinham chegado  sobremesa e Adam ainda no pronunciara uma  nica palavra que pudesse
ser mal interpretada. Jennifer  tinha erguido as suas defesas para nada, evitando um ataque  que no chegara a materializar-se, e sentia-se uma idiota. Perguntava
a si mesma o que teria dito Adam se soubesse no que ela tinha pensado durante toda a noite. Jennifer sorriu  da sua prpria presuno.
 - Ainda no tive oportunidade de lhe agradecer os clientes que me mandou - disse Jennifer. - Telefonei-lhe vrias vezes, mas. . .
 - Eu sei - Adam hesitou. Mas depois acrescentou  desajeitadamente. - No quis responder aos seus telefonemas -  Jennifer olhou-o, surpreendida. - Tive medo - declarou
com simplicidade.
 A estava. Apanhara-a de surpresa, desprevenida, mas a sua inteno era inequvoca. Jennifer sabia o que ia seguir-se. E no queria que ele o dissesse. No queria
que ele fosse como todos os outros, os homens casados que se faziam passar  por solteiros. Ela desprezava-os e no queria desprezar este homem.  Adam disse, muito
calmo:
 - Jennifer, quero que saiba que sou casado. - Ela ficou a contempl-lo, de boca aberta. Ele, prosseguiu: - Lamento.
Devia ter-lho dito mais cedo. - Esboou um sorriso forado .
- Bem, mas na verdade no houve mais cedo, pois no  Jennifer sentia-se estranhamente confusa.
 - Por... por que motivo me convidou para jantar, Adam?
 - Porque precisava de v-la outra vez.
Tudo comeou a parecer irreal a Jennifer. Era como se  estivesse a ser arrastada por uma onda gigantesca. Estava ali  a ouvir Adam dizer-Lhe tudo o que sentia,
e ela sabia que as suas palavras eram verdadeiras. Sabia-o porque sentia o mesmo que ele. Queria que ele parasse antes que falasse de mais. Queria que ele continuasse
e dissesse mais coisas.
 - Espero no estar a ofend-la - observou Adam.
 Transpareceu nele uma sbita timidez que deixou Jennifer perturbada.
 - Adam, eu... eu...
 Ele olhou-a e, embora no se tivessem tocado, era como se ela se encontrasse nos seus braos.
 - Fale-me da sua mulher - pediu Jennifer com voz trmula.
 - Mary Beth e eu estamos casados h quinze anos. No temos filhos.
 - Compreendo.
 - Ela. . . ns decidimos no os ter. ramos ambos muito jovens quando casmos. Eu j a conhecia h muito tempo. As nossas famlias eram vizinhas numa casa de vero
que tnhamos  em Maine. Quando ela tinha dezoito anos, os pais morreram num  desastre de aviao. Mary Beth quase ficou louca de dor. Estava completamente sozinha.
Eu. . . ns casmos.  Casou com ela por piedade e  demasiado educado para o confessar?, , pensou Jennifer.
 -  uma mulher maravilhosa. Demo-nos sempre muito bem.  Estava a contar a Jennifer mais do que ela queria saber, mais do que ela podia suportar. O seu instinto
dizia-lhe que se
fosse embora, que fugisse. Dantes, fora capaz de fazer frente aos homens casados que tinham tentado envolver-se com ela, mas Jennifer soube instintivamente que
este era diferente. Se se deixasse apaixonar por este homem, no haveria maneira de se libertar. Teria de ser louca para iniciar uma ligao com ele.  Jennifer
falou muito cautelosamente.
 - Adam, gosto muito de si. Mas no me envolvo com homens casados.
 Ele sorriu e os seus olhos, por trs dos culos, reflectiam honestidade e emoo.
 - No ando  procura de uma aventura fcil. Gosto de estar consigo. Tenho muito orgulho em si. Gostava que nos encontrssemos de vez em quando.
 Jennifer esteve tentada a dizer: Para que serviria isso'?~ mas as palavras que pronunciou foram:
 - Seria bom.
 Assim. almoaremos uma vez por ms,?, pensou Jennifer. No far mal nenhum.?,
 Uma das primeiras pessoas a visitar Jennifer no novo  escritrio foi o Padre Ryan. Percorreu as trs pequenas salas  e comentou:
 - Muito bonito, na verdade. Estamos a subir na vida,  Jennifer.
 Jennifer riu.
 - Isto no  exactamente subir na vida, Padre. Tenho um longo caminho a percorrer.
 Ele envolveu-a num olhar penetrante.
 - Voc h-de consegui-lo. A propsito, na semana passada fui  visitar Abraham Wilson.
 - Como est ele?
 - Est ptimo. Puseram-no a trabalhar na oficina mecnica da  priso. Pediu-me que lhe apresentasse os seus cumprimentos.
 - Tenho de o ir visitar um dia destes.
 O Padre Ryan sentou-se e ficou a olhar para ela at que Jennifer perguntou:
 - Posso ser-lhe til em alguma coisa, Padre?
 O rosto dele iluminou-se.
 - Ah, bom, sei que deve estar ocupada, mas, j que falo nisso, uma amiga minha est com um pequeno problema. Teve um desastre. Creio que voc  a pessoa indicada
para a  ajudar.
 - Diga-lhe que venha falar comigo, Padre - respondeu Jennifer automaticamente.
 - Acho que ter voc de ir a casa dela.  uma amputada qudrupla.
 Connie Garrett vivia num pequeno e asseado apartamento em Houston Street. A porta foi aberta a Jennifer por uma velhota de cabelos brancos que usava um avental.
 - Sou Martha Steele, a tia de Connie. Vivo com Connie. Entre, por favor. Ela est  sua espera.
 Jennifer entrou numa sala de estar pobremente mobilada. Connie Garrett encontrava-se numa grande poltrona, amparada  por almofadas. Jennifer ficou surpreendida
com a sua  juventude. Sem saber muito bem porqu, tinha esperado  encontrar uma mulher mais velha. Connie Garrett devia ter  vinte e quatro anos, a mesma idade
de Jennifer. Havia no seu rosto
um brilho espantoso, e Jennifer achou obsceno o facto de se tratar apenas de um tronco sem braos nem pernas. Reprimiu um estremecimento.  Connie Garrett esboou
um sorriso caloroso e disse:
 - Sente-se, por favor, Jennifer. Posso trat-la por  Jennifer? O Padre Ryan falou-me muito de si. E,  claro, vi-a  na televiso. Estou muito contente por ter
podido vir.  Jennifer ia replicar: O prazer foi todo meu, mas deu-se conta de como isso teria soado vazio. Sentou-se numa cadeira macia e confortvel em frente
da jovem.
 - O Padre Ryan disse-me que voc sofreu um acidente h alguns anos. Quer contar-me o que aconteceu?
 - Receio que a culpa tenha sido minha. la a atravessar um cruzamento, sa do passeio, escorreguei e ca  frente de um camio.
 - H quanto tempo foi isso?
 - Faz trs anos em Dezembro. la ao Bloomingsdale's fazer as  compras de Natal.
 - O que aconteceu depois de o camio a ter atropelado?
 - No me recordo de nada. Acordei no hospital. Disseram-me  que tinha sido levada para l de ambulncia. Tinha uma leso na coluna vertebral. Depois descobriram-me
uma leso nos ossos e continuou a espalhar-se at que. . . -  Calou-se e tentou encolher os ombros. Foi um gesto digno de piedade. - Tentaram adaptar-me membros
artificiais, mas no deram resultado comigo.
 - Intentou algum processo?
 Ela olhou para Jennifer, intrigada.
 - O Padre Ryan no lhe contou?
 - No me contou o qu?
 - O meu advogado processou a empresa pblica a que pertencia o camio que me atropelou, e perdemos a causa.
Interpusemos um recurso e perdemo-lo tambm.
 - Ele deveria ter-me falado nisso - disse Jennifer. - Se o tribunal de apelao rejeitou, receio que nada mais haja a fazer.
Connie Garrett aquiesceu com um movimento de cabea.  - Para dizer a verdade, no acredito que houvesse. Eu s pensei. . . bem, o Padre Ryan disse que voc conseguia
fazer
milagres.
 - Isso  da especialidade dele. Eu sou apenas advogada.
. Sentia-se irritada com o Padre Ryan por ter dado falsas esperanas a Connie Garrett. De mau humor, Jennifer decidiu que havia de ter uma conversa com ele.  A
mulher mais idosa continuava l atrs.
 - Posso oferecer-lhe alguma coisa, Miss Parker? Ch e bolo, talvez?
 De sbito, Jennifer descobriu que tinha fome, pois no  tivera tempo de almoar. Mas imaginou-se sentada em frente de Connie Garrett, enquanto ela era alimentada
 mo, e no pde suportar essa ideia.
 - No, obrigada - mentiu Jennifer. - Acabei agora de almoar.
 O que Jennifer queria era sair dali o mais depressa  possvel. Tentou pensar em qualquer observao animadora que pudesse deixar, mas no lhe ocorreu nada. Maldito
Padre Ryan '
 - Eu. . . eu lamento muito. Gostaria de. . .
 - Por favor, no se preocupe com isso - replicou Connie Garrett com um sorriso.
 Foi o sorriso que conseguiu tudo. Jennifer tinha a certeza de que, se estivesse no lugar de Connie Garrett, nunca mais teria coragem de sorrir.
 - Quem era o seu advogado? - ouviu-se Jennifer perguntar.
 - Melvin Hutcherson. Conhece-o?
 - No, mas vou visit-lo. - E continuou, quase sem querer: -  Vou falar com ele.
 - Seria muito amvel da sua parte. - Havia na voz de Connie Garrett um tom de calorosa gratido.
 Jennifer imaginou o que seria a vida da rapariga, para ali sentada, completamente desamparada, dia aps dia, ms aps ms, ano aps ano, incapaz de fazer qualquer
coisa sozinha.
 - Receio no poder prometer-Lhe nada.
 -  claro que no. Mas sabe uma coisa, Jennifer? Sinto-me  melhor s por ter vindo ver-me.
 Jennifer ps-se de p. Chegara o momento de apertarem as mos, mas no havia mo para apertar.
 - Gostei de a conhecer, Connie - declarou desajeitadamente.
- Depois dou-lhe notcias.
 Durante o caminho de regresso ao escritrio, Jennifer pensou  no Padre Ryan e decidiu que nunca mais voltaria a deixar-se  levar pelas suas lisonjas. Ningum podia
fazer nada por aquela pobre rapariga estropiada, e era uma indecncia oferecer-lhe qualquer tipo de esperana. Mas ela ia cumprir a sua promessa. Ia falar com Melvin
Hutcherson.  Quando Jennifer regressou ao escritrio, havia uma enorme lista de recados  sua espera. Percorreu-os rapidamente com os olhos,  procura de uma mensagem
de Adam Warner.  o
havia nenhuma.  Melvin Hutcherson era um homem baixo e calvo, com um minsculo nariz afilado e olhos de azul-deslavado. Tinha um escritrio miservel em West Side,
que tresandava a pobreza. A mesa da recepcionista estava vazia.
 - Foi almoar - explicou Melvin Hutcherson.  Jennifer interrogou-se se ele teria mesmo uma secretria. Introduziu-a no seu gabinete particular, que no era maior
do que a recepo.
 - Disse-me, pelo telefone, que queria falar comigo a  respeito de Connie Garrett.
 - Exacto.
 Ele encolheu os ombros.
 - No h muita coisa a dizer. Instaurmos um processo e perdemo-lo. Pode crer que fiz um trabalho excelente para ela.
 - Foi o senhor que tratou do recurso?
 - Fui. Tambm o perdemos. Receio que a senhora esteja a ir depressa de mais - observou-a durante uns momentos. - Por  que motivo quer perder tempo com uma coisa
destas? A senhora  muito competente. Podia estar a trabalhar em casos que lhe dessem mais dinheiro.
 - Estou a fazer um favor a um amigo. Importa-se que eu d uma vista de olhos aos traslados?
 - Faa favor. - E Hutcherson encolheu os ombros. - So  propriedade pblica.
 Jennifer passou a tarde a ler os traslados do processo de Connie Garrett. Para surpresa de Jennifer, Melvin Hutcherson tinha-lhe dito a verdade: executara um bom
trabalho. Tinha citado a cidade e a Nationwide Motors Corporation como co-acusados e exigido um julgamento por um jri. O jri ilibara de culpa ambos os arguidos.
 O Departamento de Sanidade Pblica tinha feito o que lhe fora possvel para lutar contra a tempestade de neve que  assolara a cidade naquele Dezembro; tinha posto
todos os seus equipamentos a funcionar. A cidade alegara que a tempestade era um caso fortuito e que, se tinha havido alguma  negligncia, fora por parte de Connie
Garrett.  Jennifer voltou-se para as acusaes contra a empresa de camies. Trs testemunhas oculares tinham declarado que o condutor tentara parar o camio para
evitar atropelar a vtima, mas no conseguira travar a tempo e o camio derrapara  inevitavelmente, atropelando-a. O veredicto a favor do  argido tinha sido confirmado
pela Diviso de Apelao e o caso fora encerrado.  Jennifer acabou de ler os traslados s trs horas da manh. Apagou as luzes, incapaz de dormir. No papel, tinha
sido feita justia. Mas a imagem de Connie Garrett, no lhe saa do pensamento. Uma rapariga de vinte e poucos anos, sem braos nem pernas. Jennifer imaginou o
camio atropelando a jovem, a enorme agonia que ela devia ter sofrido, a srie de terrveis opera?es a que tinha sido sujeita, cada uma delas amputando partes
dos seus membros. Jennifer acendeu a luz e sentou-se na cama. Marcou o nmero de telefone da casa de Melvin Hutcherson.
 - Os traslados no fazem nenhuma referncia aos mdicos - disse Jennifer pelo telefone. - Encarou a possibilidade de negligncia?
 - Quem fala? - perguntou uma voz fraca.
 - Jennifer Parker. O senhor. . .
 - Pelo amor de Deus ! So. . . so quatro horas da manh !
No tem um relgio?
 - Isto  importante. O hospital no foi citado no processo.
E aquelas operaes a que sujeitaram Connie Garrett? Fez alguma investigao sobre elas?
 Seguiu-se uma pausa, durante a qual Melvin Hutcherson tentou coordenar as ideias.
 - Falei com os directores dos servios de neurologia e de ortopedia do hospital que a tratou. As operaes eram  necessrias para lhe salvar a vida. Foram feitas
pelos  melhores mdicos e executadas como devia ser. Foi por isso que o  hospital no foi citado no processo.  Jennifer foi invadida por um profundo sentimento
de  frustrao.
 - Compreendo.
 - Olhe, como j lhe disse, est a perder tempo com isto.
Agora, porque no vamos ambos dormir?
 E o auscultador deu um estalido ao ouvido de Jennifer. Apagou a luz e voltou a deitar-se. Mas o sono estava mais afastado do que nunca. Passados uns momentos,
Jennifer  desistiu da luta, levantou-se e foi fazer caf. Bebeu-o  sentada no sof, vendo o sol nascente pintar os contornos de  Manhattan, o rosa-plido transformando-se
gradualmente num  vermelho brilhante, e explosivo.  Jennifer estava perturbada. A lei tinha remdio para todas as injustias. Teria sido feita justia no caso de
Connie  Garrett? Consultou o relgio da parede. Eram seis e meia.  Jennifer pegou outra vez no telefone e marcou o nmero de  Melvin Hutcherson.
 - Verificou a folha de servio do camionista? - perguntou  Jennifer.
 - Jesus Cristo! A senhora no  maluca nem nada? Quando   que dorme? - retorquiu uma voz ensonada.
 - O motorista do camio da empresa. Verificou a sua folha de  servio?
 - Minha senhora, est a comear a insultar-me.
 - Desculpe - insistiu Jennifer -, mas preciso de saber.
 - A resposta  sim. Tinha uma folha de servio impecvel.  Aquele foi o seu primeiro acidente.  Aquela sada encontrava-se fechada.
 - Compreendo. - E Jennifer meditava profundamente.
 - Miss Parker - disse Melvin Hutcherson -, faa-me um grande favor, est bem? Se quiser fazer mais perguntas, telefone-me durante as horas de expediente.
 - Desculpe - respondeu Jennifer com ar ausente. - V dormir.
 - Muito obrigado!
 Jennifer pousou o auscultador. Estava na hora de se vestir para ir trabalhar.
 Tinham decorrido trs semanas desde que Jennifer jantara com Adam no Lutce. Tentou afast-lo do pensamento, mas tudo lhe recordava Adam: uma frase casual, a nuca
de um desconhecido, uma gravata parecida com a que ele usara  naquela noite. Havia vrios homens que tentavam encontrar-se com ela. Recebia propostas de clientes,
de advogados, a quem fizera frente em tribunal e de um juiz do tribunal  nocturno, mas Jennifer no queria nenhum deles. Advogados convidavam-na para aquilo a que
chamavam cinicamente pardias", mas no estava interessada. Havia nela uma  independncia que era uma provocao para os homens.  Sabia que podia contar sempre
com Ken Bailey, mas esse facto no contribua em nada para mitigar a solido de  Jennifer. Existia apenas uma pessoa que poderia faz-lo,  amaldioado fosse!  Ele
telefonou numa segunda-feira de manh.
 - Pensei que pudesse v-la, se por acaso estiver livre para almoar hoje.
 No estava.
 -  claro que estou - respondeu.
 Jennifer tinha jurado a si prpria que, se Adam voltasse a telefonar-lhe, mostrar-se-ia amvel, ainda que distante, e  delicada, mas definitivamente inacessvel.
 No momento em que ouviu a voz de Adam, esqueceu todas as suas solues e respondeu:
 -  claro que estou.
 Era a ltima coisa que deveria ter dito.
 Almoaram num pequeno restaurante em Chinatown, e conversaram serenamente durante duas horas que pareceram dois minutos. Falaram de Direito, de poltica e de teatro,
e resolveram todos os complexos problemas do mundo. Adam era inteligente, incisivo e fascinante. Mostrava-se muito interessado pelo que Jennifer fazia, e sentia
um orgulho  enorme pelos xitos dela. Tem direito a isso.., pensou Jennifer. Se no tivesse sido ele, eu teria voltado para Kelso,  Washington. ?,
 Quando Jennifer regressou ao escritrio, Ken Bailey estava  espera dela.
 - O almoo correu bem?
 - Correu sim, obrigada.
 - Adam Warner vai ser nosso cliente? - O tom da sua voz era demasiado natural.
 - No, Ken. Somos s amigos.
 E era verdade.
 Na semana seguinte, Adam convidou Jennifer para almoar na sala de jantar particular da sua empresa. Jennifer ficou impressionada com o enorme e moderno complexo
de escritrios.  Adam apresentou-a a diversos membros da firma, e Jennifer  sentiu-se uma pequena celebridade, pois todos eles pareciam  saber tudo a respeito dela.
Conheceu Stewart Needham, o scio  principal. Mostrou-se de uma amabilidade reservada, e  Jennifer recordou-se de que Adam era casado com a sobrinha dele.  Adam
e Jennifer almoaram na sala de jantar forrada de madeira de castanho, servidos por um chefe e dois criados.  -  para aqui que os scios trazem os seus problemas.
 Jennifer pensou se ele no estaria a referir-se a ela.  Era-Lhe difcil concentrar-se na refeio.   Jennifer pensou em Adam durante toda aquela tarde. Sabia que
tinha de o esquecer, que no devia voltar a v-lo. Ele
pertencia a outra mulher.  Nessa noite, Jennifer foi com Ken Bailey ver Dois Por Dois, o novo espectculo de Richard Rodgers.  Ao entrarem no trio, ouviu-se um
sussurro excitado entre
a multido, e Jennifer voltou-se para ver o que se passava. Uma comprida limusina preta tinha estacionado junto do passeio e um homem e uma mulher estavam a sair
do carro.  -  ele! - exclamou uma mulher, e as pessoas comearam a  juntar-se em volta do carro. O corpulento motorista deu um passo para o lado e Jennifer viu
Michael Moretti  acompanhado pela mulher. Era em Michael que a multido estava interessada. Era um heri popular, suficientemente belo para ser actor de cinema,
suficientemente ousado para prender a imaginao de todos. Jennifer ficou no trio a ver Michael Moretti e a mulher abrirem caminho por entre a multido. Michael
passou a trs ps de Jennifer e, por uns instantes,  os
olhos de ambos cruzaram-se. Jennifer reparou que os olhos dele eram to negros que no conseguia ver-lhe as pupilas. Passado um instante, ele desapareceu dentro
do teatro.  Jennifer foi incapaz de apreciar o espectculo. A imagem de Michael Moretti despertara nela uma torrente de  recordaes humilhantes. Quando terminou
o primeiro acto,  Jennifer pediu a Ken que a levasse a casa.  Adam telefonou a Jennifer no dia seguinte, e Jennifer  preparou-se para recusar o seu convite. Obrigada,
Adam, mas estou na verdade muito ocupada..?  Mas Adam disse apenas:
 - Tenho de me ausentar do pas por uns tempos.
 Foi como se tivesse levado um soco no estmago.
 - Quanto. . . quanto tempo vai estar fora?
 - Apenas algumas semanas. Telefono-lhe quando voltar.
 - Est bem - respondeu Jennifer com vivacidade. - Boa  viagem.
 Sentia-se como se lhe tivesse morrido algum. Imaginava Adam na praia, no Rio, cercado de raparigas seminuas, ou numa mansarda na Cidade do Mxico, bebendo margaritas
com uma jovem beldade de olhos escuros, ou num chal suo fazendo amor com - ?.Pra! ordenou Jennifer a si prpria. Devia ter-lhe perguntado onde ia. Tratava-se
provavelmente de uma viagem de negcios a algum lugar aborrecido onde no teria tempo para mulheres, talvez no meio de um deserto onde iria trabalhar vinte e quatro
horas por dia.  Devia ter tocado no assunto, muito naturalmente,  claro. Vai fazer uma grande viagem de avio? Fala algumas lnguas  estrangeiras? Se for a Paris,
traga-me um pouco de ch Vervaine. Creio que os preos devem ser terrveis. Vai levar a sua mulher? Estarei a ficar louca,  Ken tinha entrado no gabinete dela e
olhava-a, espantado.
 - Voc est a falar sozinha. Sente-se bem?
 No!,? Era o que Jennifer desejava poder gritar. Preciso de um mdico. Preciso de um duche frio. Preciso de Adam Warner. ?,
- Estou ptima - respondeu ela. - Apenas um pouco fatigada.
 - Porque no vai hoje cedo para a cama?
 Perguntou a si mesma se Adam iria cedo para a cama.
 O Padre Ryan telefonou.
 - Fui visitar Connie Garrett. Ela disse-me que voc tem aparecido l algumas vezes.
 - Sim.
 As visitas serviam para aliviar o seu sentimento de culpa por no ser capaz de ajudar. Era frustrante.
 Jennifer deitou mo ao trabalho e, mesmo assim, as semanas  pareciam arrastar-se. Estava no tribunal quase todos os dias e preparava instrues quase todas as
noites.
 - Devagar. Voc mata-se - aconselhou Ken.
 Mas Jennifer necessitava de se esgotar fsica e  psiquicamente. No queria ter tempo para pensar. Sou uma  idiota?,, pensou ela. Uma perfeita idiota.  Isto passou-se
trs semanas antes de Adam telefonar.
 - Acabo de chegar - disse ele. O som da sua voz f-la estremecer. - Podemos encontrar-nos algures para almoar?
 - Sim. Com todo o prazer, Adam. - Achou que se tinha sado bem. Um simples: Sim, com todo o prazer, Adam.?,
 - O Oak Room, no Plaza?
 - Muito bem.
 Era a sala de jantar mais comercial e menos romntica do mundo, cheia de abastados negociantes de meia-idade,  corretores da bolsa e banqueiros. Fora durante muito
tempo um
dos ltimos poucos basties da intimidade masculina, e as suas portas s muito recentemente tinham sido abertas s mulheres.  Jennifer chegou cedo e foi conduzida
para a mesa. Adam apareceu alguns minutos depois. Jennifer contemplou a  silhueta alta e magra que se encaminhava para ela e, de  sbito, sentiu a boca seca. Parecia
bronzeado e Jennifer pensou se as suas fantasias a respeito de Adam numa praia povoada de raparigas no teriam sido pura realidade. Ele sorriu-lhe e pegou-lhe na
mo, e Jennifer soube naquele momento que, fosse qual fosse a sua argumentao a respeito de Adam Warner  ou de homens casados, isso no tinha a menor importncia.
No  conseguia dominar-se. Era como se algum estivesse a dirigi-la, dizendo-lhe o que devia fazer, dizendo-lhe o que tinha de fazer. No era capaz de explicar
o que lhe estava a acontecer, pois nunca experimentara nada semelhante.  Chamem-lhe qumica, pensou ela.  Chamem-lhe carma t,  chamem-Lhe paraso. Jennifer sabia
apenas que, mais do que qualquer outra coisa na vida, desejava estar nos braos de Adam. Enquanto o observava, imaginava-o a fazer amor com ela, abraando-a, o
seu corpo vigoroso por cima dela, dentro dela, e sentiu-se corar.
 -Desculpe ter falado  ltima hora - desculpou-se Adam. - Um cliente cancelou um almoo.
 Jennifer abenoou o cliente em silncio.
 - Trouxe-lhe uma coisa - disse Adam. Era um encantador leno  de pescoo, de seda verde e dourada. -  de Milo.
 Ento fora l que ele estivera. Raparigas italianas.
 -  lindo, Adam. Obrigada.
 - J esteve alguma vez em Milo?
 - No. Vi fotografias de uma catedral de l.  encantadora.
 - No sou um grande apreciador de monumentos. A minha teoria   que, se se v uma igreja, todas as outras ficam vistas.  Mais tarde, quando Jennifer pensou no
almoo, tentou lembrar-se do que tinham falado, do que tinham comido, de quem  que parara junto da mesa para cumprimentar Adam, mas s conseguiu recordar-se da
proximidade de Adam, do contacto da sua mo, dos seus olhares. Era como se ele a tivesse de algum modo enfeitiado e ela estivesse  hipnotizada, incapaz de quebrar
o feitio.  A certa altura, Jennifer pensou: J sei o que fazer. Vou fazer amor com ele. Uma nica vez. No poder ser to  maravilhoso como os meus devaneios.
Ento serei capaz de o esquecer.   Quando as suas mos se tocavam por acaso, era como se uma descarga elctrica se desse entre eles. Estavam sentados, falando de
tudo e de nada, e as suas palavras no tinham significado. Estavam sentados  mesa, presos num abrao invisvel, acariciando-se um ao outro, amando-se  intensamente,
despidos e sensuais. Nenhum deles fazia a menor  ideia do ,que estavam a comer ou do que estavam a dizer. Havia neles uma fome diferente, mais exigente, que aumentava
cada vez mais, at que nenhum deles a pde suportar por mais  tempo.   A meio do almoo, Adam colocou a mo sobre a de Jennifer e  disse com voz rouca:
 - Jennifer. . .
 - Sim. Vamos embora - murmurou ela.
 Jennifer esperou no trio movimentado e cheio de gente, enquanto Adam se registava na recepo. Deram-lhes um quarto na parte antiga do Plaza Hotel, com vista
para a  Avenida Cinquenta e Oito. Utilizaram o elevador do fundo e  Jennifer teve a impresso que demorou uma eternidade at  chegarem ao andar deles.  Se Jennifer
era incapaz de se lembrar de qualquer coisa sobre o almoo, recordava-se de tudo a respeito do quarto. Anos mais tarde, conseguia ainda lembrar-se do panorama,
da cor dos reposteiros e das carpetes, de todos os quadros e  peas de mobilirio. Recordava-se dos rudos da cidade, l  muito em baixo, que penetravam no quarto.
As imagens daquela tarde acompanh-la-iam para o resto da sua vida. Foi uma exploso mgica e multicolor em cmara lenta. Foi Adam a despi-la, foi o corpo forte
e magro de Adam na cama, a sua violncia e a sua suavidade. Foi o riso e a paixo. A fome deles transformara-se numa avidez que tinha de ser  satisfeita. No momento
em que Adam comeou a fazer amor com ela, as palavras que ocorreram ao esprito de Jennifer foram:  Estou perdida. ,?  Fizeram amor repetidas vezes, e era sempre
um xtase quase insuportvel.  Horas depois, deitados tranquilamente )ado a ?ado. Adam declarou:
 - Sinto-me vivo pela primeira vez na vida.
 Jennifer acariciou-o suavemente no peito e riu alto.
 Adam olhou-a com uma expresso interrogadora.
 - De que te ris?
 - Sabes o que  que eu disse a mim mesma? Que se fosse uma vez contigo para a cama, conseguiria afastar-te da minha vida.  Ele voltou-se para a contemplar.
 -E...?
 - Estava enganada. Sinto-me como se tu fizesses parte de mim. Pelo menos - e hesitou -, uma parte de ti pertence-me.  Ele sabia no que ela estava a pensar.
 - Havemos de arranjar qualquer coisa - disse Adam.Mary Beth  vai na segunda-feira para a Europa com a tia, e fica l um ms.
 Jennifer e Adam Warner estavam juntos quase todas as noites.  Ele passou a primeira noite no pequeno e desconfortvel apartamento e, de manh, declarou:
 - Hoje no trabalhamos e vamos arranjar um stio decente para viveres.
 Foram juntos  procura de apartamentos e, ao fim da tarde, Jennifer assinou um contrato de arrendamento num novo  arranha-cus em Sutton Place, chamado Belmont
Towers. A tabuleta em frente do edifcio dizia: Esgotado.,?
 - Porque  que vamos entrar? - inquiriu Jennifer.
 - J vais ver.
 O apartamento que visitaram era um encantador duplex de cinco divises, lindamente mobilado. Era o apartamento mais luxuoso que Jennifer tinha visto em toda a
sua vida. Havia um quarto principal com casa de banho, no primeiro andar e, no rs-do-cho, um quarto de hspedes com casa de banho privativa e uma sala de estar
com uma vista espectacular  sobre a Margem Oriental e a cidade. Havia um grande terrao, uma cozinha e uma sala de jantar.  - Gostas? - perguntou Adam.  - Se gosto?
Adoro-o - exclamou Jennifer -, mas h dois problemas, querido. Em primeiro lugar, no teria  dinheiro para ele. E, depois, mesmo que o tivesse, o  apartamento pertence
a outra pessoa.
 -  da nossa empresa. Alugmo-lo para os VIP's t que nos visitam. Farei com que arranjem outro stio?
 - E a renda?
 - Eu trato disso. Eu...
 - No.
 - Isso  uma patetice, querida. Posso muito bem pag-lo e...
 Ela abanou a cabea.
 - No ests a compreender, Adam. Nada mais tenho para te oferecer alm do meu corpo. Quero que isso seja uma  ddiva.  Ele tomou-a nos braos e Jennifer apertou-se
de encontro a ele, dizendo:
 - J sei. . . vou trabalhar de noite.
 No sbado foram fazer compras. Adam comprou a Jennifer  um bonito conjunto de camisa de dormir e roupo de seda, no  Bonwit Teller, e Jennifer comprou a Adam uma
camisa Turn  bull & Asser. Adquiriram um jogo de xadrez no Grimble's e  bolo de queijo no Junior's perto de Abraham & Strauss.  Compraram umplum pudding ' Fortrum
& Mason no Altman's,  e livros no Doubleday. Entraram na Gammon Shop e no  Caswell-Massey, onde Adam comprou a Jennifer potpourri z 1 suficiente para dez anos.
Jantaram  esquina do  apartamento.  Encontravam-se no apartamento  tarde, depois do trabalho,  discutiam os acontecimentos do dia, e Jennifer fazia o jantar enquanto
Adam punha a mesa. Em seguida liam, viam televiso, jogavam gin rummy ou xadrez. Jennifer cozinhava os pratos favoritos de Adam.
 - No tenho vergonha nenhuma - dizia-lhe ela. - No me detenho perante nada.
 Ele abraava-a.
 - Por favor, no te detenhas.
 Era estranho, pensava Jennifer. Antes de terem iniciado aquela ligao, encontravam-se s claras. No entanto, agora que eram amantes, no ousavam aparecer juntos
em pblico, por isso iam a lugares onde no era provvel que encontrassem  amigos: pequenos restaurantes familiares, no centro da cidade, um concerto de msica
de cmara na Escola de Msica  da Terceira Avenida. Foram ver uma nova pea ao Omni Theatre Club, na Avenida Dezoito e jantaram na Grotta Az zurra, em Broome Street,
e comeram tanto que ficaram fartos de comida italiana para um ms. S que no temos um ms", pensou Jennifer. Mary Beth ia regressar da a quinze dias.  Foram ao
The Half Note ouvirjazz avant-garde, na Village, e  espreitaram as montras das pequenas galerias de arte.  Adam adorava desportos. Levou Jennifer a ver jogar os
Knicks, e Jennifer entusiasmou-se tanto com o jogo que gritou
at ficar rouca.  No domingo ficaram em casa, a descansar, tomando o pequeno- almoo em roupo, trocando cadernos do Times, escutando os  sinos da igreja repicar
atravs de Manhattan, cada um deles oferecendo a sua prpria orao.  Jennifer olhou para Adam, concentrado no problema de palavras cruzadas e pensou: Reza por
mim." Sabia que estava  a fazer uma coisa errada. Sabia que aquilo no podia durar para sempre. E, no entanto, nunca experimentara tanta  felicidade, tanta euforia.
Os apaixonados viviam num mundo  especial, onde todos os sentimentos eram mais profundos, e a  alegria que Jennifer sentia agora junto de Adam era digna de qualquer
preo que ela tivesse de pagar mais tarde. E sabia que ia ter de o pagar.  O tempo adquiriu uma nova dimenso. At ali, a vida de Jennifer tinha sido medida em
funo das horas e dos  encontros com clientes. Agora, o seu tempo era contado pelos  minutos que podia passar com Adam. Pensava nele quando estava  com ele, e
pensava nele quando estava longe dele.  Jennifer lera algo a respeito de homens que tinham ataques cardacos nos braos das amantes, e por isso apontou o nmero
 de telefone do mdico assistente de Adam na sua lista  telefnica particular, do seu lado da cama, de modo que, se  acontecesse alguma coisa, tudo pudesse ser
tratado  discretamente e Adam no ficasse embaraado.  Jennifer estava dominada por emoes que at a desconhecera  existirem nela. Nunca imaginara que pudesse
ser caseira, mas queria fazer tudo para Adam. Queria cozinhar para ele, limpar para ele, preparar-lhe a roupa de manh. Tomar conta dele.  Adam tinha uma coleco
completa de roupa no apartamento e  passava a maior parte das noites com Jennifer. Ela ficava deitada ao lado dele, vendo-o adormecer, e tentava permanecer  acordada
o mximo de tempo possvel, com medo de perder um  nico momento que fosse do tempo precioso que passavam  juntos. Por fim, quando Jennifer j no conseguia manter
os olhos abertos, aninhava-se nos braos de Adam e adormecia, satisfeita e confiante. A insnia que durante  tanto tempo atormentara Jennifer tinha-se dissipado.
Os demnios nocturnos que a haviam torturado tinham desaparecido. Quando se enroscava entre os braos de Adam, sentia-se  imediatamente em paz.  Gostava de andar
pelo apartamento com as camisas de Adam vestidas e,  noite, usava o casaco de pijama dele. Se ainda estava na cama quando ele saa, de manh, Jennifer rebolava
para o outro lado da cama. Amava o odor morno dele.  Parecia que todas as canes de amor que ouvia tinham sido escritas para Adam e para ela, e Jennifer pensava:
 Noel Coward t tinha razo.  surpreendente o modo como a msica  sem qualidade consegue ser poderosa."  Ao princpio, Jennifer pensara que a irresistvel atraco
fsica que sentiam um pelo outro di minuiria com o tempo, mas, pelo contrrio, tornou-se cada vez mais forte.  Contou a Adam coisas a seu respeito que nunca tinha
contado  a nenhum outro ser humano. Com Adam no existiam disfarces. Ela era Jennifer Parker, completamente despida, e ele continuava a am-la. Era um milagre.
E partilhavam ainda outro milagre: o riso.  Parecia impossvel, mas cada dia amava mais Adam. Desejava  que aquilo que possuam nunca acabasse. Mas sabia que havia
de acabar. Pela primeira vez na vida, tornou-se  supersticiosa. Havia um lote especial de caf do Qunia de  que Adam gostava. Jennifer comprava-o de vez em quando.
 Mas comprava sempre uma lata pequena de cada vez.  Um dos terrores de Jennifer era que acontecesse alguma coisa a Adam quando estava longe dela, e ela no o soubesse
at ler os jornais ou ouvir um boletim noticioso. Nunca falou a Adam nos seus receios.  Sempre que Adam contava chegar mais tarde, deixava bilhetes  a Jennifer
espalhados pelo apartamento, nos stios mais inesperados. Ela encontrava-os na caixa do po, no   rigorfico, dentro de um sapato; deliciava-se com eles e  guardava-os
todos.  Os ltimos dias que passaram juntos decorreram numa confuso  de alegre actividade. Por fim, chegou a vspera do regresso  de Mary Bethy. Jennifer e Adam
jantaram no apartamento,  ouviram msica e fizeram amor. Jennifer ficou acordada toda a  noite, apertando Adam nos braos. Pensava na felicidade que tinham partilhado.
 O sofrimento viria mais tarde.  Ao pequeno-almoo, Adam disse:
 - Acontea o que acontecer, quero que saibas uma coisa: foste a primeira mulher a quem amei de verdade.  O sofrimento chegou naquela altura.
O andino era o trabalho, e Jennifer entregou-se a ele de tal maneira que no lhe restava tempo para pensar.  Tinha-se tornado na menina querida da imprensa, e
os seus xitos nas salas de audincia eram largamente divulgados. Apareceram mais clientes do que ela podia atender e, embora o principal interesse de Jennifer
fosse o Direito Penal, perante a insistncia de Ken, comeou a aceitar uma variedade de outros casos.  Ken Bailey tinha-se tornado mais importante do que nunca
para Jennifer. Fazia as investigaes para as causas dela, e era inteligente. Podia discutir com ele outros problemas e  tinha em grande conta os seus conselhos.
 Jennifer e Ken mudaram-se de novo, desta vez para  escritrios maiores, em Park Avenue. Jennifer contratou dois  jovens e brilhantes advogados, Dan Martin e Ted
Harris, ambos da equipa de Robert Di Silva, e mais duas secretrias.  Dan Martin era um antigo jogador de futebol da Universidade  do Noroeste, e tinha corpo de
atleta e esprito de
sbio.  Ted Harris era um jovem franzino e tmido que usava culos  com lentes grossas e era um gnio.  Martin e Harris ocupavam-se do expediente normal e Jennifer
 comparecia nos julgamentos.  O letreiro da porta dizia JENNIFER PARKER & ASSOCIADOS.  Os casos que apareciam no escritrio iam desde a defesa de uma grande companhia
industrial acusada de poluio, at  representao de um bbado que fora chicoteado ao ser posto fora de uma taberna. O bbado,  claro, era uma ddiva do Padre
Ryan.
 - Ele est com um pequeno problema - explicou o Padre Ryan a Jennifer. -  um bom chefe de famlia, mas o desgraado tem tantos problemas que, por vezes, bebe
um copito a mais. Jennifer no podia deixar de sorrir. Na opinio do Padre Ryan, nenhum dos seus paroquianos era culpado e o seu nico  desejo era ajud-los a sair
das dificuldades em que se metiam  irreflectidamente. Um dos motivos pelos quais Jennifer compreendia to bem o padre era que, no seu ntimo, sentia o mesmo que
ele. Estavam a lidar com pessoas aflitas que no tinham quem as ajudasse, sem dinheiro nem poder para lutar contra a sociedade e que acabavam por ser esmagadas
por ela.  A palavra justia quase nunca era respeitada. Na sala de audincias, nem o advogado de acusao nem o advogado de defesa procuravam fazer justia: a regra
do jogo era vencer.  De vez em quando, Jennifer e o Padre Ryan falavam a respeito  de Connie Garrett, mas o assunto deixava sempre Jennifer  deprimida. Existia
ali uma injustia e isso amargurava-a.  No seu escritrio, na sala das traseiras do Tony's Place, Michael Moretti observava o modo cuidadoso como Nick Vito esquadrinhava
a sala com um dispositivo electrnico,  procura de gravadores piratas. Atravs dos seus conhecimentos  na polcia, Michael sabia que as autoridades no tinham
permitido qualquer vigilncia electrnica mas, uma vez por outra, um novato excessivamente zeloso, um jovem detective, instalava um gravador pirata - ou ilegal
-, esperando obter informaes. Michael era um homem cauteloso. O seu escritrio  e a sua casa eram revistados de manh e  noite. Tinha conscincia de que era
o alvo nmero um para meia dzia de agncias jurdicas, mas no se preocupava com isso. Sabia o que eles faziam, mas eles desconheciam aquilo que ele estava a fazer;
e, mesmo que o conhecessem, no podiam prov-lo.  Por vezes, quando a noite j ia avanada, Michael espreitava  pelo culo da porta das traseiras do restaurante
e via os agentes do FBI recolherem o lixo para anlise e substiturem-no por outro.
 - Jesus, chefe, e se os tipos descobrem alguma coisa? -  perguntou Nick Vito certa noite.
 Michael riu.
 - Espero que sim. Antes de chegarem aqui, mudamos o nosso lixo e o restaurante para outro lado.
 No, os agentes federais no iriam tocar-lhe. As actividades  da Famlia estavam a expandir-se, e Michael tinha planos que ainda no haviam sido revelados. O nico
empecilho era Thomas Colfax. Michael necessitava de um esprito jovem. E, com muita frequncia, os seus pensamentos voltavam-se para Jennifer Parker.  Adam e Jennifer
encontravam-se para almoar uma vez por semana, e isso era uma tortura para ambos, pois no tinham tempo para estarem sozinhos, na intimidade. Falavam todos os
dias pelo telefone, servindo-se de nomes falsos. Ele era Mr. Adams e ela era Mrs. Jay.
 - Detesto disfarces - declarou Adam.
 - Tambm eu. - Mas a ideia de o perder aterrorizava-a.
 A sala de audincias era o stio onde Jennifer se esquecia do seu sofrimento. A sala de audincias era um palco, um lugar onde ela media foras com o melhor que
a oposio podia oferecer. A sua escola era a sala de audincias e ela aprendia com facilidade. Um julgamento era um jogo com determinadas regras fixas, em que
vencia o melhor jogador, e
Jennifer estava decidida a ser a melhor.  Os contra-interrogatrios de Jennifer tornaram-se
acontecimentos teatrais em que imperava uma destreza de  rapidez, ritmo e cronometragem. Aprendeu a reconhecer o condutor de um jri e a concentrar-se nele, sabendo
que ele podia  influenciar os outros.  Os sapatos de um homem diziam algo sobre o seu carcter. Jennifer procurava jurados que usassem sapatos confortveis, porque
tinham tendncia para serem bonacheires.  Aprendeu coisas a respeito da estratgia, o plano geral de um julgamento, e a respeito da tctica, os estratagemas do
dia-a-dia. Tornou-se perita em conseguir juzes benvolos.  Jennifer passava horas interminveis a preparar cada caso, prestando ateno ao ditado: A maior parte
das causas  ganham-se ou perdem-se antes de o julgamento comear.?,  Tornou-se adepta de mnemnicas para conseguir lembrar-se dos nomes dos jurados: Smith - um
homem musculoso que trabalha  com uma bigorna; Helm - um homem que conduz um barco; Newman - um beb recm-nascido.  De uma maneira geral, o tribunal suspendia
a sesso s quatro horas, e quando Jennifer estava a contra-interrogar uma testemunha ao fim da tarde, esperava at alguns minutos antes das quatro e, ento, desferia
na testemunha um golpe verbal que deixasse ao jri uma forte impresso durante a noite. Aprendeu a ler a linguagem do corpo. Quando uma testemunha  estava a mentir,
havia sempre gestos reveladores: passar a  mo pelo queixo, lbios apertados, tapar a boca, puxar dos lbulos das orelhas ou alisar o cabelo. Jennifer tornou- se
perita na leitura desses sinais e nunca se enganava.  Jennifer descobriu que o facto de ser uma mulher era uma desvantagem quando se tratava de exercer Direito
Penal.  Estava num territrio machista. Ainda havia muito poucas  mulheres advogadas de Direito Penal, e alguns dos advogados masculinos ofendiam Jennifer. Um dia,
Jennifer encontrou na  ua pasta um autocolante que dizia: As Mulheres Advogadas Fazem as Melhores Propostas". Como retaliao, Cynthia colocou-lhe na secretria
o seguinte letreiro:,?O lugar da Mulher  em casa. . . e no Senado".  A maior parte dos jris comeava por ter ideias  preconcebidas a respeito de Jennifer, pois
muitas das causas  que ela advogava eram srdidas, e havia tendncia para a associarem ao cliente. Contavam que ela se vestisse como Jane Eyre e ela negava-se a
isso, mas tinha o cuidado de se vestir de um tal modo que no provocasse a inveja dos membros femininos do jri e, ao mesmo tempo, mostrava-se suficientemente feminina
 para no antagonizar os homens, que poderiam ficar com a impresso de que ela era lsbica. Durante algum tempo,  Jennifer riu-se destas consideraes. Mas, na
sala de  audincias, verificou que eram duras realidades. Posto que tinha entrado num mundo masculino, era obrigada a trabalhar duas vezes mais e a ser duas vezes
melhor do que a concorrncia.  Jennifer aprendeu a preparar cuidadosamente no s as suas  prprias causas, mas tambm as causas da sua oposio. Ficava deitada
na cama,  noite, ou sentada  secretria do seu escritrio, a planear a estratgia do seu oponente. O que  faria ela se se encontrasse do outro lado? Que surpresas
tentaria  apresentar? Ela era como um general, planeando ambos os lados de uma batalha mortal.  Cynthia fez zumbir o intercomunicador.
 - Est na linha trs um homem que deseja falar consigo, mas no quer dar o nome nem dizer-me do que se trata.
 Seis meses atrs, Cynthia teria simplesmente desligado o telefone. Jennifer ensinara-lhe a nunca recusar ningum.
 - Faa a ligao - pediu Jennifer.
 Decorrido um momento, ouviu uma voz masculina perguntar  prudentemente:
 -  Jennifer Parker?
 - Sim.
 Ele hesitou.
 - Esta linha  de confiana?
 - Sim. Em que posso ser-lhe til?
 - No  para mim.  para... uma amiga minha.
 - Compreendo. Qual  o problema da sua amiga?
 - Isto tem carcter confidencial, compreende?
 - Compreendo.
 Cynthia entrou e entregou o correio a Jennifer.
 - Espere - pediu Jennifer em voz baixa.
 - A minha amiga foi internada pela famlia num manicmio. No  entanto, encontra-se no seu perfeito juzo.  uma conspirao. As autoridades esto metidas no caso.
 Jennifer prestava agora pouca ateno. Segurava o telefone contra o ombro, enquanto percorria com os olhos o correio da manh.
 - Ela  rica e a famlia quer apanhar-lhe o dinheiro -  explicou o homem.
 - Continue - pediu Jennifer, sem deixar de examinar o  correio.
 - Provavelmente tambm iro querer livrar-se de mim, se  descobrirem que estou a tentar ajud-la. Isto pode ser perigoso para mim, Miss Parker.  ,?Um caso louco",
decidiu Jennifer.
 - Receio no poder fazer nada - replicou ela -, mas  sugiro que arranje um bom psiquiatra para auxiliar a sua  amiga.
 - A senhora no est a compreender. Esto todos metidos ; no assunto.
 - Estou a compreender - disse Jennifer com suavidade.
 -Eu...
 - Vai ajud-la?
 - No h nada que eu possa. . . Escute uma coisa. D-me o  nome e a morada da sua amiga e, se eu tiver ocasio, investigarei o caso.  Seguiu-se um longo silncio.
Por fim, o homem falou.
 - Lembre-se de que isto  confidencial.
 Jennifer desejava que ele desligasse o telefone. O seu  primeiro cliente estava  espera na recepo.
- No me esquecerei.
 - Cooper. Helen Cooper. Tinha uma grande propriedade em Long Island, mas tiraram-lha.
 Muito obediente, Jennifer tomou um apontamento num bloco que tinha  sua frente.
 - Muito bem. Em que manicmio disse que ela se encontrava? -  Ouviu-se um estalido e a ligao foi cortada. Jennifer atirou  o apontamento para o cesto dos papis.
 Jennifer e Cynthia entreolharam-se.
 - Vivemos num mundo estranho - comentou Cynthia. - Miss  Marshall est  espera de ser recebida.
 Na semana anterior, Jennifer falara com Loretta Marshall pelo telefone. Miss Marshall tinha pedido a Jennifer que a representasse numa aco de paternidade contra
Curtis Randall  III, um ricao da alta sociedade.  Jennifer falara com Ken Bailey.
 - Precisamos de informaes a respeito de Curtis Randall III. Vive em Nova iorque, mas suponho que passa muito tempo em Palm Beach. Quero saber os seus antecedentes,
e se tem alguma ligao com uma rapariga chamada Loretta Marshall.
 Repetira a Ken os nomes dos hotis de Palm Beach que a mulher lhe tinha indicado. Dois dias depois, Ken Bailey comunicava-Lhe os resultados da investigao.
 - Confirma-se. Passaram juntos duas semanas em hotis de Palm Beach, Miami e Atlantic City. Loretta Marshall teve uma filha h oito meses.
 Jennifer recostou-se na cadeira e olhou-o com ar pensativo.
 - Suponho que vamos ter um caso.
 - No me parece.
 - Qual  o problema?
 - O problema  a nossa cliente. Tem dormido com toda a gente, incluindo militares.
 - Voc quer dizer que o pai da criana pode ser um homem  qualquer.
 - Quero dizer que podia ser meio-mundo.
 - Algum dos outros  suficientemente rico para sustentar a criana?
 - Bom, os militares so bastante ricos, mas o mais abastado  de todos  Curtis Randall III.
 E entregou-lhe uma enorme lista de nomes.
 Loretta Marshall entrou no escritrio. Jennifer no tinha a certeza do que iria encontrar. O mais provvel seria tratar- se de uma prostituta bonita e desmiolada.
Mas Loretta Marshall revelou-se uma inteira surpresa. No s no era bonita, como tambm era quase modesta. Pelo nmero de conquistas amorosas  de Miss Marshall,
Jennifer esperava nada menos do que uma beldade loucamente sexy. Loretta Marshall era o  esteretipo da professora primria. Vestia uma saia de l aos  quadrados,
uma blusa com botes na gola, um casaco curto de  l azul-escura e sapatos prticos. A princpio, Jennifer  convencera-se de que Loretta Marshall estava a planear
 servir-se dela para obrigar Curtis Randall a pagar pelo privilgio de criar um filho que no era dele.  Aps uma hora de conversa com a rapariga, Jennifer verificou
 que a sua opinio tinha mudado. Loretta Marshall era de uma honestidade evidente.
 -  claro que no posso provar que Curtis  o pai de Melanie  - confessou ela com um sorriso envergonhado. - Curtis no foi  o nico homem com quem dormi.
 - Ento o que a faz pensar que ele seja o pai da sua filha, Miss Marshall?
 - Eu no penso. Tenho a certeza.  difcil explicar, mas sei at em que noite Melanie foi concebida. Por vezes, uma mulher consegue sentir essas coisas.  Jennifer
observou-a, tentando descobrir qualquer sinal de astcia ou de fraude. No encontrou nenhum. A rapariga era inteiramente sincera. Talvez, pensou Jennifer, os homens
achassem que isso fazia parte dos seus atractivos.
 - Est apaixonada por Curtis Randall?
 - Oh, sim. E Curtis disse que me amava.  claro que no tenho a certeza de que continue a amar-me, depois do que aconteceu.
 Se o amavas", interrogava-se Jennifer, como pudeste dormir com todos aqueles outros homens, A resposta poderia  encontrar-se naquele rosto triste e singelo, naquela
 aparncia modesta.
 - Pode ajudar-me, Miss Parker?
 - As aces de paternidade so sempre difceis - explicou  Jennifer prudentemente. - Tenho uma lista de mais de uma dzia de homens com quem a senhora dormiu desde
h um ano. Provavelmente foram mais do que estes. Se eu tenho uma tal lista, pode estar certa de que o advogado de Curtis Randall tambm possui uma.  Loretta Marshall
franziu as sobrancelhas.
 - E as anlises ao sangue, essa coisa...?
 - As anlises ao sangue s so aceitveis como evidncia, se provarem que o acusado no pode ser o pai. So  inconcludentes perante a lei.
 - No me importo comigo.  Melanie que quero proteger. O dever de Curtis  tomar conta da filha.  Jennifer hesitou, pesando a sua deciso. Tinha dito a  verdade
a Loretta Marshall. As aces de paternidade eram  difceis. E isto para no dizer que eram confusas e  desagradveis. Os advogados de defesa iriam ter um grande
dia quando  apanhassem esta mulher no banco das testemunhas. Fariam  desfilar os seus amantes e, antes de terem terminado, f-la- iam parecer uma prostituta aos
olhos de todos. No era o gnero de causa em que Jennifer desejasse envolver-se. Por outro lado, acreditava em Loretta Marshall. No era uma vulgar mulher de vida
fcil querendo explorar um ex-amante. A  rapariga estava convencida de que Curtis Randall era o pai da sua filha. Jennifer decidiu-se.
 - Muito bem - declarou -, vamos a isso.
 Jennifer marcou um encontro com Roger Davis, o advogado que  representava Curtis Randall. Davis era scio de uma grande firma de Wall Street, e a importncia da
sua posio era indicada pelo espaoso gabinete de canto que ocupava. Era afectado e arrogante, e Jennifer antipatizou com ele  assim que o viu.
 - Em que posso ser-Lhe til? - perguntou Roger Davis.
 - Como j lhe expliquei pelo telefone, estou aqui em nome de Loretta Marshall.
 Ele fitou-a e perguntou com ar impaciente:
 - E ento?
 - Ela pediu-me que movesse uma aco de paternidade contra Mr. Curtis Randall III. Eu preferia no o fazer.
 - A senhora ser completamente louca se for nisso.
 Jennifer manteve a calma com dificuldade.
 - No queremos arrastar o nome do seu cliente pelos  tribunais. Como me parece que sabe, este gnero de casos  sempre desagradvel. Por isso, estamos preparados
para  aceitar um acordo justo fora do tribunal.
 Roger Davis premiou Jennifer com um sorriso glacial.
 - Estou certo que sim. Porque no tm nenhum caso.
Nenhum mesmo.
 - Creio que est enganado.
 - Miss Parker, no disponho de tempo para estar com rodeios. A sua cliente  uma prostituta. Tem relaes sexuais com tudo o que mexe. Possuo uma lista dos homens
com quem ela dormiu.  to comprida como o meu brao. Pensa que o meu cliente vai ser prejudicado? A sua cliente vai ser destruida. ? professora primria, segundo
me parece. Pois
bem, quando eu acabar de a interrogar, no poder ensinar em mais nenhum lado at ao fim da vida. E digo-lhe ainda outra coisa. Randall est convencido de que 
o pai da  criana. Mas isso nunca se provar nem daqui a um milho de anos.  Jennifer recostou-se na cadeira, escutando-o, com um ar inexpressivo.
 - A nossa opinio  que a sua cliente pode ter sido engravidada por qualquer elemento do Terceiro Exrcito. Quer chegar a um acordo? ptimo. Vou dizer-lhe o que
deve fazer. Compramos  sua cliente plulas anticoncepcionais, para que isso no volte a suceder.  Jennifer levantou-se com as faces a arder.
 - Mr. Davis - declarou -, esse seu discursozinho vai custar meio milho de dlares ao seu cliente.
 E Jennifer saiu pela porta fora.  Nem Ken Bailey nem os trs ajudantes conseguiram provar
nada contra Curtis Randall III. Era vivo, um pilar da  sociedade, e tivera muito poucas aventuras sexuais.
 - O filho da puta  um puritano reincarnado - lamentou-se  Ken Bailey.
 Estavam sentados na sala de reunies,  meia-noite, na vspera do incio do julgamento.
 - Falei com um dos advogados do escritrio de Davis, Jennifer. Vo arrasar a nossa cliente. Eles no esto a  brincar.
 - Por que motivo est a arriscar-se por esta rapariga? -  inquiriu Dan Martin.
 - No estou aqui para julgar a sua vida sexual, Dan. Ela acredita que Curtis Randall  o pai da filha. Isto , est mesmo convencida disso. O que ela pretende
 dinheiro para a filha - no quer nada para ela. Creio que tem direito a levar o caso a tribunal.
 - No estamos a pensar nela - replicou Ken. - Estamos a pensar em si. Parece-me que  uma causa perdida. Vai ser um ponto negativo para si.
? - Vamos dormir - respondeu Jennifer. - Encontramo-nos no  tribunal.
 O julgamento correu ainda pior do que Ken Bailey tinha previsto. Jennifer fizera com que Loretta Marshall levasse a filha para a sala de audincias, mas agora
Jennifer  perguntava a si prpria se no teria cometido um erro tctico. E ali estava ela, desamparada, enquanto Roger Davis chamava ao estrado testemunha atrs
de testemunha, levando cada uma delas a admitir que tinha dormido com Loretta Marshall. Jennifer no ousou contra-interrog-las. Eram vtimas, e estavam a  testemunhar
em pblico apenas porque tinham sido obrigadas a isso. Tudo o que Jennifer podia fazer era conservar-se ali sentada, enquanto o nome da sua cliente ia sendo manchado.
Observava as caras dos jurados, e lia nelas uma hostilidade cada vez maior. Roger Davis era demasiado esperto para apresentar Loretta Marshall como uma prostituta.
No precisou  de o fazer. As pessoas, no banco das testemunhas, fizeram-no  por ele.  Jennifer tinha apresentado as suas prprias testemunhas de carcter para
testarem o bom trabalho que Loretta Marshall realizara como professora, o facto de ir  igreja com regularidade e de ser uma boa me; mas tudo isso no causou
impresso perante o escandaloso desfile dos amantes de  Loretta Marshall. Jennifer tinha contado apelar para a compreenso do jri, dramatizando a difcil situao
de uma jovem  seduzida por um rico play-boy que em seguida a abandonara quando ela ficara grvida. O julgamento no estava a dar esse resultado.  Curtis Randall
III encontrava-se sentado no banco dos rus. Poderia ter sido escolhido por um realizador cinematogrfico. Era um homem elegante, de perto de sessenta anos, com
atraente cabelo grisalho e feies regulares e morenas. Era
Da alta sociedade, pertencia a todos os clubes conservadores,  era  rico e prspero. Jennifer tinha a sensao de que as mulheres do jri o estavam a despir em
pensamento.   claro?,, pensou Jennifer. Acham que elas  que so dignas de irem para a cama com Mr. Encantador, e no essa infeliz o-que--que-ele-v-nela, que
est sentada na sala de audincias com um beb de dez meses nos braos. "  Infelizmente para Loretta Marshall, a criana no se parecia nada com o pai. Nem com
a me, verdade fosse dita. Podia pertencer a qualquer pessoa.  Como se tivesse lido os pensamentos de Jennifer, Roger Davis dirigiu-se ao jri:
 - Ali esto, senhoras e senhores, me e filha. Ah! Mas filha de Quem? Viram o acusado. Desafio qualquer pessoa nesta sala de audincias a apontar um nico ponto
de  semelhana entre o acusado e esta criana.  evidente que, se  o meu cliente fosse o pai desta criana, existiria qualquer  vestgio disso. Qualquer coisa nos
olhos, o nariz, o queixo. Onde est essa semelhana? No existe por uma razo muito simples. O acusado no  pai desta criana. No, receio bem que  estejamos perante
o exemplo clssico de uma mulher de maus  costumes que foi descuidada, engravidou e em seguida comeou  a olhar em redor, para ver qual dos amantes tinha mais recursos
para pagar as contas.  A sua voz tornou-se mais suave.
 - Todavia, nenhum de ns se encontra aqui para a julgar. O que Loretta Marshall decidir fazer com a sua vida privada s a ela diz respeito. O facto de ser professora
e de poder influenciar os espritos de crianas pequenas, bem, isso  tambm no  da minha alada. No estou aqui para discorrer sobre questes morais; estou aqui,
simplesmente, para  salvaguardar os interesses de um homem inocente.  Jennifer observou o jri e teve a sensao desanimadora de que todos se encontravam do lado
de Curtis Randall. Jennifer continuava a acreditar em Loretta Marshall. Ainda se o beb se parecesse com o pai! Roger Davis tinha razo. No havia a mnima semelhana.
E ele tinha a certeza de que o jri estava consciente desse facto.  Jennifer chamou Curtis Randall ao estrado. Sabia que esta era a sua nica oportunidade de tentar
reparar o mal que  tinha sido feito, a sua ltima oportunidade de dar outra orientao ao caso. Observou, durante alguns momentos, o homem que se encontrava no
banco das testemunhas.
 - J foi casado, Mr. Randall?
- Sim. A minha mulher morreu num incndio.- Houve uma instintiva reaco de piedade por parte do jri.
  Que diabo !
 - Nunca voltou a casar? - prosseguiu Jennifer rapidamente.
, - No. Amava muito a minha mulher, e...
 - O senhor e a sua mulher tiveram filhos?
 - No. Infelizmente ela no podia t-los.
 Jennifer fez um gesto na direco do beb.
 - Ento Melanie  a sua nica. . .
 - Objeco !
 - Aceite. O advogado de acusao sabe que no pode afirmar tal coisa.
 - Peo desculpa, Vossa Honra. Foi inadvertidamente. - Jennifer voltou-se outra vez para Curtis Randall: - Gosta de crianas?
 - Sim, muito.
 - O senhor  o presidente do conselho de administrao da sua prpria empresa, no , Mr. Randall?
 - Sim.
 - Nunca desejou ter um filho que continuasse o seu nome?
 - Creio que qualquer homem o deseja.
 - Nesse caso, se Melanie fosse um rapaz em vez de. . .
 - Objeco !
 - Aceite. - O Juiz voltou-se para Jennifer: - Miss Parker,  peo-lhe de novo que pare com isso.
 - Peo desculpa, Vossa Honra - Jennifer dirigiu-se outra vez a Curtis Randall. - Mr. Randall, tem o hbito de convidar mulheres desconhecidas e lev-las para hotis?
 Curtis Randall passou com nervosismo a lngua pelo lbio inferior.
 - No, no tenho.
 -  verdade que encontrou Loretta Marshall pela primeira vez num bar, e a levou para um quarto de hotel?
 A lngua dele movia-se de novo sobre os lbios.
 -Sim, minha senhora, mas isso foi apenas... isso foi apenas sexo.
 Jennifer olhou para ele.
 - O senhor disse isso foi apenas sexo,? como se, para si, o sexo seja algo obsceno.
 - No, minha senhora. - A sua lngua moveu-se de novo.
 Jennifer observava-a, fascinada, enquanto ela passava pelos lbios. Sentia-se de sbito invadida por uma esperana louca. Sabia agora o que tinha de fazer. Tinha
de continuar a nstig-lo. No entanto, no podia instig-lo a ponto de o jri se voltar contra ela.
 - Quantas mulheres convidou em bares?
 Roger Davis tinha-se posto de p.
 - E irrelevante, Vossa Honra. E objecto contra esta linha de interrogatrio. A nica mulher envolvida neste caso  Loretta Marshall. J estabelecemos que o arguido
teve relaes
sexuais com ela. Para alm desse facto, a sua vida privada no interessa a esta sala de audincias.
 - Discordo, Vossa Honra. Se o ru  do gnero de homens que
 - Aceite. Peo-lhe que abandone essa linha de interrogatrio, Miss Parker.
 Jennifer encolheu os ombros.
 - Sim, Vossa Honra. - Virou-se para Curtis Randall: Voltemos  noite em que encontrou Loretta Marshall num bar. Que espcie de bar era?
 - Eu. . . eu no sei dizer ao certo. Nunca l tinha entrado.
 - Era um bar de celibatrios, no era?
 - No fao a mnima ideia.
 - Bom, para sua informao, o Play Pen era e  um bar de celibatrios. Diz-se que  um local de encontro, um rendez-vous onde os homens e as mulheres vo para
arranjarem parceiros que possam levar para a cama. No foi para isso que l foi, Mr. Randall?
 Curtis Randall recomeou a lamber o lbio.
 - Talvez... talvez tenha sido. J no me recordo.
 - No se recorda? - A voz de Jennifer era sarcstica. - Lembra-se por acaso da data em que encontrou pela primeira vez Loretta Marshall nesse bar?
 - No. No me lembro ao certo.
 - Ento permita-me que lhe refresque a memria.
 Jennifer encaminhou-se para a mesa da defesa e comeou a consultar alguns papis. Rabiscou uma nota, como se estivesse a copiar uma data, e estendeu-a a Ken Bailey.
Ele estudou-a, com uma expresso perplexa no rosto.  Jennifer aproximou-se de novo do banco das testemunhas.
 - Foi a dezoito de Janeiro, Mr. Randall.
Pelo canto do olho, Jennifer viu Ken Bailey abandonar a sala de audincias.
 - Talvez tenha sido. Como j lhe disse, no me recordo.
 Durante os quinze minutos que se seguiram, Jennifer continuou a interrogar Curtis Randall. Foi um contra-interrogatrio desconexo e moderado, e Roger Davis no
interrompeu, pois viu que Jennifer no estava a conseguir interessar os jurados, que comeavam a parecer saturados.  Jennifer continuou a falar, mantendo-se sempre
atenta  chegada de Ken Bailey. A meio de uma pergunta, Jennifer viu-o entrar apressadamente na sala de audincias, trazendo consigo um pequeno embrulho.
 Jennifer voltou-se para o juiz.
 - Vossa Honra, posso pedir um intervalo de quinze minutos?
 O juiz consultou o relgio de parede.
 - Visto que so quase horas do almoo, o tribunal fica suspenso at  uma e meia.
  uma e meia, o tribunal estava de novo em sesso. Jennifer tinha mudado Loretta Marshall para um lugar mais prximo do estrado do jri, com o beb ao colo.
 - Mr. Randall, o senhor encontra-se ainda sob juramento - comeou o juiz. - No ter de jurar de novo. Queira vir para o banco das testemunhas, por favor.
 Jennifer viu Curtis Randall sentar-se no banco das testemunhas. Aproximou-se dele e disse:
 - Mr. Randall, quantos filhos ilegtimos gerou o senhor?
 Roger Davis pusera-se de p.
 - Objeco! Isto  ultrajante, Vossa Honra. No permito que o meu cliente seja sujeito a uma tal humilhao.
 O juiz respondeu:
 - Objeco aceite. - Voltou-se para Jennifer: - Miss Parker, avisei-a. . .
 - Peo desculpa, Vossa Honra - disse Jennifer com ar contrito.
 Olhou para Curtis Randall e reparou que ele tinha feito o que ela pretendia. Estava a lamber os lbios com grande nervosismo. Jennifer voltou-se para Loretta Marshall
e para o beb. Tambm o beb lambia activamente os lbios. Jennifer encaminhou-se muito devagar para a criana e ficou um longo momento em frente dela, com o intuito
de chamar a ateno do jri.
 - Olhem para aquela criana - pediu Jennifer com suavidade.
 Todos eles observavam a pequena Melanie, cuja lngua rosada lambia o lbio inferior.
 Jennifer voltou-se e aproximou-se de novo do banco das testemunhas.
 - E olhem para este homem.
 Os doze pares de olhos voltaram-se para se concentrarem em Curtis Randall. Continuava sentado, lambendo nervosamente o lbio inferior e, de sbito, a semelhana
foi inconfundvel. Estava esquecido o facto de Loretta Marshall ter dormido com dzias de outros homens. Estava esquecido o facto de Curtis Randall ser um pilar
da comunidade.
 - Este  um homem - concluiu Jennifer com ar melanclico - de posio e de meios. Um homem para quem todos olham. Quero apenas fazer-vos uma pergunta: que espcie
de homem  este que renega a sua prpria filha?
 O jri esteve retirado durante menos de uma hora, e regressou com uma sentena a favor da parte queixosa. Loretta Marshall ia receber duzentos mil dlares em dinheiro
e dois mil dlares mensais para sustento da criana.  Quando o veredicto foi pronunciado, Roger Davis dirigiu-se para Jennifer a passos largos, o rosto corado de
irritao.
 - Fez alguma coisa quele beb?
 - O que quer dizer com isso?
 Roger Davis hesitou, no se sentindo muito seguro.
 - Aquela coisa do lbio. Foi isso que conquistou o jri, o beb a lamber os lbios daquela maneira. Pode explicar-me isso?
 - De facto - respondeu Jennifer com arrogncia -, posso.
Chama-se hereditariedade. - E foi-se embora.
De regresso ao escritrio, Jennifer e Ken Bailey esvaziaram a garrafa de usque.
Adam Warner soubera quase desde o incio que o seu casamento com Mary Beth tinha sido um erro. Fora impulsivo e idealista ao tentar proteger uma jovem que parecia
perdida e vulnervel ao mundo.  Adam daria tudo para no magoar Mary Beth, mas estava profundamente apaixonado por Jennifer. Necessitava de algum com quem desabafar,
e decidiu-se por Stewart Needham. Stewart  tinha sido sempre compreensivo. Iria entender a
situao de Adam.  O encontro revelou-se muito diferente daquilo que Adam planeara. Quando Adam entrou no gabinete de Stewart Needham, Needham comentou:
 - Vens mesmo a propsito. Acabo de falar pelo telefone com a comisso eleitoral. Pedem-te formalmente que te candidates ao Senado dos Estados Unidos. Ters todo
o apoio do
partido.
 - Eu... isso  esplndido - respondeu Adam.
 - Temos muito que fazer, meu rapaz. Precisamos de comear a organizar as coisas. Vou fundar uma comisso para
recolha de fundos. Acho que devamos comear por. . . Durante as duas horas que se seguiram, discutiram planos para a campanha.
 Quando terminaram, Adam disse:
 - Stewart, gostava de te falar sobre um assunto particular.
 - Tenho um cliente  minha espera, Adam.
 E Adam teve a sensao repentina de que Stewart Needham soubera sempre o que ele tinha em mente.  Adam tinha combinado almoar com Jennifer numa leitaria de West
Side. Ela esperava-o numa mesa do fundo. Adam entrou com um ar decidido e, pela expresso dele, Jennifer compreendeu que tinha acontecido qualquer coisa.
 - Tenho notcias para ti - disse-lhe Adam. - Pediram-me que me candidatasse ao Senado dos Estados Unidos.
 - Oh, Adam! - Jennifer sentiu-se invadida por uma sbita excitao. -  maravilhoso! Vais ser um grande senador!
 - A competio vai ser feroz. Nova Iorque  um estado difcil.
 - No importa. Ningum poder deter-te. - E Jennifer sabia que era verdade. Adam era inteligente e corajoso, decidido a lutar por aquilo em que acreditava. Tal
como lutara um
dia por ela.
 - Tenho tanto orgulho em ti, querido - disse Jennifer com vivacidade, pegando-lhe na mo.
 - Calma, ainda no fui eleito.  costume dizer-se que da mo  boca se perde a sopa.
 - Isso no impede que me sinta orgulhosa. Amo-te tanto, Adam.
 - Eu tambm te amo
 Adam pensou em contar a Jennifer a conversa que tivera com Stewart Needham, mas resolveu no o fazer. Isso podia esperar at que ele esclarecesse as coisas.
 - Quando  que comeas a campanha?
 - Querem que eu anuncie j a minha candidatura. Terei o apoio unnime do partido.
 -  maravilhoso!
 Havia algo que nada tinha de maravilhoso e que martelava no esprito de Jennifer. Era algo que ela no queria traduzir por palavras, mas reconhecia que, mais tarde
ou mais cedo, teria de o enfrentar. Desejava que Adam ganhasse, mas a corrida para o Senado iria ser como uma espada de Dmocles suspensa sobre a sua cabea. Se
Adam vencesse, Jennifer perd-lo-ia. Ele ascenderia a uma posio mais elevada e no iria haver na sua vida lugar para escndalos. Era um homem casado e, se se
descobrisse que tinha uma amante, seria um suicdio poltico.  Naquela noite, pela primeira vez desde que se apaixonara por Adam, Jennifer teve insnias. Ficou
acordada at ao amanhecer, lutando contra os demnios da noite.
 - Tem um telefonema  sua espera - anunciou Cynthia.
-  outra vez o marciano.
 Jennifer olhou-a sem compreender.
 - Sabe, aquele da histria do manicmio.
 Jennifer tinha-se esquecido completamente do homem. Era, sem dvida, algum que precisava de tratamento psiquitrico.
 - Diga-lhe que... - suspirou. - Deixe l. Eu falo com ele.
 Levantou o auscultador.
 - Jennifer Parker.
 - Verificou a informao que lhe dei? - inquiriu a voz familiar.
 - No tive oportunidade - lembrou-se que deitara fora as  notas que tinha tomado. - Gostava de o ajudar. Quer dizer-me  o seu nome?
 - No posso - murmurou ele. - Andam tambm atrs de mim. Se quiser, verifique. Helen Cooper. Long Island.
 - Posso recomendar um mdico que. . . - A comunicao foi cortada.
 Jennifer deixou-se ficar sentada por um momento, a  reflectir, e depois pediu a Ken Bailey que viesse ao seu  gabinete.
 - O que se passa, chefe?
 - Nada. . . acho eu. Recebi uns telefonemas estranhos de algum que no quer dizer o nome. Veja, por favor, se  consegue descobrir qualquer coisa sobre uma mulher
chamada Helen Cooper. Parece que teve uma grande propriedade em Long Island.
 - Onde se encontra ela agora?
 - Ou num manicmio, ou em Marte.
 Ken Bailey estava de volta duas horas mais tarde e, para grande assombro de Jennifer, participou-lhe:
 - A sua marciana aterrou. H uma Helen Cooper internada em The Heathers Hospital, em Westchester.
 - Tem a certeza? - Ken Bailey pareceu ficar ofendido.
- No era isso que eu queria dizer - esclareceu Jennifer.
Ken era o melhor investigador que conhecera em toda a sua vida. Nunca afirmava nada sem ter a certeza absoluta do que dizia e nunca se enganava.
 - Qual  o seu interesse pela dama? - perguntou Ken.
 - H quem pense que foi metida  traio no manicmio.
Gostaria que investigasse o passado dela. Quero saber tudo sobre a famlia.
  As informaes estavam sobre a secretria de Jennifer na manh seguinte. Helen Cooper era uma viva a quem o ltimo  marido deixara uma fortuna de quatro milhes
de dlares. A fllha casara com o superintendente do prdio em que moravam  e, seis meses aps o casamento, os noivos tinham ido ao tribunal pedir que a me fosse
declarada incapaz e que a  propriedade passasse para as mos deles. Tinham arranjado  trs psiquiatras que atestaram a incapacidade de Helen Cooper e o tribunal
enviara-a para o manicmio.  Jennifer acabou de ler o relatrio e ergueu o olhar para Ken Bailey.
 - Tudo isto parece um pouco estranho, no acha?
 - Estranho? Eu diria mais que isso. O que tenciona fazer?
 Era uma pergunta difcil. Jennifer no tinha clientes. Se a famlia de Mrs. Cooper a fechara a sete chaves, no iria  certamente acolher bem a interferncia de
Jennifer e, dado  que a mulher tinha sido considerada louca, no tinha competncia para contratar Jennifer. Era um problema interessante.  Jennifer sabia pelo menos
uma coisa: com ou sem cliente, no  iria ficar parada a ver algum ser metido  fora num manicmio.
 - Vou fazer uma visita a Mrs. Cooper - decidiu Jennifer.
 The Heathers Hospital ficava situado em Westchester, no meio de uma grande extenso de arvoredo. O terreno era  rodeado por uma cerca e o nico acesso era feito
atravs de   um porto vigiado. Jennifer no estava ainda disposta a participar  famlia o que tencionava fazer, por isso fez alguns  telefonemas at encontrar
um conhecido que tinha um contacto  no manicmio e que tomou providncias para que Jennifer pudesse  visitar Mrs. Cooper.  A directora do manicmio, Mrs. Franklin,
era uma mulher rgida e de rosto severo que lembrava a Jennifer Mrs. Danvers de Rebecca.
 - Para ser franca - disse Mrs. Franklin torcendo o nariz -, eu no devia deix-la falar com Mrs. Cooper. No entanto, vamos considerar isto uma visita sem carcter
oficial. No figurar nos registos.
 - Obrigada.
 - Vou pedir que a tragam aqui.
Helen Cooper era uma mulher esbelta e atraente, com cerca de setenta anos. Possua uns vivos olhos azuis que irradiavam inteligncia, e mostrou-se to amvel como
se estivesse a  receber Jennifer na sua prpria casa.
 - Foi simptico da sua parte ter-me vindo visitar - disse Mrs. Cooper -, mas receio no compreender bem o motivo pelo qual est aqui.
 - Sou advogada, Mrs. Cooper. Recebi dois telefonemas annimos a dizer que a senhora se encontrava aqui, e que no era este o seu lugar.
 Mrs. Cooper esboou um sorriso suave.
 - Deve ter sido Albert.
 - Albert?
 - Foi meu mordomo durante vinte e cinco anos. Quando a minha filha Dorothy casou, ela despediu-o. - Suspirou. -  Pobre Albert. Ele pertence realmente ao passado,
a outro mundo. Creio que, de certo modo, eu tambm. Voc  muito jovem, minha querida, por isso talvez no tenha conscincia de como as coisas mudaram. Sabe o que
falta hoje?
Indulgncia. Foi substituda, receio bem, pela cobia.
 - A sua filha? - perguntou Jennifer, em tom calmo.
 Os olhos de Mrs. Cooper entristeceram.
 - No censuro Dorothy. A culpa  do marido. No  um homem muito atraente, pelo menos sob o ponto de vista moral.  Receio que a minha filha no seja muito bela.
Herbert casou com Dorothy por interesse, e afinal descobriu que a propriedade se encontrava inteiramente nas minhas mos. Isso no lhe agradou.
 - Ele disse-lhe isso a si?
 - Oh,  claro que sim. O meu genro foi muito sincero nesse ponto. Achou que eu devia dar a propriedade  minha filha naquela altura, em vez de a fazer esperar
pela minha morte. Eu t-lo-ia feito, s que no confiava nele. Sabia o que iria acontecer se ele alguma vez deitasse a mo a todo aquele dinheiro.
 - J alguma vez sofreu de doena mental, Mrs. Cooper?
 Helen Cooper olhou para Jennifer e respondeu, com um modo estranho:
 - Segundo os mdicos, sofro de esquizofrenia e de parania.
 Jennifer tinha a sensao de que, em toda a sua vida, nunca falara com uma pessoa to s de esprito.
 - Sabe que a sua incapacidade foi atestada por trs mdicos?
 - A propriedade Cooper est avaliada em quatro milhes de dlares, Miss Parker. Por esse dinheiro podem influenciar-se muitos mdicos. Mas acho que est a perder
o seu tempo. O meu genro dirige agora a propriedade. Nunca me deixar sair daqui.
 - Gostava de falar com o seu genro.
 As Torres Plaza ficavam no lado oriental da Rua Setenta e Dois, numa das mais belas reas residenciais de Nova Iorque. Helen Cooper tinha ali a sua prpria habitao.
Agora, a  chapa da porta dizia Mr. e Mrs. Herbert Hawthorne.  Jennifer telefonara previamente  filha, Dorothy, e quando Jennifer chegou ao apartamento, tanto Dorothy
como o marido  se encontravam  sua espera. Helen Cooper tivera razo a respeito da filha. No era atraente. Era magra e tmida, no tinha queixo, e o olho direito
tinha um derrame. O marido, Herbert, parecia um ssia de Archie Bunker '. Era pelo menos vinte anos mais velho do que Dorothy.
 - Entre - resmungou ele.
 Acompanhou Jennifer desde o trio at uma enorme sala de visitas, cujas paredes estavam cobertas de quadros de mestres franceses e holandeses.
 - Bom, suponho que me vai explicar que diabo vem a ser isto - disse Hawthorne a Jennifer, em tom rude.
 Jennifer voltou-se para a rapariga.
 - Trata-se da sua me.
 - O que lhe aconteceu?
 - Quando  que ela comeou a mostrar sinais de demncia?
 - Ela. . .
 Herbert Hawthorne interrompeu-a.
 - Logo a seguir a Dorothy e eu termos casado. A velhota no conseguia suportar-me.
 Isso , certamente, uma prova de juzo, pensou Jennifer.
 - Li os relatrios dos mdicos - informou Jennifer. -  Pareceram-me influenciados.
 - O que quer dizer com esse influenciados, - O tom da voz dele era truculento.
- O que quero dizer  que os relatrios mostravam que eles estavam a negociar com crebros que no possuam padres  exactos para poderem definir aquilo a que a
sociedade chama sanidade mental. A deciso deles baseou-se, em parte, naquilo que o senhor e a sua mulher lhes contaram a respeito do comportamento de Mrs. Cooper.
 - O que est a tentar insinuar?
 - Estou a dizer que a prova no  evidente. Trs outros mdicos poderiam ter chegado a uma concluso inteiramente diferente.
 - Olhe l - disse Herbert Hawthorne -, no sei o que  que tenciona fazer, mas a velha  pateta. Foi o que  declararam os mdicos e o tribunal.
 - Li o traslado do tribunal - replicou Jennifer. - O  tribunal tambm sugeriu que o caso fosse revisto  periodicamente.
 Havia consternao no rosto de Herbert Hawthorne.
 - Acha que a podem deixar sair?
 - Vo deix-la sair - prometeu Jennifer. - Vou fazer os possveis para isso.
 - Espere a! Que raio se est a passar?
 -  isso que tenciono descobrir. - Jennifer voltou-se para a rapariga: - Investiguei a anterior ficha clnica da  sua me. Nunca houve nada de errado com ela,
nem mental nem emocionalmente. Ela. . .
 Herbert Hawthorne interrompeu.
 - Isso no quer dizer nada! Estas coisas acontecem de um momento para o outro. Ela. . .
 - Alm disso - continuou Jennifer, dirigindo-se a Dorothy -,  investiguei as actividades sociais da sua me antes de a terem internado. Levava uma vida completamente
normal.
 - No me interessa aquilo que a senhora ou qualquer outra pessoa possam dizer. Ela  louca! - gritou Herbert Hawthorne.
 Jennifer virou-se para ele e observou-o por um momento.
 - Pediu a Mrs. Cooper que lhe desse a propriedade?
 - Isso no lhe diz respeito!
 - Talvez venha a dizer. Creio que, por agora,  tudo. - E Jennifer comeou a encaminhar-se para a porta.
 Herbert Hawthorne colocou-se  frente dela, impedindo-lhe a passagem.
 - Espere um minuto. Est a meter o nariz onde no  chamada. Est a ver se apanha algum dinheiro, no ? Okay, eu compreendo isso, querida. Vou fazer o seguinte:
passo-lhe j um cheque de mil dlares por servios prestados, e voc desiste de tudo. Ento?
 - Lamento - replicou Jennifer. - No aceito.
 - Pensa que a velha lhe vai dar mais?
 - No - respondeu Jennifer, olhando-o intencionalmente. -  Apenas um de ns est metido nisto por interesse.
 Durante seis semanas houve interrogatrios, exames  psiquitricos e conferncias com quatro agncias estatais diferentes. Jennifer trouxe os seus prprios psiquiatras.
 Quando terminaram as suas consultas e depois de Jennifer ter  apresentado todos os factos de que dispunha, o juiz revogou a  sua deciso anterior, Helen Cooper
teve alta e a propriedade  voltou s suas mos.  Na manh em que Helen Cooper deixou o manicmio, esta telefonou a Jennifer.
 - Quero que v almoar comigo ao Twenty-One.
 Jennifer consultou a sua agenda. Tinha uma manh muito ocupada, um encontro para almoar e uma tarde atarefada no tribunal, mas sabia o quanto isto significava
para a velhota.
 - L estarei - aceitou Jennifer.
 Na voz de Helen Cooper transpareceu satisfao.
 - Faremos uma pequena festa.
 O almoo foi excelente. Mrs. Cooper era uma anfitri  solcita e era bvio que a conheciam bem no 21.  Jerry Berns conduziu-as a uma mesa do primeiro andar, onde
ficaram rodeadas de belas antiguidades e de prata  jorgiana. A comida e o servio foram soberbos.  Helen Cooper esperou at comearem a tomar o caf. Ento declarou
a Jennifer:
 - Estou-lhe muito grata, minha querida. No sei se est a pensar apresentar uma conta muito elevada, mas gostaria de lhe oferecer mais qualquer coisa.
 - Os meus honorrios j so suficientemente elevados.  Mrs. Cooper abanou a cabea.
 - No tem importncia. - Inclinou-se para a frente, tomou as  mos de Jennifer entre as dela e a sua voz tornou-se num murmrio: - Vou oferecer-lhe Wyoming.
A primeira pgina do New York Times trazia, lado a lado, dois artigos de interesse. Um deles anunciava que Jennifer Parker tinha obtido a absolvio de uma mulher
acusada de ter assassinado o marido. O outro era um artigo sobre a  candidatura de Adam Warner ao Senado dos Estados Unidos.  Jennifer leu e releu o artigo a respeito
de Adam. Referia-se ao seu passado, ao seu servio militar como piloto na Guerra do Vietname e ao facto de ter recebido a Distinguished Flying Cross ' pela sua
coragem. Era profundamente elogiador e  citava uma srie de pessoas proeminentes que consideravam que Adam Warner seria uma honra para o Senado dos Estados Unidos
e para a nao. No fim do artigo, havia uma forte insinuao de que, se Adam fosse bem sucedido na sua  campanha, esta poderia ser um ptimo trampolim para a sua
 candidatura  presidncia dos Estados Unidos.  Em New Jersey, na casa de campo de Antonio Granelli, Michael Moretti e Antonio Granelli terminavam o pequeno-almoo.
Michael estava a ler o artigo sobre Jennifer Parker.
 - Ela conseguiu outra vez, Tony - comentou ele, levantando  os olhos para o sogro.
 Antonio Granelli levou  boca uma colher de ovo escalfado.
 - Quem  que conseguiu outra vez?
 - Aquela advogada. Jennifer Parker.  espantosa.
 Antonio Granelli resmungou.
 - No me agrada a ideia de ver uma advogada trabalhando para ns. As mulheres so fracas. Nunca se sabe o que podem fazer.
- Tens razo, muitas delas so assim, Tony - concordou Michael com prudncia.
 No valia a pena contrariar o sogro. Enquanto Antonio Granelli fosse vivo, era um perigo permanente; todavia, ao observ-lo agora, Michael reconhecia que no teria
de esperar muito mais tempo. O velho tinha sofrido uma srie de pequenos  ataques e as mos tremiam-lhe. Tinha dificuldade em falar e  caminhava apoiado a uma bengala.
A sua pele parecia pergaminho seco e amarelecido. Todos os sucos tinham sido sugados dele. Este homem, que se encontrava  cabea da lista dos crimes federais,
no passava de um tigre  desdentado. O seu nome tinha provocado terror nos coraes de inmeros mafiosi e dio nos das respectivas vivas. Agora, Antonio Granelli
era visto por muito poucas pessoas. Ocultava-se por trs de Michael, de Thomas Colfax e de mais alguns em quem confiava.  Michael no tinha sido ainda promovido
- nomeado chefe da Famlia - mas era apenas uma questo de tempo. Moreno  Trs-Dedos" Lucchese fora o mais poderoso dos cinco chefes da Mafia da Costa Oriental,
seguira-se-lhe Antonio Granelli, e em breve. . . Michael precisava de ter pacincia. Percorrera um longo caminho desde a altura em que, garoto pretensioso e impertinente,
se tinha perfilado perante as  mais importantes personagens de Nova Iorque, segurando na mo um pedao de papel a arder, e jurado:  assim que eu  arderei se trair
os segredos da Cosa Nostra. "  Agora, sentado com o velho  mesa do pequeno-almoo, Michael sugeria:
 - Talvez possamos servir-nos da tal Parker para pequenas coisas. S para ver como ela se sai.
 Granelli encolheu os ombros.
 - Tem cautela, Mike. No quero estranhos metidos nos segredos da Famlia.
 - Deixe-me tratar dela.
 Michael fez o telefonema nessa tarde.
 Quando Cynthia anunciou que Michael Moretti estava ao telefone, veio-lhe imediatamente  memria uma torrente de recordaes, todas elas desagradveis. Jennifer
no conseguia imaginar o motivo pelo qual Michael Moretti lhe telefonava.  Por simples curiosidade, levantou o auscultador.
 - O que deseja?
O tom spero da sua voz surpreendeu Michael Moretti.
 - Quero v-la. Creio que a senhora e eu devamos ter uma conversa.
 - Sobre qu, Mr. Moretti?
 - No me convm falar nisso pelo telefone. Posso, no ?entanto, dizer-lhe isto, Miss Parker: trata-se de algo que deveria interess-la muito.
 - E eu posso dizer-lhe o seguinte, Mr. Moretti - respondeu  Jennifer com toda a calma. - Nada do que possa fazer ou dizer ter o menor interesse para mim. - E
pousou o auscultador.
 Michael Moretti ficou sentado  secretria, olhando para o telefone emudecido na sua mo. Sentia uma excitao dentro dele, mas no era raiva. No tinha a certeza
do que se tratava, e tambm no tinha a certeza de isso Lhe agradar. Servira-se das mulheres durante toda a vida, e o seu rosto moreno e a sua crueldade inata tinham-lhe
arranjado mais companheiras de cama ardentes do que a sua memria conseguia recordar.  No fundo, Michael Moretti desprezava as mulheres. Eram demasiado brandas.
No tinham personalidade. Rosa, por exemplo.  como um cozinho de estimao que faz tudo o que lhe ordenam?,, pensou Michael. Trata da minha casa, cozinha para
mim, fornica-me quando quero ser fornicado, cala-se quando a mando calar.,?  Michael nunca conhecera uma mulher com personalidade, uma mulher que tivesse a coragem
de o desafiar. Jennifer Parker tivera a audcia de desligar o telefone. O que tinha ela dito? Nada do que possa fazer ou dizer ter o menor  interesse para mim."
Michael Moretti pensou naquilo e sorriu  intimamente. Ela enganava-se. Ele ia mostrar-lhe como estava enganada.  Recostou-se na cadeira, recordando a primeira vez
que a vira no tribunal, recordando o rosto e o corpo dela. De sbito, tentou imaginar como seria ela na cama. Uma gata selvagem, provavelmente. Ps-se a imaginar
o seu corpo nu sob o dele, combatendo-o. Pegou no telefone e discou um nmero.  Quando uma voz feminina atendeu, disse:
 - Despe-te. Vou j para a.
 Ao regressar ao escritrio, depois do almoo, quando  Jennifer ia a atravessar a Terceira Avenida, por pouco no  foi atropelada por um camio. O motorista travou
ruidosamente e a traseira do camio derrapou para o lado, no a atingindo  por um triz.
 - Jesus Cristo, minha senhora - gritou o motorista. - Porque  no v por onde vai?
 Jennifer nem o ouvia.
 Estava a contemplar o nome na retaguarda do camio. Dizia Nationwide Motors Corporation. Muito tempo depois de o camio ter desaparecido, ainda ela continuava
no mesmo stio.  Por fim deu meia volta e dirigiu-se a toda a pressa para o escritrio.
 - Ken est? - perguntou a Cynthia.
 - Sim. Encontra-se no gabinete.
 Foi ter com ele.
 - Ken, pode investigar a Nationwide Motors Corporation?
Precisamos de uma lista de todos os acidentes em que os  camies deles estiveram envolvidos nos ltimos cinco anos.
 - Isso vai levar um certo tempo.
 - Sirva-se do LEXIS. - Era o computador nacional dos advogados.
 - Quer dizer-me o que se passa?
 - Ainda no tenho a certeza, Ken.  apenas uma suspeita. Conto-lhe se se chegar a descobrir alguma coisa.  Tinha deixado passar algo no caso de Connie Garrett,
aquela  amputada qudrupla que estava destinada a ser um aborto para o resto da vida. O motorista poderia ter uma folha de servio impecvel mas o que se passaria
com os camies? Talvez algum fosse responsvel, afinal de contas.  Na manh seguinte, Ken Bailey colocou um relatrio em frente de Jennifer.
 - Seja o que for que voc procura, parece que teve sorte. A  Nationwide Motors Corporation teve quinze acidentes nos ltimos cinco anos, e alguns dos camies foram
 devolvidos.  Jennifer comeou a sentir-se excitada.
 - Qual foi o problema?
 - Uma deficincia no sistema de travagem que faz guinar a retaguarda do camio quando se carrega a fundo nos traves.  Tinha sido a retaguarda do camio que atingira
Connie Garrett. Jennifer convocou uma reunio de trabalho com Dan Martin, Ted  Harris e Ken Bailey.
 - Vamos levar a tribunal o caso de Connie Garrett - anunciou  Jennifer.
 Ted Harris fitou-a atravs dos seus culos de lentes  grossas.
 - Espere um minuto, Jennifer, eu investiguei isso. Ela perdeu o recurso. Vai-se-nos deparar a res judicata.
 - O que  res judicata ? - quis saber Ken.
 -  para os casos civis aquilo que o risco duplo  para os casos penais. Tem de haver um limite para o litgio?, -  explicou Jennifer.
 - Uma vez tomada uma deciso final sobre a validade de um processo, este s poder ser reaberto em circunstncias muito especiais - acrescentou Ted Harris. - No
temos motivos para o reabrir.
 - Temos sim. Vamos procur-los com base na descoberta.  O princpio da descoberta dizia: O conhecimento mtuo de todos os factos relevantes recolhidos por ambas
as partes   essencial ao litgio correcto."
 - O acusado  a Nationwide Motors Corporation. Ocultaram  informaes ao advogado de Connie Garrett. H uma deficincia no sistema de travagem dos camies e esse
facto no foi referido no relatrio.  Ela olhou para os dois advogados.
 - Eis o que penso que devemos fazer. . .
 Passadas duas horas, Jennifer encontrava-se sentada na sala de estar de Connie Garrett.
 - Quero requerer um novo julgamento. Creio que temos uma causa.
 - No. No vou conseguir suportar outro julgamento.
 - Connie. . .
 - Olhe para mim, Jennifer. Sou um aborto. Sempre que me vejo ao espelho tenho vontade de me matar. Sabe porque no o fao? A voz dela tornou-se um murmrio. -
Porque no posso. No posso!
 Jennifer ficou abalada. Como pudera ser to insensvel?
 - E se eu tentar um acordo fora do tribunal? Creio que assim que ouvirem a evidncia desejaro entrar num acordo sem ser necessrio novo julgamento.
 Os escritrios de Maguire e de Guthrie, os advogados que representavam a Nationwide Motors Corporation, situavam-se ao cimo da Quinta Avenida, num moderno edifcio
de vidro e cromo com um repuxo em frente. Jennifer anunciou-se na recepo. A recepcionista pediu-lhe que se sentasse e, quinze minutos mais tarde, Jennifer foi
introduzida no gabinete de Patrick Maguire. Era o scio principal da firma, um  inflexvel e teimoso irlands cujo olhar penetrante dava conta de tudo o que se
passava.  Indicou uma cadeira a Jennifer.
 - Tenho muito prazer em conhec-la, Miss Parker. Adquiriu  uma grande reputao na cidade.
 - Espero que no seja muito m.
 - Dizem que a senhora  dura. Mas no parece.
 - Espero que no.
 - Caf? Ou um pouco do bom usque irlands?
 - Caf, por favor.
 Patrick Maguire tocou uma campainha e uma secretria trouxe duas chvenas de caf numa salva de prata pura.
 - Em que posso ser-lhe til? - inquiriu Maguire.
 - Trata-se do caso Connie Garrett.
 - Ah, sim. Se bem me lembro, ela perdeu o processo e o recurso.
 Se bem me lembro". Jennifer teria apostado a sua vida em como Patrick Maguire teria conseguido citar todas as  estatsticas do processo.
 - Vou requerer um novo julgamento.
 - Sim? Com que bases? - perguntou Maguire delicadamente.
 Jennifer abriu a pasta dos documentos e retirou de l as instrues que preparara. Estendeu-lhas.
 - Estou a requerer uma reabertura por insuficincia de informaes.
 Maguire folheou os papis, imperturbvel.
 - Oh, sim - comentou. - Aquele problema dos traves.
 - O senhor sabia disso?
 -  evidente. - Bateu nas instrues com um dedo grosso e  curto. - Miss Parker, isto no vai conduzi-la a nada.
Teria de provar que o camio envolvido no acidente tinha um deficiente sistema de travagem. Provavelmente j foi revisto uma dzia de vezes depois do acidente,
pelo que no haveria maneira de provar em que estado se encontrava nessa altura.
- Empurrou as instrues na direco dela. - A senhora no tem causa nenhuma.
 Jennifer tomou um gole de caf.
 - O que tenho de fazer  provar as ms condies de  segurana desses camies. A diligncia normal devia ter  informado a sua constituinte de que estavam deficientes.
 - O que  que est a propor? - inquiriu Maguire, num tom despreocupado.
 - Tenho uma cliente de vinte e poucos anos, sentada numa sala de estar que nunca abandonar para o resto da vida, porque no tem braos nem pernas. Eu gostaria
de obter uma penso que a compensasse um pouco da angstia em que vive.
 Patrick Maguire bebeu um gole de caf.
 - Que espcie de penso tem em mente?
 - Dois milhes de dlares.
 Ele sorriu.
 - Isso  muito dinheiro para quem no tem causa.
 - Se eu for a tribunal, Mr. Maguire, prometo-lhe que terei uma causa. E vou ganhar muito mais do que isso. Se nos obrigar a instaurar um processo, vamos pedir
cinco milhes de dlares.
 Ele sorriu de novo.
 - Est a assustar-me. Mais caf?
 - No, obrigada - Jennifer levantou-se.
 - Espere um minuto! Sente-se, por favor. Ainda no lhe disse que no.
 - Tambm no me disse que sim.
 - Beba mais um pouco de caf. Somos ns prprios que o fazemos.
 Jennifer pensou em Adam e no caf do Qunia.
 - Dois milhes de dlares  muito dinheiro, Miss Parker.
 Jennifer no respondeu.
 - Bem, se falssemos de uma quantia menor, talvez eu pudesse... - Fez um gesto expressivo com as mos.
 Jennifer continuou silenciosa.
 - Quer mesmo dois milhes, no quer? - perguntou por fim Patrick Maguire.
 - Para lhe ser franca, quero cinco milhes, Mr. Maguire.
 - Muito bem. Creio que poderemos arranjar qualquer coisa.
 Tinha sido fcil !
 - Parto amanh de manh para Londres, mas estarei de volta na prxima semana.
 - Quero ver isto resolvido. Agradecia que falasse com o seu constituinte o mais depressa possvel. Gostaria de  entregar um cheque  minha cliente na prxima semana.
 Patrick Maguire fez um sinal afirmativo com a cabea.
 - Creio que isso poder arranjar-se.
 Durante todo o caminho de regresso ao escritrio, Jennifer sentiu-se possuda por uma sensao de mal-estar. Tinha sido demasiado fcil.  Nessa noite, ao dirigir-se
para casa, Jennifer parou num drugstore. Quando saiu e olhou para o outro lado da rua, viu Ken Bailey acompanhado de um belo jovem loiro. Jennifer hesitou, e em
seguida esgueirou-se para uma rua transversal a fim de no ser vista. A vida privada de Ken s a ele dizia respeito.  No dia em que Jennifer tinha combinado encontrar-se
com Patrick Maguire, recebeu um telefonema da secretria dele.
 - Mr. Maguire pediu-me que lhe apresentasse as suas  desculpas, Miss Parker. Vai estar ocupado com reunies  durante todo o dia. Ter muito prazer em encontrar-se
consigo amanh,   hora que mais lhe convier.
 - Muito bem - respondeu Jennifer. - Obrigada.
 O telefonema fez soar um alarme no esprito de Jennifer. O seu instinto no se enganara. Patrick Maguire estava a  planear qualquer coisa.
 - Retenha os meus telefonemas - pediu a Cynthia.
 Fechou-se no gabinete, a andar de um lado para o outro, tentando prever todas as hipteses. Patrick Maguire comeara por dizer a Jennifer que ela no tinha causa
nenhuma. Quase sem ter sido necessrio persuadi-lo, concordara em pagar dois milhes de dlares a Connie Garrett. Jennifer recordou-se como se sentira perturbada
nessa altura. Desde ento, Patrick Maguire tinha estado incomunicvel. Primeiro Londres - se  que tinha ido mesmo a Londres - e depois as reunies que o tinham
impedido de responder aos telefonemas de Jennifer durante toda a semana. E agora outro atraso.   Mas porqu? A nica razo seria se. . . " Jennifer interrompeu
o passeio, pegou no telefone interno e falou para  Dan Martin.
 - Verifique a data do acidente de Connie Garrett, sim, Dan? Quero saber quando  que termina o estatuto de  prescrio.
 Passados vinte minutos, Dan Martin entrou no gabinete de Jennifer, muito plido.
 - Fomos apanhados - informou. - A sua suspeita estava certa.
O estatuto de prescrio terminou hoje.
 Ela sentiu um sbito mal-estar.
 - No h nenhuma hiptese de engano?
 - Nem uma. Lamento, Jennifer. Um de ns devia t-lo verificado antes. Nunca... nunca me passou pela cabea.
 - Nem a mim - Jennifer pegou no telefone e marcou um nmero. - Patrick Maguire, por favor. Fala Jennifer Parker.
 Pareceu-lhe esperar uma eternidade e depois disse com  vivacidade:
 - Ol, Mr. Maguire. Que tal estava Londres? - Ficou  escuta. - No, nunca l estive... Ah, bem, um dia destes...
O motivo do meu telefonema - continuou com naturalidade -  que acabo de falar com Connie Garrett. Como j tive ocasio de lhe dizer, ela no quer ir a tribunal,
a no ser que seja obrigada a isso. Assim, se pudssemos resolver isto hoje. . .
 O riso de Patrick Maguire ecoou atravs do auscultador.
 -  uma bela tentativa, Miss Parker. O estatuto de  prescrio termina hoje. Ningum vai processar ningum. Se  quiser combinar um almoo para qualquer altura,
poderemos conversar sobre a ironia do destino.   Jennifer tentou que a sua voz no mostrasse a ira que a invadia.
 - Isso foi um truque muito sujo, amigo.
 - Vivemos num mundo muito sujo, amiga - replicou Patrick Maguire com um risinho abafado.
 - No importa a maneira como se joga, o que interessa  ganhar ou perder, no ?
 -  muito esperta, querida, mas estou metido nisto h muito mais tempo do que voc. Diga  sua cliente que lhe desejo mais sorte da prxima vez.  E desligou.
Jennifer continuou com o telefone na mo. Pensou em Connie Garrett, sentada em casa, esperando pela notcia. A cabea de Jennifer tinha comeado a latejar e a testa
 perlara-se-lhe de suor. Tirou uma aspirina da gaveta da  secretria e olhou para o relgio de parede. Eram quatro horas. Precisavam  de entregar o processo ao
Escrivo do Supremo Tribunal at s cinco horas.
 - Quanto tempo levaria voc a preparar o processo? -  perguntou Jennifer a Dan Martin, que continuava ali,  partiLhando o sofrimento dela.  Ele seguiu-lhe o olhar.
 - Pelo menos trs horas. Ou quatro. No h a mnima hiptese.
 Tem de haver uma hiptese", pensou Jennifer.
 - A Nationwide tem filiais por todos os Estados Unidos?
- inquiriu Jennifer.
 - Sim.
 - Em So Francisco  apenas uma hora. Vamos process-los l  e posteriormente pedimos uma mudana de jurisdio.  Dan Martin abanou a cabea.
 - Jennifer, os papis encontram-se todos aqui. Se  arranjarmos uma firma em So Francisco, se dissermos o que  necessitamos e eles prepararem novos papis, no
h  possibilidade de o fazerem antes das cinco horas.  Havia nela algo que a obrigava a no desistir.
 - Que horas so no Havai?
 - Onze da manh.
 A dor de cabea de Jennifer desapareceu como por encanto e ela deu um salto na cadeira, excitada.
 - Ento  isso! Descubra se a Nationwide exerce l alguma  actividade. Tm de ter uma fbrica, um departamento de vendas, uma garagem - qualquer coisa. Se assim
for,  entregamos l o processo:  Dan Martin contemplou-a por uns momentos e o rosto iluminou- se-lhe.
 -  para j! - E encaminhou-se a toda a pressa para a porta.
 Jennifer ainda ouvia o tom enfatuado de Patrick Maguire ao telefone. Diga  sua cliente que lhe desejo mais sorte da prxima vez". . . No ia haver uma prxima
vez para Connie Garrett. Tinha de ser agora.  Meia hora mais tarde, o intercomunicador de Jennifer zumbiu
e Dan Martin participou, excitado:
 - A Nationwide Motors fabrica os seus eixos do motor na ilha de Oahu.
 - Apanhmo-los! Contacte uma firma jurdica de l e faa-os  preparar imediatamente os papis.
- Tem em mente alguma firma especial?
 - No. Arranje algum da Martindale - Hubel. Certifique-se  de que eles entregam os papis ao advogado local da National. Pea-lhes que nos telefonem assim que
o processo for entregue. Fico  espera aqui no escritrio.
 - Precisa que faa mais alguma coisa?
 - Que reze.
 O telefonema do Havai chegou s dez horas dessa mesma noite. Jennifer pegou precipitadamente no auscultador e ouviu uma voz suave dizer:
 - Miss Jennifer Parker, por favor.
 -  a prpria.
 - Fala Miss Sung, da firma jurdica Gregg e Hoy, em Oahu. Queremos inform-la de que os papis que nos pediu foram entregues h quinze minutos ao advogado da Nationwide
 Motors Corporation.  Jennifer respirou de alvio.
 - Obrigada. Muito obrigada.
 Cynthia mandou entrar Joey La Guardia. Jennifer nunca tinha visto este homem. Tinha-lhe telefonado, pedindo-lhe que o representasse num caso de assalto. Era baixo,
de  constituio slida e vestia um fato caro que parecia ter  sido feito por medida para outra pessoa. Usava um enorme anel de  diamantes no dedo mnimo.  La Guardia
sorriu, mostrando os dentes amarelados e  explicou:
 - Venho ter consigo porque preciso de ajuda. Qualquer pessoa pode cometer um erro, no  verdade, Miss Parker? Os chis deitaram-me a mo porque preguei uma partida
a uns tipos, mas eu pensava que me queriam apanhar, sabe? A rua estava escura e quando os vi caminhar na minha  direco... bem,  uma zona muito perigosa. Ataquei-os
antes  que eles me atacassem a mim.  Havia nos modos dele algo que Jennifer achava desagradvel e  falso. Estava a tentar ser demasiado insinuante.  Tirou do bolso
um volumoso mao de notas.
 - Aqui tem. Um milhar agora e outro milhar quando formos a  tribunal. Okay?
 - A minha agenda est preenchida durante os meses mais  prximos. Terei muito prazer em recomendar-lhe outros advogados.
 Ele insistiu.
 - No. No quero mais ningum. A senhora  a melhor.
 - No precisa da melhor para uma simples acusao de  assalto.
 - Olhe l - disse ele -, dou-lhe mais dinheiro. - Havia  desespero na sua voz. - Dois mil agora e...
 Jennifer premiu a campainha que estava debaixo da secretria  e Cynthia entrou.
 - Mr. La Guardia est de sada, Cynthia.
 Joey La Guardia olhou com irritao para Jennifer durante  um longo momento, recolheu o dinheiro e meteu-o no bolso.  Sem uma palavra abandonou o gabinete. Jennifer
carregou no
 boto do intercomunicador.
 - Ken, pode vir aqui um minuto?
 Ken Bailey levou menos de meia hora a arranjar um relatrio  completo sobre Joey La Guardia.
 - Tem um cadastro com uma milha de comprimento contou ele a  Jennifer. - Desde os dezasseis anos que tem  entrado e sado da priso. - Deu uma olhadela para a
folha  de papel que tinha na mo. - Est em liberdade condicional.  Foi preso na semana passada por assalto e agresso. Atacou  dois velhotes que deviam dinheiro
 Organizao.  De sbito, tudo se tornou claro.
 - Joey La Guardia trabalha para a Organizao?
 -  um dos mandatrios de Michael Moretti.
 Jennifer sentiu-se invadir por uma clera violenta.
 - Pode arranjar-me o nmero de telefone de Michael Moretti?
 Cinco minutos mais tarde, Jennifer falava com Michael  Moretti.
 - Bem, isto  um prazer inesperado, Miss Parker. Eu...
 - Mr. Moretti, no gosto de ser ludibriada.
 - O que quer dizer com isso?
 - Escute. Mas escute bem. No estou  venda. Nem agora, nem  nunca. No o representarei a si, nem a ningum que  trabalhe para o senhor. S quero que me deixe
em paz.  Entendido?
 - Posso fazer-Lhe uma pergunta?
 - Faa.
 - Quer almoar comigo?
 Jennifer desligou o telefone.
A voz de Cynthia ouviu-se atravs do intercomunicador.
 - Est aqui um tal Mr. Patrick Maguire para lhe falar, Miss Parker. No tem marcao, mas disse...
 Jennifer sorriu intimamente.
 - Pea a Mr. Maguire que aguarde.
 Recordava-se da conversa telefnica. No importa a maneira  como se joga, o que interessa  ganhar ou perder, no ?  muito esperta, querida, mas estou metido
nisto h muito mais tempo do que voc. Diga  sua cliente que lhe desejo mais sorte da prxima vez.,?
 Jennifer fez Patrick Maguire esperar durante quarenta e cinco minutos, e depois falou com Cynthia pelo  intercomunicador.
 - Mande entrar Mr. Maguire, por favor.
 Os bons modos de Patrick Maguire tinham desaparecido. Tinha sido vencido, estava irritado e no se dava ao trabalho de o esconder.  Aproximou-se da secretria
de Jennifer, dizendo em tom desabrido:
 - Est a causar-me muitos problemas, amiga.
 - Estou, amigo?
 Ele sentou-se sem ser convidado.
 - Deixemo-nos de brincadeiras. Recebi um telefonema do consultor jurdico da Nationwide Motors. Eu menosprezei-a. O meu cliente deseja entrar num acordo. - Meteu
a mo ao bolso, extraiu de l um sobrescrito e estendeu-o a Jennifer. Ela abriu-o. L dentro estava um cheque visado, passado em nome de Connie Garrett. Era de
cem mil dlares.  Jennifer tornou a meter o cheque no sobrescrito e devolveu-o  a Patrick Maguire.
 - No chega. Estamos a pedir cinco milhes de dlares.
 Maguire sorriu.
 - No esto, no. Porque a sua cliente no ir ao tribunal.
Acabo de lhe fazer uma visita. A senhora no vai conseguir levar aquela rapariga a uma sala de audincias. Est  aterrorizada e, sem ela, no tem hiptese nenhuma.
 - O senhor no tinha o direito de falar com Connie Garrett sem eu estar presente - replicou Jennifer, furiosa.
 - S tentei prestar um favor a toda a gente. Aceite o
dinheiro e desaparea, amiga.
 Jennifer ps-se de p.
 - Saia daqui. O senhor d-me volta ao estmago.
 Patrick Maguire levantou-se.
 - Nunca pensei que o seu estmago pudesse ser voltado.  E saiu, levando consigo o cheque.  Ao v-lo ir embora, Jennifer pensou se no teria cometido um tremendo
erro. Pensou no que cem mil dlares poderiam fazer por Connie Garrett. Mas no era suficiente. No para aquilo que a rapariga teria de sofrer todos os dias at
ao  fim da vida.  Jennifer sabia que Patrick Maguire tinha razo num aspecto.  Sem Connie Garrett na sala de audincias, no havia  possibilidade de um jri se
pronunciar a favor de cinco  milhes de dlares. As palavras nunca os conseguiriam persuadir do horror daquela vida. Jennifer precisava do impacto da  presena
de Connie Garrett no tribunal, com o jri olhando-a  dia
aps dia; mas no havia maneira de Jennifer convencer a jovem  a comparecer no tribunal. Tinha de encontrar outra soluo.   Adam telefonou.
 - Desculpa no ter podido telefonar-te mais cedo - disse ele. - Tenho tido reunies por causa da corrida para o  Senado...
 - Est muito bem, querido, eu compreendo. Tenho de compreender?,, pensou ela.
 - Sinto muito a tua falta.
 - Tambm eu sinto a tua falta, Adam. Nunca sabers quanto. "
 - Quero ver-te.
 Jennifer tinha vontade de perguntar: Quando?", mas ficou  espera.
 Adam continuou.
 - Tenho de ir esta tarde para Albany. Telefono-te quando regressar.
 - Est bem. - Nada mais podia dizer. No podia fazer nada.
 s quatro horas da manh, Jennifer despertou de um sonho  terrvel e soube como  que ia conseguir obter cinco milhes  de dlares para Connie Garrett.
 - Organizmos atravs de todo o estado uma srie de jantares  para recolha de fundos. Vamos atacar apenas as cidades maiores. Falaremos para as cidades mais pequenas
atravs de alguns programas da televiso nacional, tais como Frente a Frente com a Nao, Hoje e Encontro com a Imprensa. Estamos  convencidos de que podemos arranjar.
. . Adam, ests a ouvir?  Adam voltou-se para Stewart Needham e para os outros trs homens que se encontravam na sala de reunies - peritos  em meios de informao,
segundo Lhe assegurara Needham - e  respondeu:
 - Sim,  claro, Stewart.
 Tinha estado a pensar em algo completamente diferente. Jennifer. Desejava poder t-la a seu lado, partilhando a  excitao da campanha, partilhando este momento,
partilhando  a sua vida.  Adam tentara por diversas vezes discutir a sua situao com Stewart Needham, mas o seu scio tinha conseguido mudar sempre de assunto.
 Adam estava ali sentado, pensando em Jennifer e em Mary Beth. Reconhecia que era injusto compar-las, mas era-lhe impossvel no o fazer.   estimulante estar
com Jennifer. Interessa-se por tudo e faz-me sentir vivo. Mary Beth vive no seu pequeno mundo privado. . . "  ?.Jennifer e eu temos milhares de coisas em comum.
Mary Beth e eu no temos nada em comum, a no ser o nosso casamento. . . ?,  Adoro o sentido de humor de Jennifer. Sabe rir de si  prpria. Mary Beth leva tudo
a srio. . . "  Jennifer faz-me sentir jovem. Mary Beth parece mais velha  do que na realidade . . . "  Jennifer tem confiana em si prpria. Mary Beth precisa
que eu lhe diga o que deve fazer. . . ?,  .?Cinco diferenas importantes entre a mulher que amo e a
minha mulher. "  Cinco motivos pelos quais nunca poderei separar-me de Mary Beth. .,  Numa quarta-feira de manh, nos primeiros dias de Agosto,  teve incio o julgamento
de Connie Garrett contra a  Nationwide Motors Corporation. Em circunstncias normais, o julgamento teria merecido apenas um pargrafo ou dois nos jornais mas, uma
vez que Jennifer Parker representava a queixosa, a imprensa encontrava-se ali em peso.  Patrick Maguire estava sentado no banco da defesa, rodeado  por uma bateria
de ajudantes vestidos com sbrios fatos cinzentos.  Deu-se incio ao processo de seleco do jri. Maguire mostrou-se descuidado, tocando quase as raias da indiferena,
pois sabia que Connie Garrett no ia comparecer no tribunal. A viso de uma amputada qudrupla, bela e jovem, teria sido um poderoso choque emocional que permitiria
obter de um jri uma elevada quantia em dinheiro - mas no ia haver nem rapariga, nem choque.  Desta vez, pensou Maguire, Jennifer Parker levou a melhor sobre si
prpria. ?,  Foi feita a lista dos jurados e iniciou-se o julgamento.  Patrick Maguire fez o seu depoimento inaugural, e Jennifer  teve de admitir que ele era,
na verdade, muito bom. Insistiu  longamente na difcil situao da pobre Connie Garrett,  dizendo tudo aquilo que Jennifer planeara dizer, mas roubando-lhe a sua
carga emocional. Falou do acidente, realando o facto de Connie Garrett ter escorregado no gelo e de o motorista do camio no ter tido culpa.
 - A queixosa pede-vos senhoras e senhores que lhe sejam  concedidos cinco milhes de dlares - Maguire abanou a cabea com uma expresso incrdula. - Cinco milhes
de dlares! J alguma vez viram tanto dinheiro? Eu no. A minha  firma tem alguns clientes abastados, mas quero dizer-vos  que, ao longo de toda a minha carreira
de advogado, nunca vi  sequer um milho de dlares - nem meio milho de dlares.  Ele percebia, pelas expresses das caras dos jurados, que o mesmo se passava com
eles.
 - A defesa vai aqui apresentar testemunhas que vos relataro  como se deu o acidente. E foi um acidente. Antes de  terminarmos, provaremos que a Nationwide Motors
no teve  culpabilidade neste assunto. J devem ter reparado que a pessoa que instaurou o processo, Connie Garrett, no se encontra  hoje no tribunal. A sua advogada
informou o Juiz Silverman   de que ela no chegar a comparecer. Connie Garrett no est  hoje, tal como devia, nesta sala de audincias, mas posso dizer-vos onde
se encontra. Neste preciso momento, em que estou aqui a falar convosco, Connie Garrett est sentada em casa, contando o dinheiro que julga que ides dar-lhe. Est
 espera que o telefone toque e que a sua advogada lhe  comunique quantos milhes de dlares conseguiu extorquir-vos.  Os senhores e eu sabemos que sempre que se
d um acidente  em que se encontra envolvida uma grande companhia - ainda que indirectamente - h quem comece logo a dizer:  Ora, aquela companhia  rica. Pode
pagar. Vamos apanhar-lhe  o mximo do que pudermos. "  Patrick Maguire fez uma pausa.
 - Connie Garrett no se encontra hoje nesta sala de  audincias porque no foi capaz de vos enfrentar. Ela sabe  que aquilo que est a tentar fazer  uma imoralidade.
Assim, vamos mand-la embora de mos vazias, para que isso sirva de lio a outras pessoas que possam sentir-se tentadas a fazer o mesmo no futuro. Uma pessoa tem
de ser responsvel pelos seus actos. Se algum escorrega num pedao de gelo, na rua, no pode lanar as culpas para cima dos capitalistas. Nem deve tentar extorquir-lhes
cinco milhes de dlares.
Obrigado.  Voltou-se para fazer uma vnia a Jennifer, em seguida  encaminhou-se para o banco da defesa e sentou-se.  Jennifer ps-se de p e aproximou-se do jri.
Estudou as caras deles, tentando avaliar a impresso causada por Patrick Maguire.  - O meu estimado colega disse-vos que Connie Garrett no iria estar presente
neste tribunal durante o julgamento. Est correcto. - Jennifer apontou para um espao vago na mesa da acusao. - Seria ali que Connie Garrett deveria estar sentada
se aqui se encontrasse. Mas no naquela
cadeira. Numa cadeira de rodas especial. Na cadeira em que  vive. Connie Garrett no estar presente nesta sala de audincias mas, antes de este julgamento terminar,
tero oportunidade de  a ver e de a conhecer como eu a conheci.  Houve no rosto de Patrick Maguire um intrigado franzir de  sobrancelhas. Inclinou-se e segredou
qualquer coisa a um dos  seus ajudantes.  Jennifer prosseguiu.
 " - Ouvi o modo eloquente como Mr. Maguire falou e devo  confessar-vos que fiquei impressionada. O corao  confrangeu-se-me de pena pela companhia multimilionria
que  est a  ser impiedosamente atacada por esta mulher de vinte e quatro  anos que no tem braos nem pernas. Por esta mulher que,  neste preciso momento, se encontra
sentada em casa,  esperando ansiosamente aquele telefonema que lhe dir que  est  rica. - O tom da voz de Jennifer tornou-se mais baixo.
 - Rica para fazer o qu? Para ir comprar diamantes para  as mos que no tem? Para comprar sapatos de baile para os  ps que no tem? Para comprar belos vestidos
que nunca
poder usar? Um Rolls Royce que a leve a festas para as quais  nunca ser convidada? Pensem s como ela se ir divertir  com esse dinheiro.  Jennifer falava com
muita calma e sinceridade, ao mesmo  tempo que, com o olhar, percorria lentamente as caras dos  jurados.
 - Mr. Maguire nunca viu cinco milhes de dlares de uma  s vez. Eu tambm no. Mas vou dizer-vos uma coisa. Se  neste momento eu oferecesse a qualquer um de vs
cinco  milhes de dlares em dinheiro e, se em troca, quisesse  apenas cortar-vos os braos e as pernas, no creio que cinco milhes de dlares parecessem muito
dinheiro. . .  A lei, neste caso,  muito clara - explicou Jennifer. Num  julgamento anterior, que a queixosa perdeu, os acusados  sabiam da existncia de uma falha
no sistema de travagem  dos seus camies, mas ocultaram esse facto  queixosa e ao  tribunal. Ao fazerem isso, agiram contra a lei. E essa a base  para este novo
julgamento. Segundo uma recente investigao  governamental, os maiores contribuintes para os acidentes  com camies incluem rodas e pneus, sistemas de travagem
e  de direco. Se quiserem examinar estes nmeros por um  momento. . . "  Patrick Maguire estava a apreciar o jri, coisa em que era  perito. Enquanto Jennifer
discorria monotonamente sobre as  estatsticas, Maguire via que os jurados comeavam a sentir-se fartos do julgamento. Estava a tornar-se demasiado  tcnico. O
julgamento j no era sobre uma rapariga  estropiada. Era sobre camies, distncias de travagem e calos de traves defeituosos. Os jurados comeavam a desinteressar-se.
 Maguire olhou de relance para Jennifer e pensou: No  to esperta como dizem." Maguire sabia que se tivesse estado do outro lado, defendendo Connie Garrett, teria
ignorado as estatsticas e os problemas mecnicos e jogado com as emoes  do jri. Jennifer fizera exactamente o contrrio.  Agora, Patrick Maguire recostou-se
na cadeira, aliviado.  Jennifer aproximava-se do estrado.
 - Vossa Honra, com a autorizao do tribunal tenho uma prova que gostaria de apresentar.
 - Que espcie de prova? - perguntou o Juiz Silverman.
 - Quando este julgamento comeou, prometi aos jurados que iam conhecer Connie Garrett. Visto que ela no pode estar  aqui pessoalmente, peo autorizao para mostrar
algumas fotografias suas.
 - No vejo nenhuma objeco - declarou o Juiz Silverman.  Voltou-se para Patrick Maguire. - O advogado de defesa tem  alguma objeco?
 Patrick Maguire ps-se de p, com movimentos lentos,  raciocinando rapidamente.
 - Que gnero de fotografias?
 - Algumas fotografias de Connie Garrett, tiradas em casa - elucidou Jennifer.
 Patrick Maguire teria preferido que no houvesse fotografias  mas, por outro lado, as fotografias de uma rapariga estropiada sentada numa cadeira de rodas seriam,
por certo,  muito menos dramticas do que a prpria presena da rapariga. E havia outro factor a considerar. Se objectasse, isso f-lo-ia parecer insensvel aos
olhos do jri.
 -  claro, mostre as fotografias - anuiu, com ar generoso.  - Obrigada.
 Jennifer voltou-se para Dan Martin e fez um sinal com a cabea. Dois homens que se encontravam na ltima fila  aproximaram-se com um cran porttil e uma mquina
de  projectar e comearam a mont-los.  Patrick Maguire levantou-se, surpreendido.
 - Espere um minuto! O que  isto?
 - As fotografias que acaba de aceder a que eu mostre replicou  Jennifer com inocncia.
Patrick Maguire deixou-se ficar de p, invadido por uma raiva surda. Jennifer no se referira a um filme. Mas era  muito tarde para objectar. Fez um aceno breve
com a cabea e voltou a sentar-se.  Jennifer mandou colocar o cran de modo que o jri e o Juiz Silverman pudessem v-lo perfeitamente.
 - Posso pedir que escuream a sala, Vossa Honra?
 O Juiz fez um sinal ao beleguim e as persianas foram  corridas. Jennifer aproximou-se do projector de dezasseis  milmetros, ligou-o e o cran animou-se.  Durante
a meia-hora que se seguiu, no se ouviu um nico rudo na sala de audincias. Jennifer tinha contratado um  operador cinematogrfico profissional e um jovem director
de filmes publicitrios para fazerem o filme. Tinham fotografado um dia na vida de Connie Garrett, e resultara uma histria de terror perfeita e realista. Nada
tinha sido deixado   imaginao. O filme mostrava a jovem e bela amputada a ser  tirada da cama, de manh, a ser levada para a casa de banho, a ser limpa como
um beb pequeno e indefeso. . . a ser lavada. . .  a ser alimentada e vestida. . . Jennifer tinha visto o filme repetidas vezes mas agora, ao v-lo de novo, sentiu
o mesmo  n na garganta e os olhos encheram-se-lhe de lgrimas, e calculou que ele devia estar a provocar o mesmo efeito no Juiz, no  jri e nos espectadores que
se encontravam na sala de audincias.  Quando o filme terminou, Jennifer voltou-se para o Juiz Silverman.
 - A parte queixosa d por finda a sua argumentao.
 O jri estivera retirado durante mais de dez horas e, a cada hora que passava, Jennifer ia desanimando. Tinha-se  convencido que o veredicto seria imediato. Se
tivessem ficado  to impressionados com o filme como ela, um veredicto no teria demorado mais do que uma ou duas horas.  Quando o jri se retirou, Patrick Maguire
ficara inquieto, certo de que tinha perdido este caso, de que substimara outra vez Jennifer Parker. Mas,  medida que as horas iam passando  sem que o jri regressasse,
as esperanas de Maguire  comearam a aumentar. O jri no teria levado todo este tempo para tomar uma deciso emocional.  Tudo vai correr bem. Quanto mais tempo
discutirem, mais as emoes deles se atenuaro.?,  Alguns minutos antes da meia-noite, o porta-voz do jri enviou uma nota ao Juiz Silverman pedindo uma deciso
legal.  O juiz estudou o pedido e em seguida ergueu os olhos.
 - Os dois advogados querem fazer o favor de se aproximar do  estrado?
 Quando Jennifer e Patrick Maguire se encontraram em frente  dele, o Juiz Silverman disse:
 - Quero dar-lhes conhecimento de uma nota que acabo de receber do porta-voz. O jri pergunta se est legalmente  autorizado a conceder a Connie Garrett mais do
que os cinco  milhes de dlares pedidos pela sua advogada.  Jennifer foi tomada de uma sbita vertigem. O corao deu-lhe um salto no peito. Voltou-se para olhar
Patrick  Maguire. Tinha o rosto lvido.
 - Vou inform-los - continuou o Juiz Silverman - que  da competncia deles estabelecerem a quantia que acharem justa.
 Meia hora depois, o jri regressou  sala de audincias. O presidente anunciou que se tinham pronunciado a favor da queixosa. O valor da indemnizao a que ela
tinha direito era de seis milhes de dlares.  Era a maior indemnizao por danos pessoais da histria do estado de Nova Iorque. ele devia ter sofrido, e resolveu
facilitar-lhe as coisas. Jennifer sentou-se e Adam tomou a sua mo entre as dele.
 - Mary Beth vai dar-me o divrcio - Anunciou Adam, e Jennifer ficou a olhar para ele, incapaz de falar.
Na manh seguinte, quando Jennifer entrou no seu gabinete,  encontrou um monte de jornais espalhados em cima da secretria. Ela vinha na primeira pgina de todos
eles. Numa jarra, havia quatro dzias de belas rosas vermelhas. Jennifer sorriu. Adam tinha conseguido arranjar tempo para lhe enviar flores.  Abriu o carto. Dizia:.?Parabns.
Michael Moretti.?.
 O intercomunicador zumbiu e Cynthia anunciou:
 - Mr. Adams est ao telefone.
 Jennifer agarrou o auscultador com precipitao. Tentou manter a voz calma.
 - Ol, querido.
 - Conseguiste outra vez.
 - Tive sorte.
 - A tua cliente  que teve sorte. Sorte em ter-te por  advogada. Deves sentir-te maravilhosamente.  Quando ganhava causas, sentia-se bem. Quando estava com Adam,
sentia-se maravilhosamente.,?
 - Sim.
 - Tenho algo importante para te dizer - declarou Adam.
- Podes ir tomar uma bebida comigo esta tarde?
 Jennifer sentiu cair-lhe o corao aos ps. Adam s poderia ter uma coisa para lhe participar: que no ia voltar a v-la.
 - Sim. Sim,  claro.
 - No Mario's? s seis horas?
 - Est bem.
Deu as rosas a Cynthia
 Adam esperava-a no restaurante, sentado a uma mesa do fundo.  Assim no ficar embaraado se eu tiver uma crise  de histeria, pensou Jennifer. Mas estava decidida
a no  chorar. Pelo menos em frente de Adam.  Compreendeu pelo seu rosto magro e fatigado aquilo que  Fora Mary Beth quem iniciara a conversa. Tinham regressado
 de um jantar para recolha de fundos, em que Adam fora o orador principal. A noite tinha sido um enorme sucesso. Mary Beth tinha-se conservado calada durante a
viagem para casa, parecendo curiosamente tensa.
 - Creio que a noite correu bem, no achas? - perguntou Adam.
 - Sim, Adam.
 Nada mais disseram at chegarem a casa.
 - Queres uma ltima bebida? - props Adam.
 - No, obrigada. Suponho que devamos ter uma conversa.
 - Sim? Sobre qu?
 Ela olhou-o e respondeu:
 - Sobre ti e Jennifer Parker.
 Foi como um choque fsico. Adam hesitou por uns momentos,  sem saber se devia negar ou. . .
 - Sei disso h algum tempo. No disse nada porque queria decidir o que havia de fazer.
 - Mary Beth, eu. . .
 - Deixa-me acabar, por favor. Sei que a nossa relao no foi - bem - aquilo que espervamos que fosse. De certo modo, talvez eu no tenha sido uma esposa to
boa como
devia.
 - Nada do que aconteceu  culpa tua. Eu. . .
 - Por favor, Adam. Isto  muito difcil para mim. Tomei uma deciso. No vou ficar no teu caminho.
 Ele olhou-a, sem acreditar no que ouvia.
 - Eu no. . .
 - Amo-te demasiado para te magoar. Tens um brilhante futuro poltico  tua frente. No quero que nada o estrague.
Como  bvio, no te fao completamente feliz. Se Jennifer Parker pode fazer-te feliz, quero que fiques com ela.  Ele tinha uma sensao de irrealidade, como se
toda a  conversa estivesse a decorrer debaixo de gua.
 - O que vai ser de ti?
 Mary Beth sorriu.
- Fico bem, Adam. No te preocupes comigo. Tenho os meus planos.
 - Eu. . . eu no sei o que dizer.
 - No precisas de dizer nada. Eu disse tudo por ambos.
Se me agarrasse a ti e te fizesse infeliz, isso no seria bom ; para nenhum de ns, pois no? Tenho a certeza de que  Jennifer  encantadora, de contrrio no sentirias
por ela  aquilo que sentes - Mary Beth aproximou-se dele e abraou-o. - No  fiques to aflito, Adam. O que estou a fazer  o melhor para todos.
 - s espantosa.
 - Obrigada. - Acariciou-lhe suavemente o rosto com as pontas dos dedos. - Meu querido Adam. Fui sempre a tua melhor amiga. Sempre. - Ento encostou-se mais e pousou-lhe
a  cabea no ombro. Ele mal conseguia ouvir-lhe a voz meiga. - H j algum tempo que no me apertas nos braos, Adam. No precisas de dizer que me amas, mas...
queres... abraar-me mais uma vez e fazer amor comigo? Pela ltima vez?
 Era nisto que Adam pensava agora, enquanto declarava a Jennifer:
 - O divrcio foi ideia de Mary Beth.
 Adam continuou a falar, mas Jennifer j no escutava as palavras, ouvia-lhes apenas a musicalidade. Sentia-se como se estivesse a flutuar, a elevar-se nos ares.
Tinha-se preparado para ouvir Adam participar-lhe que no poderia  voltar a v-la - e agora acontecia isto! Era demasiado. Sabia como a cena com Mary Beth devia
ter sido dolorosa para Adam, e Jennifer nunca amara Adam tanto como neste momento. Era como se lhe tivessem tirado do peito um peso esmagador, como se conseguisse
respirar de novo.
 - Mary Beth foi maravilhosa - dizia Adam. -  uma mulher incrvel. Est francamente feliz por ns ambos.
 - Custa-me a acreditar.
 - No compreendes. De h algum tempo para c temos  vivido como... irmo e irm. Nunca te falei disso, mas  hesitou e depois concluiu, com muito cuidado -, Mary
Beth  no sente emoes... muito fortes.
 - Compreendo.
 - Ela gostava de te conhecer.
 A ideia perturbou Jennifer.
 - Eu no seria capaz, Adam. Sentir-me-ia... pouco  vontade.
 - Acredita no que te digo.
 - Se. . . se tu queres, Adam, est bem.
 - Bom, querida. Vamos tomar ch com ela. Eu levo-te.
 Jennifer pensou por uns momentos.
 - No seria melhor eu ir sozinha?
 Na manh seguinte, Jennifer conduziu ao longo da Alameda de  Saw Mill River, em direco ao norte. Estava uma manh fresca e clara, um dia ptimo para passear.
Jennifer ligou a telefonia do carro e tentou esquecer o nervosismo que sentia por causa do encontro que a esperava.  A casa dos Warner era uma casa de origem holandesa,
magnificamente conservada, sobranceira ao rio em Crotonon- Hudson, e que se erguia no meio de uma enorme propriedade de  verdes acres ondulantes. Jennifer percorreu
o caminho que  conduzia  imponente entrada principal. Tocou  campainha, e, passados alguns momentos, a porta foi aberta por uma atraente mulher de trinta e poucos
anos. A ltima coisa que Jennifer poderia ter esperado seria esta reservada mulher sulista que lhe estendeu a mo e lhe fez um sorriso caloroso, dizendo:
 - Sou Mary Beth. Adam no lhe fez justia. Entre, por favor.
 A mulher de Adam vestia uma saia de l bege, ligeiramente folgada e uma blusa de seda um pouco decotada, que revelava um peito maduro mas ainda formoso. O cabelo
louro-acastanhado  era comprido e enrolava-se-lhe levemente em volta do rosto, fazendo-lhe realar os olhos azuis. As prolas que tinha ao pescoo no poderiam
nunca confundir-se com prolas de cultura. Havia em Mary Beth Warner um ar de dignidade do velho mundo.  O interior da casa era encantador, com salas amplas e
espaosas, repletas de antiguidades e de belos quadros.  Um mordomo serviu o ch na sala de estar, num servio de prata jorgiana.
 Quando ele saiu da sala, Mary Beth comentou:
 - Tenho a certeza de que deve gostar muito de Adam.
 - Quero que saiba, Mrs. Warner - respondeu Jennifer, embaraada -, que nenhum de ns planeou. . .  Mary Beth Warner pousou a mo no brao de Jennifer.
- No precisa de mo dizer. No sei se Adam lhe contou, mas o nosso casamento transformou-se num casamento de delicadeza. Adam eu conhecemo-nos desde crianas. Creio
que me apaixonei por Adam assim que o vi. fomos s mesmas festas e tnhamos os mesmos amigos, e suponho que era  inevitvel que nos casssemos um com o outro. No
me  interprete mal. Continuo a adorar Adam e tenho a certeza de  que ele me adora. Mas as pessoas mudam, no ?
 - Sim.
 Jennifer olhou para Mary Beth e sentiu-se invadida por um profundo sentimento de gratido. Aquilo que podia ter sido uma cena desagradvel e srdida, tornara-se
em algo amistoso e admirvel. Adam tivera razo. Mary Beth era uma mulher encantadora.
 - Estou-lhe muito grata - disse Jennifer.
 - E eu estou-lhe grata a si - confidenciou Mary Beth. -  Esboou um sorriso tmido e continuou. - Sabe, eu tambm estou muito apaixonada. Tencionava pedir j o
divrcio mas pensei que, por causa de Adam, seria melhor esperarmos at depois da eleio.
 Jennifer tinha estado to ocupada com as suas prprias emoes que se tinha esquecido da eleio.  Mary Beth prosseguiu:
 - Todos parecem convencidos de que Adam vai ser o nosso prximo senador e um divrcio, neste momento,  prejudicaria gravemente as suas hipteses. Faltam apenas
seis meses, por isso achei que seria melhor para ele que eu o adiasse. - Olhou para Jennifer. - Mas perdoe-me... est de acordo?
 -  claro que sim - respondeu Jennifer.
 Ia ter de reajustar por completo a sua maneira de ver. O seu futuro ia ficar agora ligado a Adam. Se ele fosse eleito  senador, iria viver com ele em Washington,
D. C. Isso  significaria abandonar a sua carreira de advogada aqui, mas  no tinha importncia. Nada mais interessava a no ser o poderem estar juntos.
 - Adam ser um senador maravilhoso - comentou Jennifer.  Mary Beth ergueu a cabea e sorriu.
 - Minha querida, Adam Warner ser um dia um Presidente  maravilhoso.
 O telefone estava a tocar quando Jennifer regressou ao apartamento. Era Adam.
 - Como te deste com Mary Beth?
 - Adam, foi maravilhosa!
 - Ela disse o mesmo de ti.
 - Ouve-se falar do encanto sulista, mas  muito raro encontr-lo. Mary Beth possui-o.  uma verdadeira senhora.
 - Tambm tu, querida. Onde gostarias de casar?
 -Em Times Square. Mas acho que devamos esperar, Adam.
 - Esperar o qu?
 - At depois da eleio. A tua carreira  importante. Neste  momento, um divrcio poderia prejudicar-te.
 - A minha vida privada. . .
 . . . vai fazer parte da tua vida pblica. No devemos fazer nada que possa estragar as tuas hipteses. Podemos  esperar seis meses.
 - No quero esperar.
 - Eu tambm no. - E Jennifer sorriu. - Na verdade no queremos esperar, pois no?
 Jennifer e Adam almoavam juntos quase todos os dias e, uma ou duas vezes por semana, Adam passava a noite no apartamento deles. Tinham de ser mais discretos do
que nunca,  pois a campanha de Adam estava em plena actividade e ele comeava a tornar-se numa figura proeminente a nvel nacional. Proferia discursos em comcios
polticos e em  jantares para recolha de fundos, e as suas opinies sobre  problemas nacionais eram citadas na imprensa cada vez mais  frequentemente.  Adam e Stewart
Needham estavam a tomar o ritual ch da manh.
 - Vi-te esta manh no programa Hoje - disse Needham. - Bom trabalho, Adam. Saste-te muito bem. Suponho que te convidaram a voltar.
 -Stewart, detesto fazer aqueles programas. Sinto-me como um maldito actor, representando.  Imperturbvel, Stewart fez um aceno com a cabea.
 - E o que os polticos so, Adam - actores. Representam um papel, so aquilo que o pblico quer que eles sejam. Que diabo, se os polticos se mostrassem em pblico
tal como so na realidade - qual  a expresso que os jovens usam? -  despejando tudo c para fora? - este pas seria uma maldita monarquia.
 - No me agrada o facto de a candidatura a um cargo poltico se ter tornado num concurso de personalidades.  Stewart Needham sorriu.
 - Devias sentir-te feliz por te considerarem uma  personalidade, meu rapaz. As tuas percentagens, nas  assembleias de voto, continuam a aumentar todas as semanas.
- Interrompeu-se  para se servir de mais ch. - Acredita-me, isto  s o princpio. Primeiro o Senado, depois o alvo nmero um. Nada te pode deter. - Fez uma pausa
para beber um gole de ch. - A no ser que faas uma loucura,  claro.
 Adam ergueu os olhos para ele.
 - O que queres dizer com isso?
 Stewart Needham limpou delicadamente os lbios com um guardanapo adamascado.
 - O teu oponente  um lutador inato. Aposto que neste momento est a examinar a tua vida ao microscpio. No vai encontrar nenhuma arma, pois no?
 - No. - A palavra veio automaticamente aos lbios de Adam.
 - Ainda bem - respondeu Stewart Needham. - Como est Mary Beth?
 Jennifer e Adam estavam a passar um fim-de-semana ocioso  numa casa de campo, em Vermont, que um amigo de Adam lhe emprestara. O ar estava fresco e puro, anunciando
o Inverno que no tardaria a chegar. Foi um fim-de-semana perfeito, descansado e calmo, com longas caminhadas a p durante o dia e,  noite, jogos e conversas tranquilas
em frente de uma lareira acesa.  Tinham lido com ateno todos os jornais de domingo. Adam estava a subir em todas as assembleias de voto. Com algumas excepes,
os jornais eram por Adam. Gostavam do seu estilo, da sua honestidade, da sua inteligncia e  franqueza. Continuavam a compar-lo a John Kennedy.  Adam estava sentado
indolentemente em frente da lareira, contemplando o reflexo das chamas que danava no rosto de Jennifer.
 - Gostavas de ser a mulher do Presidente?
 - Lamento. J estou apaixonada por um senador.
 - Ficars desapontada se eu no ganhar, Jennifer?
 - No. A nica razo pela qual o desejo  porque tu o desejas, querido.
 - Se eu ganhar, isso significar viver em Washington.
 - Se estivermos juntos, nada mais importa.
 - E a tua carreira de advogada?
 Jennifer sorriu.
 - Que eu saiba, ainda h advogados em Washington.
 - E se eu te pedir que a abandones?
 - Abandon-la-ei.
 - No quero que o faas. s uma excelente profissional.
-O que me interessa  estar contigo. Amo-te tanto, Adam.  Ele acariciou-lhe o macio cabelo castanho-escuro e respondeu  :
- Eu tambm te amo. Muito
 Foram para a cama e, mais tarde, dormiram.  No domingo  noite regressaram a Nova Iorque. Foram buscar o carro de Jennifer  garagem onde ela o tinha  guardado,
e Adam regressou a casa. Jennifer voltou para o  apartamento que possuam em Nova Iorque.  Os dias de Jennifer eram incrivelmente preenchidos. Se dantes pensava
que estava ocupada, agora no tinha mos a medir. Representava companhias internacionais que tinham infringido algumas leis e que tinham sido descobertas,  senadores
apanhados em flagrante, estrelas de cinema que se  tinham metido em complicaes. Representava banqueiros e assaltantes de bancos, polticos e dirigentes sindicais.
 O dinheiro ia entrando, mas isso no era importante para Jennifer. Dava gratificaes avultadas ao pessoal do escritrio e presentes generosos.  As companhias
que se opunham a Jennifer j no enviavam os seus advogados de segunda categoria, e Jennifer passou a ter como adversrios alguns dos maiores talentos jurdicos
do mundo.  Foi admitida na Associao Americana dos Advogados de Primeira Instncia, e at Ken Bailey ficou impressionado.
 - Jesus - comentou ele -, sabe que apenas um por cento dos  advogados deste pas conseguem ser admitidos l?
 - Sou a mascote deles - riu Jennifer.
 Sempre que Jennifer defendia um ru em Manhattan, podia ter a certeza de que era o prprio Robert Di Silva quem se encarregava da acusao ou a planeava. O seu
dio por  Jennifer aumentava a cada vitria dela.  Durante um julgamento em que Jennifer se defrontou com o Procurador Distrital, Di Silva levou ao estrado uma
dzia de peritos como testemunhas de acusao.  Jennifer no apresentou peritos. Disse ao jri:
 - Se quisermos construir uma nave espacial ou medir a distncia entre as estrelas, mandamos chamar os  especialistas, mas, quando queremos fazer algo realmente
importante,  arranjamos doze pessoas vulgares para o fazer. Se bem me lembro, o fundador do Cristianismo fez a mesma coisa.  Jennifer ganhou a causa.  Uma das tcnicas
que Jennifer considerava eficazes com o  jri, era dizer:
 - Sei que as palavras lei" e sala de audincias,?  parecem um pouco assustadoras e afastadas das vossas vidas,  mas quando deixamos de pensar nisso, aquilo que
temos de  fazer aqui  tratar das justias e injustias feitas a seres  humanos como ns. Vamos esquecer que estamos numa sala  de audincias, meus amigos. Vamos
imaginar que nos  encontramos sentados na minha sala de estar, conversando  acerca do que aconteceu a este pobre ru, a este ser humano , como ns.  E, em pensamento,
os jurados encontravam-se sentados na ? sala de estar de Jennifer, transportados pela sua magia.  Este estratagema trouxe excelentes resultados a Jennifer,  at
um dia em que estava a defender um cliente contra Robert  Di Silva. O Procurador Distrital ps-se de p e fez o  depoimento inaugural para o jri.
 - Senhoras e senhores - disse ele -, gostaria que se  esquecessem de que esto num tribunal de justia. Quero que  se imaginem sentados na sala de estar da minha
casa, e que
 estamos tendo uma conversa informal sobre os actos terrveis  que o acusado praticou.  Ken Bailey inclinou-se e segredou a Jennifer:
 - Est a ouvir o que aquele filho da me est a fazer? Est  a roubar-lhe a sua ideia!
 - No se preocupe - replicou Jennifer com muita calma.  Quando Jennifer se levantou para se dirigir ao jri, disse:
 - Senhoras e senhores, nunca ouvi nada to ultrajante  como as observaes do Procurador Distrital. - A sua voz  reflectia uma sincera indignao. - Por um minuto,
no  acreditei estar a ouvi-lo bem. Como  que ele ousa pedir-vos  que se esqueam de que esto sentados num tribunal de  justia! Esta sala de audincias  uma
das riquezas mais preciosas  do nosso pas!  a base da nossa liberdade. Da vossa, da  minha, e da do ru. E acho revoltante e desprezvel o facto de o Procurador
Distrital vos ter sugerido que se esqueam que  juraram cumprir o vosso dever. Peo-vos senhoras e senhores  que se lembrem de onde esto, que se lembrem de que
nos encontramos todos aqui para procurar que a justia seja feita e que o ru justifique os seus actos.  Os jurados aprovavam com a cabea.  Jennifer deu uma olhadela
rpida para a mesa onde Robert Di Silva estava sentado. Estava voltado para a frente, com uma expresso vazia no olhar. O cliente de Jennifer foi absolvido.  Aps
cada vitria em tribunal, havia quatro dzias de rosas vermelhas na secretria de Jennifer, acompanhadas de um  carto de Michael Moretti. Jennifer rasgava sempre
o carto e mandava Cynthia levar as flores. Vindas dele, pareciam-lhe obscenas. Por fim, Jennifer enviou um bilhete a Michael Moretti, pedindo-lhe que deixasse
de lhe mandar flores.  Quando Jennifer regressou da sala de audincias, aps ter ganho nova causa, encontrou cinco dzias de rosas  sua  espera. O caso do Assaltante
do Dia de Chuva trouxe a Jennifer novos cabealhos nos jornais. Fora o Padre Ryan quem lhe tinha chamado a ateno para o homem incriminado.
 - Um amigo meu est com um pequeno problema. . .comeou ele,  e ambos desataram a rir.
 O amigo apresentou-se como Paul Richards, um indivduo que estava de passagem e que fora acusado de ter roubado cento e cinquenta mil dlares a um banco. Um assaltante
 entrara no banco, vestindo um comprido impermevel preto, sob o qual estava escondida uma espingarda de cano serrado. Levava a gola do impermevel levantada, de
modo a ocultar parcialmente o rosto. Uma vez no interior do banco, o homem  brandira a espingarda e obrigara um caixa a entregar-lhe todo o dinheiro de que dispunha.
O assaltante fugira depois num automvel que o aguardava. Diversas testemunhas tinham  visto o carro utilizado na fuga, um Sedan verde, mas a matrcula tinha sido
coberta com lama.  Dado que os assaltos a bancos eram considerados crimes contra o estado, o FBI fora chamado a intervir. Tinham  introduzido o modus operandi num
computador central que lhes indicara o nome de Paul Richards.  Jennifer foi visit-lo a Riker's Island.
 - Juro por Deus que no o fiz - disse Paul Richards.
Andava pelos cinquenta anos, possua um rosto corado com olhos azuis de querubim, e era demasiado velho para andar por a a cometer assaltos a bancos.
 - No me interessa que esteja inocente ou culpado - explicou  Jennifer, - mas tenho uma regra. Nunca represento um cliente que me mente.
 - Juro pela vida da minha me que no fui eu.
 Havia muito tempo que Jennifer no se deixava impressionar  pelos juramentos. Muitos clientes tinham-lhe jurado a sua inocncia pelas vidas das mes, mulheres,
namoradas e filhos.  Se Deus tivesse levado esses juramentos a srio, teria havido um acentuado decrscimo da populao.
 - Porque pensa que o FBI o prendeu? - perguntou Jennifer.
 Paul Richards respondeu sem hesitar.
 - Porque h cerca de dez anos assaltei um banco e fui suficientemente estpido para me deixar apanhar.
 - Levava uma espingarda de cano serrado por baixo de um impermevel?
 - Exacto. Esperei que comeasse a chover e depois ataquei um  banco.
 - Mas no cometeu este ltimo golpe?
 - No. A minha tctica deve ter sido copiada por algum filho da me muito esperto.
 O interrogatrio preliminar foi feito perante o Juiz Fred Stevens, um disciplinador severo. Constava que era a favor de enviar todos os criminosos para uma ilha
inacessvel, onde ficavam at ao fim da vida. Para o Juiz Stevens, quem fosse apanhando a roubar devia ficar sem a mo direita e, se  houvesse reincidncia, devia
ficar sem a mo esquerda, 
Maneira da antiga tradio islmica. Era o pior juiz que Jennifer poderia ter pedido. Mandou chamar Ken Bailey.
 - Ken, quero que me descubra tudo o que puder a respeito do Juiz Stevens.
 - Do Juiz Stevens?  de uma rectido extrema. Ele...
 - Sei como ele . Faa-o, por favor.
 O procurador federal que estava a tratar do caso era um velho advogado chamado Carter Gifford.
 - Como  que o vai declarar? - perguntou Gifford.
 Jennifer olhou-o com uma expresso inocentemente  surpreendida.
 - No culpado, como  evidente.
 Ele emitiu um riso sardnico.
 - O Juiz Stevens vai ficar entusiasmado com isso. Calculo que vai requerer um julgamento por um jri.
 - No.
 Gifford observou Jennifer com um ar desconfiado.
 - Quer dizer que vai entregar o seu cliente nas mos do Juiz que condena todos os criminosos  forca?
 - Exactamente.
 Gifford sorriu.
 - Eu sabia que voc ia acabar por se exceder, Jennifer.
 Estou morto para ver o que acontece.
 - Os Estados Unidos da Amrica contra Paul Richards. O  ru encontra-se presente?
 - Sim, Vossa Honra - respondeu o oficial de diligncias.
 - Peo aos advogados que se aproximem do estrado e se  identifiquem.
 Jennifer e Carter Gifford dirigiram-se para o Juiz Stevens.
 - Jennifer Parker, representando o acusado.
 - Carter Gifford, representando o Governo dos Estados  Unidos.
 O Juiz Stevens voltou-se para Jennifer e disse num tom  brusco:
 - Conheo a sua reputao, Miss Parker. Por isso digo -lhe  j que no pretendo que este tribunal perca tempo. No  permitirei demoras neste caso. Quero ficar
elucidado com este  interrogatrio preliminar e fazer a acusao. Tenciono marcar  a data do julgamento o mais depressa possvel. Presumo que  vai querer um julgamento
por um jri e. . .
 - No, Vossa Honra.
 O Juiz Stevens olhou para ela, surpreendido.
 - No vai querer um julgamento por um jri?
 - No, no vou. Porque no creio que v haver qualquer  acusao.
 Carter Gifford contemplava-a com os olhos arregalados.
 - O qu ?
 - Na minha opinio, o senhor no tem provas suficientes  para sujeitar o meu cliente a um julgamento.
 - Devia mudar de ideias! - atalhou Carter Gifford. Em  seguida voltou-se para o Juiz Stevens. - Vossa Honra, o ? governo considera que h antecedentes muito graves.
O ar:  guido j foi condenado por cometer exactamente o mesmo ? crime, e exactamente da mesma maneira. O nosso computa?  dor seleccionou-o entre mais de dois mil
possveis suspeitos.  Temos o culpado aqui, nesta sala de audincias, e a  acusao  no tenciona retirar a aco contra ele.  O Juiz Stevens voltou-se para Jennifer:
 - Parece ao tribunal que existe aqui suficiente evidncia prima facie ' que justifique uma acusao e um julgamento.
Tem mais alguma coisa a acrescentar?
 - Tenho sim, Vossa Honra. No h uma nica testemunha que possa identificar Paul Richards com rigor. O FBI no conseguiu descobrir o dinheiro roubado. De facto,
a nica coisa que liga o ru a este crime  a imaginao do advogado de acusao.  O Juiz contemplou Jennifer e inquiriu, com uma suavidade agoirenta:
 - E o computador que o seleccionou?
 Jennifer suspirou.
 - Isso pe-nos perante um problema, Vossa Honra.
 - Suponho que sim - replicou o Juiz Stevens com severidade.
-  fcil atrapalhar uma testemunha viva, mas  difcil  atrapalhar um computador.
 - Tem toda a razo, Vossa Honra - concordou Carter Gifford acenando presunosamente com a cabea.
 Jennifer voltou-se para encarar Gifford.
 - O FBI utilizou o IBM 370/168, no foi?
 - Sim.  o equipamento mais sofisticado do mundo.
 - A defesa pretende contestar a eficincia desse computador?
 - Pelo contrrio, Vossa Honra. Tenho hoje aqui, na sala de audincias, um especialista de computadores que trabalha para a companhia que fabrica o 370/168. Foi
ele quem  programou a informao que forneceu o nome do meu  constituinte.
 - Onde est ele?
 Jennifer voltou-se e fez sinal a um homem alto e magro que se encontrava sentado num banco. Ele aproximou-se com nervosismo.
 - Este  Mr. Edward Monroe - apresentou Jennifer.
 - Se esteve a tentar subornar a minha testemunha - explodiu  o advogado de acusao -, eu...
 - Limitei-me a pedir a Mr. Monroe que perguntasse ao computador se havia outros possveis suspeitos. Escolhi dez pessoas que tm certas caractersticas gerais
semelhantes s do meu cliente. Para efeitos de identificao, Mr. Monroe programou estatsticas de idade, altura, peso cor dos olhos, local de nascimento - o mesmo
tipo de dados que forneceram o  nome do meu cliente.
 - Qual  o interesse de tudo isto, Miss Parker? -  impacientou-se o Juiz Stevens.
 - O interesse reside no facto de o computador ter identificado uma das dez pessoas como um suspeito principal  do assalto ao banco.
 O Juiz Stevens voltou-se para Edward Monroe.
 -  verdade?
 - Sim, Vossa Honra - Edward Monroe abriu a pasta e retirou da l um registo de computador.
 O beleguim recebeu-o das mos de Monroe e entregou-o ao juiz. O Juiz Stevens examinou-o rapidamente e o rosto tornou-se-lhe vermelho.
 Olhou para Edward Monroe.
 - Trata-se de uma brincadeira?
 - No, senhor.
 - O computador escolheu-me a mim como possvel suspeito? - inquiriu o Juiz Stevens.
 - Sim, senhor.
 - O computador no tem capacidade de raciocnio, Vossa Honra - explicou Jennifer. - Responde apenas s informaes que lhe so dadas. Acontece que o senhor e o
meu cliente tm o mesmo peso, altura e idade. Ambos guiam Sedans verdes e ambos nasceram no mesmo estado.  uma prova semelhante  que possui o advogado de acusao.
O outro nico factor  o modo como o crime foi cometido. Quando Paul Richards assaltou aquele banco, h dez anos, milhes de pessoas leram o que se escreveu a esse
respeito. Qualquer uma delas poderia ter imitado o modus operandi. Algum o fez - Jennifer indicou a folha de papel que o Juiz Stevens tinha nas mos. - Isso mostra
como a evidncia do Estado , na realidade, inconsistente.  Carter Gifford disse em tom precipitado:
 - Vossa Honra... - e calou-se. No sabia como continuar.  O Juiz Stevens olhou mais uma vez para o registo do  computador que tinha na mo, e depois para Jennifer.

 - O que teria a senhora feito - perguntou ele -, se o acusado tivesse sido um homem mais novo e mais magro do que eu, que guiasse um carro azul?
- O computador deu-me dez outros possveis suspeitos -  respondeu Jennifer. - A minha escolha seguinte teria sido o Procurador Distrital de Nova Iorque, Robert
Di Silva.
 Jennifer estava sentada no seu gabinete, lendo os ttulos dos jornais, quando Cynthia anunciou:
 - Est aqui Mr. Paul Richards.
 - Mande-o entrar, Cynthia.
 Ele entrou no gabinete, com um impermevel preto vestido e trazendo na mo uma caixa de chocolates atada com uma fita vermelha.
 - Venho apenas agradecer-lhe.
 - Est a ver? Por vezes a justia triunfa.
 - Vou sair da cidade. Creio que necessito de umas curtas frias. - Estendeu a Jennifer a caixa de chocolates. - Uma pequena prova da minha gratido.
 - Obrigada, Paul.
 Ele envolveu-a num olhar de admirao.
 - Acho que a senhora  formidvel.
 E foi-se embora.
 Jennifer olhou para a caixa de chocolates sobre a secretria e sorriu. Tinha recebido menos por defender a maior parte dos amigos do Padre Ryan. Se ela engordasse,
a culpa seria do Padre Ryan.  Jennifer desatou a fita e abriu a caixa. L dentro estavam dez mil dlares em moeda corrente.  Numa tarde em que Jennifer ia a sair
do Palcio da Justia, viu parado junto do passeio um enorme Cadillac preto com motorista. Quando se dispunha a passar em frente dele,  Michael Moretti apeou-se.
 - Tenho estado  sua espera.
 Visto de perto, aquele homem possua uma vitalidade quase  avassaladora.
 - Saia do meu caminho - disse Jennifer. Tinha o rosto corado e furioso, e era ainda mais bela do que Michael  Moretti imaginava.
 - Eh! - riu ele -, acalme-se. S quero falar consigo.
Ter apenas de me escutar. Pagar-lhe-ei o tempo que me  dispensar.
 - Nunca ter dinheiro bastante para isso.
 Comeou a afastar-se. Michael Moretti colocou-lhe uma mo conciliatria no brao. A excitao dele aumentou s de a tocar.
 Recorreu a todo o seu fascnio.
 - Seja razovel. No saber o que est a recusar at ouvir aquilo que tenho para dizer. Dez minutos.  tudo o que quero.
Deixo-a no seu escritrio. Podemos conversar pelo caminho.  Jennifer observou-o durante uns momentos e respondeu:
 - Vou consigo numa condio. Quero que me responda a uma pergunta.
 Michael aquiesceu com a cabea.
 - Com certeza. Diga.
 - De quem foi a ideia de me comprometer com o canrio morto?
 Ele respondeu sem hesitar.
 - Minha.
 Agora j sabia. E tinha vontade de o matar. De mau-humor, subiu para a limusina e Michael Moretti instalou-se ao lado dela. Jennifer reparou que ele indicava ao
motorista a direco do escritrio sem ter sido necessrio perguntar-lha.
 Enquanto a limusina se afastava, Michael Moretti declarou:
 - Sinto-me satisfeito com tudo o que lhe tem acontecido.
 Jennifer no se deu ao incmodo de responder.
 - Estou a falar a srio.
 - Ainda no me disse o que pretende.
 - Quero torn-la rica.
 - Obrigada. J sou suficientemente rica. - A sua voz reflectia o desprezo que sentia por ele.
 O rosto de Michael Moretti corou.
 - Estou a tentar prestar-lhe um favor e voc continua a combater-me.
 Jennifer voltou-se para o olhar.
 - No quero favores seus.
 O tom da voz dele tornou-se conciliatrio.
 - Okay. Talvez eu esteja a tentar compens-la um pouco pelo que lhe fiz. Olhe, posso mandar-lhe muitos clientes.
Clientes importantes. Muito ricos. No faz ideia...
 Jennifer interrompeu-o.
 - Mr. Moretti, preste um favor a ns ambos. No diga mais nada.
 - Mas eu posso. . .
- No quero represent-lo a si, nem a nenhum dos seus amigos.
 - Porque no?
 - Porque se representasse algum de vs, a partir desse momento eu estaria nas vossas mos.
 - Voc no est a compreender - protestou Michael. - Os meus  amigos esto metidos em negcios legais. Isto , bancos, companhias de seguros. . .
 - No se canse. Os meus servios no esto  disposio da Mafia.
 - Quem  que falou em Mafia?
 - Chame-lhe o que quiser. Sou dona de mim mesma. E  assim que tenciono continuar.
 A limusina parou num sinal vermelho.
 - J estamos perto - disse Jennifer. - Obrigada pela boleia. - Abriu a porta e desceu.
 - Quando poderei voltar a v-la? - perguntou Michael.
 - Nunca mais, Mr. Moretti.
 Michael viu-a afastar-se.  Meu Deus?,, pensou ele. Que mulher!" De sbito, deu conta que tivera uma ereco e sorriu, pois sabia que, de uma maneira ou de outra,
havia de a possuir.
Outubro estava no fim. Faltavam duas semanas para as eleies, e a corrida para o Senado estava em plena  actividade. Adam candidatava-se contra o actual Senador
John  Trowbridge, um poltico veterano, e os especialistas  concordavam que a luta ia ser renhida.  Certa noite Jennifer estava sentada em casa, vendo Adam e o
seu adversrio num debate televisivo. Mary Beth tivera  razo. Um divrcio, neste momento, poderia ter destrudo  facilmente as crescentes hipteses de vitria
de Adam.  Quando Jennifer regressou ao escritrio, aps um prolongado  almoo de negcios, havia um recado urgente para que telefonasse a Rick Arlen.
 - Telefonou trs vezes na ltima meia hora - informou Cynthia.
 Rick Arlen era um astro de rock que, quase de um dia para o outro, se tinha tornado no cantor mais famoso do mundo.  Jennifer j tinha ouvido falar a respeito
dos enormes  rendimentos dos cantores de rock, mas, antes de se ter  envolvido nos assuntos de Rick Arlen, no fazia a menor ideia do que isso significava na realidade.
Com os discos, espectculos ao vivo, negcios e mais recentemente, com os filmes, os lucros de Rick Arlen eram superiores a quinze mil dlares por ano. Rick tinha
vinte e cinco anos de idade, e era um moo de lavoura do Alabama que nascera com uma mina de ouro na garganta.
 - Faa a ligao - pediu Jennifer.
 Cinco minutos depois, ele encontrava-se em linha.
 - Eh, p, h horas que estou a tentar encontr-la.
 - Desculpe, Rick. Estive numa reunio.
 - Tenho um problema. Preciso de a ver.
 - Pode passar esta tarde pelo escritrio?
 - No creio. Estou em Monte Carlo a fazer um espectculo de  beneficncia para Grace e para o Prncipe. Daqui a quanto tempo pode estar c?
 - Neste momento no posso sair daqui - protestou Jennifer. -  Tenho a secretria cheia. . .
 - Querida, preciso de si. Tem de se meter esta tarde num avio.
 E desligou.  Jennifer meditou no telefonema. Rick Arlen no tinha querido  discutir o seu problema pelo telefone. Devia tratar-se talvez de droga ou de complicaes
com mulheres. Pensou mandar Ted Hams ou Dan Martin para resolver o assunto, fosse ele qual fosse, mas gostava de Rick Arlen. Por fim, Jennifer decidiu ir ela prpria.
 Tentou comunicar com Adam antes de partir, mas ele no se encontrava no escritrio.
 - Faa-me uma reserva num voo da Air France para Nice - pediu a Cynthia. - Quero um carro  minha espera para me levar a Monte Carlo.  Vinte minutos depois, tinha
uma reserva num voo s sete horas daquela mesma tarde.
 - H um servio de helicpteros de Nice directamente para Monte Carlo - informou Cynthia. - Reservei-lhe um lugar.
 - Magnfico. Obrigada.
 Quando Ken Bailey soube o motivo da partida de Jennifer, perguntou :
 - Quem  que esse garoto se julga?
 - Ele sabe quem , Ken.  um dos nossos melhores clientes.
 - Quando  que voc regressa?
 - No devo estar ausente mais de trs ou quatro dias.
 - Isto no  a mesma coisa quando voc no est c. Vou sentir a sua falta.
 Jennifer pensou se ele ainda continuaria a encontrar-se com o rapaz loiro.
 - Tome conta do forte at eu voltar.
 De uma maneira geral, Jennifer gostava de andar de avio. Considerava o tempo que passava no ar como uma libertao das presses, um escape temporrio para todos
os problemas que a preocupavam em terra, um osis calmo no espao, longe  dos seus clientes que no lhe deixavam um momento livre. Este voo atravs do Atlntico,
contudo, foi desagradvel. A turbulncia era invulgar, e o estmago de Jennifer ressentiu-se.  Sentia-se ligeiramente melhor quando o avio aterrou em Nice, na
manh seguinte. Esperava-a um helicptero para a conduzir a Monte Carlo. Jennifer nunca andara de helicptero e tinha-se sentido entusiasmada com a experincia.
Mas a subida brusca e os movimentos da descida enjoaram-na de novo, e foi incapaz de apreciar a vista majestosa dos Alpes, l em baixo, e da Grande Corniche, com
automveis minsculos serpenteando pela encosta ngreme da montanha.  Os edifcios de Monte Carlo apareceram e, poucos minutos depois, o helicptero aterrava na
praia em frente ao moderno Casino branco de Vero.  Cynthia tinha telefonado com antecedncia e Rick Arlen encontrava-se  espera de Jennifer.  Ele deu-lhe um grande
abrao.
 - Como correu a viagem?
 - Um pouco agitada.
 Ele observou-a mais atentamente e comentou:
 - No est com bom aspecto. Vou lev-la para o meu apartamento onde poder recobrar foras para o grande  acontecimento de logo  noite.
 - Que grande acontecimento?
 - A gala.  por isso que voc est aqui.
 - O qu ?
 - Sim. Grace pediu-me que convidasse algum de quem eu gostasse. Gosto de si.
 - Oh, Rick !
 Jennifer t-lo-ia estrangulado de boa vontade. Ele no fazia a menor ideia de como lhe transtornara a vida. Estava a trs mil milhas de distncia de Adam, tinha
clientes que  precisavam dela, julgamentos para preparar - e fora atrada a  Monte Carlo para assistir a uma festa!
 - Rick, como  que pde...? - comeou Jennifer.
 Olhou o seu rosto radiante e desatou a rir.
 Oh, bom, ali estava ela. Alm disso, talvez a gala fosse divertida.
 A gala foi espectacular. Era um concerto para recolha de fundos para rfos, patrocinado por Suas Altezas  Serenssimas, Grace e Rainier Grimaldi, e decorreu ao
ar  livre, no casino de Vero. Foi um sero encantador. A noite estava calma e a brisa suave vinda do Mediterrneo fazia agitar as folhas das palmeiras. Jennifer
desejava que Adam pudesse estar ali, para partilhar tudo com ela. Havia quinhentos  lugares ocupados por uma animada audincia.  Actuaram meia dzia de astros internacionais,
mas Rick Arlen foi o principal. Acompanhava-o um trio roufenho e as cintilantes luzes psicadlicas coloriam o cu aveludado. Quando terminou, foi aplaudido de p.
 Depois houve uma festa privada na piscina, por baixo do Hotel de Paris. Foram servidos cocktails e uma ceia volante em volta da enorme piscina, onde dezenas de
velas acesas flutuavam sobre folhas de nenfar.  Jennifer calculou que deviam encontrar-se ali mais de  trezentas pessoas. Jennifer no tinha trazido vestido de
 noite e, ao olhar para as mulheres magnificamente vestidas, sentia-se como a pobre rapariguinha dos fsforos 1. Rick apresentou-a a duques, duquesas e princesas.
Jennifer tinha a impresso de que se encontrava ali presente metade da realeza da Europa. Conheceu cabeas de cartaz e cantores de pera famosos. Havia criadores
de modas, herdeiras e o grande jogador de futebol, Pel. Jennifer estava a conversar com dois
banqueiros suos quando uma onda de mal-estar a envolveu.
 - Desculpem-me - pediu Jennifer.
 Foi  procura de Rick Arlen.
 - Rick, eu. . .
 Ele deu-Lhe uma olhadela e comentou:
 - Est branca como a cal, querida. Vamos dar o fora.
 Meia hora mais tarde, Jennifer encontrava-se deitada na vivenda que Rick Arlen tinha alugado.
 - Vem um mdico a caminho - informou-a Rick.
 - No preciso de nenhum mdico.  apenas um vrus, ou coisa assim.
 - Est bem.  a coisa assim?, que ele vai tentar  descobrir.
 O Dr. Andr Monteux era um homem baixinho que devia  ?dar pelos oitenta anos de idade. Usava uma abundante  barba muito bem aparada e trazia um estojo preto.
 O mdico voltou-se para Rick Arlen.
 - Pode deixar-nos ss, por favor?
 - Com certeza. Espero l fora.
 O mdico aproximou-se mais da cama.
 - Alors. O que se passa?
 - Se eu soubesse - respondeu Jennifer com voz fraca -,  no o teria chamado nem estaria para aqui deitada.
 Ele sentou-se na beira da cama.
 - Como se sente?
 - Como se tivesse sido atacada pela peste bubnica.
 - Mostre-me a lngua, por favor.
 Jennifer deitou a lngua de fora e comeou aos vmitos. O  Dr. Monteux tomou-lhe o pulso e viu-lhe a temperatura.  Assim que ele terminou, Jennifer inquiriu:
 - O que acha que , Doutor?
 - Pode ser uma quantidade de coisas, minha bela senhora.
 Se amanh se sentir melhor, gostava que fosse ao meu  consultrio, onde poderei fazer-lhe um exame completo.  Jennifer sentia-se demasiado mal para protestar.
 - Est bem - respondeu. - L estarei.
 De manh, Rick Arlen conduziu Jennifer a Monte Carlo, onde o Dr. Monteux a submeteu a um exame completo.
 -  um vrus qualquer, no ? - perguntou Jennifer.
 - Se quer uma profecia - replicou o velho mdico -, vou mandar buscar bolinhos da sorte. Se quer saber o que se passa consigo, teremos de ter pacincia at que
cheguem os resultados do laboratrio.
 - Quando  que esto prontos?
 - Normalmente demoram dois ou trs dias.
 Jennifer sabia que no tinha possibilidade de ficar ali mais dois ou trs dias. Adam poderia necessitar dela. E ela  necessitava dele.
 - Entretanto, gostava que se conservasse em repouso, na cama. - Estendeu-lhe um frasco de comprimidos. - Isto vai acalm-la.
 - Obrigada - Jennifer rabiscou algo num bocado de papel. -  Pode telefonar-me para aqui.
 S depois de Jennifer se ter ido embora  que o Dr. Monteux  olhou para o papel. Tinha escrito um nmero de telefone de Nova Iorque.
 No Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, onde mudou de avio, Jennifer tomou dois dos comprimidos que o Dr. Monteux  lhe tinha dado e um outro para dormir. Dormitou
durante quase toda a viagem de regresso a Nova Iorque, mas quando desembarcou do avio, no se sentia melhor. No pedira a ningum que a fosse buscar e tomou um
txi para o  apartamento.  Ao fim da tarde, o telefone tocou. Era Adam.
 - Jennifer! Onde  que tu. . .
 Ela tentou dar  voz um tom enrgico.
 - Desculpa, querido. Tive de ir a Monte Carlo encontrar-me  com um cliente e no me foi possvel avisar-te.
 - Tenho estado louco de aflio. Sentes-te bem?
 - Estou ptima. Apenas um pouco fatigada.
 - Meu Deus! Imaginei as coisas mais terrveis.
 - No h motivo para preocupaes - assegurou Jennifer. -  Como est a correr a campanha?
 - Muito bem. Quando  que te vejo? Devia partir para Washington, mas posso adiar. . .
 - No, vai - atalhou Jennifer. No queria que Adam a visse naquele estado. - Vou estar muito ocupada. Passaremos  juntos o fim-de-semana.
 - Est bem. - O tom dele era relutante. - Se no tiveres nada para fazeres s onze, apareo nas notcias da CBS.
 - Eu vejo, querido.
 Cinco minutos depois de ter pousado o auscultador, j  Jennifer dormia a sono solto.
 Na manh seguinte, Jennifer telefonou a Cynthia para lhe comunicar que no iria ao escritrio. Jennifer tinha dormido muito mal e, quando acordou, no se sentia
melhor. Tentou
tomar o pequeno-almoo mas no foi capaz de conservar nada no estmago. Sentia-se fraca e deu-se conta de que no comia nada h quase trs dias.  Contra a sua vontade,
veio-lhe ao pensamento a assustadora  ladainha de coisas que poderiam passar-se com ela. O cancro  em primeiro lugar, naturalmente. Apalpou o peito,  procura
de caroos, mas no encontrou nada de anormal.  claro que o cancro podia manifestar-se em qualquer lado. Podia ser um vrus qualquer mas, se assim fosse, o mdico
t-lo-ia logo detectado. O problema  que podia ser quase tudo. Jennifer sentia-se perdida e desamparada. No era hipocondraca,  gozara sempre de excelente sade,
e agora sentia como se o  seu corpo a tivesse, de certo modo, trado. No resistiria se lhe acontecesse alguma coisa. Para mais agora, quando tudo estava  a correr
to bem.  la ficar boa.  claro que ia.  Foi invadida por outra onda de nusea.  s onze horas da manh, o Dr. Monteux telefonou de  Monte Carlo.
 - Um momento. Vou ligar ao doutor - anunciou uma  voz.
 O momento pareceu durar cem anos, e Jennifer apertava  com fora o telefone, incapaz de suportar a espera.  A voz do Dr. Monteux fez-se, por fim, ouvir:
 - Como se sente?
 - Na mesma - replicou Jennifer com nervosismo. - J  tem os resultados das anlises?
 -Tenho boas notcias - anunciou o Dr. Monteux. No  a peste  bubnica.
 Jennifer no aguentava mais.
 - O que ? O que se passa comigo?
? Jennifer ficou como que paralisada, contemplando o  telefone sem o ver. Quando recuperou a voz, perguntou:
 - Tem. . . tem a certeza?
 - Os coelhos nunca mentem. Suponho que  o seu primeiro  filho.
 - Sim.
 - Sugiro-lhe que consulte um obstetra o mais depressa  possvel. Dada a gravidade dos primeiros sintomas,  natural  que venham a surgir algumas dificuldades.
 - Assim farei - replicou Jennifer. - Obrigada por ter  telefonado, Dr. Monteux.
 Pousou o auscultador e deixou-se ficar imvel, com o  pensamento num torvelinho. No tinha a certeza de quando aqui  lo poderia ter acontecido, nem-estava segura
do que sentia.   No conseguia coordenar as ideias.  la ter o filho de Adam. E, de sbito, Jennifer soube como  se sentia. Sentia-se maravilhosamente; sentia-se
como se lhe  .tivessem dado uma prenda de um valor inestimvel. A programao do tempo era perfeita, tal como se os deuses  estivessem a proteg-los. A eleio
ia terminar em breve, e ela e Adam casariam o mais depressa possvel. la ser um rapaz. Jennifer tinha a certeza disso. No conseguiu esperar para dar a notcia
a Adam.  Telefonou-lhe para o escritrio.
 - Mr. Warner no est - informou-a a secretria dele. -  Talvez o encontre em casa.
 Jennifer sentia relutncia em telefonar para casa de Adam, mas estava ansiosa por lhe contar tudo. Marcou o nmero. Mary Beth atendeu.
 - Lamento incomod-la - desculpou-se Jennifer. - Preciso de  conversar com Adam a respeito de um assunto. Fala Jennifer Parker.
 - Fez bem em telefonar - declarou Mary Beth. O calor da sua voz era tranquilizador. - Adam teve de ir proferir uns discursos, mas regressa esta noite. Porque no
vem c a casa?
- Podemos jantar juntos. Convm-lhe s sete horas?
 Jennifer hesitou por uns momentos.
 - Terei muito prazer.
 Foi um milagre Jennifer no ter tido um acidente durante a viagem para Croton-on-Hudson. O seu esprito estava muito longe, sonhando com o futuro. Ela e Adam tinham
falado muitas vezes em terem filhos. Recordava-se das palavras dele: Quero um casal que se parea exactamente contigo."  Enquanto Jennifer conduzia ao longo da
estrada nacional, julgou sentir um leve movimento na barriga, mas declarou a si prpria que era um disparate. Era demasiado cedo. Mas j no havia de faltar muito.
O filho de Adam estava dentro dela. Estava vivo e em breve comearia a dar pontaps. Era algo terrvel, esmagador. Ela...  Jennifer ouviu algum buzinar-lhe e,
erguendo os olhos, viu que quase tinha obrigado um motorista de camio a sair da estrada. Fez-lhe um sorriso, como se lhe pedisse desculpa e continuou o seu caminho.
Nada poderia estragar este dia.  Estava j escuro quando Jennifer estacionou em frente da casa dos Warner. Tinha comeado a cair uma neve, fina, que polvilhava
levemente as rvores. Mary Beth, usando um vestido  comprido de brocado azul, abriu a porta para receber Jennifer e, dando-lhe o brao, conduziu-a alegremente para
dentro de casa, fazendo Jennifer recordar-se do seu primeiro  encontro com ela.  Mary Beth parecia irradiar felicidade. Tagarelava sem  cessar, pondo a visitante
 vontade. Foram para a biblioteca, em :?' cuja lareira crepitava um lume acolhedor.  - Ainda no soube nada de Adam - comeou Mary Beth.  -  provvel que tenha
sido retido. Entretanto, voc e eu  podemos ter uma longa e agradvel conversa. Pareceu-me  excitada ao telefone. - Mary Beth inclinou-se para a frente,  com um
ar conspirador. - Que grande novidade  essa?
 Jennifer olhou para a amvel mulher sentada  sua frente e  disse com precipitao:
 - Vou ter um filho de Adam.
 Mar? Beth recostou-se na cadeira e sorriu.
 - E boa ! Que coincidncia ! Eu tambm !
 Jennifer contemplou-a com os olhos muito abertos.
 - Eu. . . eu no compreendo.
 Mary Beth riu.
 - E muito simples, minha querida. Adam e eu somos casados,  como sabe.
 - Mas. . . mas voc e Adam vo divorciar-se - disse Jennifer  muito devagar.
 - Minha querida, por que motivo me divorciaria eu de  Adam? Eu adoro-o.
 Jennifer sentiu que a cabea comeava a andar-lhe  roda.  Aquela conversa no fazia sentido.
 - Voc... voc est apaixonada por outra pessoa. Voc disse que. . .
 - Eu disse que estou apaixonada. E estou. Estou apaixonada  por Adam. J lhe disse, apaixonei-me por Adam no momento em que o conheci.
 Ela no podia estar a falar a srio. Estava a divertir-se  custa de Jennifer, a pregar-lhe uma partida estpida.
 - Pare com isso! - exclamou Jennifer. - Vocs vivem como irmos. Adam no faz amor con.  A voz de Mary Beth esfuziava de riso.
 - Minha pobre querida! Surpreende-me que uma pessoa to inteligente como voc pudesse. . . - Inclinou-se para a frente, com um ar preocupado. - Voc acreditou
nele! Tenho  tanta, tanta pena. Creia que tenho.  Jennifer lutava para conseguir controlar-se.
 - Adam ama-me. Vamos casar.
Mary Beth abanou a cabea. Os seus olhos azuis encontraram os  de Jennifer e o dio que eles reflectiam fez o corao de Jennifer parar por um instante.
 - Isso faria de Adam um bgamo. Nunca lhe darei o divrcio.
Se eu permitisse que Adam se divorciasse de mim para casar consigo, ele perderia a eleio. Mas assim vai  ganh-la. Depois havemos de continuar at  Casa Branca,
Adam e eu. No existe na vida dele lugar para uma pessoa como voc. Nunca existiu. O que ele est  convencido de que a ama. Mas isso passa-lhe quando souber que
trago no ventre o filho dele. Adam sempre desejou ter um filho.  Jennifer fechou os olhos com fora, tentando fazer parar a terrvel dor de cabea que a atormentava.
 - Quer que lhe prepare alguma coisa? - perguntou Mary Beth, solcita.
 Jennifer abriu os olhos.
 - J lhe disse que est  espera de um filho?
 - Ainda no - respondeu Mary Beth com um sorriso. - Penso  dizer-lho esta noite, quando ele chegar a casa e estivermos  na cama.
 Jennifer sentia uma profunda repugnncia.
 - Voc  um monstro. . .
 - Isso depende do ponto de vista, no , querida? Sou a mulher de Adam. Voc  apena a amante dele.
 Jennifer ps-se de p, desorientada. A dor de cabea  transformara-se num latejar insuportvel. Sentia um rudo nos  ouvidos e receou desmaiar. Encaminhou-se para
a sada, com as pernas a tremer.  Jennifer parou junto da porta e, apoiando-se nela, tentou raciocinar. Adam tinha dito que a amava, mas dormira com esta mulher,
engravidara-a.  Jennifer voltou-se e saiu para o ar fresco da noite.  Adam estava a fazer a ltima digresso de propaganda  eleitoral atravs do estado. Telefonava
muitas vezes a  Jennifer,  mas encontrava-se sempre rodeado pela sua comitiva e era-Lhe  impossvel falar  vontade, era impossvel a Jennifer dar-lhe a  notcia.
 Jennifer conhecia a explicao para a gravidez de Mary ? Beth: levara Adam a dormir com ela. Mas Jennifer queria  ouvi-lo da boca de Adam.
 - Regresso daqui a alguns dias e depois falamos - disse  Adam.  Agora faltavam apenas cinco dias para a eleio. Adam  merecia ganh-la; era o melhor. Jennifer
sentia que Mary  Eeth tivera razo ao dizer que a vitria poderia ser o trampolim para a presidncia dos Estados Unidos. la esperar pacientemente para ver o que
acontecia.  Se Adam fosse eleito senador, Jennifer perd-lo-ia. Adam  iria para Washington com Mary Beth.  Ele no conseguiria obter o divrcio. O escndalo de
um  senador recm-eleito divorciando-se da mulher grvida para  se casar com a amante grvida seria uma histria demasiado  interessante para poder passar despercebida.
Mas se Adam  perdesse a eleio, ficaria livre. Livre para voltar a exercer  advocacia, livre para se casar com Jennifer, sem ter de se  preocupar com o que os
outros pudessem pensar. Poderiam  passar juntos o resto da vida. Ter filhos.  O dia das eleies amanheceu frio e chuvoso. Devido ao interesse despertado pela corrida
para o Senado, esperava-se uma grande afluncia s urnas, embora o tempo estivesse muito desagradvel.
 - Vai votar hoje? - perguntou Ken Bailey logo de manh.
 - Vou.
- Parece que a luta vai ser renhida, no acha?
- Muito.
 Foi votar ao fim da manh e, ao entrar na cmara de voto, teve um pensamento estpido: Um voto a favor de Adam Warner  um voto contra Jennifer Parker.  Votou
em Adam e foi-se embora. No suportava a ideia de regressar ao  escritrio. Vagueou pelas ruas durante toda a tarde, tentando  no pensar, tentando no sentir;
mas pensava e sentia,  reconhecendo que as prximas horas iam decidir o resto da sua  vida.
- Estas so uma das mais renhidas eleies dos ltimos anos - declarava o locutor da televiso.
 Jennifer encontrava-se sozinha em casa, a ver os resultados na NBC. Tinha preparado um jantar ligeiro de ovos mexidos e tosta, mas o nervosismo no a deixou comer.
Estava aninhada  no sof, com um roupo vestido, ouvindo o seu destino ser comunicado a milhes de pessoas. Cada espectador tinha os seus motivos para ver a transmisso,
para desejar que um dos candidatos vencesse ou fosse derrotado, mas Jennifer  tinha a certeza de que nenhum deles se encontrava to  profundamente envolvido no
resultado desta eleio como ela.  Se Adam ganhasse, isso significaria o fim das relaes de  ambos... e o fim do beb que trazia no ventre.  Apareceu no cran
uma rpida imagem de Adam com Mary Beth a seu lado. Jennifer orgulhava-se de saber conhecer  as pessoas, de compreender os motivos delas, mas tinha sido completamente
enganada pelos modos suaves daquela puta de voz melflua. Continuava a imaginar Adam indo para a cama com aquela mulher, a engravid-la.
 Edwin Newman anunciava agora:
 - Temos aqui os ltimos resultados da corrida para o Senado  entre o actual senador, John Trowbridge, e o candidato  Adam Warner. Em Manhattan, John Trowbridge
tem um total de duzentos e vinte e um mil trezentos e setenta e cinco  votos. Adam Warner tem um total de duzentos e catorze mil oitocentos e noventa e cinco.
 Na Quadragsima-Quinta Assembleia de Voto do Vigsimo-Primeiro Distrito Eleitoral de Queens, John Trowbridge leva uma vantagem de dois por cento."  A vida de Jennifer
estava a ser aferida em percentagens.
 - Os totais de The Bronx, Brooklyn, Quees, Richmond e dos distritos de Nassau, Rockland, Suffolk e Westchester somam dois milhes e trezentos mil para Trowbridge
e dois milhes e cento e um vinte mil para Adam Warner, estando j includos alguns resultados do norte do estado de Nova  Iorque. Adam Warner tem mostrado uma
resistncia  surpreendente ao Senador Trowbridge, que exerce actualmente o  seu terceiro mandato. Desde o incio, os votos apurados tm-se dividido de um modo equilibrado.
De acordo com as ltimas contagens, o Senador Trowbridge est a comear a ganhar terreno, com sessenta e dois por cento dos votos apurados. Quando, h uma hora,
lemos os ltimos resultados, o Senador Trowbridge ia  frente com dois por cento. Os resultados  indicam agora que ele aumentou a sua vantagem de dois e meio por
cento. Se esta tendncia se mantiver, o computador da NBC prev que o Senador Trowbridge seja o vencedor desta corrida para o Senado dos Estados Unidos. Voltando
  competio entre. . .  Jennifer continuava no mesmo stio, olhando para o aparelho,  sentindo o corao bater-lhe desordenadamente. Era como se milhes de pessoas
estivessem a votar para decidirem  se iria ser Adam e Jennifer, ou Adam e Mary Beth. Jennifer  tinha a cabea esvada e sentia vertigens. Precisava de comer qualquer
coisa. Mas no neste momento. Nada lhe  interessava agora, a no ser o que se passava no cran  sua frente. A incerteza continuava a aumentar, minuto aps  minuto,
hora aps hora.   meia-noite, o Senador Trowbridge tinha trs por cento de vantagem. s duas da manh, com setenta e um por cento dos votos contados, o Senador
Trowbridge ia  frente com uma margem de trs e meio por cento. O computador declarou que o Senador Trowbridge tinha vencido as eleies.  Jennifer ficou a contemplar
o aparelho, incapaz de sentir a menor emoo, o menor sentimento. Adam fora derrotado. Jennifer tinha vencido. Tinha ganho Adam e o filho de ambos.  Estava agora
livre para contar tudo a Adam, para lhe
falar do beb, para planear o futuro.  O corao de Jennifer sofria por Adam, pois sabia o quanto a eleio tinha significado para ele. Mas, com o tempo, Adam restabelecer-se-ia
da derrota. Poderia fazer nova  tentativa e ela iria auxili-lo. Ele era ainda jovem. Tinham  uma vida inteira  sua frente.  frente dos trs.  Jennifer adormeceu
no sof, sonhando com Adam, com a eleio e com a Casa Branca. Ela, Adam e o filho de ambos  encontravam-se no Salo Oval. Adam estava a proferir o seu ? discurso
de posse. Mary Beth entrou e comeou a interromp-lo. Adam ps-se a gritar com ela com uma voz cada vez  mais forte. Jennifer acordou. A voz era a de Edwin ?Tewman.
 A televiso continuava ligada. Amanhecia.  Edwin Newman, com ar exausto, lia os resultados finais  das eleies. Jennifer escutou-o, ainda meia adormecida.  Quando
comeou a levantar-se do sof, ouviu-o anunciar:
 - E aqui esto os resultados finais da e leio senatorial do  estado de Nova Iorque. Numa das mais assombrosas revira  voltas dos ltimos anos, Adam Warner derrotou
o actual  senador John Trowbridge, por uma margem de menos de um  por cento.
 Terminara. Jennifer tinha perdido. Quando Jennifer entrou no escritrio, ao fim da manh,
Cynthia anunciou:
 - Mr. Adam est ao telefone, Miss Parker. Tem estado a telefonar durante toda a manh.
 Jennifer hesitou, mas depois disse:
 - Est bem, Cynthia, eu atendo. - Entrou no gabinete e levantou o auscultador: - Ol, Adam. Parabns.
 - Obrigado. Precisamos conversar. Ests livre para almoar?  Jennifer hesitou.
 - Sim.
Alguma vez teria de enfrentar a realidade  Era a primeira vez que Jennifer via Adam desde h trs semanas. Observou-lhe o rosto. Adam estava plido e esgotado.
 Deveria ter ficado satisfeito com a vitria mas, pelo  contrrio, parecia estranhamente nervoso e perturbado.
Encomendaram um almoo que nenhum deles comeu e comentaram as  eleies, sendo as palavras um disfarce com que encobriam os  pensamentos.  A farsa tinha-se tornado
quase insuportvel quando, por fim, Adam comeou:
 - Jennifer. . . - Respirou fundo e foi direito ao assunto.
- Mary Beth vai ter um filho.
 Aquelas palavras, ditas por ele, eram uma realidade muito dura.
 - Lamento querida. Aconteceu.  difcil explicar.
 - No precisas explicar nada. - Jennifer via nitidamente a cena. Mary Beth com um roupo provocante - ou nua - e Adam...
 - Sinto-me um perfeito idiota - dizia Adam. Houve um silncio embaraoso e ele continuou: - Recebi esta manh um telefonema do presidente da Comisso Nacional.
Consta  que me querem apresentar como o prximo candidato   presidncia. - Hesitou. - O problema  que, estando Mary Beth  grvida, este momento no seria o mais
indicado para eu  pedir o divrcio. No sei o que fazer. H trs noites que no  durmo. - Olhou para Jennifer e prosseguiu: - Detesto pedir- te isto, mas. . . achas
que poderemos esperar mais um  pouco at que as coisas se esclaream por si?  Jennifer contemplou Adam atravs da mesa, e sentiu uma  dor to profunda, uma perda
to intolervel, que julgou no  ser capaz de a suportar.
 - Entretanto, ver-nos-emos sempre que possvel - declarou- lhe Adam. - Ns. . .  Jennifer fez um esforo para falar.
 - No, Adam. Terminou.
 Ele olhou-a fixamente.
 - No ests a falar a srio. Amo-te, querida. Havemos de  arranjar maneira de. . .
 - No h possibilidade. A tua mulher e o teu filho no  vo desaparecer. Tu eu acabmos. Adorei. Todos os momentos. Ps-se de p, sabendo que se no abandonasse
o restaurante,
comearia a gritar.
 - No devemos voltar a encontrar-nos.
 No conseguia suportar ver os olhos dele, trespassados de  sofrimento.
 - Oh, meu Deus, Jennifer! No faas isto! Suplico-te, no  faas isto! Ns...
 Ela j no ouviu o resto. Dirigia-se apressadamente para a porta, afastando-se da vida de Adam.
Os telefonemas de Adam no eram nem atendidos nem  retribudos. As suas cartas eram devolvidas por abrir. Na  ltima carta que recebeu dele, Jennifer escreveu no
sobrescrito a palavra falecida" e meteu-a no marco do correio.  E  verdade", pensou Jennifer. ,?Estou morta..,  Nunca imaginara que pudesse existir um tal sofrimento.
Necessitava de estar sozinha e, no entanto, no se encontrava s. Havia dentro dela um outro ser humano, uma parte dela e uma parte de Adam. E ela ia destru-lo.
 Esforou-se por pensar no stio onde iria fazer o aborto. H alguns anos atrs, um aborto teria significado um mdico charlato num quarto sujo e miservel de
qualquer bairro  srdido, mas isso agora j no era necessrio. Podia ir para  um hospital onde a operao seria feita por um respeitvel  cirurgio. Algures fora
da Cidade de Nova Iorque. A  fotografia de Jennifer aparecera demasiadas vezes nos jornais, e tinha ido   a televiso com demasiada frequncia. Precisava de anonimato,
de um stio onde ningum lhe fizesse perguntas. No deveria nunca existir um elo de ligao entre ela e Adam Warner. O Senador dos Estados Unidos Adam Warner. O
filho de ambos tinha de morrer no anonimato.  Jennifer imaginou como teria sido o beb, e foi tomada por uma crise de choro to forte que mal conseguia respirar.
 Tinha comeado a chover. Jennifer olhou para o cu e pensou  se Deus no estaria a chorar por ela.  Ken Bailey era a nica pessoa em quem Jennifer confiava para
pedir auxlio.
 - Preciso de fazer um aborto - declarou Jennifer sem mais prembulos. - Conhece algum mdico que seja bom?
 Ele tentou disfarar a sua surpresa, mas Jennifer reparou na variedade de emoes que se lhe estamparam no rosto.
 - Algures fora da cidade, Ken. Num lugar onde ningum me conhea.
 - Pode ser nas Ilhas Fiji? - A voz dele deixava perceber a raiva que sentia.
 - Estou a falar a srio.
 - Desculpe. Eu... voc apanhou-me desprevenido. - A notcia atingira-o completamente de surpresa. Adorava  Jennifer. Sabia que gostava dela e havia momentos em
que  julgava am-la; mas no tinha a certeza, e isso era uma tortura para ele. Nunca poderia fazer a Jennifer aquilo que fizera   mulher. Meu Deus", pensou Ken.
Por que diabo no te  decidiste a meu respeito,  Passou as mos pelo cabelo ruivo e disse:
 - Se no quer faz-lo em Nova Iorque, sugiro a Carolina do Norte. No fica muito longe.
 - Pode saber-me disso?
 - Sim. Est bem. Eu. . .
 - Sim?
 Ele desviou o olhar.
 - Nada.
 Ken Bailey desapareceu durante os trs dias que se seguiram.  Quando, ao terceiro dia, entrou no gabinete de Jennifer, tinha a barba por fazer e os olhos estavam
encovados e  vermelhos.
 Jennifer olhou para ele e perguntou:
 - Sente-se bem?
 - Creio que sim.
 - Quer que o ajude em alguma coisa?
 - No. Se Deus no consegue ajudar-me, amor, no s tu que vais fazer nada por mim."
 Estendeu a Jennifer um pedao de papel onde se lia: Dr. Eric Linden, Memorial Hospital, Charlotte, Carolina do Norte.
 - Obrigada, Ken.
 - De nada. Quando vai faz-lo?
 - Vou l no prximo fim-de-semana.
 - Quer que a acompanhe? - props ele, com ar embaraado.
- No, obrigada. Vou bem sozinha.
- E a viagem de regresso?
- No haver problema.
Ele ficou ali por uns momentos, com um ar hesitante - No tenho nada com o assunto, mas tem a certeza de que  isso o que quer fazer?
 - A certeza absoluta.
 No lhe restava outra alternativa. Aquilo que mais desejava na vida era conservar o filho de Adam, mas reconhecia que seria uma loucura tentar criar sozinha uma
criana.
 - Tenho a certeza - repetiu, olhando para Ken.
O hospital era um agradvel edifcio antigo de dois andares,  em tijolo, nos arredores de Charlotte.  A mulher que se encontrava no balco da recepo tinha o cabelo
grisalho e devia andar pelos setenta anos.
 - Posso ser-Lhe til?
 - Sim - respondeu Jennifer. - Sou Mrs. Parker. Tenho uma consulta marcada para o Dr. Linden para. . . para. . .No  conseguia pronunciar as palavras.
 A recepcionista fez um sinal de compreenso com a cabea. -  O doutor est  sua espera, Mrs. Parker. Vou mandar algum acompanh-la.  Uma jovem enfermeira com
ar decidido conduziu Jennifer a uma sala de observaes, ao fundo do trio, e disse-lhe:
 - Vou anunciar ao Dr. Linden que a senhora j c est. Quer fazer o favor de se despir? H uma bata do hospital no cabide.
 Muito devagar, possuda por uma sensao de irrealidade, Jennifer tirou a roupa e vestiu a bata branca do hospital.  Era como se estivesse a pr um avental de
carniceiro. Estava  prestes a matar a vida que tinha dentro de si. No seu  esprito, o avental ficou manchado de sangue, o sangue do seu filho. Jennifer reparou
que tremia.
 - V. Acalme-se - disse uma voz.
 Jennifer ergueu os olhos e viu um homem forte e calvo, cujos culos de armao grossa davam ao seu rosto um ar de mocho.
 - Sou o Dr. Linden - olhou para a ficha que tinha na mo. - A senhora  Mrs. Parker.
 Jennifer confirmou com a cabea.
 O mdico tocou-lhe no brao e disse-Lhe com suavidade:
 - Sente-se - dirigiu-se ao lavatrio e encheu com gua um copo de papel. - Beba isto.
 Jennifer obedeceu. O Dr. Linden sentou-se numa cadeira, e ficou a contempl-la at o tremor desaparecer.
 - Quer ento fazer um aborto.
 - Sim.
- Discutiu o assunto com o seu marido, Mrs. Parker?
 - Sim. Estamos... estamos ambos de acordo.
 Ele envolveu-a num olhar perscrutador.
 - Parece-me estar de boa sade.
 - Sinto-me... sinto-me muito bem.
 - Trata-se de algum problema econmico?
 - No - replicou Jennifer em tom brusco. Por que motivo  estava ele a aborrec-la com perguntas? - Ns. . . ns no podemos ter a criana.
 O Dr. Linden puxou de um cachimbo.
 - Isto incomoda-a?
 - No.
 O Dr. Lindem acendeu o cachimbo e comentou:
 -  um vcio terrvel. - Depois recostou-se na cadeira e espeliu uma fumaa.
 - Podemos acabar com isto? - perguntou Jennifer.
 Sentia os nervos em franja. Tinha a impresso de que ia comear a gritar a qualquer momento.  O Dr. Linden puxou outra grande e lenta fumaa do cachimbo.
 - Acho que seria melhor conversarmos durante alguns minutos.
 Com um enorme esforo de vontade, Jennifer dominou a sua agitao.
 - Como queira.
 - O problema dos abortos - comeou o Dr. Linden -,  que so algo definitivo. Agora ainda pode mudar de opinio, mas no poder mud-la depois de ter perdido a
criana.
 - No vou mudar de opinio.
 Ele acenou com a cabea e puxou outra lenta fumaa do cachimbo.
 - ptimo.
 O aroma adocicado do tabaco estava a provocar nuseas a Jennifer. Desejava que ele largasse o cachimbo.
 - Dr. Linden. . .
 Ele ps-se de p com relutncia e declarou:
- Muito bem, minha jovem, vamos l observ-la.  Jennifer deitou-se na marquesa e apoiou os ps nos frios ganchos de metal. Sentiu os dedos dele explorarem-lhe o
 interinr do corpo. Eram suaves e hbeis e no sentiu o menor embarao, apenas uma inefvel sensao de perda, um profundo  desgosto. Vieram-lhe ao pensamento vises
inesperadas do  filho, pois tinha a certeza de que teria sido um rapaz, correndo, brincando e rindo. Crescendo  imagem do pai.  O Dr. Linden terminara a observao.
 - Pode vestir-se, Mrs. Parker. Pode passar aqui a noite, se quiser, e faremos a operao de manh.
 - No! - O tom de voz de Jennifer foi mais spero do que ela teria querido. - Gostaria que me operasse agora, por favor.
 O Dr. Linden estava de novo a observ-la, com uma expresso  perplexa no rosto.
 - Tenho duas doentes  sua frente. Vou mandar-lhe a  enfermeira para lhe fazer anlises e para a instalar em  seguida no seu quarto. Faremos a operao daqui a
quatro horas. De acordo?
 - De acordo - murmurou Jennifer.
 Estava deitada na estreita cama de hospital, com os olhos fechados,  espera que o Dr. Lindem regressasse. Pendurado na parede, havia um relgio antiquado cujo
tiquetaque parecia encher o quarto. O som do relgio foi-se transformando em palavras: Pequeno Adam, Pequeno Adam, Pequeno Adam, nosso filho, nosso filho, nosso
filho.  Jennifer no conseguia afastar do pensamento a imagem da criana. Neste momento estava dentro do corpo dela,  confortvel, quente e viva, protegida do mundo
pelo mnio. Pensou se a criana sentiria algum receio primrio pelo que estava prestes a acontecer-lhe. Pensou se sentiria alguma dor quando o bisturi a matasse.
Tapou os ouvidos com as mos, para no ouvir o tiquetaque do relgio. Verificou que  comeava a respirar com dificuldade e que tinha o corpo  coberto de suor. Ouviu
um rudo e abriu os olhos.  O Dr. Linden estava a observ-la com uma expresso  preocupada no rosto.
 - Sente-se bem, Mrs. Parker?
 - Sim - murmurou Jennifer. - Quero  ver isto terminado.  O Dr. Linden acenou com a cabea.
-  o que vamos fazer.
 Pegou numa seringa que se encontrava sobre a mesa ao lado da cama e aproximou-se dela.
 - O que  isso?
 - Demerol e Phenergan para a acalmar. Vamos para a sala de operaes dentro de poucos minutos. - Deu a injeco a Jennifer. - Depreendo que este  o seu primeiro
aborto.
 - Sim.
 - Ento deixe-me explicar-lhe o processo.  indolor e  relativamente simples. Na sala de operaes, vo injectar-lhe xido nitroso, uma anestesia geral, e aplicar-lhe
uma mscara de oxignio. Quando estiver inconsciente, ser-Lhe-  introduzido um espculo na vagina, para podermos ver o que  estamos a fazer. Comearemos ento
a dilatar o colo do tero com uma srie de dilatadores metlicos, de tamanhos  crescentes, e depois raspamos o tero com uma cureta. Quer  fazer alguma pergunta?
 - No.
 Comeou a apoderar-se dela uma agradvel sonolncia. Sentia a tenso desvanecer-se como por magia, e as paredes do quarto comearam a esvair-se. Queria perguntar
qualquer coisa ao mdico, mas no conseguia lembrar-se do que era. . . era algo a respeito do beb. . . j no tinha importncia. O que interessava era que ela
ia fazer o que devia. Dentro de  alguns minutos tudo estaria terminado, e poderia recomear a sua vida.  Sentia-se flutuar num maravilhoso estado de semi-inconscincia.
. . deu conta que entravam no quarto algumas  pessoas, que a transportavam para uma mesa metlica com rodas. . . sentiu nas costas a frieza do metal atravs da
leve bata hospitalar. Estavam a empurr-la ao longo do corredor e  comeou a contar as lmpadas do tecto. Parecia-lhe importante  determinar o nmero exacto, mas
no sabia ao certo porqu.  Estavam a lev-la para uma sala de operaes, branca e  esterilizada, e Jennifer pensou:  aqui que o meu beb vai  morrer. No te preocupes
pequeno Adam. No vou deixar que te faam  mal." E, sem querer, comeou a chorar.  O Dr. Linden tocou-lhe suavemente no brao.
 - No se preocupe. No vai sentir nada.
 Morte sem dor", pensou Jennifer. Era bonito.,? Amava o beb. No queria que lhe fizessem mal.  Algum Lhe colocou uma mscara no rosto e uma voz disse:
- Respire fundo.
 Jennifer sentiu as mos que lhe levantavam a bata de  hospital e Lhe afastavam as pernas.
 Ia acontecer. Ia acontecer agora. Pequeno Adam, Pequeno Adam, Pequeno Adam.?,
 - Quero que fique calma - pediu o Dr. Linden.
 Jennifer fez um sinal afirmativo com a cabea. Adeus, meu filhinho.?, Sentiu um frio objecto metlico mover-se  entre as suas coxas e deslizar lentamente para
dentro dela.  Era o repugnante instrumento mortal que ia assassinar o filho de Adam.  Ouviu uma voz desconhecida gritar:
 - Parem ! Parem ! Parem !
 E Jennifer olhou para as caras surpreendidas que a fitavam e descobriu que era ela quem gritava. A mscara exerceu uma presso mais forte sobre o seu rosto. Tentou
sentar-se, mas estava presa por eotxeias. Estava a ser sugada para um  redemoinho que se movia cada vez mais depressa, submergindo- a.  A ltima coisa de que teve
conscincia foi da enorme lmpada  branca do tecto rodopiando por cima dela, descendo em espiral e penetrando-lhe o crebro.  Quando Jennifer acordou, estava deitada
na cama do seu quarto de hospital. Atravs da janela viu que estava escuro  l fora. Sentia o corpo dorido e exausto e perguntou a si  prpria quanto tempo teria
permanecido inconsciente. Estava viva, mas o seu filho...?  Estendeu a mo para a campainha que estava junto da cama e premiu-a. Continuou a premi-la, frentica,
incapaz de  parar.  Uma enfermeira surgiu  entrada da porta, e desapareceu rapidamente em seguida. Momentos depois, o Dr. Linden entrou a toda a pressa. Aproximou-se
da cama e, com  suavidade, afastou da campainha os dedos de Jennifer.  Jennifer agarrou-Lhe o brao com violncia e disse com voz rouca:
 - O meu beb... est morto!
 - No, Mrs. Parker - respondeu o Dr. Linden. - Est  vivo. Fao votos para que seja um rapaz. A senhora chamou-lhe  sempre Adam.
Passou-se o Natal e entrou um novo ano, n?il novecentos e setenta e trs. As neves de Fevereiro deram lugar aos ventos fortes de Maro, e Jennifer soube que chegara
a altura de
interromper a sua actividade.  Convocou uma reunio com a sua equipa de trabalho.  - Vou entrar de licena - anunciou Jennifer. - Vou estar  ausente durante os
prximos cinco meses.
 Ouviram-se murrnrias surpreendidos.
 - Poderemos contactar consigo, no  verdade? - quis saber Dan Martin.
 - No, Dan. Vou estar incomunicvel.
 Ted Harris observou-a atravs dos culos grossos.
 - Jennifer, no pode. . .
 - 'Vou-me embora no fim da semana.
 O tom da voz dela era to peremptrio quE no admitia rplica. O resto da reunio foi ocupada com a discusso de casos pendentes.  Quando todos os outros saram,
Ken Bailey perguntou:
 - Pensou meSmo a srio neste assunto?
 - No tenho outra alternativa, Ken.  ele fitou-a.
 - No sei quem  o filho da puta, mas a verdade  que o odeio.
 Jennifer pousou-lhe a mo no brao.
 - Obrigada. No se preocupe comigo.
 - Vai ser difcil, sabe? Os midos crescem. Fazem perguntas. Ele vai querer saber quem  o pai.
 - Hei-de arranjar-me.
 - Okay. - A sua voz tornou-se mais suave. - Se houver algo que eu possa fazer - qualquer coisa - estarei sempre ao seu dispor.
 Ela abraou-o.
 - Obrigaria, Ken. Eu... agradeo-lhe.
Jennifer permaneceu no escritrio muito depois de todos terem ido embora, sentada s escuras, a meditar. Nunca  deixaria de amar Adam. Nada poderia fazer mudar
os seus  sentimentos, e tinha a certeza de que Adam continuava tambm  a am-la. De certo modo?,, pensou Jennifer, seria mais  fcil se ele no me amasse.?, Era
uma ironia insuportvel o facto de se amarem e de no poderem estar juntos, o facto de as vidas de ambos se irem separar cada vez mais. A vida de Adam seria agora
em Washington, com Mary Beth e com o filho. Talvez um dia Adam chegasse  Casa Branca. Jennifer pensou no seu prprio filho, crescendo, querendo saber quem era
o pai. Nunca Lho poderia dizer, nem Adam poderia vir a saber que ela lhe dera um filho, pois isso destru-lo-ia.  E, se qualquer outra pessoa viesse a sab-lo,
isso  destruiria Adam de outro modo.  Jennifer tinha decidido comprar uma casa no campo, algures  fora de Manhattan, onde ela e o filho pudessem viver juntos  no
seu pequeno mundo.  Descobriu a casa por mero acaso. Tinha ido ver um cliente a Long Island e sara da Via Rpida de Long Island na Sada 36, mas enganara-se no
caminho e tinha ido parar a Sands Point. As ruas eram calmas e orladas de rvores altas e  graciosas, e as casas ficavam afastadas da estrada, cada uma  dentro
do seu terrenozinho particular. Na Estrada de Sands Point, em frente de uma casa branca de estilo colonial, viu uma tabuleta que anunciava: Vende-se." O terreno
tinha uma vedao e havia um bonito porto de ferro forjado em frente de um extenso caminho particular ladeado por  candeeiros de iluminao pblica e, em frente
da casa,  estendia-se um vasto relvado com uma fila de freixos. Visto de fora, parecia um encanto. Jennifer anotou o nome do agente de vendas e marcou um encontro
para visitar a casa na tarde seguinte.   O agente da imobiliria era um sujeito cordial e impulsivo, do gnero de vendedores que Jennifer detestava. Mas ela no
ia comprar-lhe a personalidade, ia comprar uma casa.
 -  uma verdadeira beleza - dizia ele. - Sim senhor, uma verdadeira beleza. Tem perto de cem anos de idade.
Est em excelentes condies. Absolutamente excelentes.  Excelentes era por certo um exagero. Os compartimentos eram arejados e espaosos, mas necessitavam de obras.
 Jennifer pensou: Vai ser divertido reparar esta casa e decor-la."  No primeiro andar, em frente do quarto principal, havia uma sala que podia ser transformada
num quarto de crianas. Ia pint-la de azul e...
 - Quer dar uma volta pelo terreno?
 Foi a casa da rvore que levou Jennifer a decidir-se. Estava construda numa plataforma, no cimo de robusto carvalho. A cabana do seu filho. Eram trs acres e
o relvado das  traseiras descia suavemente at  ria, onde havia um ancoradouro. Seria  um lugar maravilhoso para o filho crescer, com muito espao  para as suas
brincadeiras. Mais tarde, havia de lhe comprar  um barquinho. Haveria aqui toda a intimidade de que necessitavam, pois Jennifer tinha decidido que este seria um
mundo pertencente apenas a ela e ao filho.  Comprou a casa no dia seguinte.  Jennifer no tinha imaginado que ia ser to doloroso  abandonar o apartamento de Manhattan
que um dia partilhara  com Adam. Ainda l se encontravam o roupo de banho e os pijamas  dele, os chinelos e o estojo de barba. Todos os  compartimentos lhe despertavam
recordaes de Adam,  recordaes de um belo passado que morrera. Jennifer emalou as suas  coisas o mais depressa possvel e saiu.  Na casa nova, Jennifer mantinha-se
ocupada desde manh cedo at altas horas da noite, para no ter tempo de pensar  em Adam. Foi s lojas de Sands Point e de Port Washington  encomendar moblias
e cortinados. Comprou lenis Porthaul, talheres e louas. Contratou trabalhadores locais para  repararem as canalizaes defeituosas, o telhado esburacado e  a
instalao elctrica j gasta. Desde manh cedo at ao  entardecer, a casa estava cheia de pintores, carpinteiros, electricistas e colocadores de papel de parede.
Jennifer andava por todo o lado, fiscalizando tudo. Esgotava-se durante o dia, na  esperana de conseguir dormir de noite, mas os demnios  tinham regressado, torturando-a
com pesadelos horrveis.  Foi aos antiqurios e comprou candeeiros, mesas e objectos d'art. Comprou uma fonte e esttuas para o jardim, um  Lipschitz, um Noguchi
e um Mir.  No interior da casa, tudo comeava a ter um aspecto  maravilhoso. Bob Clement, um eliente que Jennifer tinha na Califrnia, idealizou para a sala de
estar e para o quarto das crianas zonas distintas de tapetes, que derafn a ess?s compartimentos um ambiente muito suave.  O ventre de Jennifer estava cada vez
mais dilatado e ela foi  aldeia comprar roupas de grvida. Mandou instalar um  telefone cujo nmero no vinha na lista. Era s para  emergncias, e no deu o nmero
a ningum, pois no esperava  telefonemas. A nica pessoa do escritrio que sabia onde ela morava era Ken Bailey, a quem Jennifer obrigara a guardar segredo.  Uma
tarde Ken foi visitar Jennifer e ela mostrou-lhe a casa e o terreno, e sentiu uma alegria enorme com o entusiasmo dele.
 -  maravilhoso, Jennifer. Realmente maravilhoso. Voc fez um bom negcio. - Olhou-lhe para o ventre inchado. -  Quanto tempo falta?
 - Mais dois meses. - F-lo encostar-lhe a mo  barriga.
- Sinta isto.
 Ele sentiu um pontap.
 - Cada dia que passa est mais forte - declarou Jennifer com orgulho.
 Fez o jantar para Ken. Ele esperou pela sobremesa para tocar no assunto.
 - No quero intrometer-me - comeou ele -, mas o orgulhoso pap, seja ele quem for, no devia fazer algo...?
 - Assunto encerrado.
 - Okay. Desculpe. Voc faz uma falta enorme no escritrio.
Temos um cliente novo que...
 Jennifer ergueu a mo.
 - No quero ouvir falar nisso.
 Conversaram at chegar a hora de Ken partir, e Jennifer detestou v=lo ir embora. Era um homem encantador e um bom amigo.  Jennifer afastou-se do mundo de todas
as maneiras possveis.  Deixou de ler os jornais, e no via televiso nem ouvia rdio. O seu universo limitava-se a estas quatro paredes.  Isto era o seu ninho,
o seu refgio, o stio onde ia trazer o  filho ao mundo.  Lia todos os livros que conseguia apanhar sobre educao infantil, desde o Dr. Spock at Ames e Gesell,
e d?pois  voltava ao princpio.  Quando Jennifer acabou de decorar o quarto do filho, encheu-o de brinquedos. Foi a uma loja de artigos desportivos e andou a ver
bolas de futebol, ps de basebol e uma luva de defesa. E riu de si mesma. Isto  ridculo. Ele ainda nem sequer nasceu. ?, E comprou a p de basebol e a luva de
 defesa. A bola de futebol tentava-a, mas pensou: Isso fica  para  mais tarde. "  Chegou Maio, e depois Junho.  Os operrios terminaram as obras e a casa ficou
silenciosa e calma. Duas vezes por semana, Jennifer ia  aldeia fazer compras ao supermercado e, de duas em duas semanas, ia consultar o Dr. Harvey, o seu obstetra.
Muito obediente,  Jennifer bebia mais leite do que Queria, tomava vitaminas e  comia todos os alimentos convenientes e saudveis. Estava  agora a ficar mais larga
e desajeitada, e era-lhe cada vez  mais difcil movimentar-se.  Tinha sido sempre activa, e pensara que iria aborrecer-se pelo facto de ficar mais pesada e sem
graa, por ter de se mexer mais devagar; mas, de certa maneira, no se importava com isso. J no havia motivo para se apressar. Os dias  tornarem-se compridos,
irreais e tranquilos. Dentro dela, um  relgio diurno tinha-lhe moderado o ritmo de vida. Era como  se estivesse a reservar as suas energias, transmitindo-as ao
outro ser que vivia dentro dela.  Uma manh depois de a observar, o Dr. Harvey declarou:
- Mais duas semanas, Mrs. Parker.
 Estava agora muito prximo. Jennifer tinha imaginado que talvez pudesse sentir medo. Ou:r3 falar muitas vezes da dor dos acidentes, dos bebs disformes, mas no
sentia receio,
apenas uma nsia de ver o seu filho, uma impacincia pelo seu nascimento para poder apert-lo nos braos.  Agora, Ken Bailey vinha a casa dela quase todos os dias,
e trazia consigo o Comboiozinho Esperto, A Pequetta Galinha Vermelha, Pat, o Coelhinho, e uma dzia de livros do Dr. Seus.
 - Ele vai ador-los - declarou Ken.
 E Jennifer sorriu, porque Ken dissera ele,?. Um bom  augrio.
 Passearam pelo terreno, fizeram um piquenique  beira da gua, e ficaram sentados ao sol. Jennifer tinha conscincia dos olhares dele. Pensou: Porque h-de ele
perder o tempo com esta horrvel mulher gorda,  E Ken contemplava Jennifer, pensando:  a mulher mais bela que vi em toda a minha vida."  As dores comearam s
trs horas da madrugada. Eram to penetrantes que Jennifer mal conseguia respirar. Repetiram-se alguns momentos depois e Jennifer pensou, exultante: Est a acontecer
! ?,  Comeou a contar o intervalo entre as dores, e quando j s Chamava-se Joshua Adam Parker, pesava quatro quilos e havia dez minutos, telefonou ao obstetra.
Jennifer meteu-se duzentos e era um beb perfeito. Jennifer sabia que os  recmno carro e dirigiu-se ao hospital, estacionando  beira  da esnascidos costumavam
ser feios, engelhados e vermelhos,  patrada sempre que sentia uma contraco. Um assistente  esperecidos com mas pequenas. Mas Joshua Adam no. Era  linrava-a
 entrada e, poucos minutos depois, o Dr. Harvey  esdo. As enfermeiras do hospital no se cansavam de dizer a tava a observ-la. Jennifer que Joshua era um formoso
rapaz,  e Jennifer no se  Quando terminou, disse-lhe, em tom tranquilizador: cansava de as ouvir. A semelhana com Adam era impressio - Creio que  vai ser um parto
fcil Mrs. Parker. Fique nante. Joshua Adam possua os olhos azul-acinzentados do calma e deixemos a natureza agir por si. pai e tinha uma cabea muito bem modelada.
Quando Jenni No foi fcil, mas  tambm no foi insuportvel. Jennifer olhava para ele, era como se estivesse a olhar para Adam. conseguiu aguentar a dor porque,
atravs dela, estava a  aconEra uma sensao estranha, um misto acre de alegria e de tecer algo maravilhoso. Esteve em trabalho de parto durante tristeza. Como
Adam teria gostado de ver o seu encantador quase oito horas e, ao fim desse tempo, quando o seu corpo j filho! estava destroado e contorcido pelos espasmos, e
ela pensava que aquilo nunca mais ia acabar, sentiu um alvio sbito se  Quando Joshua tinha dois dias de idade sorriu a Jennifer guido de um vazio impetuoso e,
por fim, foi invadida por que, cheia de excitao, tocou a campainha para chamar a uma enorme sensao de paz. enfermeira.  Ouviu um leve vagido e o Dr. Harvey
mostrou-lhe o beb,  Veja! Ele est a sorrir! dizendo: - So gases, Mrs. Parker.
 - Quer ver o seu filho, Mrs. Parker? - Com os outros bebs podero ser gases - replicou Jen O sorriso de Jennifer  iluminou o quarto. nifer com um ar obstinado.
- O meu filho est a sorrir.  Jennifer tinha pensado no que iria sentir pela criana, e  perguntara a si prpria se iria ser uma boa me. Os bebs  davam muito
trabalho. Molhavam as fraldas, tinham de ser  constantemente alimentados, choravam e dormiam. Era  impossvel comunicar com eles.  No vou sentir nada at ele ter
quatro ou cinco anos.?,  tinha pensado Jennifer. Como se enganara! Assim que Joshua  nasceu, Jennifer amou o filho com um amor que nunca  imaginara existir nela.
Era um amor ardente e protector.  Joshua  era to pequeno, e o mundo to grande!  Quando Jennifer saiu do hospital e levou Joshua para casa,  deram-lhe uma extensa
lista de instrues que s serviram para a aterrorizar. Durante as duas primeiras semanas, ficou  l em casa uma enfermeira experiente. Depois, Jennifer ficou
entregue a si mesma, e sentia um enorme receio de fazer algo  errado que pudesse matar o beb. Tinha medo que ele deixas  se de respirar de um momento para o outro.
. Da primeira vez que Jennifer preparou o bibero de Joshua,  verificou que se tinha esquecido de esterilizar a tetina. Despejou o contedo no lavatrio e voltou
ao princpio.  Quando  terminou, lembrou-se de que se esquecera de esterilizar o bibero. Recomeou. Quando a refeio de Joshua ficou final  mente pronta, j ele
gritava de raiva.
 Por vezes, Jennifer pensava que no podia aguentar mais.  Quando menos esperava, sentia-se invadir por um desnimo  inexplicvel. Procurava convencer-se a si prpria
de que   aquelas crises de tristeza eram normais depois do parto, mas  nem por isso se sentia melhor. Andava sempre exausta. Tinha  a impresso de que passava as
noites levantada, a dar de  comer a Joshua e, quando por fim conseguia passar pelo  sono, os gritos do filho acordavam-na e Jennifer  precipitava-se de novo para
o quarto dele. Telefonava constantemente ao mdico, a qualquer hora do dia ou da noite.
 - Joshua est com a respirao muito ofegante. . . Est a respirar demasiado devagar. . . Joshua est a tossir. . . No jantou. . . Joshua vomitou.
 Por descargo de conscincia, o mdico acabava por ir a casa de Jennifer e fazia-Lhe uma preleco.
 - Mrs. Parker, nunca vi uma criana mais saudvel que o seu filho. Poder ter um aspecto frgil, mas  forte como um touro. Deixe de se preocupar e seja feliz
com ele. Lembre-se apenas disto - ele ainda c fica depois de ns morrermos!  Jennifer comeou ento a descontrair-se. Tinha decorado o quarto de Joshua com cortinas
de chita e com uma colcha salpicada de flores brancas e borboletas amarelas. Havia no quarto um bero, um parque, um conjunto formado por uma cmoda, uma mesa e
uma cadeira minsculas, um cavalo de baloio e uma arca cheia de brinquedos.  Jennifer adorava pegar em Joshua ao colo, dar-lhe banho e mudar-lhe as fraldas, lev-lo
a passear no seu reluzente carrinho novo. Estava sempre a conversar com ele e, quando  Joshua tinha quatro semanas, premiou-a com um sorriso. No    pensou Jennifer.
E um sorriso!.?  Quando Ken Bailey viu o beb pela primeira vez, contemplou-o  longamente. Com uma sbita sensao de terror, Jennifer  pensou: Vai reconhec-lo.
Vai descobrir que  filho de Adam.   No entanto, Ken limitou-se a dizer:
 -  uma verdadeira beleza. Sai  me.
 Deixou que Ken pegasse em Joshua e riu da falta de jeito que ele demonstrava. Mas no conseguia deixar de pensar: "Joshua nunca ter um pai que lhe pegue ao colo."
 Passaram seis semanas e chegou o momento de recomear a trabalhar. Jennifer detestava a ideia de se separar do filho, ainda que por algumas horas dirias mas,
quando pensava no regresso ao escritrio, sentia uma enorme excitao. Tinha-se divorciado de tudo durante muito tempo. Era altura de  reentrar no mundo profissional.
 Contemplou-se ao espelho e decidiu que a primeira coisa a fazer era recuperar a sua antiga forma. Pouco depois do  nascimento de Joshua, tinha comeado a fazer
dieta e  ginstica, mas agora lanara-se a isso com uma maior persistncia e em breve readquiriu a sua anterior figura.  Jennifer comeou a entrevistar governantas.
Examinava-as como se cada uma delas fosse um jurado: estudava-as,  procurando pontos fracos, mentiras, incompetncia.  Entrevistou mais de vinte potenciais candidatas
antes de encontrar uma que Lhe agradou e em quem depositou confiana, uma escocesa  de meia-idade chamada Mrs. Mackey, que trabalhara durante  quinze anos para
a mesma famlia e se viera embora quando as crianas cresceram e foram para a escola.  Jennifer pediu a Ken que procedesse a uma investigao e quando Ken lhe assegurou
que Mrs. Mackey era competente, Jennifer contratou-a.  Jennifer regressou ao escritrio na semana seguinte. O desaparecimento sbito de Jennifer Parker tinha originado

uma onda de boatos pelos escritrios jurdicos de Manhattan.  Quando constou que Jennifer estava de volta, o interesse foi enorme. A recepo feita a Jennifer na
manh do seu  regresso parecia no ter fim, dado que diversos advogados de outras firmas passaram por l para lhe darem as boas-vindas.  Cynthia, Dan e Ted tinham
decorado a sala com serpentinas e  pendurado um enorme dstico com as palavras Feliz Regresso. Havia champanhe e bolo.
 - s nove horas da manh? - protestou Jennifer.  Mas eles insistiram.
 - Na sua ausncia isto parecia um manicmio - declarou-lhe  Dan Martin. - No tenciona fazer isto outra vez pois no
 - No. No tenciono fazer isto outra vez - respondeu Jennifer, olhando-o.
 Os visitantes inesperados continuavam a aparecer, para se assegurarem de que Jennifer se encontrava bem e para lhe desejarem felicidades.  Quando lhe perguntavam
onde tinha estado respondia, com um sorriso:
 - No estamos autorizados a dizer.
 Teve reunies durante todo o dia com os membros da sua equipa. Havia centenas de mensagens telefnicas acumuladas.  Quando Ken Bailey ficou sozinho no gabinete
de  Jennifer, perguntou-lhe:
 - Sabe quem  que nos tem dado cabo do juzo para tentar entrar em contacto consigo?
 O corao de Jennifer deu um salto.
 - Quem?
 - Michael Moretti.
 - Ah !
 -  um tipo estranho. Quando nos recusmos a dizer-lhe onde  que voc estava, fez-nos jurar que se encontrava bem.
 - Esquea Michael Moretti.
 Jennifer examinou minuciosamente todos os casos que estavam  a ser tratados pelo escritrio. O negcio estava excelente.  Tinham adquirido uma quantidade de novos
clientes importantes. Alguns dos clientes mais antigos tinham-se  recusado a falar com algum que no fosse Jennifer, e estavam   espera que ela regressasse.
 - Telefono-lhes assim que puder - prometeu Jennifer.
 Examinou o resto das mensagens telefnicas. Havia uma dzia de chamadas de Mr. Adams. Talvez devesse ter dito a Adam que se encontrava bem, que nada lhe acontecera.
Mas sabia que no poderia suportar ouvir-lhe a voz, saber que ele estava perto e no poder v-lo, toc-lo, abra-lo. Falar-lhe de Joshua.  Cynthia tinha recortado
alguns artigos recentes que calculou  interessarem a Jennifer. Um deles era sobre Michael Moret e  chamavam-lhe o mais importante chefe da Mafia de todo o pas.
Havia uma fotografia dele e, por baixo, a  legenda: Sou apenas um agente de seguros."  Jennifer levou trs meses a pr em dia o trabalho que tinha em atraso. Poderia
t-lo feito mais depressa, mas teimava em sair sempre do escritrio s quatro horas, por muito que  tivesse para fazer. Joshua esperava-a.  De manh, antes de ir
para o escritrio, Jennifer preparava o pequeno-almoo de Joshua pelas suas prprias mos e  brincava com ele at  hora de sair.   tarde, quando chegava a casa,
Jennifer dedicava a Joshua todo o seu tempo. Procurava deixar no escritrio os problemas  profissionais, e recusava todos os casos que pudessem afast-la do filho.
Deixou de trabalhar ao fim-de-semana. No permitia que nada se imiscusse no seu mundo privado.  Adorava ler para Joshua em voz alta.
 -Ele  uma criana, Mrs. Parker - protestava Mrs. Mackey. - No entende uma nica palavra do que a senhora est a dizer.
 - Joshua entende - replicava Jennifer, muito convencida.  E continuava a ler.
Joshua era uma surpresa constante. Aos trs meses comeou a  palrar e a tentar conversar com Jennifer. Entretinha-se no seu parque com uma enorme bola que tilintava
e com um coelho que Ken Lhe tinha comprado. Aos seis meses j tentava  sair do parque, impaciente por explorar o mundo. Jennifer pegava-lhe ao colo e ele agarrava-lhe
os dedos com as suas mozinhas e tinham ambos conversas longas e srias.  No escritrio, os dias de Jennifer eram muito preenchidos. Certa manh recebeu um telefonema
de Philip Redding,  presidente de uma grande companhia petrolfera.
 - Ser que poderemos encontrar-nos? - perguntou ele.
- Tenho um problema.
 Jennifer no precisou de lhe perguntar do que se tratava. A companhia dele tinha sido acusada de pagar subornos para poder negociar no Mdio Oriente. A causa traria
honorrios muito elevados, mas Jennifer no dispunha de tempo.
 - Tenho muita pena - respondeu ela. - No estou disponvel,  mas posso recomendar algum muito competente.
 - Disseram-me que no aceitasse uma recusa - replicou Philip Reddi ng.
 - Quem?
 - Um amigo meu. O Juiz Lawrence Waldman.
 Jennifer escutou o nome com incredulidade.
 - O Juiz Waldman aconselhou-o a que me telefonasse?
 - Disse-me que a senhora  a melhor, mas isso j eu sabia.
 Jennifer continuava a segurar o auscultador, pensando nas suas experincias anteriores com o Juiz Waldman, na certeza que tivera de que ele a odiava e que estava
a fazer os  possveis para a destruir.
 - De acordo. Podemos tomar o pequeno-almoo juntos, amanh de manh - sugeriu Jennifer.  Quando desligou, fez um telefonema para o Juiz Waldman.  A voz familiar
ouviu-se atravs do fio.
 - H muito tempo que no falo consigo, minha jovem.
 - Queria agradecer-lhe o ter dito a Philip Redding que metelefonasse.
 - Quis ter a certeza de que ele se encontrava em boas mos.
- Muito obrigada, Vossa Honra.
- Gostaria de jantar um dia destes com um velho?
 Jennifer ficou surpreendida.
 - Terei muito prazer em jantar consigo.
 - ptimo. Vou lev-la ao meu clube. H l uma quantidade de  botas-de-elstico que no esto habituados a ver jovens  bonitas. Isso vai sacudi-los um pouco.
 O Juiz Lawrence Waldman pertencia  Century Association, na  Avenida Quarenta e Trs, mas quando ele e Jennifer se encontraram para jantar, esta verificou que
ele estivera a brincar quando falara em botas-de-elstico. A sala de jantar encontrava-se repleta de escritores, artistas, advogados e  actores.
 -  costume no se fazerem aqui apresentaes - explicou-Lhe  o Juiz Waldman. - Parte-se do princpio que as pessoas so  logo reconhecidas.
 Sentados em diversas mesas, Jennifer identificou entre  outros, Louis Auchincloss, George Plimpton e John Lindsay.  Em sociedade, Lawrence Waldman era completamente
diferente  do que Jennifer tinha imaginado. Enquanto tomavam os aperitivos, declarou a Jennifer:
 - Um dia quis v-la excluda da Ordem dos Advogados porque pensava que voc tinha desonrado a nossa profisso.
Estou convencido de que me enganei. Tenho andado a observ-la. Creio que voc  um crdito para a profisso.  Jennifer sentiu-se muito satisfeita. Tinha conhecido
juzes mercenrios, estpidos e incompetentes. Respeitava Lawrence  Waldman. Era um jurista brilhante e um homem ntegro.
 - Obrigada, Vossa Honra.
 - Fora do estrado, porque no nos tratamos por Lawrence c por Jennie?
 O pai dela tinha sido a nica pessoa que Lhe chamava Jennie.
 - Teria muito prazer, Lawrence.
 A comida era excelente e aquele jantar marcou o incio de um ritual mensal que ambos apreciavam extraordinariamente. Estava-se no Vero de 1974. Por incrvel que
parecesse, tinha decorrido um ano desde que Joshua Adam Parker nascera.  J tinha dado os seus primeiros passos vacilantes e  compreendia as palavras nariz", boca?,
e cabea".
 -  um gnio - confessou Jennifer a Mrs. Mackey.
 Jennifer preparou a festa do primeiro aniversrio de Johsua como se fosse dada na Casa Branca. No sbado, foi comprar presentes para Joshua. Comprou-Lhe roupas,
livros e  brinquedos, e um triciclo em que ele no ia ser capaz de  andar seno dali a um ou dois anos. Comprou lembranas para os filhos dos vizinhos que tinha
convidado para a festa, e passou a tarde a pendurar serpentinas e bales. Ela prpria fez o bolo de aniversrio e deixou-o na mesa da cozinha. Sem se saber como,
Joshua descobriu o bolo, enterrou-lhe as mos e meteu-o  na boca, arruinando-o antes de os convidados chegarem.  Jennifer tinha convidado uma dzia de crianas
da vizinhana  com as respectivas mes. O nico convidado adulto masculino era Ken Bailey. Trouxe a Joshua um triciclo igual quele que Jennifer comprara.
 -  ridculo, Ken - declarou Jennifer, rindo. - Joshua ainda no tem idade para isso.
 A festa s durou duas horas, mas foi magnfica. As crianas  comeram de mais e vomitaram na carpete, zangaram-se por causa dos brinquedos e choraram quando os
bales  rebentaram, mas Jennifer achou que, de qualquer forma, a  festa tinha sido um xito. Joshua fora um perfeito anfitrio,  portando-se, sem contar com alguns
incidentes sem  importncia, com dignidade e aprumo.  Nessa noite, quando todos os convidados se tinham retirado e depois de ter deitado Joshua, Jennifer ficou
sentada ao  lado da cama, contemplando o filho adormecido, maravilhada com esta admirvel criatura gerada por ela e por Adam. Adam teria  ficado muito orgulhoso
se tivesse podido ver o modo como Joshua se portara. Talvez fosse estranho, mas a alegria ficava diminuda por ser apenas ela a senti-la.  Jennifer pensou em todos
os aniversrios futuros. Joshua teria dois anos, cinco dez, vinte. Tornar-se-ia adulto e deix-la-ia. Construiria a sua prpria vida.  Pra com isso!, censurou-se
Jennifer. Ests com pena de ti mesma. Nessa noite ficou deitada na cama, sem poder adormecer, recordando todo os pormenores da festa, recordando  tudo.  Talvez
um dia pudesse contar tudo a Adam. Nos meses que se seguiram, o Senador Adam Warner comeou a  tornar-se uma personagem muito conhecida. O seu passado, a sua competncia
e as suas qualidades fizeram dele desde o incio, uma presena no Senado. Foi nomeado para diversas comisses importantes e elaborou uma lei do trabalho que foi
rpida e facilmente aprovada. Adam Warner tinha amigos influentes no Congresso. Muitos deles tinham conhecido  e respeitado o pai de Adam. A opinio geral, era
que Adam viria a ser um dia candidato  presidncia. Jennifer sentia um orgulho ao mesmo tempo amargo e doce.  Jennifer recebia convites frequentes de clientes,
associados e amigos para jantar, para ir ao teatro e para assistir a vrias festas de caridade, mas recusava a maior parte deles. De vez em quando, gostava de passar
um sero com Ken. Apreciava muito a companhia dele. Era divertido e mordaz mas Jennifer sabia que, para l daquela aparncia frvola, havia um homem sensvel e
torturado. Em certos fins-de-semana almoava ou jantava l em casa, e passava horas a brincar com Joshua. Adoravam-se um ao outro.  Numa ocasio em que Joshua j
estava na cama e Jennifer jantava com Ken na cozinha, Ken olhou Jennifer com tal  insistncia, que ela perguntou:
 - Passa-se alguma coisa?
 - Passa, sim - suspirou Ken. - Desculpe. Que puta de vida esta !
 E no acrescentou mais nada.  Havia j quase nove meses que Adam no tentava entrar em contacto com Jennifer, mas ela lia com avidez todos os artigos de jornal
e de revista que se lhe referiam, e via-o sempre que aparecia na televiso. Pensava nele  constantemente. Como poderia ela no o fazer? O filho era uma lembrana
viva da presena de Adam. Joshua estava agora com dois anos e parecia-se extraordinariamente com o pai. Possua os mesmos graves olhos azuis e gestos idnticos.
Joshua era uma crianas minscula e encantadora, era arrebatado e meigo e fazia perguntas curiosas.  com grande surpresa de Jennifer, as primeiras palavras de
?a tinham sido p-p,?, num dia que ela o tinha levado a
passear de carro.  a?gora j pronunciava frases completas e dizia: por  favor,? 6 obrigado". Certo dia em que Jennifer estava a tentar dar?e  de comer na sua cadeirinha,
ele disse-lhe, impaciente:
 - Mam, vai brincar com os teus brinquedos.
 Ken tinha comprado a Joshua um estojo de pintura, e Joshna  comeou a pintar com af as paredes da sala de estar.  Quando Mrs. Mackey quis dar-lhe uma palmada,
Jennifer interveio:
 - No faa isso. Desaparece com o tempo. Joshua est a exprimir-se.
 - Er? o que eu tambm queria fazer - resmungou Mrs. M?uekey. - Exprimir-me. A senhora ainda acaba por estragar este mauzo.
 Mas Joshua no era uma criana mimada. Era travesso e exigente, mas isso era normal numa criana de dois anos. Tinha medo do aspirador, de animais selvagens, de
comboios e da escurido.  Joshua era um atleta inato. Um dia, ao v-lo jogar com alguns amigos, Jennifer voltou-se para Mrs. Mackey e comentou :
 - Embora eu seja me de Joshua, consigo v-lo  objectivamente, Mrs. Mackey. Desconfio que ele  o Segundo  Advento.
 Jennifer a?optara  sistema de evitar todos os casos que g?essem afast-la da cidade e de Joshua mas, certa manh, recebeu um telefonema urgente de Peter Fenton,
um cliente que possua uma grande empresa fabril.
 - Vou comprar uma fbrica em Las Vegas e gostava que fosse l para se encontrar com os advogados da parte vendedora.
 - Preferia mandar Dan Martin - replicou Jennifer.?gbe que  no gosto de sair da cidade, Peter.
 - Jennifer, voc vai conseguir resolver tudo em vinte e quatro horas. Levo-a no avio da empresa e estar de volta no dia seguinte.
- Est bem - acedeu Jennifer aps alguma hesitao.

 J tinha estado em Las Vegas e a cidade no lhe dizia nada.  Era impossvel detestar-se ou gostar-se de Las Vegas. Tinha  de considerar-se como um fenmeno, uma
civilizao estranha  com a sua linguagem, leis e moral prprias. No se pare cia  com nenhuma outra cidade do mundo. Gigantescas luzes ? de non brilhavam durante
toda a noite proclamando as  glrias dos palcios magnificentes que tinham sido  construdos  para esvaziar as bolsas dos turistas que ali afluam como lemos, e
concebidos para lhes extorquirem as economias  cuidadosamente amealhadas.  Jennifer entregou a Mrs. Mackey uma longa e pormenorizada
lista de instrues sobre a maneira de tratar de Joshua.
 - Quanto tempo vai estar ausente, Mrs. Parker?
 - Regresso amanh.
 - Mes !
 O jacto Lear de Peter Fenton recebeu Jennifer no dia seguinte, logo de manh cedo, e transportou-a para Las Vegas.  Jennifer passou a tarde e a noite a organizar
os pormenores do  contrato. Quando terminaram, Peter Fenton convidou Jennifer  para jantar.
 - Agradeo-lhe, Peter, mas creio que vou ficar no quarto  e deitar-me cedo. Volto de manh para Nova Iorque.  Durante aquele dia, Jennifer falara trs vezes com
Mrs.  Mackey, que Lhe assegurara sempre que o pequeno Joshua se  encontrava bem. Tinha tomado as suas refeies, no tinha  febre e parecia satisfeito.
 - Ele est com saudades minhas? - inteirou-se Jennifer.
 - No mo disse - suspirou Mrs. Mackey.
 Jennifer sabia que Mrs. Mackey a achava louca, mas isso  pouco lhe importava.
 - Diga-lhe que vou para casa amanh.
 - Eu dou-lhe o recado, Mrs. Parker.
 Jennifer planeara jantar calmamente na sua suite mas, por  qualquer motivo que no compreendia, os compartimentos  tornaram-se subitamente opressivos, as paredes
pareciam  fechar-se  sua volta. No conseguia deixar de pensar em Adam.  Como pode ele ter feito amor com Mary Beth e engravid-la  quando. . . ?,  O jogo que
Jennifer jogava sempre, que o seu Adam andava  apenas em viagem de negcios e que em breve regressaria a ela, no resultou desta vez. Do pensamento de Jennifer
n?o saa a imagem de Mary Beth, envolta num robe de renda, ? Adam. . .  precisava de sair, de estar num stio onde houvesse uma multido barulhenta. Eu podia muito
bem ir ver um  espectculo, pensou Jennifer. Tomou um duche rpido,  vestiu-se e desceu.  Marty Allen apresentava-se na sala de espectculos  principal. Havia uma
grande bicha  entrada da sala, para a  ltima
sesso, e Jennifer lamentou no ter pedido a Peter Fenton que Ibe reservasse um lugar.  Dirigiu-se ao chefe, que estava ao princpio da bicha, e perguntou :
 - Quanto tempo terei de esperar por uma mesa?
 - De quantas pessoas  o seu grupo?
 - Estou sozinha.
 - Tenho muita pena, menina, mas receio. . .
 - A minha mesa, Abe - pediu uma voz a seu lado.
 O chefe sorriu.
 - Com certeza, Mr. Moretti. Por aqui, faa favor.
 Jennifer voltou-se e ficou perante os profundos olhos negros  de Michael Moretti.
 - No, obrigada - respondeu Jennifer. - Acho que...
 - Precisa de comer - Michael Moretti deu o brao a Jennifer  e ela viu-se a caminhar ao lado dele, seguindo o chefe para uma mesa reservada no meio do salo. Jennifer
abominava  a ideia de jantar com Michael Moretti, mas no sabia como se livrar disso agora, sem provocar uma cena. Lamentava  profundamente no ter aceite o convite
de Peter Fenton para jantar.
 Sentaram-se numa mesa voltada para o palco e o chefe disse:
 - Desejo-lhes um bom jantar, Mr. Moretti, menina.
 Jennifer sentia os olhos de Michael Moretti pousados nela, e isso perturbava-a. Ele no falava. Michael Moretti era um homem muito calado, um homem que desconfiava
das palavras,  como se elas fossem uma armadilha e no uma forma de comunicao. Michael Moretti servia-se do silncio do mesmo  modo que os outros homens se serviam
da linguagem.  Quando por fim, falou, Jennifer foi apanhada desprevenida.
 - Detesto ces - declarou Michael Moretti. - Morrem.
E foi como se estivesse a revelar uma parte secreta dele, vinda de uma nascente profunda. Jennifer ficou sem saber e que responder.
 Trouxeram-Lhes as bebidas e ficaram a tom-las em silncio,  e Jennifer escutava a conversa que no estavam a ter.  Pensou naquilo que ele dissera: "Detesto ces.
FV?rrenZ,H Perguntava a si mesma o que teria sido o passado de Michael Moretti. Deu consigo a observ-lo. Era perigoso e   excitantemente atraente. Existia nele
uma violncia  encoberta, mas sempre pronta a explodir.  Jennifer no compreendia porqu, mas a verdade  que, junto deste homem, sentia-se mulher. Talvez fosse
o modo com que os seus olhos negros como bano a olhavam, voltando-se em seguida, como se tivessem receio de xevelar demasiado. Jennifer descobriu que h muito
tempo no pensava  em si como mulher. Desde o dia em q?e perdera tam. Jennifer pensou: S um homem consegue fazer com que uma mulher se sinta feminina, bela, desejada.?,
 Jennifer sentia-se grata por ele no poder ler-lhe o  pensamento.  Diversas pessoas se aproximaram da mesa para cumprimentarem  Michael Moretti: homens de negcios,
aetores, unt juiz, um senador dos Estados Unidos. Era o poder a pagar tributo ao poder, e Jennifer comeou a aperceber-se da enorme  influncia de que ele gozava.
 - Vou escolher o nosso jantar - anunciou Michael Moretti. -  Esta ementa  preparada para oitocentas pessoas. ?como comer-se a bordo de um avio.  Fez um sinal
com a mo e o chefe apareceu imediatamente ao lado dele.
 - Sim, Mr. Moretti. O que deseja esta noite, sir?
 - Queremos um Chateaubriand, mas mal passado.
 - Com certeza, Mr. Moretti.
 - Pommes soujles e uma salada de endvia.
 - Certamente, Mr. Moretti.
 - Depois escolho a sobremesa.
 Foi posta na mesa uma garrafa de champanhe, com os cumprimentos da gerncia.  Jennifer comeou a sentir-se descontrada, a divertir-se quase contra a sua vontade.
Havia muito tempo que no passava  um sero com um homem atraente. Quando esta idia lhe atravessou o esprito, Jennifer pensou: Como posso eu b?r Michael Moretti
atraente?  um assassino, um indivdo sem  moral nem sentimentos. ,? Jennifer tinha conhecido e defendido dzias de homens tores de crimes terrveis, mas tinha
a sensao de que ne,n?n  tieles era to perigoso como este. Ascendera  mais alta ?io do Sindicato e no a tinha conseguido apenas atravs ? casamento com a
Filha de Antonio Granelli. - Telefonei-lhe uma ou duas vezes enquanto esteve fora ? disse Michael. Segundo Ken Bailey, tinha telefonado  quatddos os dias. - Onde
esteve? - Fez com que a pergunta recesse natural.
 - Fora.
 Seguiu-se um longo silncio.
 - Lembra-se da proposta que lhe fiz?
, Jennifer bebeu um pouco de champanhe.
 - No recomece, por favor.
 - Voc pode ter o que. . . .
 - J lhe disse que no estou interessada. No existe ne tna  proposta que no possa ser recusada. Isso s acontece nos livros, Mr. Moretti. Estou a recusar.  4ic?ael
Moretti pensou na cena que se tinha desenrolado ?m casa do sogro h algumas semanas atrs. Tinha havido >?a reunio da Famlia e tudo correra bem. Thomas Colfax
argumentara contra tudo o que Michael tinha proposto.  Depois de Colfax ter sado, Michael comentou para o so - Eolfax est a envelhecer. Creio que  altura de
nos livrarmos  dele, Pap.
. - Tommy  um bom tipo. Livrou-nos de muitas complica?es ao  longo destes anos.
 - Isso pertence ao passado. Est a perder faculdades.
- - E quem poramos no lugar dele?
 - Jennifer Parker.
 Antonio Granelli abanara a cabea. - J te disse, Michael. No  conveniente metermos uma mulher nos nossos assuntos. -  Ela no  apenas uma mulher.  a melhor
advogada que e estg.
 - Veremos - respondeu Antonio Granelli. - Veremos.
 Michael Moretti era um homem habituado a alcanar tudo o qne desejava, e quanto mais Jennifer lhe resistia, mais ele ficava resolvido a venc-la. Agora, sentado
junto dela,  Michael olhava para Jennifer, pensando: Um dia hs-de  pertencer-me, amor. . . completamente. "
 - Em que pensa?
 Michael Moretti esboou um sorriso lento e tranquilo, e ela arrependeu-se imediatamente de ter feito aquela pergunta. Era altura de se ir embora.
 - Obrigada por este magnfico jantar, Mr. Moretti. Tenho de me levantar cedo, por isso...
 As luzes comearam a extinguir-se e a orquestra atacou uma abertura.
 - No pode ir agora. O espectculo est a comear. Vai adorar Marty Allen.
 Era o gnero de espectculo que apenas Las Vegas podia dar-se ao luxo de apresentar, e Jennifer apreciou-o  extraordinariamente. Prometeu a si mesma que iria embora
logo  a seguir ao espectculo mas, quando ele terminou e Michael Moretti convidou Jennifer para danar, esta achou que seria indelicado recusar. Alm disso, era
forada a admitir que  estava a divertir-se. Michael Moretti era um hbil danarino,  e Jennifer comeou a descontrair-se entre os braos dele. A certa altura,
quando um outro par colidiu com eles, Michael foi empurrado para Jennifer e, por um breve instante, ela  sentiu-se apertada de encontro ao corpo msculo, mas ele
 afastou-se imediatamente, tendo o cuidado de a manter a uma ligeira distncia.  Depois foram ao casino, um vasto mar de luzes cintilantes e de rudo, apinhado
de jogadores absortos em diversos jogos de azar, e que jogavam como se as suas vidas dependessem da vitria. Michael conduziu Jennifer para uma das mesas de dados
e entregou-lhe uma mo-cheia de fichas.
 -  para dar sorte - explicou ele.
 O banqueiro e os jogadores tratavam Michael com deferncia  chamavam-lhe Mr. M e entregavam-lhe enormes pilhas de fichas de cem dlares, aceitando-lhe promissrias
em vez de dinheiro. Michael jogava quantias elevadas e perdia sem parar, mas isso no parecia incomod-lo. Utilizando as fichas de Michael, Jennifer ganhou trezentos
dlares, que insistiu em entregar a Michael. No tinha a menor inteno de ficar em dvida para com ele.  De vez em quando, ao longo do sero, diversas mulheres
 'eram cumprimentar Michael. Jennifer reparou que todas las eram jovens e atraentes. Michael tratava-as com  delicadeza, mas era bvio que se interessava apenas
por  Jennifer.  al-grado seu, no pde deixar de se sentir lisonjeada.  Ao princpio da noite, Jennifer sentia-se cansada e  deprimida, mas havia em Michael Moretti
uma tal vitalidade  que ?parecia transbordar, electrizar, e que comeava a apoderar-se de Jennifer.  Michael levou-a a um pequeno bar onde tocava um grupo de jazz,
e depois foram para o salo de outro hotel ouvir um novo grupo coral. Michael era tratado como um rei em todos os lugares onde entravam. Todos procuravam chamar-lhe
a ateno, cumpriment-lo, toc-lo, mostrar-lhe que estavam  Enquanto estiveram juntos, Michael no pronunciou uma nica palavra que pudesse ofender Jennifer. No
entanto,  Jennifer sentia que emanava dele uma sexualidade muito forte,  e era como se ondas sucessivas a atingissem. Sentia o corpo ferido, violado. Nunca experimentara
nada semelhante. Era uma sensao perturbante e, ao mesmo tempo, divertida. Havia nele uma vitalidade selvagem e animal que Jennifer nunca tinha encontrado em mais
ningum.  Eram quatro horas da manh quando Michael acompanhou Jennifer  suite. Quando chegaram  porta, Michael pegou-lhe  na mo e disse:
 - Boa noite. Quero apenas que saiba que esta foi a noite mais feliz da minha vida.
 Aquelas palavras assustaram Jennifer.
Em Washington, a popularidade de Adam Warner continuava a  aumentar. Os jornais e as revistas referiam-se-lhe cada vez mais frequentemente. Adam iniciou uma investigao
 sobre as escolas do ghetto, e presidiu a uma comisso do  Senado que foi a Moscovo encontrar-se com dissidentes. Quando  chegou ao Aeroporto de Shremetyevo, havia
reprteres  fotogrficos  sua espera, e foi saudado por sisudos oficiais russos. Quando Adam regressou, dez dias depois, os jornais teceram profundos elogios aos
resultados da viagem.  A cobertura era cada vez maior. O pblico queria artigos a respeito de Adam Warner, e os jornais alimentavam-lhe o desejo. Adam tornou-se
a ponta de lana das reformas do Senado. Chefiou uma comisso encarregada de investigar as condies das penitencirias federais e visitou prises de todo o pas.
Falou com os presos, guardas e directores e quando foi apresentado o relatrio da comisso, iniciaram-se  considerveis reformas.  Para alm das revistas noticiosas,
tambm as revistas  femininas publicavam artigos a seu respeito. No Cosmopolitan, Jennifer viu uma fotografia de Adam, Mary Beth e da filhinha de ambos, Samantha.
Jennifer estava sentada  lareira, no quarto, e contemplou a fotografia durante muito tempo. Mary Beth sorria para a objectiva, deixando transparecer aquele doce
e arrebatado encanto sulista. A filha era uma miniatura da me. Por fim, Jennifer observou a fotografia de Adam. Tinha um aspecto fatigado. Em volta dos seus olhos
tinham-se  formado pequenas rugas que no existiam antes, e as suas comeavam a ficar prateadas. Por uns momentos,  Jennifer teve a iluso de estar a olhar para
o rosto de  Joshua j adulto. A semelhana era fantstica. O fotgrafo fizera com que Adam se voltasse directamente para a cmara, e Jennifer tinha sensao de
que ele estava a olh-la. Tentou decifrar-lhe expresso do olhar, e perguntou a si mesma se ele ainda pensaria nela. Jennifer desviou novamente os olhos para a
fotografia de ?y Beth e da filha. Depois atirou com a revista para a laira  e ficou a v-la ser consumida pelas chamas. s Adam Warner estava sentado  cabeceira
da mesa da sala ?[? jantar, entretendo Stewart Needham e mais meia dzia de ?convidados. Mary Beth, na outra extremidade da mesa,  conversava com um senador de
Oklahoma e com a mulher dele, ;que estava coberta de jias. Washington tinha sido um  estimulante para Mary Beth. Encontrava-se ali no seu  elemento. Dada a crescente
importncia de Adam, Mary Beth tornara-se ?ma das principais anfitris de Washington, o que a divertia imenso. A vida social de Washington aborrecia Adam, e era
?m prazer que a deixava ao cuidado de Mary Beth. Ela  desempenhava-se bem da sua misso e ele estava-lhe grato por isso.
 - Em Washington - dizia Stewart Needham -, fazem-se mais acordos  mesa do jantar, do que nos venerandos sales do Congresso.  Adam percorreu a mesa com os olhos,
desejando que o sero  chegasse ao fim. Aparentemente, tudo era maravilhoso. Mas, no ntimo, tudo estava errado. Encontrava-se casado com uma mulher e amava outra.
Estava condenado a um casamento  do qual no podia libertar-se. Se Mary Beth no tivesse  engravidado, Adam sabia que teria levado at ao fim o processo de divrcio.
Agora era muito tarde; estava  condenado. Mary Beth tinha-lhe dado uma filha encantadora e  ele ?tnava-a, mas no conseguia afastar Jennifer do pensamento.  A mulher
do governador estava a dirigir-se a ele.
 - Voc  um felizardo, Adam. Possui tudo aquilo que qualquer homem deseja na vida, no ?
 Adam no foi capaz de responder.
O tempo ia passando e tudo girava em volta de Joshua. Ele era o centro do mundo de Jennifer. Via-o crescer e  desenvolver-se, dia aps dia, e foi um nunca acabar
de  revelaes quando comeou a andar, a falar, a raciocinar. O seu estado de esprito era muito sensvel e mostrava-se alternadamente turbulento e agressivo, tmido
e meigo. Ficava perturbado quando Jennifer tinha de o deixar  noite e, como continuava a ter medo da escurido, Jennifer deixava-lhe sempre uma luz acesa.  Aos
dois anos, Joshua era impossvel, um autntico  terrorista.,. Era destruidor, teimoso e violento. Adorava  consertar?, coisas. Partiu a mquina de costura de Mrs.
 Mackey, avariou os dois aparelhos de televiso que havia em casa e escangalhou o relgio de pulso de Jennifer. Misturava o sal com o acar e acariciava-se quando
se julgava sozinho. Ken Bailey ofereceu a Jennifer um cachorrinho pastor alemo, Max, e Joshua deu-lhe uma dentada.  Certo dia em que Ken foi fazer-lhes uma visita,
Joshua  recebeu-o com a seguinte pergunta:
 - Ol! Tens uma pilinha? Posso v-la?
 Durante aquele ano Jennifer teria, de boa vontade, oferecido  Joshua ao primeiro desconhecido que encontrasse.  Aos trs anos, Joshua transformou-se de sbito
num anjo, dcil, meigo e afectuoso. Possua a coordenao motora do pai e adorava fazer trabalhos com as mos. J no partia nada. Gostava de brincar na rua, subia
s rvores, corria e andava de triciclo.  Jennifer levou-o ao Jardim Zoolgico de Bronx e a teatros de fantoches. Deram longas caminhadas pela praia, viram um festival
de filmes dos irmos Marx, em Manhattan, e depois foram comer gelados ao Old Fashioned Mr. Jennings, no nono andar de Bonwit Teller.  Joshua tornara-se um companheiro.
Como prenda do Dia  Joshua tinha entrado para a escola infantil e gostava de andar l.  noite, quando Jennifer regressava a casa,  sentavam-se em frente da lareira
e liam juntos. Jennifer lia  o Trial Magazine e The Barrister e Joshua lia os seus livros de  gravuras. Jennifer contemplava Joshua que, estendido no cho, franzia
o sobrolho, muito atento e, de sbito, ela recordava-se de Adam. A ferida continuava a sangrar. Perguntava a si mesma onde se encontraria Adam, o que estaria ele
a fazer.  O que estariam ele, Mary Beth e Samantha a fazer.  Jennifer conseguia manter a sua vida familiar separada da vida profissional, e Ken Bailey era o nico
elo de ligao entre ambas.   Ken levava a Joshua brinquedos e livros, jogava com ele e era, de certo modo, um pai adoptivo.  Num domingo  tarde, Jennifer e Ken
encontravam-se perto da casa da rvore, vendo Joshua trepar para ela.
 - Sabe do que ele precisa? - perguntou Ken.
 - No.
 - De um pai. - Voltou-se para Jennifer: - O verdadeiro pai deve ser um grande safado.
 - Por favor, Ken, no diga isso.
 - Desculpe. Esse assunto no me diz respeito. Pertence ao passado.  o futuro que me preocupa. No  natural voc viver sozinha como. . .
 - No estou sozinha. Tenho Joshua.
 - No  disso que estou a falar. - Tomou Jennifer nos braos e beijou-a com meiguice. - Oh, que diabo, Jennifer! Desculpe...
 Michael Moretti telefonava muitas vezes a Jennifer. Ela no retribua nenhum dos telefonemas. Um dia pareceu-Lhe t-lo visto sentado ao fundo de uma sala de audincias
onde ela estava a defender uma causa mas, quando voltou a olhar, ele tinha desaparecido.
 Ao fim de certa tarde, quando Jennifer se preparava para sair do escritrio, Cynthia anunciou:
 - Est ao telefone um tal Mr. Clark Holman.
 - Eu atendo - disse Jennifer, aps uma ligeira hesitao.
 Clark Holman era advogado da Associao de Assistncia Jurdica.
 - Desculpe incomod-la, Jennifer - comeou ele -, mas temos aqui um caso em que ningum quer pegar, e ficar-Lhe-ia  muito grato se nos pudesse dar uma ajuda. Sei
que tem o tempo muito ocupado, mas. . .
 - Quem  o acusado?
 - Jack Scanlon.
 Reconheceu logo o nome.  H dois dias que aparecia nas primeiras pginas dos jornais.  Jack Scanlon fora preso por raptar uma rapariguinha de quatro anos para
exigir um resgate. Tinha sido identificado a partir de um retrato-robot que a polcia desenhara com base nos depoimentos de algumas testemunhas do rapto.
 - Porque se lembrou de mim, Clark?
 - Scanlon pediu que a chamssemos.
 Jennifer consultou o relgio de parede. Joshua teria de  esperar.
 - Onde se encontra ele agora?
 - No Centro Correccional Metropolitano.
 Jennifer tomou uma deciso rpida.
 - Vou falar com ele. Tome as providncias necessrias, est bem?
 - Com certeza. Mil vezes obrigado. Fico-lhe muito grato.
 Jennifer telefonou a Mrs. Mackey.
 - Vou chegar um pouco mais tarde. D o jantar a Joshua e diga-lhe que espere por mim.
 Dez minutos depois, Jennifer ia a caminho.  Para Jennifer, o rapto era o mais depravado de todos os crimes, especialmente quando se tratava de uma criana  indefesa;
mas todos os acusados tinham o direito de ser  ouvidos, por muito terrvel que o crime fosse. Era esse o fundamento da lei: justia igual para o mais humilde e
para o poderoso.  Jennifer deu a sua identificao ao guarda que se encontrava  na recepo e foi conduzida  Sala de Visitas dos Advogados.
 - Vou buscar Scanlon - disse o guarda.
 Minutos depois, entrava na sala um homem magro e bem-parecido, de perto de quarenta anos, com uma barba loira e cabelo loiro-plido. Fazia lembrar Cristo.
 - Obrigado por ter vindo, Miss Parker - disse ele. A sua voz era suave e afvel. - Agradeo-lhe o seu interesse.
 - Sente-se.
 Instalou-se numa cadeira em frente de Jennifer.
 - Pediu para me ver?
 - Sim. Embora esteja convencido de que s Deus me poder ajudar. Fiz uma coisa muito insensata.
 Ela contemplou-o com uma expresso de repugnncia no olhar.
 - Acha que raptar uma rapariguinha indefesa para exigir um resgate  apenas uma coisa insensata.,?
 - No raptei Tammy por causa do resgate.
 - Ah! Ento por que motivo a raptou?
 Estabeleceu-se um pesado silncio antes de Jack Scanlon responder.
 - A minha mulher, Evelyn, morreu de parto. Amei-a mais do que tudo no mundo. Se alguma vez houve uma santa na Terra, foi essa mulher. Evelyn no era uma pessoa
saudvel. O nosso mdico aconselhou-a a no ter o beb, mas ela no quis dar-Lhe ouvidos - Baixou o olhar, embaraado. - Pode. .  . pode ser difcil para si compreender,
mas ela dizia que desejava ter a criana, pois era o mesmo que possuir uma parte de mim.  Jennifer compreendia bem de mais.  Jack Scanlon tinha-se calado, com o
pensamento ausente.
 - E ela teve o beb?
 Jack Scanlon fez um sinal afirmativo com a cabea.
 - Morreram ambas. - Era-Lhe difcil continuar. - Por uns tempos, pensei. . . pensei que iria. . . no queria continuar a viver sem ela. Estava sempre a pensar
como teria sido a nossa filha. Imaginava o que seria se estivessem vivas. Tentava cristalizar o tempo no momento antes de Evelyn. . . - O  sofrimento sufocava-o.
- Voltei-me para a Bblia e reencontrei nela o equilbrio psquico. Repara, abri-te uma porta que ningum conseguir fechar." Ento, aqui h alguns dias, vi uma
rapariguinha que brincava na rua, e foi como se Evelyn tivesse reincarnado nela. Tinha os seus olhos, o seu cabelo.  A menina olhou para mim e sorriu e eu. . .
sei que parece uma loucura, mas era Evelyn que sorria para mim. Devo ter perdido  a cabe a. Pensei para comigo: Esta  a filha que Evelyn teria tido. a nossa filha."
 Jennifer via-o cravar as unhas na carne.
 - Eu sabia que estava a fazer uma coisa errada, mas levei-a  comigo. - Ergueu os olhos para Jennifer. - No teria feito mal quela criana por nada deste mundo.
 Jennifer estava a observ-lo com ateno, procurando  descobrir algo que lhe soasse a falso. No detectou nada. No passava de um homem desesperado.
 - E o pedido de resgate?
 - No fiz nenhum pedido de resgate. Eu no estava  interessado em dinheiro. S queria a pequena Tammy.
 - Algum mandou  famlia um pedido de resgate.
 - A polcia diz que fui eu, mas isso no  verdade.
 Jennifer tentava ajustar as peas da charada.
 - O artigo sobre o rapto apareceu nos jornais antes ou depois de o senhor ter sido apanhado pela polcia?
 - Antes. Lembro-me de ter desejado que parassem de escrever sobre o caso. Eu queria ir embora com Tammy e tinha medo que algum nos impedisse.
 - Quer dizer que algum que tenha lido a respeito do rapto pode ter tentado receber um resgate?
 Jack Scanlon agitou as mos com ar desamparado.
 - No sei. S sei que quero morrer.
 O seu sofrimento era to manifesto que Jennifer se sentiu comovida. Se ele estava a dizer a verdade - e a expresso do rosto mostrava que assim era - no merecia
morrer pelo que tinha feito. Seria castigado, sim, mas no executado.
 Jennifer decidiu-se.
 - Vou tentar ajud-lo.
 - Obrigado - respondeu ele com serenidade. - J no me interesso pelo que me possa acontecer.
 - Interesso-me eu.
 - Creio. . . creio que no tenho dinheiro para lhe pagar -  confessou Jack Scanlon.
 - No se preocupe com isso. Quero que me fale de si.
 - O que quer que lhe diga?
 - Comece pelo princpio. Onde nasceu?
 - No Dakota do Norte, h trinta e cinco anos. Nasci numa quinta. Se  que se podia considerar uma quinta. Era um  miservel bocado de terra que no produzia grande
coisa.
ramos pobres. Sa de casa aos quinze anos. Adorava a minha me, mas odiava o meu pai. Sei que a Bblia diz que  pecado dizer mal dos pais, mas ele era um homem
perverso. Gostava de me vergastar.
 Jennifer viu que o corpo dele ficara tenso.
 - Quero dizer, gostava mesmo.  mais pequena coisa que eu fizesse e que ele achasse mal, batia-me com um cinto de couro que tinha uma grande fivela de lato. Depois
obrigava-me a ajoelhar e a pedir perdo a Deus. Durante muito tempo odiei Deus tanto como odiava o meu pai. - Calou-se, demasiado cheio de recordaes para conseguir
falar.
 - E ento fugiu de casa?
 - Fugi. Fui  boleia para Chicago. No era muito instrudo mas, em casa, costumava ler muitos livros. Sempre que o meu pai me apanhava a ler, era um pretexto para
me dar outra tareia. Em Chicago, comecei a trabalhar numa fbrica. Foi l que conheci Evelyn. Certo dia cortei a mo numa mquina de fresar e levaram-me para o
dispensrio, onde ela trabalhava. Era ajudante de enfermagem. - Sorriu a Jennifer. - Era a mulher mais bela que eu tinha visto em toda a minha vida. A mo levou
cerca de duas semanas a cicatrizar, e ela fazia-me todos os dias o tratamento. Depois disso, comemos a sair juntos. Pensmos casar, mas a fbrica perdeu uma grande
 encomenda e eu fui despedido por uns tempos, juntamente com o resto do pessoal da minha seco. Evelyn no se preocupou com isso. Casmos e ela passou a sustentar-me.
Era esse o nico motivo pelo qual discutamos. Desde pequeno que ouvia dizer que devia ser o homem a sustentar a mulher. Arranjei trabalho como camionista e ganhava
bem. A nica coisa que me desagradava era o facto de, por vezes, ficarmos separados durante uma semana consecutiva. Tirando isso, era muito  feliz. ramos ambos
felizes. Depois Evelyn ficou grvida.  Foi percorrido por um estremecimento. As mos comearam-lhe  a tremer.
- Evelyn e a nossa filhinha, morreram. - Tinha o rosto banhado de lgrimas. - No sei porque  que Deus permitiu aquilo. Deve ter tido uma razo, mas no consigo
compreend- la. - Balanava-se na cadeira, para a frente e para trs, sem ter conscincia do que estava a fazer, os braos  apertados sobre o peito, tentando dominar
o sofrimento. Vou ensinar-te e indicar-te o caminho a seguir; vou aconselhar-te. "  Jennifer pensou: Aqui est algum que no h-de ir parar  cadeira elctrica
! "
 - Venho visit-lo amanh - prometeu-lhe Jennifer.
 A fiana tinha sido de duzentos mil dlares. Jack Scanlon no possua o dinheiro para a pagar e Jennifer emprestou-lho. Scanlon foi libertado do Centro Correccional
e Jennifer  descobriu um pequeno motel, na Zona Ocidental, onde ele se instalou. Deu-lhe cem dlares para ele se poder manter.
 - No sei como - disse Jack Scanlon -, mas hei-de pagar-lhe tudo at ao ltimo cntimo. Vou comear a procurar trabalho. No importa o qu. Estou pronto a fazer
qualquer coisa.
 Quando Jennifer o deixou, ele estava a ler os anncios das ofertas de emprego.  O procurador pblico, Earl Osborne, era um homem alto e forte, com um insinuante
rosto redondo e modos falsamente brandos. Para surpresa de Jennifer, Robert Di Silva  encontrava-se no gabinete de Osborne.
 - Ouvi dizer que a senhora ia ocupar-se deste caso -  comentou Di Silva. - Nada  demasiado sujo para si, pois no?
 Jennifer voltou-se para Earl Osborne.
 - O que est ele aqui a fazer? Isto  um caso federal.
 - Jack Scanlon raptou a garota no carro da famlia desta - elucidou Osborne.
 - Roubo de automvel, roubo maior - acrescentou Di Silva.
 Jennifer perguntava a si prpria se Di Silva se teria ali encontrado se ela no estivesse envolvida no caso. Dirigiu-se  de novo a Earl Osborne.
 - Gostaria de chegar a um acordo - comeou Jennifer - O meu  cliente. . .
 Earl Osborne ergueu a mo.
 - No  possvel. Vamos levar este processo at ao fim.
 - Existem circunstncias. . .
 - Poder falar-nos delas no interrogatrio preliminar.
 Di Silva estava a sorrir-lhe.
 - Muito bem - declarou Jennifer. - Encontramo-nos no tribunal.
 Jack Scanlon arranjou trabalho numa estao de servio em West Side, perto do motel onde vivia, e Jennifer passou por l para o ver.
 - O interrogatrio preliminar  depois de amanh - informou  Jennifer. - Vou tentar que o governo concorde com uma alegao e o condene por acusao menor. Ter
de cumprir  algum tempo, Jack, mas vou tentar fazer com que seja o mais curto possvel.
 A gratido que se reflectiu no rosto dele foi para Jennifer uma verdadeira recompensa.  Por sugesto de Jennifer, Jack Scanlon tinha comprado um fato decente para
o interrogatrio preliminar. Cortara o cabelo e aparara a barba e Jennifer ficou satisfeita com o aspecto dele. Tiveram incio as formalidades do tribunal. O  Procurador
Distrital Di Silva encontrava-se presente. Quando  Earl Osborne acabou de apresentar a sua evidncia e requereu uma acusao, o Juiz Barnard voltou-se para Jennifer.
 - Tem alguma coisa a dizer, Miss Parker?
 - Tenho sim, Vossa Honra. Gostaria de poupar ao governo as  despesas de um julgamento. Existem circunstncias atenuantes  que no foram aqui apresentadas. Gostaria
de apelar para que o meu cliente fosse condenado a uma pena menor.
 - No  possvel - replicou Earl Osborne. - O governo no vai concordar com isso.  Jennifer voltou-se para o Juiz Barnard.
 - Podemos discutir este assunto nos aposentos de Vossa Honra?
 - Muito bem. Marcarei a data do julgamento depois de ouvir o que a advogada tem para dizer.  Jennifer voltou-se para Jack Scanlon, que se encontrava de p, com
um ar desnorteado.
 - Pode voltar para o trabalho - disse-lhe Jennifer. - Depois  passo por l e conto-lhe o que se passou.
Ele fez um gesto de aquiescncia com a cabea e, num tom calmo, respondeu:
 - Obrigado, Miss Parker.
 Jennifer viu-o dar meia volta e abandonar a sala de audincias.

 Jennifer, Earl Osborne, Robert Di Silva e o Juiz Barnard encontravam-se sentados nos aposentos deste ltimo.
 - No consigo compreender porque me pediu para entrar num acordo - dizia Osborne a Jennifer. - O rapto para  obteno de resgate  um crime capital. O seu cliente
  culpado e vai pagar pelo que fez.
 - No acredite em tudo o que dizem os jornais, Earl. Jack Scanlon no tem nada a ver com quele pedido de resgate.
 - Quem  que voc est a tentar enganar? Se no foi por resgate, por que raio foi?
 - J lhe digo - respondeu Jennifer.
 E contou-lhes. Falou-lhes da quinta, das tareias, da paixo de Jack Scanlon por Evelyn e do seu casamento com ela, da mulher e da filha mortas.  Eles escutaram-na
em silncio e, quando Jennifer chegou ao fim, Robert Di Silva comentou:
 - Ento Jack Scanlon raptou a mida porque ela Lhe recordava  a filha que poderia ter tido? E a mulher de Jack Scanlon morreu de parto?
 - Exactamente - Jennifer voltou-se para o Juiz Barnard.
- Vossa Honra, no creio que um homem destes possa ser executado.
 - Concordo consigo - declarou Di Silva inesperadamente.
 Jennifer olhou para ele, surpreendida.  Di Silva estava a tirar alguns papis de uma pasta.
 - Permita-me que lhe faa uma pergunta - disse ele. - O que  acharia se se executasse este homem? - Comeou a ler um dossier". - Frank Jackson, trinta e oito anos
de  idade. Nascido em Nob Hill, So Francisco. O pai era mdico,  a me pertencia a uma conhecida famlia da alta sociedade. Aos catorze anos, Jackson comeou a
drogar-se, fugiu de casa, foi apanhado em Haight-Ashbury e voltou para casa dos pais. Trs meses mais tarde, Jackson introduziu-se no consultrio do pai, roubou
todas as drogas a que conseguiu deitar a mo e fugiu. Detido em Seattle por posse e venda de droga, enviado para um reformatrio, solto aos dezoito anos, preso
um ms depois por assalto  mo armada com tentativa de homicdio...  Jennifer sentia o estmago revoltar-se.
 - O que tem isto a ver com Jack Scanlon?
 Earl Osborne esboou um sorriso glacial.
 - Jack Scanlon e Frank Jackson so a mesma pessoa.
 - No acredito!
 - Esta ficha amarela foi-nos mandada h uma hora pelo F.B.I. Jackson  um refinado actor e um mentiroso psicopata. Ao longo dos ltimos dez anos, foi preso por
crimes que vo desde o proxenetismo at fogo posto e assalto  mo armada. Cumpriu uma pena em Joliet. Nunca teve um emprego certo e nunca foi casado. H cinco
anos, o F.B.I. prendeu-o por  rapto. Raptou uma garota de trs anos e exigiu um resgate. O corpo da mida foi encontrado dois meses depois, no meio de um bosque.
Segundo o relatrio do mdico legista, o cadver estava j em decomposio, mas apresentava visveis marcas de navalhadas. Tinha sido violada e sodomizada.  Jennifer
sentiu um sbito mal-estar.
 - Jackson foi absolvido por um tecnicismo forjado por um advogado qualquer - quando Di Silva falou de novo, a sua voz era desdenhosa. -  esse o homem que a senhora
quer em liberdade?
 - Posso ver o dossier", por favor?
 Em silncio, Di Silva entregou-o a Jennifer e ela comeou a l-lo. Tratava-se de Jack Scanlon. No subsistia a menor dvida. Havia uma fotografia dele, tirada
pela polcia,  colada na ficha amarela. Parecia mais novo e no usava barba, mas era inconfundvel. Jack Scanlon - Franck Jackson - tinha-a enganado redondamente.
Inventara a histria da sua vida e Jennifer tinha acreditado em tudo. Ele fora to convincente que ela nem sequer se tinha dado ao trabalho de pedir a Ken Bailey
que procedesse a qualquer investigao.
 - Posso ver? - pediu o Juiz Barnard.
 Jennifer entregou-lhe o dossier". O juiz percorreu-o  rapidamente com os olhos e em seguida contemplou Jennifer.
 - Ento?
 - No o representarei.
 Di Silva arqueou as sobrancelhas com um ar de fingida surpresa.
 - A senhora surpreende-me, Miss Parker. Tenho-a sempre ouvido dizer que toda a gente tem direito a um advogado.
 -  verdade - replicou Jennifer com muita calma -, mas tenho uma regra rgida que nunca infringirei: no  represento pessoas que me mentem. Mr. Jackson ter de
 procurar outro advogado.  O Juiz Barnard fez um sinal de compreenso com a cabea.
 - O tribunal encarregar-se- disso.
 - Gostava que a cauo dele fosse imediatamente revogada,  Vossa Honra - disse Osborne. - Creio que  demasiado perigoso para continuar em liberdade.
 O Juiz Barnard voltou-se para Jennifer.
 - Neste momento a senhora  ainda a advogada oficial, Miss Parker. Tem alguma objeco a fazer?
 - No - respondeu Jennifer com firmeza. - Nenhuma.
 - Vou ordenar que a cauo seja revogada - declarou o Juiz Barnard.
 O Juiz Lawrence Waldman tinha convidado Jennifer para um jantar de caridade que se realizava naquela mesma noite.
Embora se sentisse esgotada devido aos acontecimentos da tarde e tivesse preferido ir para casa e jantar calmamente  com Joshua, no quis decepcionar o juiz. Mudou
de roupa no  escritrio e encontrou-se com o Juiz Waldman no Waldorf- Astoria, onde decorria a festa.  Era um jantar de gala durante o qual actuaram algumas  estrelas
de Hollywood, mas Jennifer no conseguia divertir-se. O seu esprito encontrava-se ausente. O Juiz Waldman tinha estado a observ-la.
 - Passa-se alguma coisa, Jennifer?
 Ela forou um sorriso.
 - No,  apenas um problema profissional, Lawrence.
 Afinal que profisso  esta, em que sou obrigada a lidar com a escria da humanidade, com violadores, assassinos e raptores, , pensou Jennifer. Achou que era a
noite ideal para se embriagar.
 O chefe de mesa aproximou-se e segredou ao ouvido de Jennifer:
 - Desculpe, Miss Parker, h um telefonema para si.
 Jennifer ficou imediatamente alarmada. A nica pessoa que sabia onde ela se encontrava era Mrs. Mackey. S podia estar a telefonar-lhe por causa de algum problema.
 - Desculpe-me - disse Jennifer.
 Abandonou o salo e seguiu o chefe de mesa at um pequeno  escritrio.
 Jennifer pegou no auscultador e uma voz de homem segredou :
 - Sua puta! Voc traiu-me.
 Jennifer comeou a tremer.
 - Quem fala? - perguntou.
 Mas j o sabia.
 - Voc mandou os chuis atrs de mim.
 - No  verdade ! Eu. . .
 - Prometeu ajudar-me.
 - E vou ajud-lo. Onde. . .?
 - Puta mentirosa! - A voz dele tornara-se to baixa que ela mal conseguia perceber-lhe as palavras. - Voc vai pagar por isto. Oh, se vai!
 - Espere um min. . .
 A ligao tinha sido cortada. Jennifer ficou imvel,  completamente gelada. Algo tinha corrido mal. Frank Jackson alis, Jack Scanlon, devia ter conseguido escapar-se
e agora acusava Jennifer do que sucedera. Como teria ele descoberto onde ela se encontrava? Devia t-la seguido at ali. Talvez estivesse l fora  sua espera.
Jennifer procurava controlar o tremor do corpo, tentava  raciocinar, procurava imaginar o que se tinha passado. Ele de via ter visto chegar a polcia para o prender,
ou talvez o tivessem apanhado e ele conseguisse escapar. No interessava como. O importante era que ele estava a acus-la do que  sucedera.  Franck Jackson j matara
antes e era muito capaz de matai de novo. Jennifer foi ao lavabo e conservou-se l at se sentir mais calma. Quando conseguiu controlar-se, regressou  mesa.
 O Juiz Waldman perscrutou-Lhe o rosto.
 - O que aconteceu?
 Jennifer contou-lhe tudo rapidamente. Ele ficou aterrado.
 - Santo Deus! Quer que a leve a casa?
 - No  preciso, Lawrence. Agradeo apenas que se certifique  de que posso chegar em segurana ao meu carro.  Aparentando uma grande calma, saram do enorme salo
de baile e o Juiz Waldman ficou junto de Jennifer at o  empregado Lhe trazer o carro.
- Tem a certeza de que no quer que a acompanhe?
 - Obrigada. Estou convencida de que a polcia o vai apanhar  antes do amanhecer. No h por a muitas pessoas parecidas  com ele. Boa noite.  Jennifer afastou-se,
assegurando-se de que ningum a seguia.  Quando verificou que estava sozinha, entrou na Via Rpida de Long Island e tomou a direco de casa.  Olhava constantemente
pelo espelho retrovisor, examinando os  carros que seguiam atrs dela. A certa altura estacionou  beira da estrada, para deixar que todo o trfego a  ultrapassasse
e, quando a estrada por trs dela ficou livre,  continuou o seu caminho. Sentia-se agora mais segura. J no deviam faltar muitas horas para que a polcia apanhasse
Frank  Jackson. Neste momento j devia ter sido dado o alarme geral.  Jennifer entrou no caminho da propriedade. Os terrenos e a casa, que deveriam estar profusamente
iluminados, permaneciam  s escuras. Ficou a olhar para a casa, com um ar incrdulo,  recomeando a sentir-se alarmada. Terrivelmente inquieta,  abriu a porta do
carro e correu para a porta principal. Viu-a entreaberta. Jennifer ficou imvel durante uns  momentos, cheia de terror e, em seguida, penetrou no trio. O  p tocou
numa coisa morna e macia e teve um sobressalto  involuntrio. Acendeu as luzes. Max jazia no tapete ensopado  de sangue. A garganta do co tinha sido cortada de
um lado ao outro.
 - Joshua ! - Era um grito. - Mrs. Mackey !
 Jennifer correu de sala em sala, acendendo todas as luzes e chamando-os pelo nome, e o corao batia-lhe com tal  violncia que lhe era difcil respirar. Subiu
as escadas a  correr
E entrou no quarto de Joshua. A cama tinha sido usada, mas encontrava-se vazia.  Jennifer revistou todos os quartos da casa, e depois precipitou-se para o rs-do-cho,
sem conseguir raciocinar.  Frank Jackson devia ter sabido sempre onde ela morava. Devia t-la seguido desde o escritrio at casa, numa noite qualquer, ou ento
depois de ela ter sado da estao de servio. Tinha raptado Joshua e ia mat-lo para a castigar.  Estava a atravessar a casa das lavagens quando ouviu um ligeiro
arranhar vindo da casa de banho. Jennifer aproximou-se lentamente da porta, da casa de banho e abriu-a. L dentro estava escuro.
 - Por favor, no me torne a fazer mal - choramingou uma voz.
 Jennifer acendeu a luz. Mrs. Mackey jazia no cho, com as mos e os ps firmemente atados com arame. Estava semi-inconsciente. Jennifer ajoelhou-se rapidamente
ao lado dela.
 - Mrs. Mackey !
 A velhota ergueu o olhar para Jennifer e comeou a recuperar  a lucidez.
 - Ele levou Joshua. - E ps-se a soluar.
 Com a maior suavidade possvel, Jennifer destorceu o arame  que se enterrava nos braos e nas pernas de Mrs. Mackey, que estavam em carne viva e sangravam. Jennifer
ajudou a
governanta a pr-se de p.  Mrs. Mackey gritava histericamente.
 - Eu n-no consegui impedi-lo. T-tentei. Eu...
 A campainha do telefone vibrou atravs da sala. As duas mulheres calaram-se imediatamente. O telefone tocou repetidas  vezes e aquele som parecia estranhamente
perverso. Jennifer  aproximou-se e pegou no auscultador.
 - Queria apenas assegurar-me de que chegou bem a casa
- disse a voz.
 - Onde est o meu filho ?
 -  um belo rapaz, no ? - perguntou a voz.
 - Por favor! Farei tudo. Tudo o que quiser!
 - J fez tudo, Miss Parker.
 - No, por favor! - Ela soluava com desespero.
 - Gosto de a ouvir chorar - murmurou a voz. - Vai recuperar o seu filho, Mrs. Parker. Leia amanh os jornais.  E a ligao foi interrompida.
 Jennifer deixou-se ficar no mesmo stio, lutando contra o mal-estar que a invadia, tentando coordenar as ideias. Frank Jackson tinha dito:  um belo rapaz, no
?" Isso poderia significar que Joshua ainda se encontrava vivo. Caso  contrrio, no teria ele dito que era belo? Reconhecia que  estava apenas a jogar com as
palavras, tentando manter-se lcida. Precisava agir depressa.  O seu primeiro impulso foi telefonar a Adam, pedir-Lhe que a ajudasse. Era o filho dele que tinha
sido raptado, era o filho dele que ia ser morto. Mas sabia que Adam nada poderia fazer.  Encontrava-se a duzentas e trinta e cinco milhas de  distncia. Restavam-lhe
duas alternativas: uma era telefonar  a Robert Di Silva, contar-lhe o que acontecera e pedir-lhe que montasse um forte dispositivo policial para tentar apanhar
Frank Jackson. Oh, meu Deus, isso vai levar muito tempo!"  A segunda alternativa era o F.B.I. Estavam habituados a ocupar-se de raptos. O problema  que este no
era um rapto como os outros. No haveria nenhum pedido de resgate que Lhes fornecesse uma pista, no haveria hiptese de tentarem apanhar Frank Jackson e salvar
a vida de Joshua. O F.B.I. actuava de acordo com as suas normas rgidas. Neste caso seria completamente intil. Tinha de tomar uma deciso  rpida. . . enquanto
Joshua estava vivo. Robert Di Silva ou o F.B.I. Era-lhe difcil raciocinar.  Respirou fundo e fez a sua escolha. Procurou um nmero de telefone. Os dedos tremiam-Lhe
tanto que foi obrigada a marcar o nmero trs vezes antes de conseguir acertar.  Quando um homem atendeu, Jennifer disse:
 - Quero falar com Michael Moretti.
- Desculpe, minha senhora. Fala de Tony's Place. No conheo nenhum Michael Moretti.
 - Espere! - gritou Jennifer. - No desligue! - Procurou  acalmar a voz. -  urgente. Sou uma... uma amiga dele. Chamo-me Jennifer Parker. Preciso de falar com
ele  imediatamente.
 - Olhe, minha senhora, eu disse...
 - D-lhe o meu nome e este nmero de telefone.
 Indicou-Lhe o nmero. Jennifer estava a comear a gaguejar tanto que mal conseguia falar. - D-d-diga-lhe. . .
 A ligao tinha sido cortada.  Como num sonho, Jennifer pousou o auscultador. Pensou numa das suas duas primeiras alternativas. Pensou em ambas. No havia nenhum
motivo para que Robert Di Silva e o F.B.I. no conjugassem os seus esforos para tentarem  encontrar Joshua. O que a fazia desesperar era reconhecer que  havia
muito poucas probabilidades de descobrirem Frank Jackson. No havia tempo. Leia amanh os jornais." O tom definitivo das suas ltimas palavras dera a Jennifer a
certeza de que  no voltaria a telefonar-lhe, para que ningum tivesse  possibilidade de lhe ir no encalo. Mas ela tinha de fazer  qualquer coisa. Ia tentar Di
Silva. Estendeu outra vez a mo para o telefone. Nesse momento, o aparelho comeou a tocar, e ela sobressaltou-se.
 - Fala Michael Moretti.
 - Michael! Oh, Michael, ajude-me por favor! Eu Comeou a soluar descontroladamente. O auscultador  escorregou-lhe da mo e ela apanhou-o de novo, muito rpida,
 receando que ele tivesse desligado. - Michael?
 - Estou aqui. - A voz dele era serena. - Acalme-se e diga-me o que se passa.
 - Eu. . . eu. . . - Respirava rpida e profundamente,  tentando controlar o tremor que a agitava. - Trata-se do meu filho, Joshua. Foi. . . foi raptado. Vo mat-lo.
- Sabe quem  que o levou?
 - S-sim. Chama-se F-Frank Jackson. - O corao batia-Lhe com  violncia.
 - Conte-me o que se passou. - A sua voz inspirava calma e  segurana.
 Esforando-se por falar devagar, Jennifer relatou a  sequncia dos acontecimentos.
 -  capaz de descrever o aspecto desse tal Jackson?
 Jennifer tentou recordar-se do rosto dele. Fez a sua  descrio e Michael disse:
 - Muito bem. Sabe onde  que ele esteve preso?
 - Em Joliet. Disse-me que vai matar. . .
 - Onde fica a estao de servio em que ele trabalhava?
 Deu a direco a Michael.
 - Sabe o nome do motel em que ele estava instalado?
 - Sim. No. - No conseguia recordar-se. Cravou as unhas na testa at fazer sangue, tentando raciocinar. Ele ficou  espera, pacientemente.  De sbito, Jennifer
lembrou-se:
 -  o Travel Well Motel. Fica na Dcima Avenida. Mas tenho a certeza de que j no se encontra l.
 - Veremos.
 - Quero o meu filho vivo.
 Michael Moretti no respondeu e Jennifer compreendeu porqu.
 - Se apanharmos Jackson...?
 Jennifer respirou fundo, muito agitada.
 - Mate-o !
 - Fique perto do telefone.
 A ligao foi cortada. Jennifer pousou o auscultador. Por muito estranho que parecesse, sentia-se mais calma, como se algo tivesse sido realizado. No tinha motivos
para sentir  uma tal confiana em Michael Moretti. Do ponto de vista lgico, acabava de cometer uma loucura; mas a lgica nada tinha a ver com este assunto. Estava
em jogo a vida do seu filbo.
Pedira deliberadamente a um assassino que fosse atrs de  outro assassino. Se no resultasse. . . Pensou na  rapariguinha que tinha sido violada e sodomizada.
Jennifer foi cuidar de Mrs. Mackey. Tratou-lhe dos e arranhes e meteu-a na cama. Jennifer quis que ela um sedativo, mas Mrs. Mackey recusou. Eu no conseguia dormir
- soluava ela. - Oh, Mrs r! Ele deu quele beb comprimidos para dormir. Jennifer  ficou a olhar para ela, horrorizada. Michael Moretti estava sentado  secretria,
de frente para sete homens que tinha convocado. J tinha dado instrues 6 trs primeiros. Voltou-se para Thomas Colfax.
- Tom, quero que se sirva dos seus contactos. V falar m o Chefe Notaras e faa-o dizer tudo o que sabe a respeito  de Frank Jackson. Quero o mximo de informaes
sobre -Estamos a desperdiar um bom contacto, Mike. No
- No discuta! Faa o que lhe digo.
- Muito bem - respondeu Colfax, constrangido.
Michael dirigiu-se ento a Nick Vito.
- Investiga a estao de servio em que Jackson trabalha  Descobre se ele frequentava os bares da vizinhana, ou se amigos.  para Salvatore Fiore e Joseph Colella:
- Vo ao motel de Jackson. Provavelmente j se foi em?, mas  procurem saber se ele andava com algum. Quero quem eram as suas amiguinhas. - Consultou o relgio:
 meia-noite. Dou-lhes oito horas para encontrarem Jack Os  homens comearam a transpor a porta.
- No quero que acontea nada ao garoto - recomendou  a Michael. - Vo-me telefonando. Fico  espera.
Michael Moretti viu-os sair, depois estendeu a mo para a dos telefones que tinha sobre a secretria e comeou a marcar um nmero.
O quarto do motel no era grande, mas era muito asseado. Frank Jackson apreciava o asseio. Achava que fazia parte de ta boa educao. As venezianas estavam corridas
e inclinas,  para que ningum pudesse ver o que se passava dentro quarto. A porta estava fechada  chave e tinha a corrente posta, e ele encostara-lhe uma cadeira.
Dirigiu-se para a  cama de Joshua estava deitado. Frank Jackson obrigara o garoto tomar trs comprimidos para dormir, e este encontrava-se ainda profundamente adormecido.
No entanto, como Jackson no gostava de se arriscar, as mos e os ps de Joshua  estavam firmemente atados com um arame semelhante quele de que se servira para
amarrar a velha governanta. Jackson  baixou o olhar para a criana adormecida e sentiu-se invadido por uma onda de tristeza.  Porqu, em nome de Deus, o obrigavam
as pessoas a fazer  estas coisas horrveis? Ele era um homem afvel e pacfico  mas, quando todos esto contra ns, quando todos nos atacam, temos de nos defender.
O problema que tinha em relao a toda a gente era que nunca Lhe davam o devido valor. S se apercebiam disso quando j era muito tarde, e  ele conseguia ser mais
esperto do que todos eles.? Soubera que a polcia ia busc-lo meia hora antes de eles chegarem. Estava a encher o depsito de um Chevrolet Camaro  quando viu o
patro entrar no escritrio para atender o telefone. Jackson no conseguiu ouvir a conversa, mas tambm  no foi necessrio. Viu os olhares disfarados que o patro
 lhe lanava enquanto ia segredando ao telefone. Frank Jackson soube logo o que estava a acontecer. A polcia vinha prend-lo. Aquela puta da Parker tinha-o trado,
tinha dito  polcia que lhe deitasse a mo. Ela era igual aos outros. O patro estava ainda a falar ao telefone quando Frank Jackson agarrou no casaco e desapareceu.
Em menos de trs minutos descobriu um cano aberto, fez uma ligao directa e, momentos  depois, encaminhava-se para casa de Jennifer Parker.  Jackson era obrigado
a admitir que era muito esperto. Quem mais se teria lembrado de a seguir para descobrir onde morava? Tinha-o feito no dia em que fora posto em liberdade condicional.
Estacionara na rua em frente  casa e ficara  surpreendido ao ver Jennifer ser recebida, junto do porto,  por um rapazinho. Ao v-los juntos, sentiu logo que o
garoto poderia vir a ser-Lhe til. Era um bnus inesperado, aquilo a que os poetas chamam uma ddiva do destino.  Jackson sorriu intimamente ao recordar-se como
a velha governanta tinha ficado atemorizada. Sentira prazer em  enrolar-lhe o arame em volta dos pulsos e dos tornozelos.  No, na verdade, no tinha sentido prazer.
Estava a ser demasiado severo para consigo prprio. Fizera-o porque tinha sido  necessrio. A governanta pensara que ele ia viol-la. Mas ela repugnava-o.  excepo
da sua santa m~e, todas as mulheres o repugnavam. As mulheres eram nojentas, imundas, at a puta da sua irm. S as crianas eram puras. Pensou na ltima  mida
que raptara. Era encantadora, com compridos caracis  loiros, mas fizera-a pagar pelos pecados da me. A me dela tinha conseguido com que Jackson fosse despedido
do emprego. As pessoas tentavam impedi-lo de ganhar a vida honestamente e depois castigavam-no quando ele infringia as suas estpidas leis. Os homens eram maus,
mas as mulheres eram ainda piores. Eram porcas que queriam macular o templo  do corpo dele. Tal como Clara, a empregada de mesa que ele ia levar para o Canad.
Ela amava-o. Imaginava-o um cavalheiro porque ele nunca lhe tinha tocado. Se ela  soubesse! A ideia de fazer amor com ela provocava-lhe  nuseas. Mas ia lev-la
para fora do pas porque a polcia andava  procura de um homem sozinho. la cortar a barba e aparar o cabelo e, depois de atravessar a fronteira, livrar-se-ia de
Clara. Isso iria causar-lhe um enorme prazer.  Frank Jackson pegou numa velha mala de carto que estava em cima de um banco, abriu-a e tirou uma caixa de  ferramentas,
de onde extraiu alguns pregos e um martelo.  Colocou-os na mesa-de-cabeceira, ao lado do rapaz adormecido. Em seguida  foi  casa de banho e tirou da banheira uma
lata com dois gales de gasolina. Levou-a para o quarto e pousou-a no cho. Joshua ia ser consumido pelas chamas. Mas isso seria depois da crucificao.
A notcia estava a espalhar-se atravs de Nova Iorque e arredores. Tinha comeado nos bares e nas penses baratas.  Uma palavra cautelosa aqui, outra ali, segredada
a um ouvido atento. Comeara por ser uma gota e foi-se propagando aos restaurantes de segunda classe, s discotecas barulhentas e aos quiosques de jornais que estavam
abertos durante toda a noite. Foi ouvida pelos motoristas de txis, pelos  camionistas e pelas raparigas que trabalhavam nas ruas escuras. Foi como um seixo atirado
para um lago fundo e escuro, provocando crculos cada vez mais largos. Poucas horas depois, j toda a gente sabia que Michael Moretti pretendia uma informao,
e depressa. Nem todas as pessoas tinham oportunidade de prestar  um favor a Michael Moretti. Esta ia ser uma oportunidade preciosa para algum, pois Michael Moretti
era um homem que sabia demonstrar a sua gratido. Constava que andava  procura de um tipo magro e loiro parecido com Jesus. As pessoas comearam a puxar pela memria.
 Joshua Adam Parker agitou-se enquanto dormia, e Frank `Jackson aproximou-se dele. Ainda no tinha despido o pijama ao garoto. Jackson certificou-se de que o martelo
e os pregos estavam no lugar, prontos a serem utilizados. Era importante ser meticuloso em casos como este. Antes de deitar fogo ao quarto, ia pregar ao cho as
mos e os ps do rapaz. Poderia t-lo feito enquanto o garoto dormia, mas isso teria sido um erro. Era importante que ele estivesse acordado, para ver o que estava
a acontecer, para saber que estava a ser punido pelos pecados da me. Frank Jackson consultou o relgio. Clara vinha busc-lo ao motel s sete e meia. Faltavam
cinco horas e quinze minutos. Dispunha de muito tempo.  Frank Jackson sentou-se a observar Joshua e, a certa altura, acariciou ternamente um caracol do cabelo do
rapazinho.  Comearam a chegar os primeiros telefonemas.  Havia dois telefones na secretria de Michael Moretti e parecia que no momento em que ele atendia um,
o outro  comeava a tocar.
 - Descobri algo sobre o gajo, Mike. H alguns anos teve um negcio com Big Joe Ziegler e Mel Cohen, em Kansas City.
 - Que se lixe o que ele fez h alguns anos. Onde est ele agora ?
 - Big Joe diz que no sabe nada dele h seis meses. Estou a tentar descobrir Mel Cohen.
 - Trata de o fazer!
 O telefonema que se seguiu no adiantou muito mais.
 - Fui ao quarto de Jackson, no motel. J se foi embora.
Levava uma mala castanha e uma lata de dois gales, talvez cheia de gasolina. O empregado no faz a menor ideia de para onde ele possa ter ido.
 - E os bares da vizinhana?
 - Um dos empregados reconheceu a descrio, mas diz que no era frequentador habitual. Foi l duas ou trs vezes depois do trabalho.
 - Sozinho?
 - Segundo o empregado, sim. No se mostrava interessado  pelas raparigas de l.
 - V os bares de maricas.
 O telefone voltou a tocar quase aps Michael ter desligado. Era Salvatore Fiore.
 - Colfax falou com o Chefe Notaras. A polcia recebeu um duplicado de uma cautela de penhor dos bens pessoais de Frank Jackson. Consegui o nmero da cautela e
o nome da casa de prego. Pertence a um grego chamado Gus Stavros, que  receptador de diamantes roubados.
 - Descobriram do que se trata?
 - S podemos sab-lo de manh, Mike. A loja est fechada.
Eu. . .
 Michael Moretti explodiu.
 - No podemos esperar at de manh. Vo l imediatamente !
 Houve um telefonema de Joliet. Michael teve dificuldade em seguir a conversa, pois o seu interlocutor fora sujeito a uma laringotomia e a sua voz parecia vir do
fundo de um poo.
 - O companheiro de cela de Jackson era um homem chamado  Mickey Nicola. Eram muito amigos.
 - Faz alguma ideia de onde se encontra agora Nicola?
 - Da ltima vez que ouvi falar dele, tinha ido para algures na Costa Oriental.  amigo da irm de Jackson. No sabemos onde  que ela vive.
 - Porque  que Nicola foi condenado?
 - Apanharam-no a assaltar uma joalharia.
A casa de penhores ficava situada em Spanish Harlem, na esquina da Segunda Avenida com a Rua Cento e Vinte e Quatro.  Era um prdio de dois andares, com aspecto
desagradvel; a  loja ficava no rs-do-cho e o proprietrio morava no primeiro andar.
 Gus Stavros foi acordado pelo claro de uma pilha que lhe batia no rosto. Comeou instintivamente a estender a mo para o boto do alarme, situado ao lado da cama.
 - Eu no o faria - aconselhou uma voz.
 O claro afastou-se e Gus Stavros sentou-se na cama. Olhou para os dois homens, postos um de cada lado, e soube  que no o tinham aconselhado mal. Um gigante e
um ano.  Stavros sentia-se  beira de um ataque de asma.
 - Vo l abaixo e levem o que quiserem - disse, arquejando.
- Juro que no me mexo.
 - Levante-se. Devagar - ordenou o gigante, Joseph Colella.  Gus Stavros saiu da cama, procurando no fazer movimentos  bruscos.  O baixinho, Salvatore Fiore, colocou-lhe
um papel  frente do nariz.
 - Isto  o nmero de uma cautela. Queremos ver a mercadoria.
 - Sim, senhor.
 Gus Stavros dirigiu-se ao rs-do-cho e os dois homens foram atrs dele. Stavros tinha instalado um complicado  sistema de alarme havia apenas seis meses. Existiam
 campainhas que poderia ter accionado, lugares secretos no  soalho em que poderia ter posto o p, e o auxlio no se faria tardar.  No entanto, no fez nada disso
porque o seu instinto lhe dizia que, antes de algum ter tempo de chegar at ele, seria um homem morto. Sabia que a sua nica hiptese era entregar aos dois homens
aquilo que pretendiam. S pedia a Deus que no o deixasse morrer com um maldito ataque de asma antes de se ver livre deles.  Acendeu as luzes do andar trreo e
todos se encaminharam para a parte da frente da loja. Gus Stavros no fazia a menor ideia do que estava a acontecer, mas reconhecia que poderia ter sido muito pior.
Se estes tipos tivessem ido ali apenas para o roubar, teriam limpo a casa de penhores e, a esta hora, j estariam longe. Parecia que estavam interessados apenas
em determinada mercadoria. Perguntava a si mesmo como teriam eles conseguido evitar os novos e sofisticados alarmes das portas e janelas, mas achou que era melhor
no perguntar nada.
 - Vamos a despachar! - ordenou Joseph Colella.
 Gus olhou de novo para o nmero da cautela e comeou a consultar o ficheiro. Encontrou o que procurava, fez um aceno  satisfeito com a cabea e, dirigindo-se 
enorme casa-forte,  abriu-a, sempre com os dois homens colados a ele. Stavros foi  remexendo ao longo de uma prateleira at encontrar um pequeno sobrescrito. Voltando-se
para os dois homens, abriu-o e extraiu dele um enorme anel de diamantes que as luzes do tecto faziam cintilar.
 -  isto - declarou Gus Stavros. - Dei-lhe quinhentos dlares por ele. - O anel valia pelo menos vinte mil dlares.
 - Deu quinhentos dlares a quem? - perguntou o pequeno Salvatore Fiore.
 Gus Stavros encolheu os ombros.
 - Todos os dias entram aqui centenas de clientes. O nome que est no sobrescrito  John Doe.
 Fiore tirou, no se sabe de onde, um bocado de tubo de chumbo e, com grande violncia, atingiu com ele o nariz de Gus Stavros. Este caiu no cho, gritando de dor
e ensopando-se no seu prprio sangue.
 - Quem  que lhe entregou isto? - inquiriu Fiore com muita calma.
 - No sei como se chama - arquejou Gus Stavros, tentando  respirar. - No me disse o nome. Juro por Deus!
 - Como era ele?
 O sangue inundava com tal rapidez a garganta de Gus Stavros, que ele mal conseguia falar. Estava a comear a perder os sentidos, mas sabia que se desmaiasse antes
de falar, nunca mais acordaria.
 - Deixe-me pensar - suplicou.
 Stavros tentou recordar-se, mas a dor entontecia-o a tal ponto que tinha dificuldade em faz-lo. Esforou-se por se lembrar do cliente a entrar na loja, a tirar
o anel de uma caixa para lho mostrar. A cena comeava a tornar-se ntida.
 - Era. . . era loiro e magro. . . - Engasgou-se com o  sangue. - Ajudem-me a levantar.
 Salvatore Fiore deu-lhe um pontap nas costelas.
 - Continue a falar.
 - Tinha barba, uma barba loira...
 - Fale-nos da pedra. De onde veio?
 Ainda que sofrendo terrivelmente, Gus Stavros hesitou. Se falasse, mais tarde seria um homem morto. Se se calasse, morreria agora. Decidiu adiar a morte o mais
possvel.
 - Veio do golpe ao Tiffany.
 - Quem  que entrou no golpe com o tipo loiro?
 Gus Stavros tinha cada vez mais dificuldade em respirar.
 - Mickey Nicola.
 - Onde  que podemos encontrar Nicola?
 - No sei. Ele. . . ele vive com uma rapariga qualquer em Brooklyn.
 Fiore ergueu o p e tocou com ele no nariz de Stavros. Gus Stavros gritou de dor.
 - Como se chama a gaja?
 - Jackson. Blanche Jackson.
 A casa ficava afastada da rua, era rodeada por uma pequena  cerca de estacas pintadas de branco e tinha  frente um jardim cuidadosamente tratado. Salvatore Fiore
e Joseph  Colella passaram por entre as flores e encaminharam-se para a porta das traseiras. Abriram-na em menos de cinco segundos. Entraram e dirigiram-se para
as escadas. Do quarto do  primeiro andar vinham os rudos de uma cama que rangia e as  vozes de um homem e de uma mulher. Os dois homens puxaram das pistolas e,
em silncio, comearam a subir as escadas.
 - Oh, Cristo! - dizia a voz da mulher. - s maravilhoso,  Mickey! D-mo mais teso, amor.
 -  todo para ti, querida, todo. No te venhas ainda.
 - Oh, no - gemeu a mulher. - Vamos vir-nos ao mesmo tem. . .
 Ela ergueu os olhos e soltou um grito. O homem voltou-se. Comeou a meter a mo por baixo da almofada, mas suspendeu o  gesto.
 - Okay - disse ele. - A minha carteira est no bolso das calas, em cima da cadeira. Peguem nela e ponham-se a mexer.  Estou ocupado.
 - No queremos a sua carteira, Mickey - elucidou Salvatore  Fiore.
 A irritao que se estampava no rosto de Mickey transformou-se em algo diferente. Sentou-se na cama, com movimentos  cautelosos, tentando analisar a situao.
A mulher tinha puxado o lenol para o peito e, no seu rosto, havia um misto de clera e de medo.  Nicola passou cuidadosamente os ps pela borda da cama e sentou-se
na beira, pronto a saltar sobre eles. O seu pnis tinha ficado flcido. Observava os dois homens,  espera de uma oportunidade.
 - O que querem!
 - Trabalha com Frank Jackson?
 - Vo-se lixar!
 Joseph Colella voltou-se para o companheiro.
 - Estoira-lhe os tomates.
 Salvatore Fiore ergueu a pistola e apontou.
 - Esperem um minuto! - gritou Mickey Nicola. - Vocs devem  estar doidos! - Mas, ao ver o olhar do homem mais baixo, confessou rapidamente. - Sim. Trabalhei com
Jackson.
 - Mickey! - exclamou a mulher, furiosa.
 Ele voltou-se para ela.
 - Est calada! Pensas que estou interessado em transformar-me num maldito eunuco?
 Salvatore Fiore virou-se para a mulher.
 - Voc  irm de Jackson, no ? - inquiriu.
 No rosto dela havia uma expresso encolerizada  - Nunca ouvi falar dele.
 Fiore ergueu a arma e aproximou-se mais da cama.
 - Tem dois segundos para responder, ou liquido ambos.
 Havia na voz dele algo que a fez gelar. Ele ergueu a pistola e o sangue comeou a fugir do rosto da mulher.
 - Diz-lhes o que eles querem saber - gritou Mickey Nicola.
 A arma subiu mais e ficou encostada ao peito da mulher.
 - No! Sim! Frank Jackson  meu irmo.
 - Onde podemos encontr-lo?
 - No sei. No me dou com ele. Juro por Deus que no sei ! Eu. . .
 A mo dele aumentou a presso sobre o gatilho.
 - Clara! - gritou ela. - Clara deve saber! Perguntem a Clara!
 - Quem  Clara? - inquiriu Joseph Colella.
 - . . .  uma empregada de mesa que Frank conhece.
 - Onde podemos encontr-la?
 Desta vez no houve qualquer hesitao. As palavras saram
velozes.
 - Trabalha num bar chamado The Shakers, em Queens.O corpo  dela comeou a tremer.
 Salvatore Fiore olhou para ambos e declarou educadamente:
 - Agora j podem continuar a fornicar. Bom dia.
 E os dois homens afastaram-se.
 Clara Thomas (nascida Thomachevsky) estava prestes a realizar o sonho da sua vida. Cantarolava alegremente  enquanto metia numa mala de carto as roupas de que
iria  necessitar no Canad. J tinha viajado com homens, mas desta vez era diferente. Ia ser a sua viagem de npcias. Frank  Jackson no era como os outros homens
que ela tinha  conhecido. Os homens que entravam no bar, que a apalpavam e lhe  beliscavam as ndegas eram uns autnticos animais. Frank  Jackson era diferente.
Era um verdadeiro gentleman. Clara  interrompeu a arrumao da mala para meditar na palavra:  gentleman. Nunca tinha pensado nisso mas Frank Jackson era-o. Tinha-o
visto apenas quatro vezes, mas sabia que o amava. Tinha a certeza de que ele se sentira atrado por ela desde o princpio, porque se sentava sempre na sua mesa.
E, da  segunda vez, tinha-a acompanhado a casa, depois de o bar  fechar.  Se arranjei um bonito como ele,  porque continuo a ser atraente, pensou Clara, muito
presunosa. Interrompeu de novo o que estava a fazer para se ir ver ao espelho da casa  de banho. Talvez estivesse um pouco pesada e tivesse o cabelo demasiado
ruivo, mas a dieta trataria do peso excessivo, e iria ser mais cuidadosa da prxima vez que secasse o cabelo. De qualquer maneira, no se sentia muito descontente
com a imagem que o espelho lhe devolvia. C a pequena continua com bom aspecto", reconheceu para si mesma. Sabia que Frank Jackson queria ir com ela para a cama,
ainda que nunca lhe tivesse tocado com um dedo. Era, na verdade, um homem invulgar. Havia nele - e Clara franziu a testa,  procura da palavra exacta - qualquer
coisa de divino. Clara tinha sido educada na religio catlica e sabia que era um sacrilgio pensar uma coisa destas, mas achava Frank Jackson um pouco  parecido
com Jesus. Imaginou como seria Frank na cama. Bom, se fosse tmido, teria de lhe ensinar um ou dois  truques. Ele tinha-lhe dito que casariam assim que chegassem
ao  Canad. O sonho ia tornar-se realidade. Clara consultou o  relgio e achou que era melhor apressar-se. Prometera a Frank
Ir busc-lo s sete e meia ao motel.  Pelo espelho, viu-os entrar no quarto. Tinham vindo no
sabia de onde. Um gigante e um tipo baixinho. Clara viu-os aproximar-se dela.
 O mais baixo olhou para a mala.
 - Aonde vai, Clara?
 - No tm nada com isso. Peguem no que quiserem e desapaream. Se houver nesta espelunca algo que valha mais do que dez dlares, engulo o que disse.
 - Eu  que vou faz-la engolir uma coisa - declarou o enorme Colella.
 - Calma a, brutamontes - ripostou Clara. - Se esto a pensar violar-me, participo-lhes que o mdico est a tratar-me de uma gonorreia.
 - No queremos fazer-lhe mal - explicou Salvatore Fiore. -  S queremos saber onde se encontra Frank Jackson.
 Repararam na transformao que se operou nela. O seu corpo ficou subitamente tenso e o rosto tornou-se-lhe  impenetrvel.
 - Frank Jackson? - Havia na sua voz uma nota de profunda  atrapalhao. - No conheo nenhum Frank Jackson.
 Salvatore Fiore tirou do bolso um tubo de chumbo e deu um passo para a frente.
 - No tenho medo de si - declarou Clara. - Eu...
 O brao dele fustigou-lhe o rosto e, por entre a dor que a cegava, sentiu os dentes esmigalharem-se-lhe dentro da boca como pedacinhos de cascalho. Abriu a boca
para falar e o sangue comeou a escorrer. O homem mais alto ergueu de novo o tubo.
 - No, no faa isso, por favor! - suplicou ela.
 - Onde podemos encontrar o tal Frank Jackson? - inquiriu  Joseph Colella com bons modos.
 - Frank est. . est. . .
 Clara imaginou o seu encantador e amvel homem nas mos destes dois monstros. lam fazer-lhe mal e, instintivamente, soube que Frank seria incapaz de suportar a
 dor. Era demasiado sensvel. Se ela conseguisse arranjar maneira de o poupar, ele ficar-lhe-ia grato para sempre.
 - No sei.
 Salvatore Fiore deu um passo em frente e Clara ouviu o som da sua prpria perna a partir-se, ao mesmo tempo que sentia uma dor intensa. Caiu no cho, incapaz de
gritar  devido ao sangue que lhe inundava a boca.  Joseph Colella inclinou-se para ela e, com um ar afvel, disse:
 - Talvez no esteja a compreender. No queremos mat-la.
Vamos apenas continuar a parti-la aos bocadinhos. Quando chegarmos ao fim, voc parecer um bocado de lixo em que nem os gatos vo querer tocar. Acredita?
Clara acreditava. Frank Jackson nunca mais a quereria ver. la entreg-lo a estes dois filhos da me. O sonho j no se tornaria realidade, j no haveria casamento.
O homem mais baixo estava a aproximar-se outra vez com o tubo de chumbo na mo.
 - No. Por favor, no - gemeu Clara. - Frank est no... no Brookside Motel, em Prospect Avenue. Ele...
 Perdeu os sentidos.
 Joseph Colella aproximou-se do telefone e marcou um nmero.
 - Sim? - respondeu Michael Moretti.
 - Brookside Motel, em Prospect Avenue. Quer que o levemos  para a?
 - No. Eu vou l ter. No o deixem ir embora.
 - Ele no ir a lado nenhum.
O garoto estava a mexer-se de novo. O homem viu Joshua abrir os olhos. O rapaz olhou para o arame que lhe envolvia os pulso e as pernas e em seguida, ao ver Frank
Jackson, comeou a recordar-se.  Era o homem que lhe enfiara aqueles comprimidos pela boca abaixo e o raptara. Joshua aprendera, na televiso, tudo a respeito de
raptos. A polcia viria salv-lo e meteria o  homem na cadeia. Joshua estava resolvido a no mostrar o medo que sentia, porque queria dizer  me que tinha sido
muito corajoso.
 - A minha me vai trazer o dinheiro - asseverou Joshua ao homem -, por isso no precisa de me fazer mal.
 Frank Jackson aproximou-se da cama e sorriu ao mido.
Era, na verdade, uma criana encantadora. Gostaria de poder levar o rapaz para o Canad, em vez de Clara. Contra a sua vontade, Frank Jackson consultou o relgio.
Chegara o momento  de preparar tudo.  O garoto mostrou-lhe os pulsos amarrados. O sangue tinha secado.
 - Importa-se de desatar isto, por favor? - pediu  delicadamente. - Eu no fujo.
 Frank Jackson gostou que o rapaz tivesse dito por favor". Era um sinal de boa educao. Hoje em dia, quase todos os midos so malcriados. Andam pelas ruas como
animais  selvagens.  Frank Jackson foi  casa de banho, onde tinha voltado a pr a lata de gasolina na banheira, para no sujar a carpete do quarto. Orgulhava-se
em saber ocupar-se de pormenores como este. Trouxe a lata para o quarto e pousou-a. Aproximou-se do rapaz, ergueu nos braos o corpo amarrado e estendeu-o  no cho.
Em seguida pegou no martelo e nos pregos e ajoelhou-se ao lado do garoto.  Joshua Parker estava a observ-lo com os olhos muito abertos.
 - O que vai fazer com isso?
 - Uma coisa que te far muito feliz. J ouviste falar de Jesus Cristo? - Joshua fez um sinal afirmativo com a cabea.
- Sabes como  que ele morreu?
 - Na cruz.
 - Muito bem. s um rapaz esperto. No h aqui nenhuma cruz, por isso teremos de nos arranjar como pudermos.
 Os olhos do mido comeavam a encher-se de terror.
 - No precisas de ter medo - disse Frank Jackson. - Jesus  no teve medo. No tenhas medo.
 - No quero ser Jesus - murmurou Joshua. - Quero ir para casa.
 - Vou mandar-te para junto de Jesus.
 Frank Jackson tirou do bolso traseiro um leno e aproximou-o  da boca do rapaz. Joshua cerrou os dentes.
 - No me faas zangar.
 Frank Jackson apertou as bochechas de Joshua entre o polegar  e o indicador e obrigou-o a abrir a boca. Empurrou o leno para dentro da boca de Joshua e tapou-lha
com um bocado  de adesivo, para manter o leno no lugar. Joshua esforava-se  por se libertar dos arames que lhe atavam os pulsos e as mos, que comearam de novo
a sangrar. Frank Jackson passou as mos pelos golpes recentes.
 - O sangue de Cristo - disse num tom suave.  Pegou numa das mos do garoto, voltou-a e encostou-a ao soalho. Depois pegou num prego. Segurando-o com uma das mos
de encontro  palma da mo de Joshua, Frank Jackson pegou no martelo com a outra. Bateu no prego que,  trespassando a mo do garoto, se foi cravar no cho.
 A limusina preta de Michael Moretti estava parada na Via Rpida Brooklyn-Queens, no meio do trfego matinal que fora interrompido por um camio de hortalia que
se tinha voltado, espalhando a sua carga pela estrada. Gerara-se um engarrafamento.
 - Encosta-te ao outro lado da estrada e ultrapassa-ordenou  Michael Moretti a Nick Vito.
 - Est l  frente um carro da polcia, Mike.
 - Vai l e diz ao chefe da patrulha que lhe quero falar.
 - Sim, chefe.
 Nick Vito saiu do carro e encaminhou-se a toda a pressa para o carro-patrulha. Passados alguns momentos, regressou acompanhado de um sargento da polcia. Michael
Moretti abriu a janela do carro e estendeu a mo. Tinha l dentro cinco notas de cem dlares.
 - Tenho muita pressa.
 Passados dois minutos, o carro da polcia, com a luz  vermelha a acender e a apagar, guiava a limusina para l dos destroos espalhados pela estrada. Quando saram
do  engarrafamento, o sargento apeou-se do carro da polcia e  aproximou-se novamente da limusina.
 - Quer que lhe arranje uma escolta para algum lado, Mr. Moretti?
 - No, obrigado - respondeu Michael. - Procure-me na segunda-feira. - E para Nick Vito: - Despacha-te!
O letreiro de non da fachada anunciava:
 BROKSIDE MOTEL
 INDIVIDUAIS - DUPLOS
PREOS DIRIOS E SEMANAIS
 INDIVIDUALES - DOBLES
 PRECIOS ESPECIALES
Joseph Colella e Salvatore Fiore estavam sentados no carro,  em frente do Bungalow 7. Minutos antes, tinham ouvido uma martelada l dentro, o que lhes provou que
Frank Jackson  ainda l se encontrava.  Devamos entrar e liquid-lo", pensou Fiore. Mas Michael
Moretti tinha-lhes dado outras instrues.  Continuaram a aguardar.
 No interior do Bungalow 7, Frank Jackson fazia os  preparativos finais. O garoto decepcionara-o. Tinha perdido  os sentidos. Jackson preferia ter esperado que
Joshua  recuperasse a conscincia antes de lhe cravar os outros pregos, mas estava  a fazer-se tarde. Pegou na lata de gasolina e borrifou o corpo do rapaz, mas
tendo o cuidado de no atingir aquele belo rosto. Imaginou como seria o corpo coberto pelo pijama e desejou ter tempo para - mas no, isso seria uma loucura. Clara
devia estar a chegar de um momento para o outro. Precisava de estar pronto para partir quando ela viesse. Meteu as mos nos bolsos, tirou uma caixa de fsforos
e, com todo o  cuidado, colocou-a ao lado da lata de gasolina, do martelo e  dos pregos. As pessoas no compreendiam como era importante ter cuidado.  Frank Jackson
consultou outra vez o relgio e perguntou a si mesmo o que teria feito atrasar Clara.
A limusina travou bruscamente em frente ao Bungalow 7 e Michael Moretti saltou para fora do carro. Os dois homens que se encontravam no Sedan correram ao seu encontro.
 Joseph Colella apontou para o Bungalow 7.
 - Ele est ali.
 - E o garoto?
 O gigante encolheu os ombros.
 - No sei. Jackson tem as cortinas corridas.
 - J podemos ir busc-lo? - perguntou Salvatore Fiore.
 - Esperem aqui.
 Os dois homens contemplaram-no, surpreendidos. Ele era um caporegime. Tinha soldados que faziam os golpes por ele, enquanto ele ficava em segurana. Mas desta
vez ia ele  prprio. No estava certo.
 - Chefe, Sal e eu podemos. . . - comeou Joseph Colella.
 Mas Michael Moretti, estava j a encaminhar-se para a porta  do Bungalow 7, levando na mo uma pistola com um silenciador.  Parou durante um segundo,  escuta.
Em seguida recuou um  passo e arrombou a porta com um forte pontap.  Moretti compreendeu logo o que se passava: o homem de barbas ajoelhado no cho, ao lado do
rapazinho; a mo do petiz pregada ao soalho, o quarto tresandando a gasolina.  O homem das barbas tinha-se voltado para a porta e olhava para Michael com os olhos
muito abertos. As ltimas palavras
que murmurou foram:
 - Voc no  Cu. . . .
 A primeira bala de Michael acertou-lhe no meio da testa. A segunda bala despedaou-lhe a faringe e a terceira bala  atingiu-o no corao. Mas, nessa altura, ele
j no sentia  nada.  Michael Moretti aproximou-se da porta e fez um sinal aos homens que se encontravam l fora. Entraram apressadamente no quarto. Michael Moretti
ajoelhou-se ao lado do pequeno e tomou-lhe o pulso. Estava muito fraco, mas ele vivia ainda. Voltou-se para Joseph Colella.
 - Telefona ao Dr. Petrone. Diz-lhe que vamos  caminho.
Assim que o telefone tocou, Jennifer levantou o auscultador.  No foi capaz de encontrar resposta.
 - Est?
 - Vou levar o seu filho para casa - anunciou a voz de Michael Moretti.
Joshua choramingava enquanto dormia. Jennifer inclinou-se e  abraou-o, apertando-o a si com ternura. Estava a dormir quando Michael Moretti o trouxera para casa.
Quando Jennifer viu o corpo inconsciente de Joshua, os seus pulsos e tornozelos envoltos em ligaduras, o seu corpo coberto de gaze, quase enlouqueceu. O mdico,
que Michael tinha trazido  consigo, levou meia hora a convencer Jennifer de que Joshua  ia ficar bom.
 - A mo vai sarar - assegurou-lhe o mdico. - Ficar uma pequena cicatriz mas, felizmente, no foram atingidos nervos nem tendes. As queimaduras de gasolina so
 superficiais. Banhei-lhe o corpo em leo mineral. Olharei por  ele os prximos dias. Vai ficar bom, acredite.  Antes de o mdico se ir embora, Jennifer pediu-lhe
que examinasse Mrs. Mackey.  Joshua foi metido na cama e Jennifer ficou ao lado dele, para o acalmar quando ele acordasse. Estava agora a mexer-se e abriu os olhos.
 Quando viu a me, disse, com ar fatigado:
 - Eu tinha a certeza que havias de aparecer, Me. Deste ao homem o dinheiro do resgate?
 Jennifer fez um sinal afirmativo com a cabea, pois no confiava na sua voz.
 Joshua sorriu.
 - Espero que ele compre muitos rebuados com dinheiro e fique com dores de estmago. No era engraado?
 - Muito engraado, querido - murmurou Jennifer. - Sabes o que tu e eu vamos fazer na prxima semana? Vou levar-te a. . .  Joshua voltara a adormecer.
 S muitas horas depois  que Jennifer regressou  sala de estar. Ficou surpreendida ao ver que Michael Moretti ainda l se encontrava. Isso f-la, de certo modo,
recordar-se da  primeira vez que vira Adam Warner, quando ele a esperara no seu pequeno apartamento.
 - Michael No era capaz de encontrar as palavras exactas. - Eu. . . eu no consigo dizer-lhe. . . como lhe estou grata.
 Ele olhou-a e acenou com a cabea.  Esforou-se por fazer a pergunta.
 - E. . . e Frank Jackson?
 - No voltar a incomodar ningum.
 Aquilo queria dizer que o pesadelo terminara. Joshua estava  salvo. Nada mais tinha importncia.  Jennifer olhou para Michael Moretti e pensou: Devo-lhe tanto!
Como poderei eu pagar-lhe?"  Michael estava a observ-la, em silncio.


LIVRO
II

Jennifer Parker estava nua, olhando atravs da enorme janela  panormica sobranceira  baa de Tnger. Era um dia de Outono, ameno e claro, e a baa estava cheia
de velas brancas que deslizavam e de esguios barcos a motor. Alguns iates de grandes dimenses estavam ancorados no porto. Jennifer sentiu  a presena dele e voltou-se.
 - Gostas da vista?
 - Adoro-a.
Ele contemplou-Lhe o corpo nu.
 - Tambm eu. - Pousara as mos sobre os seios dela e acariciava-os. - Vamos outra vez para a cama.
 O seu contacto fez arrepiar Jennifer. Ele pedia-lhe coisas que mais nenhum homem ousara pedir-lhe, e fazia-lhe coisas que nunca ningum lhe fizera at a.
 - Sim, Michael.
 Voltaram para o quarto onde, por um fugaz instante, Jennifer pensou em Adam Warner, mas depois esqueceu tudo para alm do que lhe estava a acontecer.  Jennifer
nunca tinha conhecido ningum como Michael Moretti. Era insacivel. O corpo dele, atltico, esguio e forte, tornou-se parte do corpo de Jennifer, arrastando-a no
seu  delrio, numa onda crescente de esmagadora excitao que ia aumentando at ela sentir desejos de gritar de alegria  selvagem. Quando acabaram de fazer amor
e Jennifer se deixou ficar imvel, esgotada, Michael recomeou de novo, e Jennifer  sentiu-se outra vez transportada a um xtase quase  insuportvel.  Ele estava
agora em cima dela, contemplando-lhe o rosto corado e feliz.
 - Gostas, no  verdade, amor?
 - Sim.
 Sentia-se envergonhada, envergonhada por necessitar tanto dele, por necessitar tanto do seu amor.  Jennifer recordou a primeira vez. Fora na manh em que Michael
Moretti tinha trazido Joshua so  e salvo para casa. Jennifer acabava de saber que Frank Jackson tinha sido morto pelo prprio Michael Moretti. O homem que se encontrava
 sua frente tinha-lhe salvo o filho, tinha matado por causa dela. Jennifer sentiu-se  invadir por um sentimento profundo e primitivo.
 - Como poderei agradecer-lhe? - perguntara Jennifer.
 E Michael Moretti aproximara-se dela, tomara-a nos braos e beijara-a. Por fidelidade a Adam, Jennifer fingira  convencer-se a si prpria de que aquele beijo no
teria  consequncias; mas, pelo contrrio, foi o incio de algo.  Sabia quem era Michael Moretti mas, no entanto, isso no tinha menor  importncia em comparao
com o que ele tinha feito. Desistiu de pensar e deixou que as emoes tomassem conta dela.  Subiram para o quarto e Jennifer disse para consigo que estava a recompensar
Michael pelo que tinha feito por ela mas, uma vez na cama, foi algo que Jennifer nunca tinha sonhado poder experimentar.  Adam Warner tinha feito amor com ela,
mas Michael Moretti  possua-a. Provocava-lhe sensaes raras por todo o corpo.  Era como se ele estivesse a fazer amor por entre luzes brilhantes e intensas, e
as cores mudavam constantemente, como num caleidoscpio prodigioso. Num momento fazia amor com suavidade e delicadeza mas, logo a seguir, tornava-se cruel, esmagador
e exigente, e estas variaes faziam enlouquecer Jennifer. Retirava-se dela, arreliando-a,  fazendo-lhe aumentar o desejo e quando ela estava  beira da  satisfao,
afastava-se.  Quando j no podia suportar mais, ela implorava:
 - Por favor, possui-me! Possui-me!
 E o seu rgo erecto comeava a penetr-la de novo at ela gritar de prazer. J no era uma mulher que pagava uma  dvida. Era uma escrava de algo que nunca conhecera
at a.
Michael ficou quatro horas com ela e, quando ele partiu,  Jennifer soube que a sua vida tinha mudado.  Ficou deitada na cama, a pensar no que lhe acontecera, e
tentando compreender. Como era possvel que, amando Adam com tanta intensidade, se tivesse deixado subjugar daquela maneira por Michael Moretti? So Toms de Aquino
tinha dito que quando se atinge o ponto mais alto do pecado, tudo deixa de ter importncia. Jennifer perguntava a si  prpria se o mesmo se passaria em relao
ao amor. Tinha  conscincia de que aquilo que fizera fora, em parte, devido a uma  profunda solido. - Vivera tempo demasiado com uma iluso,  com um homem que
no podia ver nem possuir, embora soubesse que amaria Adam para sempre. - Ou seria apenas uma i recordao desse amor?  Jennifer no tinha a certeza do que sentia
por Michael. ? Gratido, sim. - Mas isso era apenas uma pequena parte. -  Era  mais do que isso. - Muito mais. - Sabia quem era e o que era  Michael Moretti. -
Tinha matado por ela, mas matara igual  mente por outras pessoas. - Tinha assassinado homens por  dinheiro, pelo poder, por vingana. - Como poderia sentir o  que
I sentia por um homem destes? Por que motivo tinha ela  consentido que ele a possusse e excitasse daquela maneira? Sentia-se envergonhada e pensou: Que espcie
de pessoa serei  eu?  Os jornais da tarde traziam a notcia de um incndio num  motel, em Queens. - Os restos de um homem no identificado ? tinham sido encontrados
nas runas. - Suspeitava-se de fogo posto.  Depois do regresso de Joshua, Jennifer tinha tentado que  tudo decorresse para ele dentro da maior normalidade  possvel,
receosa do trauma que a noite anterior pudesse ter provocado nele. Quando Joshua acordou, Jennifer preparou uma  refeio e levou-lha  cama. Era uma refeio absurda,
com  posta de todos os petiscos que ele apreciava: um cachorro, ? uma sanduche de manteiga de amendoim, batatas fritas,  bolos com creme e cerveja de razes t.
 - Devias t-lo visto, Me - disse Joshua entre duas  dentadas. - Era doido! - Mostrou a mo ligada. - Achas que ele estava mesmo convencido de que eu era Jesus
Cristo?
 - No. . . no sei, querido.
 - Porque  que as pessoas se matam umas s outras?
 - Bem. . . - E o pensamento de Jennifer regressou de sbito  a Michael Moretti. Teria ela o direito de o julgar? Desconhecia as foras terrveis que tinham influenciado
a sua ? vida, que o tinham transformado no que era agora. Necessitava  de saber mais a respeito dele, de o conhecer e compreender.  - Tenho de ir amanh  escola?
- perguntava Joshua.
 Jennifer apertou-o nos braos.
 - No, querido. Vamos ficar os dois em casa e fazer gazeta  durante toda a semana. Vamos. . .
 O telefone tocou nesse momento.  Era Michael.
 - Como est Joshua?
 - Est ptimo... obrigada.
 - E como te sentes?
 Jennifer sentiu um n de embarao na garganta.
 - Estou. . . estou. . . sinto-me bem.
 Ele emitiu um riso breve.
 - Ainda bem. Vejo-te amanh ao almoo. No Donato's, em Mulberry Street. Ao meio-dia e meia.
 - Com certeza, Michael. Ao meio-dia e meia.
 As palavras de Jennifer no obtiveram resposta.  O gerente do Donato's conhecia Michael e reservara-lhe a melhor mesa do restaurante. As pessoas detinham-se  constantemente
para o cumprimentarem e Jennifer ficou mais  uma vez surpreendida pelo modo como todos o adulavam. Era  estranho o facto de Michael Moretti lhe lembrar tanto Adam
Warner pois, cada um deles, a seu modo, era um homem poderoso.  Jennifer comeou a interrogar Michael sobre o seu passado, desejosa de saber como e por que motivo
tinha comeado a levar aquela vida.  Ele interrompeu-a.
 - Pensas que estou metido nisto por causa da minha famlia,  ou porque fui pressionado por algum"
 - Bom... sim, Michael.  claro.
 Ele riu.
 - Trabalhei como um negro para chegar at aqui. Adoro isto. Adoro o dinheiro. Adoro o poder. Sou um rei, amor, e adoro ser rei.  Jennifer observava-o, tentando
compreender.
 - Mas no podes gostar. . .
 - Escuta! - O silncio dele convertera-se de sbito em palavras, frases e confidncias que brotavam como se ele as tivesse calado durante anos,  espera de algum
com quem as partilhar. - O meu velho era um z-ningum.
 - Um z-ningum?
- Exacto. h, no mundo, bilies deles, e no  possvel distingui-los uns dos outros. Era sapateiro. Trabalhou como um escravo para que no passssemos fome. No
tnhamos nada. A pobreza s  romntica nos livros. Na vida real, so quartos malcheirosos com ratazanas e baratas, e comida m que nunca chega para todos. Quando
eu era mido, fazia tudo o que podia para ganhar um dlar. Fazia recados aos  ricalhaos, levava-lhes caf e cigarros, arranjava-lhes  raparigas fazia tudo para
conseguir sobreviver. Bom, num  certo Vero fui para a Cidade do Mxico. No tinha dinheiro, no tinha nada. Estava na misria. Uma noite encontrei uma rapariga
 que me convidou para um grande jantar, num restaurante de luxo.  sobremesa serviram um bolo especial mexicano dentro  do qual havia uma pequena boneca de barro.
Uma das pessoas que estavam na mesa explicou-me que era costume que aquele que ganhasse a boneca de barro teria de pagar o jantar. A boneca de barro calhou-me a
mim. - Fez uma pausa. -  Engoli-a.  Jennifer colocou a sua mo sobre a dele.
 - Michael, tambm outras pessoas cresceram na pobreza e...
 - No me confundas com as outras pessoas. - O tom da sua voz era duro e inflexvel. - Eu sou eu. Sei quem sou, amor. Pergunto a mim mesmo se tu sabes quem s.
 - Suponho que sim.
 - Porque foste comigo para a cama?
 Jennifer hesitou.
 - Bom, sentia-me. . . . grata e. . . .
 - Merda ! Desejavas-me.
 - Michael, eu. . .
 - No preciso de comprar as minhas mulheres. Nem com dinheiro nem com gratido.
 Jennifer era obrigada a admitir que ele tinha razo. Tinha-o desejado, tal como ele a desejara a ela. E, no entanto,  este homem tentou destruir-me um dia, pensou
Jennifer. Como poderei esquecer-me disso?  Michael inclinou-se para a frente e pegou na mo de Jennifer, voltando-lhe a palma para cima. Muito devagar, acariciou-lhe
cada dedo, cada n, sem deixar de a fitar.
 - No me enganes. Nunca, Jennifer.
 Ela sentia-se impotente. O que quer que era que existia entre eles, transcendia o passado.
Foi quando estavam a comer a sobremesa que Michael declarou :
 - A propsito, tenho um caso para ti.
 Foi como se tivesse recebido uma bofetada.
 Jennifer olhou-o fixamente.
 - Que espcie de caso?
 - Um dos meus rapazes, Vasco Gambutti, foi preso por ?matar um chui. Quero que o defendas.
 Jennifer sentiu-se invadida por um misto de sofrimento e de raiva, pois verificava que ele continuava a tentar servir-se dela.
 - Lamento, Michael - respondeu ela com muita calma.
- J to disse. No posso envolver-me com. . . com os teus. . amigos.
 Ele esboou um sorriso lento.
 - Conheces aquela histria do leozinho em frica? Pela primeira vez vai sem a me beber gua ao rio, e  derrubado por um gorila. Quando est a levantar-se, 
empurrado por ? um leopardo. Aparece uma manada de elefantes que quase o esmaga. O leozinho, regressa a casa muito assustado e diz: Sabes uma coisa, Me? L fora
 uma selva!  Estabeleceu-se um profundo silncio entre ambos. Era uma selva l fora, pensava Jennifer, mas ela conservara-se sempre  beira dela, livre para fugir
assim que lhe apetecesse. Estabelecera regras e os seus clientes tinham de se sujeitar  a elas. Mas agora, Michael Moretti tinha modificado tudo. Esta era a  selva
dele. Jennifer tinha medo dela, medo de ser apanhada nela. No entanto, quando pensou no que Michael tinha feito por ela, achou que estava a pedir uma coisa insignificante.
 Ia prestar a Michael este favor.  - Vamos ocupar-nos do caso Vasco Gambutti - participou Jennifer a Ken Bailey.  Ken olhou para Jennifer sem poder acreditar.
 - Ele pertence  Mafia!  um dos homens de confiana de Michael Moretti. No  o gnero de cliente que possamos aceitar.
 - Vamos aceitar este.
 - Jennifer, no podemos misturar-nos com essa gente.
 - Gambutti tem direito a um julgamento imparcial tal como qualquer outra pessoa. - As palavras soaram a falso, e deu-se conta disso.
 - No vou deix-la. . .
 - Enquanto este escritrio for meu, sou eu quem decide - notou a surpresa e a dor que se reflectiram nos olhos dele.  Ken acenou com a cabea e saiu do gabinete.
Jennifer esteve  tentada a cham-lo, para lhe explicar tudo. Mas como poderia faz-lo? Nem sequer tinha a certeza de conseguir  explic-lo a si mesma.
 Quando Jennifer se encontrou pela primeira vez com Vasco Gambutti, tentou consider-lo um cliente igual aos outros. J se tinha ocupado de clientes acusados de
assassnio mas,  fosse como fosse, este era diferente. Este homem era membro  de uma vasta rede de crime organizado, de um grupo que extorquia  ao pas incalculveis
bilies de dlares, de uma sociedade  secreta que, se necessrio, mataria para se proteger.  A evidncia contra Gambutti era esmagadora. Tinha sido apanhado durante
o assalto a uma loja de peles, e matara um polcia que, embora no estivesse de servio, tentara det-lo. Os jornais da manh anunciavam que Jennifer Parker ia
ser a advogada de defesa.  O Juiz Lawrence Waldman telefonou.
 -  verdade, Jennie?
Jennifer compreendeu imediatamente ao que ele se queria referir.
 - , Lawrence.
 Seguiu-se uma pausa.
 - Estou surpreendido. Sabe quem  ele,  claro.
 - Sei, sim.
 - Est a pisar um terreno perigoso.
 - Nem por isso. Estou a prestar um favor a um amigo.
 - Compreendo. Tenha cuidado.
 - Terei - prometeu Jennifer.
 S depois  que Jennifer reparou que ele no tinha falado em jantarem juntos.
 Depois de ter examinado o material reunido pela sua equipa,  Jennifer concluiu que no tinha nenhum caso.  Vasco Gambutti tinha sido apanhado em flagrante num
roubo/assassnio, e no existiam circunstncias atenuantes. Alm disso, havia sempre uma forte carga emocional no  esprito dos jurados quando a vtima era um polcia.
 Chamou Ken Bailey e deu-lhe as suas instrues.  Ele no proferiu palavra, mas Jennifer sentia a sua  desaprovao e isso f-la entristecer. Prometeu a si prpria
 que seria este o ltimo servio que prestaria a Michael.  O telefone particular tocou e ela atendeu.
 - Ol, querida. Desejo-te. Vem ter comigo daqui a meia-hora  - disse Michael.
 Ficou a escut-lo, sentindo-lhe j os braos  sua volta, o corpo dele apertando-se contra o dela.
 - L estarei - respondeu Jennifer.
 A promessa que fizera a si prpria tinha sido esquecida.  O julgamento Gambutti demorou dez dias. A imprensa encontrava-se l em peso, vida de ver o Procurador
Distrital Di Silva e Jennifer Parker de novo em luta acesa. Di Silva tinha-se preparado muito bem e, deliberadamente, no  completava as suas ideias, deixando que
os jurados aceitassem  as insinuaes que ele fazia e se baseassem nelas, imaginando nos seus espritos horrores ainda maiores do que aqueles que  ele descrevera.
 Jennifer manteve-se tranquila ao longo do depoimento, raras  vezes se dando ao trabalho de levantar objeces.  No ltimo dia de julgamento, fez a sua jogada.
 H na lei um ditado que diz que, quando temos uma defesa fraca, devemos julgar o nosso adversrio. Uma vez que  Jennifer no podia defender Vasco Gambutti, tinha
decidido  julgar Scott Norman, o polcia assassinado. Ken Bailey conseguira descobrir tudo a respeito de Scott Norman. A sua folha de servio no era impecvel
mas, antes de terminar, Jennifer conseguiu faz-la parecer dez vezes pior. Norman pertencera   polcia durante vinte anos, e, ao longo desse perodo,  tinha sido
suspenso trs vezes por violncia injustificada. Tinha atingido com um tiro e quase matado um suspeito desarmado, dera uma tareia a um bbado, num bar, e mandara
para o hospital um homem envolvido numa briga domstica. Embora estes incidentes tivessem ocorrido ao longo de um perodo de vinte anos, Jennifer apresentou-os
como se o falecido tivesse cometido uma srie interminvel de actos desprezveis.  Jennifer chamou ao estrado diversas testemunhas que depuseram contra o polcia
morto, e Robert Di Silva nada pde fazer contra isso.  No seu resumo final, Di Silva disse:
 - Lembrem-se, senhoras e senhores do jri, de que no  o agente Scott Norman que estamos aqui a julgar. O agente Scott Norman foi a vtima. Foi assassinado -
e apontou pelo  ru, Vasco Gambutti.  Mas, mesmo enquanto falava, o Procurador Distrital  reconhecia que no havia nada a fazer. Jennifer tinha  conseguido que
o agente Scott Norman parecesse um ser humano to  desprezvel como Vasco Gambutti. J no era o nobre polcia que dera a vida para prender um criminoso. Jennifer
Parker distorcera-lhe a imagem a tal ponto, que a vtima no era melhor do que o seu assassino.  O jri pronunciou um veredicto de no culpado da acusao de  assassnio
do primeiro grau, e condenou Vasco Gambutti por  homicdio involuntrio. Foi uma derrota assombrosa para o Procurador Distrital Di Silva, e os meios de  informao
no tardaram a anunciar mais uma vitria para  Jennifer Parker.
 - Pe o teu vestido de seda.  uma festa - disse-lhe Michael.
 Jantaram numa marisqueira na Village. O proprietrio do restaurante mandou para a mesa uma garrafa de excelente champanhe, e Michael e Jennifer fizeram um brinde.
- Estou muito satisfeito.
 Dito por Michael, era como se recebesse um beijo.  Ele depositou-lhe nas mos uma caixinha embrulhada em papel encarnado e branco.
 - abre-a.
 Viu-a desatar o fio dourado e levantar a tampa. Dentro da caixa encontrava-se uma enorme esmeralda quadrada, rodeada de  diamantes.  Jennifer olhou-a, surpreendida.
Comeou a protestar.
 - Oh, Michael! - E reparou na expresso de orgulho e de prazer do rosto dele.
 - Michael. . . o que te hei-de eu fazer?  E pensou: Oh, Jennifer, o que te hei-de eu fazer?"
 - Precisas disto para esse vestido. - Colocou-lhe o anel no dedo mdio da mo esquerda.
 - No. . . no sei o que dizer. Obrigada.  uma autntica festa, no ?
 Michael sorriu.
 - A festa ainda no comeou. Isto  apenas o preldio.
 Iam na limusina, a caminho do apartamento que Michael tinha na zona residencial da cidade. Michael premiu um boto e fez subir o vidro que separava do motorista
a parte  traseira do carro.  Estamos isolados no nosso pequeno mundo?,, pensou  Jennifer. A proximidade de Michael excitava-a.  Voltou-se para lhe contemplar os
olhos negros, ele  aproximou-se dela, fez-lhe deslizar  a mo pelas coxas e o  corpo de Jennifer incendiou-se imediatamente.  Os lbios de Michael encontraram os
dela e os corpos de ambos estreitaram-se. Jennifer sentiu-lhe a forte virilidade  e escorregou para o cho do carro. Comeou a fazer amor com ele, acariciando-o
e beijando-o at que Michael comeou a gemer, e Jennifer gemeu com ele, movendo-se cada vez mais depressa at sentir os espasmos do corpo dele.  Tinha comeado
a festa.  Jennifer meditava agora sobre o passado, deitada na cama do quarto de hotel, em Tnger, ao mesmo tempo que chegavam at ela os rudos de Michael no duche.
Sentia-se satisfeita e  feliz. A nica coisa que lhe faltava era o filho. Tinha pensado levar Joshua em algumas das viagens que fazia mas, instintivamente, desejava
conserv-lo afastado de Michael Moretti. Joshua nunca deveria ser afectado por aquela parte da sua vida. Jennifer tinha a impresso de que a sua vida era formada
por uma srie de compartimentos: havia Adam, havia o  filho e havia Michael Moretti. E cada um deles tinha de ser mantido isolado dos outros.  Michael saiu da casa
de banho com uma toalha enrolada em volta da cintura. Os plos do seu corpo brilhavam devido  humidade do duche. Era um animal belo e excitante.
 - Veste-te. Temos muito que fazer.
Foi acontecendo to gradualmente que parecia nem estar a acontecer. Tinha comeado com Vasco Gambutti e, pouco tempo depois, Michael pedira a Jennifer que se ocupasse
de outro caso, e depois de outro, at que, em breve, se tornou num fluir constante de casos.
 Michael telefonava a Jennifer e dizia:
 - Preciso da tua ajuda, amor. Um dos meus rapazes est com um problema.
 E Jennifer recordava-se das palavras do Padre Ryan: Um amigo meu est com um pequeno problema. Existiria, na realidade, alguma diferena? A Amrica tinha acabado
por aceitar o sndroma do Padrinho. Jennifer dizia a si prpria que estava a fazer agora aquilo que sempre fizera. Mas a verdade  que existia uma diferena - uma
grande diferena.  Ela encontrava-se metida numa das organizaes mais  poderosas do mundo.  Michael convidou Jennifer para a casa de campo de New Jersey, onde
ela viu Antonio Granelli pela primeira vez, e alguns dos outros homens da Organizao.  Sentados a uma grande mesa da antiquada cozinha encontravam- se Nick Vito,
Arthur Artie Gordo,? Scotto, Salvatore Fiore e Joseph Colella.  Quando Jennifer e Michael entraram e se detiveram junto da porta,  escuta, Nick Vito estava a dizer:
 . Como na altura em que fiz um trabalho em Atlanta. Estava metido num grande negcio de erva?,. Nisto aparece aquele maricas, que tenta lixar-me para ver se conseguia
 alguma coisa.
 - Conhecias o gajo? - inquiriu Scotto Artie, o Gordo.
 - Como podia eu conhec-lo? Queria que lhe acendesse um cigarro. Tentou deitar-me a mo.
 -Ati?
 - Sim. No devia estar l muito bom da cabea.
 - O que fizeste?
 - Eddie Fratelli e eu levmo-lo para o canto mais escuro da rua e acabmos com ele. Que diabo, afinal de contas ele no estava em bons lenis.
 - O que aconteceu ao Eddie Pequeno?
 - Est a cumprir dez anos em Lewisburg.
 - E a comparsa dele? Tinha muita classe.
 - Se tinha! Ainda gostava de a fazer um dia.
 - Ela continua a beber os ares por Eddie. Vo l saber porqu !
 - Eu gostava de Eddie. Era um tipo corajoso.
 - Est como louco. A propsito, sabes quem  que se meteu na droga. . . ?  Conversa de negcios.  Michael sorriu da expresso perplexa com que Jennifer escutava
a conversa e disse:
 - Anda. . . Vou apresentar-te ao Pap.
 Antonio Granelli foi uma decepo para Jennifer. Estava sentado numa cadeira de rodas, um frgil esqueleto humano, e era difcil imagin-lo tal como devia ter
sido outrora.  Uma atraente morena, um pouco forte, entrou na sala e Michael apresentou-a a Jennifer:
 - Esta  Rosa, a minha mulher.
 Jennifer tinha receado este momento. Em certas noites, depois de Michael a deixar - to satisfeita como qualquer mulher podia desejar - debatia-se com um sentimento
de culpa que quase a deprimia. No quero magoar outra mulher. Estou a roubar. Tenho de acabar com isto!  preciso!?, E perdia sempre a batalha.  Rosa observou Jennifer
com um ar sagaz. Sabe de tudo? pensou Jennifer.  Houve um ligeiro embarao, e depois Rosa disse num tom
suave:
 - Tenho muito prazer em conhec-la, Mrs. Parker. Michael  disse-me que a senhora  muito inteligente.
 - As mulheres no devem ser demasiado espertas.  melhor  deixar a inteligncia para os homens.
 - Para mim, Mrs. Parker  como se fosse um homem, Pap - replicou Michael com um ar muito srio.
Jantaram na grande sala de jantar antiquada.
 - Sente-se ao meu lado - ordenou Antonio Granelli a Jennifer.
 Michael sentou-se junto de Rosa. Thomas Colfax, o  consigliere, sentou-se em frente de Jennifer, e ela sentia-lhe a animosidade.
? O jantar foi soberbo. Foi servido uma enorme antipasto ' e depois pasta fagioli z. Seguiu-se uma salada com garbanzo 3, cogumelos estufados, piccata de vitela,
linguini 4 e frango assado. Os pratos pareciam no ter fim.  No se viam criadas em casa, e Rosa erguia-se constantemente  para levantar a mesa e trazer novas travessas
da cozinha.
 - A minha Rosa  uma ptima cozinheira - disse Antonio  Granelli a Jennifer. -  quase to boa como a me era. No  verdade, Michael?
 - Sim - concordou Michael, com delicadeza.
 - A Rosa dele  uma esposa admirvel - continuou Antonio  Granelli, e Jennifer perguntou a si mesma se aquilo seria um  comentrio natural ou um aviso.
 - No acabou a sua vitela - observou Michael.
 - Nunca comi tanto em toda a minha vida - protestou Jennifer.
 E o jantar no estava ainda terminado.  Seguiu-se por fim uma taa de fruta fresca e uma tbua de queijo, gelado com chocolate quente, rebuados e pastilhas de
hortel pimenta.  Jennifer achava surpreendente o facto de Michael conseguir manter-se elegante.  A conversa era simples e agradvel e poderia ter-se passado em
qualquer outro lar italiano, e Jennifer sentia dificuldade em acreditar que esta famlia fosse diferente de todas as  outras.
 - Sabe alguma coisa sobre a Union Siciliana ? - perguntou a  certa altura Antonio Granelli.
 - No - respondeu Jennifer.
 - Ento vou falar-lhe a esse respeito, minha senhora.
 - Pai. . . o nome dela  Jennifer.
- No  um nome italiano, Mike. Tenho dificuldade em  lembrar-me. Vou trat-la por minha senhora", minha  senhora. Okay ?
 - Okay - concordou Jennifer.
 - A Union Siciliana foi fundada na Siclia para proteger os pobres contra as injustias. Compreende, as pessoas que  estavam no poder roubavam os pobres. Os pobres
no tinham  nada - nem dinheiro, nem trabalho, nem justia. Foi por  isso que se formou a Union. Quando era praticada uma  injustia, as pessoas iam ter com os
membros da irmandade  secreta e eram vingadas. Muito em breve, a Union tornou-se  mais  forte do que a lei, porque era a lei do povo. Ns acreditamos  no que diz
a Bblia, minha senhora. - Olhou fixamente para  Jennifer. - Se algum nos trai, vingamo-nos.  A mensagem era inequvoca.  O instinto de Jennifer dissera-lhe sempre
que, se alguma vez chegasse a trabalhar para a Organizao, estaria a dar um passo gigantesco mas, tal como a maior parte dos estranhos, fazia uma ideia errada
da Organizao. De uma maneira geral,  a Mafia era considerada um grupo de gatunos elegantes que mandavam matar as pessoas e que contavam os lucros dos emprstimos
a juros e dos bordis. Isso era apenas uma parte da realidade. As reunies a que Jennifer assistiu ensinaram-lhe o resto: eram homens de negcios que se ocupavam
das actividades mais diversas. Eram proprietrios de hotis e de bancos, de restaurantes e casinos, de companhias de seguros e de fbricas, de empresas imobilirias
e hospitais.  Controlavam sindicatos e companhias de navegao. Estavam  metidos na indstria discogrfica e vendiam mquinas de distribuio automtica. Eram donos
de agncias funerrias, padarias e de empresas de construo. O seu lucro anual cifrava-se em  bilies. Jennifer no se preocupava em saber o modo como  tinham
adquirido esses rendimentos. A sua misso era defender aqueles que se envolviam em problemas com a justia.  Robert Di Silva tinha processado trs homens de Michael
Moretti por terem levado  falncia alguns bares ambulantes. Foram acusados de terem conspirado para prejudicarem o comrcio por meio de extorso, e tinham sete
acusaes por  interferncia com o comrcio. A nica testemunha disposta a depor contra os homens era uma mulher a quem um dos bares pertencia.
 - Ela vai dar cabo de ns - disse Michael a Jennifer. -  Temos de entrar num acordo com ela.
 - s accionista de uma editora de revistas, no s? -  inquiriu Jennifer.
 - Sim. O que tem isso a ver com bares ambulantes?
 - Logo vs.
 Muito discretamente, Jennifer conseguiu que a revista oferecesse uma elevada quantia em dinheiro pela histria da  testemunha. A mulher aceitou. No tribunal, Jennifer
serviu-se desse facto para pr em dvida as afirmaes da mulher, e as acusaes foram retiradas.  As relaes de Jennifer com os seus scios tinham sofrido uma
mudana. Quando o escritrio comeou a aceitar cada vez mais casos da Mafia, Ken Bailey entrou no gabinete de Jennifer.
 - O que se passa? - perguntou ele. - No podemos continuar a  representar estes rufias. Vo deitar-nos a perder.
 - No se preocupe com isso, Ken. Eles pagam.
 - No seja assim to ingnua, Jennifer. Quem vai pagar  voc. No a deixaro escapar.
 - Deixe-se disso, Ken - ripostou Jennifer, muito irritada,  pois reconhecia que ele tinha razo.
 Ele contemplou-a longamente e por fim declarou:
 - Muito bem. Quem manda  voc.
 O Tribunal Criminal era um pequeno mundo onde as notcias se  propagavam depressa. Quando comeou a constar que Jennifer Parker estava a defender membros da Organizao,
alguns amigos bem-intencionados procuraram-na para reiterarem  aquilo que o Juiz Lawrence Waldman e Ken Bailey j lhe tinham dito.
 - Se se deixar envolver com esses rufias, arrisca-se a que a considerem igual a eles.
 - Toda a gente tem direito a ser defendida - respondiaJennifer.
 Agradecia aqueles avisos, mas achava que no tinham motivos  para se preocupar. No fazia parte da Organizao; limitava- se a representar alguns dos seus membros.
Era uma advogada,  tal como o seu pai tinha sido e nunca havia de fazer nada do qual ele pudesse ter-se sentido envergonhado. A selva  existia, mas ela encontrava-se
ainda do lado de fora.  O Padre Ryan foi visit-la. Desta vez no foi para Lhe pedir que livrasse um amigo de dificuldades.
 - Estou preocupado consigo, Jennifer. Ouvi dizer que est a ocupar-se. . . bom. . . das pessoas erradas.
 - Quem so as pessoas erradas? O senhor costuma julgar as pessoas que lhe pedem ajuda? Costuma afastar de Deus os pecadores?
 O Padre Ryan abanou a cabea.
 -  claro que no. Mas uma coisa  um indivduo cometer um erro. A corrupo organizada  algo completamente  diferente. Se voc ajudar essas pessoas, est a perdoar
 aquilo que
elas fazem. Torna-se conivente.
 - No. Sou advogada, Padre. Ajudo as pessoas que se encontram em dificuldades.
 Jennifer conhecia Michael Moretti melhor do que qualquer outra pessoa. Ele revelava-lhe sentimentos que nunca tinha dado a conhecer a mais ningum. No fundo, era
um homem triste e solitrio, e Jennifer era a primeira pessoa que  tinha conseguido penetrar na sua concha.  Jennifer sentia que Michael necessitava dela. Nunca
sentira isso em relao a Adam. E Michael obrigara-a a reconhecer o quanto ela precisava dele. Despertara-lhe sentimentos que at a ela tinha reprimido - paixes
selvagens e atvicas a que receara dar livre curso. Com Michael no havia inibies. Quando estavam na cama, no havia limites nem barreiras. Havia apenas prazer,
um prazer que Jennifer nunca sonhara que pudesse existir.  Michael confidenciou a Jennifer que no amava Rosa, mas era bvio que Rosa adorava Michael. Estava sempre
pronta a servi-lo, a satisfazer-lhe as exigncias.  Jennifer conheceu outras mulheres casadas da Mafia, e achava a vida delas fascinante. Os maridos iam com as
amantes  a restaurantes, bares e pistas de corridas, enquanto as mulheres ficavam em casa  espera deles.  Uma esposa da Mafia recebia sempre uma mesada generosa,
mas tinha de ter cuidado com a forma como a gastava, para no despertar as atenes do Servio de Impostos Internos. Existia uma hierarquia que ia desde o modesto
soldato at  ao capo di tutti capi, e a mulher nunca possua um casaco ou um carro mais caros do que a mulher do superior imediato do marido.  As mulheres ofereciam
jantares aos scios dos maridos, mas procuravam no se mostrar mais prdigas do que a sua posio permitia em relao s outras.  Em certas cerimnias, tais como
casamentos e baptizados, em que era necessrio dar prendas, uma mulher nunca podia gastar mais dinheiro do que a que se lhe seguia  hierarquicamente.  O protocolo
era to rigoroso como o da U. S. Steel ou de qualquer outra grande companhia comercial.  A Mafia era uma incrvel mquina de fazer dinheiro, mas  Jennifer descobriu
que existia nela outro elemento igualmente  importante : o poder.
 - A Organizao  mais poderosa do que o governo da  maior parte dos pases do mundo - explicou Michael a  Jennifer. - Ao todo, possumos mais de meia dzia das
maiores empresas da Amrica.
 - H uma diferena - notou Jennifer. - Elas so legais e...  Michael riu.
 - Referes-te quelas que no foram apanhadas. Dzias das maiores empresas do pas foram processadas por violarem  uma ou outra lei. No acredites em heris, Jennifer.
Hoje em dia, o americano mdio no consegue dizer o nome de dois astronautas que tenham sido mandados para o espao, mas conhece os nomes de Al Capone e de Lucky
Luciano.  Jennifer compreendeu que,  sua maneira, Michael era to dedicado  sua causa como Adam. A nica diferena era que as vidas de ambos tinham seguido direces
opostas.  No que dizia respeito aos negcios, Michael tinha uma total  falta de compreenso. Era o seu ponto forte. As decises que tomava baseavam-se apenas naquilo
que pudesse ser  vantajoso para a Organizao.  At a, Michael tinha-se dedicado inteiramente a satisfazer as suas ambies. Nunca existira na sua vida lugar emocional
para uma mulher. Nem Rosa nem as amigas de Michael tinham  feito parte das suas necessidades reais.  Jennifer era diferente. Precisava dela como nunca precisara
de nenhuma outra mulher. Nunca tinha conhecido ningum como ela. Excitava-o fisicamente, mas isso acontecera-lhe tambm com muitas outras. O que tornava Jennifer
especial era a sua inteligncia, a sua independncia. Rosa obedecia-lhe; as outras mulheres temiam-no; Jennifer desafiava-o. Era igual a ele. Podia conversar com
ela, discutir coisas com  ela. Era mais do que inteligente. Era astuta.  Sabia que nunca a deixaria partir.  Por vezes, Jennifer acompanhava Michael em viagens
de
negcios mas, sempre que podia, evitava viajar, pois queria passar o maior tempo possvel com Joshua. Ele estava agora com seis anos e desenvolvia-se incrivelmente
depressa.  Jennifer matriculara-o numa escola particular ali perto e  Joshua adorava frequent-la.  Andava numa bicicleta de duas rodas, possua uma frota de carrinhos
de corrida e tinha longas e srias conversas com Jennifer e com Mrs. Mackey.  Como Jennifer queria que Joshua se tornasse forte e  independente, tentou seguir uma
linha muito equilibrada,  dando a entender a Joshua quanto o amava, fazendo-o compreender que estaria sempre a ajud-lo mas dando-lhe, ao mesmo tempo,  a noo
da sua prpria independncia.  Ensinou-o a gostar de bons livros e a apreciar a msica. Levava-o ao teatro, evitando as noites de estreia porque  haveria demasiadas
pessoas que poderiam reconhec-la e fazer-lhe perguntas. Aos fins-de-semana, ela e Joshua faziam a ronda dos cinemas. Ao sbado  tarde iam ver um filme, jantavam
num restaurante e depois iam ver um segundo filme. Ao domingo  faziam vela ou andavam de bicicleta. Jennifer dava ao filho todo o amor que tinha dentro de si, mas
procurava no o estragar com mimos. A sua estratgia para com Joshua era planeada com muito mais cuidado do que qualquer caso de tribunal, pois estava resolvida
a no cair nas armadilhas de um lar em que no havia pai.  Jennifer no fazia sacrifcio em passar tanto tempo com Joshua; o filho divertia-a muito. Faziam jogos
de palavras, jogavam s Ideias e s Vinte Perguntas, e Jennifer ficava  encantada com a rapidez de raciocnio do filho. Era o
primeiro da aula, um excelente atleta, mas isso no o envaidecia.  Possua um extraordinrio sentido de humor.  Quando isso no prejudicava as suas actividades
escolares, Jennifer viajava com o filho. Durante as frias de Inverno de Joshua, Jennifer arranjou uns dias de licena e foi esquiar com ele em Poconos. No Vero
levou-o a Londres numa viagem de  negcios e passaram duas semanas a explorar o interior do  pas. Joshua adorou Inglaterra.
. - Posso vir estudar para c? - pediu ele.
 Jennifer sentiu um sobressalto. J no faltaria muito tempo para que ele a deixasse para ir estudar para longe, para tentar a sua sorte, casar e arranjar a sua
prpria casa e famlia. No era isso que desejava para ele?  claro que sim. Quando  Joshua estivesse preparado, deix-lo-ia ir, sem hesitao,  embora reconhecesse
que lhe ia ser difcil.  Joshua estava a olhar para ela,  espera de uma resposta.  - Posso Me? - insistiu ele. - Talvez Oxford?  Jennifer abraou-o com fora.

 -  claro. Ficaro felizes por te receber l.
 Num domingo de manh em que Mrs. Mackey estava de folga, Jennifer precisou de ir a Manhattan buscar uma cpia de um depoimento. Joshua tinha ido visitar uns amigos.
Quando Jennifer regressou a casa, comeou a preparar o jantar  para ambos. Abriu o frigorfico - e ficou como que fulminada.  L dentro estava um bilhete, metido
entre duas garrafas de  leite. Tambm Adam lhe deixava assim os seus recados.  Jennifer ficou a olhar para o papel, como se estivesse hipnotizada, receosa de lhe
tocar. Muito devagar, estendeu a mo para o bilhete e desdobrou-o. Dizia: Surpresa! O Alan pode vir jantar connosco?"  O pulso de Jennifer demorou meia hora a voltar
ao seu estado normal.  De vez em quando, Joshua interrogava Jennifer a respeito do pai.
 - Foi morto no Vietname, Joshua. Era um homem muito corajoso.
 - No temos nenhuma fotografia dele?
 - Infelizmente no, querido. Casmos. . . casmos pouco tempo antes de ele morrer.
 Detestava mentir, mas era a nica soluo.  Michael Moretti perguntara apenas uma vez pelo pai de Joshua.
 - No me interessa o que se passou antes de seres minha. . .   simples curiosidade.
 Jennifer pensou na ascendncia que Michael poderia vir a ter sobre o Senador Adam Warner se alguma vez chegasse a conhecer a verdade.
 - Foi morto no Vietname. O seu nome no interessa.
Em Washington D.C., uma comisso de investigao do Senado, presidida por Adam Warner, estava a chegar ao termo  de um inqurito pormenorizado ao novo bombardeiro
XK-1 que a Fora Area tentava fazer aprovar pelo Senado. Ao longo de vrias semanas, diversos tcnicos tinham-se  reunido no Capitlio, metade deles provando que
o novo  bombardeiro seria um albatroz dispendioso que iria destruir o  oramento da defesa e arruinar o pas, e a outra metade  demonstrando que, se a Fora Area
no conseguisse fazer  aprovar o bombardeiro, as defesas da Amrica ficariam to enfraquecidas  que os russos invadiriam os Estados Unidos no domingo seguinte.
 Adam oferecera-se para efectuar um voo experimental num prottipo do novo bombardeiro, e os seus colegas aceitaram imediatamente aquela proposta. Adam era um deles,
um membro do clube, e dir-Lhes-ia a verdade.  Adam descolara com o bombardeiro num domingo de manh,  levando consigo uma tripulao reduzida e sujeitara o avio
a uma srie de testes rigorosos. O voo foi um  verdadeiro xito, e ele declarou  Comisso do Senado que o  novo bombardeiro XK-I significava um progresso importante
na aviao. Recomendou que o avio comeasse a ser fabricado de imediato. O Senado autorizou o emprstimo.  A imprensa deu ao acontecimento um relevo enorme.  Descreveram
Adam como um dos senadores investigadores da nova gerao, um legislador que ia para o campo estudar  pessoalmente os factos, em vez de acreditar no que diziam
os intriguistas polticos e outros que se preocupavam em  proteger os seus interesses particulares.  Tanto o Newsweek como o Time publicaram artigos de primeira
 pgina sobre Adam, e o artigo do Newsweek terminava
com as seguintes palavras:  O Senado encontrou um novo guardio, honesto e competente,  pto a investigar alguns dos problemas vitais que  assolam este pas, e capaz
de os esclarecer em vez de os tornar mais agudos. Os grandes polticos esto cada vez mais convencidos de que Adam Warner possui todas as qualidades que fariam
dele um bom presidente.  Jennifer devorava os artigos sobre Adam e sentia-se  orgulhosa. E sofria. Continuava a amar Adam e amava Michael Moretti, mas no conseguia
compreender como  que isso era possvel nem em que espcie de mulher se tinha transformado. Adam trouxera solido  sua vida. Michael dissipara-a.  O contrabando
de drogas vindas do Mxico aumentava de dia para dia e era bvio que, por trs disso, se encontrava o crime organizado. Pediram a Adam que presidisse a uma comisso
de inqurito. Ele coordenou os trabalhos de meia dzia de departamentos judiciais dos Estados Unidos,  deslocou-se ao Mxico e obteve a cooperao do governo  mexicano.
Passados trs meses, o trfego de droga tinha  diminudo notavelmente.  Na casa de campo de New Jersey, Michael Moretti anunciava:
 - Temos um problema.
 Estavam sentados no amplo e confortvel escritrio. Na sala encontravam-se Jennifer, Antonio Granelli e Thomas Colfax. Antonio Granelli tinha sofrido um ataque
que o  envelhecera vinte anos de um dia para o outro. Parecia uma  caricatura amarrotada de um homem. A paralisia afectara-lhe o  lado direito do rosto de modo
que, quando falava, a saliva lhe escorria pelos cantos da boca. Estava velho, quase senil, e apoiava-se cada vez mais nas opinies de Michael. Ainda que de m vontade,
acabara por aceitar Jennifer.  O mesmo no se passava em relao a Thomas Colfax. O conflito entre Michael e Colfax tinha-se reacendido. Colfax sabia que Michael
tencionava substitu-lo por esta mulher. Colfax era forado a reconhecer que Jennifer Parker era uma advogada inteligente, mas o que saberia ela das tradies da
borgata '? Ou do que fizera a irmandade funcionar to bem ao longo de todos estes anos? Como podia Michael trazer uma estranha - pior ainda, uma mulher! - e confiar-lhe
os segredos mais perigosos? Era uma situao insustentvel. Colfax tinha falado com os capo-regimi - os lugares-tenentes da Organizao - e com os soldati - os
soldados - um a um, manifestando-lhes os seus receios, tentando traz-los para o seu lado, mas eles tinham medo de contrariar Michael. Se ele confiava nesta mulher,
ento tambm eles deviam  confiar nela.  Thomas Colfax achou que, desta vez, talvez fosse melhor condescender. No entanto, precisava de arranjar um modo de se ver
livre dela.  Jennifer tinha perfeita conscincia da sua animosidade. Ela ocupara-lhe o lugar, e o orgulho dele nunca lho perdoaria. A sua lealdade ao sindicato
obrig-lo-ia a manter a sua linha  de conduta e a proteg-la, mas se o dio por ela se tornasse  mais forte do que a lealdade. . .  Michael voltou-se para Jennifer:
 - J ouviste falar de Adam Warner?
 Por uns momentos, o corao de Jennifer deixou de bater. Sentiu uma repentina dificuldade em respirar. Michael no desviava os olhos dela,  espera de uma resposta.

 - Referes-te ao. . . ao senador? - conseguiu pronunciar Jennifer.
 - Sim. Vamos ter que liquidar esse filho da puta.  Jennifer sentiu o sangue fugir-lhe do rosto.
 - Porqu, Michael?
 - Est a prejudicar-nos o trabalho. Por causa dele, o  governo mexicano est a encerrar fbricas que pertencem a  amigos nossos. Est tudo a desmoronar-se. Quero
o filho da  me
fora do nosso caminho. Tem de ir desta para melhor.  O pensamento de Jennifer trabalhava velozmente.
 - Se tocares no Senador Adam Warner - disse ela, escolhendo  as palavras com o maior cuidado -, vais destruir-te.
 - No vou permitir. . .
 - Ouve o que te digo, Michael. Se te desembaraares dele, ho-de colocar dez homens no seu lugar. Cem. Vais ter atrs de ti todos os jornais do pas. O inqurito
que est agora a ser levado a cabo, no ser nada em comparao com o que acontecer se fizerem mal ao Senador Warner.
 - Mas estamos a ser prejudicados!
 Jennifer mudou de tom.
 - Michael, tenta raciocinar. J viste inquritos como este.
Quanto tempo duram? Cinco minutos depois de o senador terminar o inqurito, ocupar-se- de outra investigao  qualquer e tudo ser esquecido. As fbricas que esto
 encerradas abriro de novo e vocs podem recomear a trabalhar. Desse modo no haver repercusses. Se, pelo contrrio, tentarem fazer as coisas  vossa maneira,
podem estar certos de que isto nunca acabar.
 - Discordo - atalhou Thomas Colfax. - Na minha opinio...
 - Ningum pediu a sua opinio - resmungou Michael.
 Thomas Colfax estremeceu como se tivesse recebido uma bofetada. Michael no lhe prestou ateno. Colfax voltou-se para Antonio Granelli, como a pedir apoio. O
velho estava a dormir.
 - Okay, advogada - disse Michael a Jennifer -, por agora vamos deixar Warner em paz.
 Jennifer reparou que tinha estado a conter a respirao. Expeliu lentamente o ar.
 - Mais alguma coisa?
 - Sim - Michael pegou num pesado isqueiro de ouro e acendeu um cigarro. - Um amigo nosso, Marco Lorenzo, foi acusado de extorso e de roubo.
 Jennifer tinha lido a esse respeito. Segundo os jornais,  Lorenzo era um criminoso congnito que possua um extenso rol de prises por crimes violentos.
 - Queres que interponha um recurso?
 - No, quero que faas com que v para a cadeia.
 Jennifer olhou-o, surpreendida.  Michael voltou a colocar o isqueiro em cima da secretria.
 - Disseram-me que Di Silva tenciona recambi-lo para a Siclia. Marco tem l inimigos. Se o mandarem regressar, no viver vinte e quatro horas. O lugar mais seguro
para ele  Sing Sing. Quando a exaltao acalmar, daqui a um ou dois anos, tiramo-lo de l. Achas que consegues?
 Jennifer hesitou.
  - Se estivssemos noutra jurisdio, talvez no fosse difcil. Mas Di Silva no vai querer entrar num acordo  comigo.
 - Talvez fosse melhor entregarmos o caso a outra pessoa - sugeriu Thomas Colfax muito depressa.
 - Se eu quisesse entregar o caso a outra pessoa - atalhou Michael -, t-lo-ia dito. - Voltou-se de novo para Jennifer - Quero que te ocupes deste assunto.
 Atravs da janela, Michael Moretti e Nick Vito viramThomas Colfax entrar no Sedan e partir.
 - Nick quero que o faas desaparecer - declarou Michael.
 - Colfax ?
 - J no confio nele. Vive no passado, tal como o velho.
 - Como queiras Mike. Quando pretendes que o faa?
 - Muito em breve. Dir-to-ei na devida altura.
 Jennifer estava sentada nos aposentos do Juiz Lawrence Waldman. No o via h mais de um ano. Os telefonemas amigveis e os convites para jantar tinham cessado.
Bom, no havia nada a fazer, pensou Jennifer. Gostava de Lawrence Waldman e lamentava perder a sua amizade, mas a sua escoLha  tinha sido feita.  Estavam  espera
de Robert Di Silva. Estabelecera-se entre ambos um desagradvel silncio e nenhum deles se dava ao trabalho de iniciar uma conversa banal. Quando o Procurador Distrital
entrou e se sentou, deram incio  reunio.
 - Bobby diz que voc quer interpor um recurso antes de eu pronunciar a sentena de Lorenzo - disse o Juiz Waldman,  dirigindo-se a Jennifer.
 - Exacto. - Jennifer voltou-se para o Procurador Distrital  Di Silva: - Creio que seria um erro mandar Marco Lorenzo para  Sing Sing. No  o stio indicado para
ele. Trata-se de um estrangeiro que se encontra aqui ilegalmente. Parece-me que seria melhor recambi-lo para o lugar de onde veio, para a Siclia.  Di Silva olhou-a,
surpreendido. Tinha pensado em recomendar  uma deportao mas, se era aquilo que Jennifer Parker  desejava, teria de repensar a sua deciso.
 - Porque sugere isso? - perguntou Di Silva.
  - Por diversas razes. Em primeiro lugar, isso impedi-lo-  de cometer aqui mais crimes, e...
 - O mesmo acontecer se estiver numa cela de Sing Sing.
 - Lorenzo  um velho. No suportar estar preso. Ficar louco se o senhor o mandar para a cadeia. Todos os seus amigos se encontram na Siclia. Poder viver l,
ao sol, e morrer em paz junto da famlia.
 A boca de Di Silva contraiu-se numa expresso irritada.
 - Estamos a falar de um rufia que passou a vida a roubar, a violar, a assassinar, e voc pretende que ele v apanhar  sol para junto dos amigos? - Voltou-se para
o Juiz Waldman: - Ela   uma excntrica!
 - Marco Lorenzo tem direito a. . .
 Di Silva deu um murro na secretria.
 - No tem direitos nenhuns! Foi acusado de extorso e de assalto  mo armada.
 - Na Siclia, quando um homem...
 - Ele no est na Siclia, que diabo! - vociferou Di Silva.
- Est aqui! Cometeu os crimes aqui, e  aqui que vai pagar por eles. - Ps-se de p. - Vossa Honra, estamos a perder tempo. O estado recusa todo e qualquer acordo.
Pedimos  que Marco Lorenzo seja condenado a Sing Sing.  O Juiz Waldman voltou-se para Jennifer:
 - Tem mais alguma coisa a dizer?
 Ela olhou para Robert Di Silva com um ar irritado.
 - No, Vossa Honra.
 - A sentena ser proferida amanh de manh. Podem retirar- se ambos.
 Di Silva e Jennifer levantaram-se e abandonaram o gabinete.  Uma vez no corredor, o Procurador Distrital voltou-se para Jennifer e sorriu.
 - Perdeu a jogada, advogada.
 Jennifer encolheu os ombros.
 - No se pode ganhar sempre.
 Passados cinco minutos, Jennifer encontrava-se a telefonar para Michael Moretti.
 - Podes ficar descansado. Marco Lorenzo vai para Sing Sing.
 O tempo era um rio veloz em que no havia nem margens nem fronteiras. As suas estaes no se chamavam Inverno, Primavera, Outono ou Vero, mas sim aniversrios
e alegrias, problemas e desgostos. Havia batalhas vencidas no tribunal e causas perdidas; a realidade de Michael, as recordaes de Adam. Mas era sobretudo Joshua
quem marcava o calendrio do tempo, quem a fazia reconhecer a rapidez com que os anos se passavam.  Por incrvel que parecesse, j estava com sete anos. Era como
se, de um dia para o outro, tivesse passado dos lpis de cor e dos livros de gravuras para modelos de avies e para os desportos. Joshua era alto e cada dia se
parecia mais com o pai, no apenas no aspecto fsico. Era sensvel e educado e tinha um grande sentido de justia. Quando Jennifer o  castigava, Joshua dizia com
um ar rebelde:
 - Meo apenas um metro e vinte de altura, mas tenho os meus direitos.
 Era uma miniatura de Adam. Joshua tinha uma constituio atltica, tal como Adam. Os seus heris eram os irmos Bebble  e Carl Stotz.
 - Nunca ouvi falar deles - confessou Jennifer.
 - Onde tens estado tu Me? Foram eles que inventaram a Liga Infantil.
 - Ah! Esses tais irmos Bebble e Carl Stotz.
 Nos fins-de-semana, Joshua assistia pela televiso a todos os acontecimentos desportivos - futebol, basebol e  basquetebol - tanto lhe fazia. Ao princpio, Jennifer
deixara  Joshua ver sozinho os jogos, mas quando comeou a tentar discuti-los  com ela e Jennifer no soube o que dizer, achou que era melhor v-los tambm. E assim
passaram a sentar-se os dois em frente da televiso, mastigando pipocas e animando os jogadores.  Certo dia, depois de ter ido jogar futebol, Joshua entrou em casa
com uma expresso preocupada no rosto e perguntou:
 - Me, podemos ter uma conversa de homem para homem?
 - Com certeza, Joshua.
 Sentaram-se  mesa da cozinha e Jennifer preparou-lhe uma sanduche de manteiga de amendoim e um copo de leite.
 - O que se passa?
 A voz dele era grave e cheia de ansiedade.
 - Bom, ouvi uma conversa entre uns tipos e fiquei a pensar.
. . achas que ainda haver sexo quando eu for grande?
 Jennifer tinha comprado um pequeno veleiro Newport e, nos fins-de-semana, ele e Jennifer gostavam de dar uma volta de barco pelo canal. Jennifer adorava contemplar
o rosto do filho quando ele se encontrava ao leme. Fazia um sorrisinho excitado a que ela chamava o sorriso  Eric Vermelho? Tal como o pai, Joshua era um marinheiro
inato. Este pensamento provocava em Jennifer uma grande perturbao. Perguntava a si prpria se no estaria a tentar viver com Adam atravs de Joshua. Tudo o que
fazia com o filho - andar de barco, assistir a acontecimentos desportivos - era aquilo que tinha feito um dia com o pai dele. Jennifer dizia a si mesma que o fazia
porque eram coisas de que Joshua gostava, mas no tinha  a certeza de estar a ser inteiramente honesta. Via Joshua recolher a bujarrona, tisnado pelo vento e pelo
sol, com uma expresso radiante no rosto, e Jennifer compreendeu que os motivos no interessavam. O importante era o filho gostar da vida que levava com ela.  No
era um substituto do pai. Era ele prprio, e Jennifer amava-o mais do que qualquer outra pessoa no mundo. Antonio Granelli morreu e Michael passou a controlar todo
o imprio. O funeral foi sumptuoso, tal como convinha a um homem com a posio do Padrinho. Os chefes e membros de Famlias de todo o pas vieram prestar as suas
homenagens ao amigo que partira, e declarar ao novo capo a sua lealdade e apoio. O FBI encontrava-se presente, tirando fotografias, o mesmo acontecendo com mais
meia dzia de agncias  governamentais.  Rosa estava com o corao despedaado pela dor, pois tinha  amado muito o pai, mas consolava-se e sentia orgulho pelo facto
de o marido ir ocupar o lugar do pai como chefe da Famlia.  Jennifer revelava-se cada vez mais valiosa para Michael. Quando surgia algum problema, era Jennifer
quem Michael consultava. Thomas Colfax estava a tornar-se um apndice terrivelmente enfadonho.
 - No te preocupes com ele - disse Michael a Jennifer.
 - Vai reformar-se dentro de pouco tempo
Jennifer foi acordada pelo retinir suave do telefone.  Deixou-se ficar deitada, a ouvi-lo tocar um pouco mais; por  fim, sentou-se na cama e olhou para o relgio
digital colocado sobre a mesa-de-cabeceira. Eram trs da manh.  Levantou o auscultador.
 - Est?
 Era Michael.
 - Podes vestir-te imediatamente?
 Jennifer endireitou-se e tentou manter os olhos abertos.
 - O que aconteceu?
 - Eddie Santini acaba de ser apanhado num assalto  mo armada. J  a segunda vez. Se o condenarem, nunca mais o deixam sair.
 - Houve testemunhas?
 - Trs, e todas elas o viram muito bem.
 - Onde est ele agora?
 - Na Dcima Stima Esquadra.
 - Vou imediatamente para l, Michael.
 Jennifer vestiu um roupo, dirigiu-se  cozinha e fez uma cafeteira de caf fumegante. Foi beb-lo para a sala de  pequenos-almoos, olhando atravs da janela
para a escurido,  e meditando.  Trs testemunhas. E todas elas o viram muito bem." Aproximou-se do telefone e marcou um nmero.
 - Ligue-me  Redaco.
 Jennifer falou rapidamente.
 - Tenho uma informao para lhes dar. Um sujeito chamado  Eddie Santini acaba de ser apanhado num assalto  mo armada. A advogada dele  Jennifer Parker. Vai
tentar que seja posto em liberdade.  Desligou e repetiu o telefonema para mais dois jornais e para uma estao de televiso. Quando acabou de telefonar, Jennifer
consultou o relgio e, sem a menor pressa, tomou outra chvena de caf. Queria dar tempo a que os fotgrafos chegassem  esquadra da Avenida Cinquenta e Um. Dirigiu-se
ao  primeiro andar para se vestir.  Antes de sair, Jennifer foi ao quarto de Joshua. A luz de presena estava acesa. Ele dormia profundamente, com os cobertores
em desalinho em volta do corpo agitado. Jennifer endireitou-lhe suavemente os cobertores, beijou-o na testa e, em bicos de ps, comeou a dirigir-se para a porta.
 - Aonde vais?
 - Vou trabalhar - respondeu ela, voltando-se. - Dorme.
 - Que horas so?
 - Quatro da manh.
 Joshua emitiu um risinho abafado.
 - Para uma senhora, trabalhas de mais.
 Ela aproximou-s novamente da cama.
 - E tu, para um homem, dormes de mais.
 - Vamos ver o jogo do Mets logo  noite?
 - Vamos pois! Mas agora volta para o Pas dos Sonhos.
 - Okay, Me. Desejo-te um bom caso.
 - Obrigada, companheiro.
 Alguns minutos depois, Jennifer estava ao volante do carro,  a caminho de Manhattan.  Quando Jennifer chegou, apenas um fotgrafo do Daily News a esperava. Contemplou
Jennifer com olhos muito abertos  e exclamou:
 -  mesmo verdade! Est realmente a tratar do caso Santini? a - Como  que soube? - inquiriu Jennifer.
 - Foi uma amiga que me disse, advogada.
 - Est a perder o seu tempo. No quero fotografias.
 Entrou e tratou da fiana de Santini, fazendo arrastar o processo at ter a certeza de que tinham chegado um operador  e um reprter da televiso e um fotgrafo
do The New York Times. Achou que no valia a pena esperar pelo Post.
 - Esto l fora alguns reprteres e tipos da televiso, Miss Parker - avisou o chefe da polcia que se encontrava de  servio. - Se quiser, pode sair pelas traseiras.
 - No  preciso - replicou Jennifer. - Eu trato deles.
 Conduziu Eddie Santini para o corredor da frente, onde os fotgrafos e reprteres aguardavam.
 - Por favor, meus senhores, no quero fotografias - disse  ela.
 E Jennifer deu um passo para o lado, enquanto o fotgrafo e o operador da televiso tiravam fotografias.  Um dos reprteres perguntou:
 - O que torna este caso assim to importante para que se ocupe dele?
 - Sab-lo-o amanh. Entretanto, aconselho-os a no  publicarem essas fotografias.
 -Ento, Jennifer! - exclamou um dos reprteres. - Nunca  ouviu falar da liberdade de imprensa?
 Ao meio-dia, Jennifer recebeu um telefonema de Michael Moretti. Pelo tom de voz, parecia irritado.
 - J viste os jornais?
 - No.
 - Bem, a fotografia de Eddie Santini vem publicada nas primeiras pginas e apareceu nos noticirios da televiso.  No te disse que fizesses desta maldita coisa
um espectculo de circo !
 - Isso sei eu. A ideia foi minha.
 - Jesus! Qual  a tua inteno?
 - A minha inteno, Michael so aquelas trs testemunhas.
 - O que tm elas a ver com isto?
 - Disseste que viram bem Eddie Santini. Deste modo, quando forem ao tribunal para o identificarem, vo ter de provar que no o identificaram por terem visto a
fotografia dele nos jornais e na televiso.  Seguiu-se um longo silncio, e depois a voz de Michael disse, num tom de admirao:
 - Sou um filho da puta!
 Jennifer no pde deixar de rir.  Naquela tarde, quando Jennifer entrou no escritrio,  encontrou Ken Bailey  sua espera e, pela expresso do seu  rosto, compreendeu
logo que havia um problema.
 - Porque no me disse nada? - perguntou Ken.
 - A respeito de qu?
 - Sobre si e Mike Moretti.
 Jennifer conteve a rplica que lhe subira aos lbios. Era demasiado cmodo dizer: No tem nada com isso. ,? Ken era amigo dela, preocupava-se. De certo modo, aquilo
dizia-lhe respeito. Jennifer lembrava-se de tudo, do minsculo  escritrio que tinham partilhado, do modo como ele a ajudara.  Um amigo meu, que  advogado, tem
andado atrs de mim para lhe distribuir algumas intimaes. No tenho tempo para isso. Paga doze cntimos e meio por cada intimao, mais a  quilometragem. Quer
ajudar-me?"
 - Ken, no falemos desse assunto.
 Havia na voz dele uma raiva surda.
 - Porque no? Toda a gente fala disso. Consta que voc  a amante de Moretti. - O rosto dele estava plido. - Jesus!
 - A minha vida particular. . .
 - Ele vive na lama e voc trouxe esse lamaal para o  escritrio! Ps-nos a todos a trabalhar para Moretti e para  os rufias dele.
 - Cale-se !
 -Calo-me, sim. Foi isso que vim dizer-lhe. Vou-me embora.
 Aquelas palavras foram um choque para Jennifer.
 - Voc no pode ir-se embora. Faz uma ideia errada a respeito de Michael. Se o conhecesse, veria...
 Quando acabou de pronunciar aquelas palavras, Jennifer soube que tinha cometido um erro.
 - Ele conseguiu realmente dar-lhe volta  cabea, no foi? - comentou ele, fitando-a com tristeza. - Lembro-me de si quando voc ainda sabia o que queria.  essa
a rapariga que desejo recordar. Diga adeus por mim a Joshua.
 E Kan Bailey foi-se embora.  Jennifer sentiu os olhos encherem-se-lhe de lgrimas e a garganta apertou-se-lhe de tal modo que mal conseguia  respirar. Deitou a
cabea em cima da secretria e fechou os  olhos, tentando no se deixar vencer pelo sofrimento.  Quando reabriu os olhos, tinha j cado a noite. O  escritrio
estava s escuras, iluminado apenas pelo  fantstico reflexo vermelho das luzes da cidade. Aproximou-se da janela e  contemplou a cidade, l em baixo. A noite,
parecia-se com uma selva na qual existia apenas uma nica fogueira de campo para manter afastados os terrores que a invadiam.  Era a selva de Michael. J no podia
livrar-se dela. O Cow Palace, em So Francisco, parecia um manicmio, repleto de delegados tagarelas e barulhentos vindos de todo o pas. Havia trs candidatos
 nomeao para as eleies  presidenciais e todos tinham obtido bons resultados nas  primrias. Mas a celebridade, aquele que os ofuscava a todos,  era Adam Warner.
Foi nomeado, por unanimidade, na quinta votao secreta. O partido a que ele pertencia tinha, finalmente, um candidato do qual se podia orgulhar. O  Presidente
em exerccio, chefe do partido da oposio, gozava de muito pouco crdito e era considerado uma nulidade pela maioria das pessoas.
 - A no ser que ponhas a coisa de fora e mijes para u cmara de televiso, nas notcias das seis da tarde - disse Stewart Needham a Adam -, vais ser o prximo
Presidente dos Estados Unidos.
 Aps a sua nomeao, Adam foi a Nova Iorque para se reunir, no Regency Hotel, com Needham e vrios membros influentes do partido. Na sala encontrava-se Blair ?oman,
director da segunda maior agncia publicitria do pas.  - Blair encarregar-se- da publicidade da tua campanha, Adam - explicou Stewart Needham.
 - No calcula como me sinto feliz por estar metido nisto - declarou Blair Roman com um sorriso. - O senhor vai ser o meu terceiro Presidente.
 - Sim? - Adam no se sentia impressionado com o homem.
 - Permita-me que lhe d a conhecer alguns planos  Blair Roman comeou a percorrer a sala a passos largos,  agitando um imaginrio taco de golfe enquanto andava.
- Vamos  saturar o pas com filmes publicitrios na televiso, apresent-lo como o homem que pode solucionar os problemas da Amrica. Uma espcie de Avzinho -
mas um Avozinho jovem e bem-parecido. Est a compreender, Senhor Presidente?
 - Mr. Roman. . .
 - Sim?
 - Quer fazer o favor de no me chamar Senhor Presidente
 Blair Roman riu.
 - Desculpe. Foi um lapso de linguagem, A. W.. No meu pensamento, o senhor est j na Casa Branca. Acredite-me, sei que  o homem indicado para o cargo, caso contrrio
eu nunca teria empreendido esta campanha. Sou demasiado rico para trabalhar por dinheiro.  Desconfia das pessoas que se dizem demasiado ricas para trabalharem por
dinheiro,?, pensou Adam.
 - Ns sabemos que  o homem indicado para o cargo, mas agora  temos de fazer com que as outras pessoas o saibam tambm. Se quiser dar uma vista de olhos a estes
mapas que preparei, ver que dividi as diferentes regies do pas por grupos tnicos. Vamos mand-lo a lugares-chave onde poder impressionar as pessoas.  Inclinou-se
para a frente, aproximando o seu rosto de Adam e declarando, num tom grave:
 - A sua esposa vai ser-nos muito til. As revistas femininas  vo ficar loucas para obterem material sobre a sua vida privada. Vamos vend-lo, A. W.
 Adam comeava a sentir-se irritado.
 - Como  que tenciona fazer isso?
 -  simples. O senhor  um produto, A. W. Vamos vend-lo  como venderamos qualquer outro produto. Ns. . .
 Adam voltou-se para Stewart Needham:
 - Stewart, posso falar contigo a ss?
 - Certamente. - Needham virou-se para os outros: - Vamos  fazer um intervalo para o jantar e encontramo-nos outra vez s nove horas. Continuaremos a discusso
nessa altura.
 Quando ficaram os dois sozinhos, Adam explodiu:
 - Meu Deus, Stewart! Ele tenciona transformar isto num circo! O senhor  um produto, A. W. Vamos vend-lo como venderamos qualquer outro produto. "  repugnante
!
 - Compreendo o que sentes, Adam - respondeu Stewart Needham, tentando acalm-lo -, mas Blair obtm sempre bons resultados. Quando disse que eras o seu terceiro
 Presidente, no estava a brincar. Todos os Presidentes, desde  Eisenhower, tiveram uma agncia publicitria para lhes  dirigir as campanhas. Gostes ou no, qualquer
campanha precisa de uma promoo de vendas. Blair Roman conhece a psicologia do pblico. Por muito desagradvel que possa ser, a realidade  que, se se quiser ser
eleito para qualquer cargo pblico,  preciso ser-se vendido -  necessrio ser-se comercializado.
 - Detesto essa ideia.
 - Faz parte do preo que vais ter de pagar. - Aproximou-se  de Adam, e passou-lhe um brao pelos ombros. - No deves   esquecer-te do objectivo. Queres a Casa
Branca?
Muito bem. Vamos fazer tudo o que pudermos para te pormos l. Mas ters de representar o teu papel. Se ser-se director de um circo de trs pistas fizer parte dele,
aguenta.
 - Precisamos mesmo de Blair Roman?
 - Precisamos de um Blair Roman. Blair  assim mesmo. Eu trato dele. Farei os possveis para o conservar afastado  de ti.
 - Ficar-te-ia muito grato.
 A campanha comeou. Iniciou-se com alguns filmes  publicitrios e com a presena de Adam na televiso e, a  pouco e pouco, foi aumentando at se estender a toda
a nao. Onde quer que se fosse, l estava o Senador Adam Warner em cores naturais. Em todas as regies do pas podia ser visto na  televiso, escutado na rdio,
observado em cartazes. Justia  e ordem eram um dos temas-chave da campanha, e a comisso de inqurito sobre o erime, encabeada por Adam, foi  profundamente salientada.
 Adam gravou filmes publicitrios de um minuto, de trs minutos e de cinco minutos, dirigidos a diferentes zonas do pas. Os filmes que iam para a Virgnia Ocidental
ocupavam-se  do desemprego e da extensa jazida de carvo mineral que poderiam fazer prosperar a regio; os filmes televisivos para Detroit falavam do mal do urbanismo;
na Cidade de Nova iorque, o tema era a crescente taxa de criminalidade.  Blair Roman confidenciou a Adam:
 - O senhor tem  de atingir as pessoas eminentes, A. W. No precisa de discutir a fundo os temas-chave. Estamos a vender o produto, que  o senhor.
 - Mr. Roman - ripostou Adam -, no me interessa o que dizem as suas malditas estatsticas. No sou uma coisa que se coma ao pequeno-almoo, nem tenciono ser vendido
como tal. Vou falar a fundo dos problemas, porque penso que o povo americano  suficientemente inteligente para os querer conhecer.
 - Eu s...
 - Quero que tente arranjar um debate entre mim e o  Presidente, para discusso dos temas bsicos.
. - Muito bem - concordou Blair Roman. - Vou falar imediatamente com os homens do Presidente, A. W.
 - Mais uma coisa - disse Adam.
 - Sim? O que ?
 - Pare de me chamar A. W.
No correio havia uma comunicao da Ordem dos Advogados  Americanos anunciando a sua conveno anual em Acapulco.  Jennifer tinha meia dzia de casos entre mos
e, em qualquer outra altura, teria ignorado o convite, mas a  conveno ia realizar-se durante as frias escolares de  Joshua e Jennifer achou que ele iria gostar
muito de Acapulco.
 - Vou aceitar. Quero trs reservas - disse ela a Cynthia.  la levar tambm Mrs. Mackey.  Nessa noite ao jantar, Jennifer deu a notcia a Joshua.
 - Gostavas de ir a Acapulco?
 - Isso fica no Mxico - declarou ele. - Na Costa Ocidental.
 - Exactamente.
 - Podemos ir a uma praia de nudistas?
 - Joshua !
 - Bem, eles tm-nas l. Andar despido  uma coisa natural.
 - Vou pensar nisso.
 - E podemos fazer pesca submarina?
 Jennifer imaginou Joshua a tentar capturar uma enorme pescada e disfarou um sorriso.
 - Veremos. Alguns daqueles peixes so bastante grandes.
 - Isso  que torna a pesca submarina excitante - explicou Joshua com ar srio. - Se fosse fcil, no seria divertido. No seria desporto.
 Era como se estivesse a ouvir Adam.
 - Concordo.
 - Que mais se pode fazer l?
 - Bem, podemos andar a cavalo, passear a p, ver monumentos.
 - No vamos passar o tempo a visitar igrejas antigas, est bem? So todas iguais.
 Quando se v uma igreja, todas as outras ficam vistas", dissera Adam certa ocasio. A conveno teve incio numa segunda-feira. Jennifer, Joshua e Mrs. Mackey
foram para Acapulco na sexta-feira de manh, num jacto Braniff. Joshua j tinha voado muitas vezes, mas, os avies continuavam a entusiasm-lo. Mrs. Mackey estava
paralisada de medo.  Joshua resolveu anim-la.
 - Veja as coisas desta maneira. Se o avio cair, no  sofreremos por muito tempo.
 Mrs. Mackey empalideceu.  O avio aterrou no Aeroporto Benito Juarez s quatro horas da tarde e, uma hora mais tarde, os trs chegaram a Las  Brisas. O hotel ficava
a oito milhas de Acapulco, e era  composto por uma srie de encantadores bangals cor-de-rosa,  construdos numa colina, cada um deles com o seu ptio  privativo.
O bangal de Jennifer, tal como muitos outros, tinha piscina prpria. Fora difcil conseguir as reservas, pois havia l mais meia dzia de convenes e Acapulco
encontrava-se  superlotado, mas Jennifer telefonou para uma empresa sua  cliente e, passada uma hora, foi informada de que a esperavam  ansiosamente em Las Brisas.
 Depois de desfazerem as malas, Joshua pediu:
 - Podemos ir  cidade para ouvirmos falar as pessoas?
Nunca estive num pas onde ningum falasse ingls. - Pensou  um pouco e depois acrescentou: - Sem contar com a Inglaterra.  Foram  cidade e vaguearam pelo Zocalo,
a agitada zona comercial mas, para grande decepo de Joshua, s ouviam  falar ingls. Acapulco encontrava-se cheio de turistas americanos.  Deambularam pelo mercado
colorido, no cais principal em frente de Sandborn's, na parte velha da cidade, onde centenas de barracas vendiam uma incrvel variedade de mercadorias.  Ao fim
da tarde, meteram-se numa calandria, uma carroa puxada por cavalos, e foram at ao Pie de la Cuesta, a praia ocidental, e depois regressaram  cidade.  O jantar
no Armando's Le Club, foi excelente.
 - Adoro comida mexicana - declarou Joshua.
 - Ainda bem - respondeu Jennifer. - S que esta  francesa.
 - Bom, mas tem um paladar mexicano.
 O sbado foi um dia muito ocupado. De manh foram fazer compras  Quebrada, onde se situavam as lojas mais elegantes  e depois comeram um almoo mexicano no Coyuca
22.
 - Suponho que me vais dizer que isto tambm  comida francesa - disse Joshua.
 - No, esta  mesmo mexicana, gringo.
 - O que  um gringo ?
 - s tu, amigo!
 Passaram pelo frontn t, perto da Plaza Caleta, e Joshua viu os cartazes que anunciavam os jogos de jai alai z.  Joshua aquiesceu com um movimento de cabea.
 - Se no for muito caro. Se gastarmos o dinheiro todo, no podemos voltar para casa.
 - Creio que poderemos dar um jeito.
 Entraram e assistiram ao jogo arrebatado das equipas. Jennifer fez uma aposta por Joshua e a equipa dele venceu.  Quando Jennifer props que regressassem ao hotel,
Joshua disse:
 - Escuta, Me, no podemos ir ver primeiro os mergulhadores?
 O gerente do hotel tinha-lhes falado nisso naquela manh.
 - Tens a certeza de que no queres ir descansar, Joshua?
 - Ah, se ests cansada,  claro. Esqueo-me sempre da tua idade.
 Aquilo produziu efeito.
 - Deixa l a minha idade. - Jennifer voltou-se para Mrs. Mackey: - Est de acordo?
 - Certamente - suspirou Mrs. Mackey.
 A sesso de mergulhos tinha lugar nos rochedos de La Quebrada. Jennifer, Joshua e Mrs. Mackey ficaram numa  plataforma destinada ao pblico, enquanto os mergulhadores,
segurando tochas acesas, se atiravam de uma altura de cento e cinquenta ps para uma estreita enseada entre as rochas,  calculando o tempo da descida de modo a
coincidir com a
rebentao das ondas. O menor erro de clculo significaria  uma morte imediata.  Quando a exibio terminou, um rapaz veio recolher donativos para os mergulhadores.
 - Uno peso, por favor.
 Jennifer deu-Lhe cinco pesos.
Nessa noite, ela sonhou com os mergulhadores.  Las Brisas tinha uma praia privativa, La Concha, e, no domingo de manh, Jennifer, Joshua e Mrs. Mackey dirigiram-se
 para l num dos jipes de capote cor-de-rosa que o hotel punha   disposio dos hspedes. O tempo estava maravilhoso. O  porto era como uma tela de um azul cintilante,
salpicada de  barcos a motor e de veleiros. Joshua ficou  beira do terrao, a ver correr os esquiadores aquticos.
 - Sabias que o esqui aqutico foi inventado em Acapulco, Me?
 - No. Onde  que ouviste isso?
 - Ou li num livro, ou inventei.
 - Creio que inventaste.
 - Isso quer dizer que no posso ir fazer esqui aqutico?
 - Aqueles gasolinas so muito rpidos. No tens medo?  Joshua olhou para os esquiadores que deslizavam sobre a gua.
 - Aquele homem disse: Vou mandar-te para Jesus.,. E depois espetou-me um prego na mo.
 Era a primeira vez que se referia  terrvel provao pela qual tinha passado.  Jennifer ajoelhou-se e colocou os braos em volta do filho.
 - O que te fez pensar nisso, Joshua?
 Ele encolheu os ombros.
 - No sei. Suponho que talvez porque Jesus caminhou sobre a gua, e todos esto acol a andar sobre a gua.
Reparou na expresso aflita da me. - Desculpa, Me. No penso muito nisso, a srio que no.  Ela abraou-o com fora e disse:
 - Est bem, querido.  claro que podes ir fazer esqui aqutico. Mas primeiro vamos almoar.
 O restaurante ao ar livre, em La Concha, tinha mesas de ferro forjado cobertas com toalhas cor-de-rosa, protegidas  por guarda-sis s riscas cor-de-rosa e brancas.
O almoo era  volante e, sobre a comprida mesa, encontravam-se as iguarias mais diversas. Havia lagosta ao natural, camares e salmo, carnes frias e quentes, saladas,
uma variedade de vegetais crus e cozinhados, queijos e frutas. Havia uma mesa de apoio onde se via uma quantidade de sobremesas acabadas de fazer. As duas mulheres
viram Joshua encher e esvaziar trs vezes o seu prato, antes de se sentar satisfeito.
 -  um restaurante muito bom - comentou ele. - No me interessa a nacionalidade da comida. - Ps-se de p. - Vou  ver do esqui aqutico.
 Mrs. Mackey quase no tocara na comida.
 - Sente-se bem? - perguntou Jennifer. - No comeu
nada desde que chegmos.
 Mrs. Mackey inclinou-se para a frente e segredou num tom sombrio:
 - No quero a Vingana de Montezuma!
 - Acho que no precisa de se preocupar com isso num lugar como este.
 - No me dou bem com as comidas exticas - replicou Mrs. Makey, torcendo o nariz.
 Joshua regressou apressadamente  mesa, declarando:
 - Arranjei um barco. Posso ir agora, me?
 - No queres esperar mais um pouco?
 - Para qu?
 - Joshua, depois de tudo o que comeste, vais ao fundo de certeza.
 - Deixa-me experimentar! - suplicou ele.
 Enquanto Mrs. Mackey ficava em terra, a v-los, Jennifer e Joshua entraram no gasolina e Joshua recebeu a sua primeira lio de esqui aqutico. Caiu durante os
primeiros cinco  minutos mas, depois, foi como se tivesse nascido para aquilo. Antes de a tarde terminar, j Joshua fazia habilidades com um s esqui e, finalmente,
deslizava nos calcanhares, sem  esquis.  Passaram o resto da tarde deitados na areia e a nadar.   Durante o regresso de jipe a Las Brisas, Joshua encostou-se a
Jennifer e disse:
 - Sabes uma coisa, me? Acho que este foi o dia mais feliz da minha vida.
Recordou-se das palavras de Michael: Quero que saiba que esta foi a noite mais feliz da minha vida.?,
 Na segunda-feira de manh, Jennifer levantou-se cedo e vestiu-se para ir assistir  conveno. Escolheu uma saia  rodada verde-escura e uma blusa sem ombros, bordada
com gigantescas rosas vermelhas, que lhe revelava o tom  bronzeado. Contemplou-se ao espelho e ficou satisfeita.  Embora o filho a considerasse j velha, Jennifer
reconhecia que,  apesar dos seus trinta e quatro anos, parecia a irm mais velha de Joshua. Riu para si mesma e pensou que estas frias tinham sido uma ptima ideia.
 - Agora tenho de ir trabalhar - participou Jennifer a Mrs. Mackey. - Tome conta de Joshua. No o deixe apanhar muito sol.  O centro da importante conveno era
um conjunto de cinco
edifcios ligados entre si por terraos de circulao cobertos, espalhados por trinta e cinco acres de vegetao luxuriante. Esttuas pr-columbianas ornamentavam
os relvados  cuidadosamente tratados.  A Conveno da Ordem dos Advogados estava a decorrer no Teotihuacan, o salo principal, que tinha uma capacidade para setecentas
e cinquenta pessoas.  Jennifer dirigiu-se ao balco das inscries, assinou e penetrou no vasto salo. Estava apinhado. Por entre a  multido, descobriu dzias
de amigos e de conhecidos. Quase todos  tinham substitudo os conservadores fatos e vestidos de  trabalho por camisas desportivas e cales de cores  berrantes.
Era como se estivessem todos em frias. Jennifer pensou:.?H um bom motivo para se fazer a conveno num lugar como Acapulco,  em vez de Chicago ou Detroit." Podiam
tirar os colarinhos  engomados e as gravatas escuras e gozar o sol tropical.  Jennifer tinha recebido um programa  porta mas, como estava a conversar animadamente
com alguns amigos, nem lhe prestou ateno.
 - Ateno, por favor! - ressoou uma voz profunda atravs do  altifalante. - Querem fazer o favor de se sentar? Ateno, por favor! Gostaramos de dar incio 
reunio.
Queiram sentar-se, por favor!
 De m vontade, os pequenos grupos foram-se dispersando,  medida que as pessoas comeavam a procurar lugar. Jennifer  ergueu os olhos e viu que um grupo de homens
acabava de subir ao estrado.  No centro encontrava-se Adam Warner.  Jennifer deixou-se ficar de p, completamente gelada,  enquanto Adam se encaminhava para a cadeira
prxima do   microfone e se sentava. Sentiu o corao comear-lhe a bater com violncia dentro do peito. A ltima vez que vira Adam fora quando tinham almoado
no restaurantezinho italiano, no dia em que ele lhe anunciara que Mary Beth estava grvida.  O primeiro impulso de Jennifer foi fugir. Nunca Lhe tinha passado pela
cabea que Adam pudesse estar presente, e no conseguia suportar a ideia de o enfrentar. O facto de Adam e o filho dele se encontrarem na mesma cidade enchia-a
de  pnico. Jennifer sentia que precisava de sair dali o mais  depressa possvel.  Preparava-se para ir embora quando o presidente anunciou
atravs do altifalante:  - Se o resto das senhoras e dos senhores quiser fazer o favor de se sentar, comearemos imediatamente.  Dado que as pessoas que a rodeavam
comeavam a sentar-se,  Jennifer achou que, se continuasse de p, iria dar nas vistas. Jennifer deixou-se escorregar para uma cadeira,  resolvida a esgueirar-se
 primeira oportunidade.  O presidente continuou:
 - Esta manh temos a honra de ter, como orador convidado, um candidato  presidncia dos Estados Unidos.  membro da Ordem  dos Advogados de Nova Iorque e um dos
mais distintos membros do Senado dos Estados  Unidos.  com um grande orgulho que vos apresento o Senador Adam Warner. Jennifer viu Adam levantar-se para receber
os aplausos
entusisticos. Aproximou-se do microfone e percorreu a sala com o olhar.
 - Obrigado, Senhor Presidente, senhoras e senhores.
 A voz de Adam era profunda e sonora, e o seu ar autoritrio  era hipnotizante. Tinha-se estabelecido na sala um silncio absoluto.
 -Existem muitos motivos para nos encontrarmos hoje aqui reunidos. - Fez uma pausa. - Alguns gostam de nadar e outros gostam de fazer pesca submarina. . . - Ouviu-se
uma onda de riso apreciativo. - Mas a razo principal da vossa presena aqui,  a troca de ideias e de conhecimentos, e a discusso de conceitos novos. Hoje em
dia os advogados esto,  mais do que nunca, sujeitos a ataques. At o Presidente do Supremo Tribunal tem criticado vivamente a nossa  profisso.  Jennifer apreciou
a maneira como ele dizia nossa, tornando- se assim igual aos outros. Quase no ligava ao significado : das palavras que ele pronunciava, contentando-se apenas em
olh-lo, em ver o modo como ele se movia, em escutar a sua voz. A certa altura, ele fez uma pausa, passou os dedos pelo cabelo, e Jennifer sentiu uma angstia profunda.
Era um dos gestos de Joshua. O filho de Adam encontrava-se a poucos metros de distncia, e Adam nunca o saberia.  A voz de Adam tornou-se mais forte, mais enrgica.

 - Alguns dos que se encontram nesta sala so advogados de Direito Penal. Devo confessar que sempre considerei esse o ramo mais excitante da nossa profisso. Os
advogados de Direito Peal correm por vezes grandes perigos.  uma  profisso muito honrada e uma daquelas de que podemos  orgulhar-nos. No entanto - a sua voz
tornou-se mais dura -,  h  alguns advogados - e agora Jennifer reparou que Adam se exclua pela escolha do pronome -, que so uma desonra para o juramento que
prestaram. O sistema americano de  jurisprudncia baseia-se no direito inalienvel de todos os cidados a um julgamento imparcial. Mas quando a lei se torna  objecto
de escrnio, quando os advogados gastam o seu tempo  e energia, imaginao e habilidade,  procura de maneiras  para desafiar a lei,  procura de maneiras para
subverterem a justia, ento penso que  altura de se fazer algo. - Todos  os  olhos da sala se encontravam postos em Adam, cujo olhar  brilhava de excitao. -
Estou a falar, senhoras e senhores,  por experincia prpria, e profundamente irritado com certas  coisas que vejo acontecer. Estou actualmente a presidir a uma
 comisso do Senado encarregada de proceder a uma  investigao sobre o crime organizado nos Estados Unidos. A  minha  comisso tem visto os seus intentos freqentemente
contraria dos e frustrados por homens que se consideram mais  poderosos do que os mais importantes departamentos jurdicos  do  nosso pas. Vi juzes subornados,
famlias de testemunhas  ameaadas, vi desaparecer testemunhas-chave. O crime  organizado, no nosso pas,  como um pito venenoso  estrangulando a nossa economia,
engolindo os nossos  tribunais,
 ameaando a nossa prpria vida. Na sua grande maioria, os  advogados so homens e mulheres honrados que trabalham honestamente, mas quero fazer uma advertncia
quela pequena  minoria que pensa que a sua lei est acima da nossa lei: esto a cometer um erro grave pelo qual tero de pagar.  Obrigado.  Adam sentou-se por
entre uma tumultuosa salva de palmas que se tornou numa ovao de p. Jennifer deu consigo tambm  de p, aplaudindo com os outros, mas meditava nas ltimas  palavras
de Adam. Era como se tivesse estado a falar directamente para ela. Jennifer voltou-se e encaminhou-se para a sada, abrindo caminho por entre a multido.  Quando
Jennifer se encontrava j perto da porta, foi  cumprimentada por um advogado mexicano com quem trabalhara um ano antes.  Ele beijou-lhe a mo, num gesto galante,
e declarou:
 -  uma honra t-la de novo no nosso pas, Jennifer. Fao questo em que jante esta noite comigo.
 Jennifer e Joshua tinham planeado ir nessa noite ao Maria Elena ver os danarinoS nativos.
 - Lamento, Luis. Tenho um compromisso.
 Os grandes olhos claros dele revelaram profunda decepo.
 - E amanh?
 Antes de Jennifer ter tido tempo de responder, aproximou-se  dela um ajudante de procurador distrital de Nova Iorque.
 - Ol - cumprimentou ele. - O que est para a a fazer no meio das pessoas vulgares? Quer ir jantar comigo logo   noite?
H uma discoteca mexicana chamada Repentha onde tm uma pista de vidro, iluminada por baixo, e um espelho no tecto.
 - Deve ser fascinante, obrigada, mas j tenho um compromisso  para esta noite.
 Pouco depois, Jennifer viu-se rodeada de advogados de todo o pas, com os quais tinha trabalhado ou de quem fora oponente. Era uma celebridade e todos queriam
falar com ela. S decorrida meia hora  que Jennifer conseguiu libertar-se. Encaminhou-se a toda a pressa para o trio e, ao aproximar-se da sada, viu que Adam
se dirigia para ela, rodeado pela  imprensa e por agentes do servio secreto. Jennifer tentou  escapar-se, mas era demasiado tarde. Adam acabava de a ver.
 - Jennifer!
 Durante um momento, pensou em fingir no o ter ouvido, mas no podia deix-lo embaraado em frente dos outros. Cumpriment-lo-ia rapidamente e depois ir-se-ia
embora. Viu Adam encaminhar-se para ela, ao mesmo tempo que dizia  imprensa:
 - No tenho mais nenhuma declarao a prestar, senhoras e senhores.
 No instante a seguir, Adam estava a tocar-Lhe na mo, a fit-la nos olhos, e foi como se nunca tivessem estado  separa' dos. Encontravam-se no trio, rodeados
de pessoas e,  no entanto, era como se estivessem completamente ss.
Jennifer no fazia a menor ideia de h quanto tempo estavam ali a olhar um para o outro.
 - Acho. . . acho que seria melhor irmos beber qualquer coisa - disse Adam por fim.
 - Seria mais sensato no irmos. - Precisava de sair daquele  lugar.
 Adam abanou a cabea.
 - Recusado.
 Deu-lhe o brao e conduziu-a para o bar apinhado de gente. Arranjaram uma mesa ao fundo da sala.
 - Telefonei-te e escrevi-te - disse Adam. - Nunca me telefonaste e as minhas cartas foram devolvidas.  Estava a contempl-la, com uma expresso interrogadora nos
olhos.
 - No houve um nico dia em que no pensasse em ti.
Por que motivo desapareceste?
 - Faz parte das minhas artes mgicas - replicou Jennifer num tom frvolo.
 Aproximou-se um empregado que lhes perguntou o que desejavam. Adam voltou-se para Jennifer.
 - O que tomas?
 - Nada. Tenho realmente de me ir embora, Adam.
 - Mas no agora. Vamos celebrar. O aniversrio da revoluo.
 - Da deles ou da nossa?
 - Que diferena faz? - Voltou-se para o empregado: - Duas  margaritas.
 - No. Eu... - Muito bem, uma bebida?,, pensou ela.
- Para mim, traga uma dupla - pediu Jennifer com uma expresso ousada.
 O empregado fez um sinal de assentimento com a cabea e afastou-se.
 - Tenho lido muito a teu respeito - declarou Jennifer. -  Sinto muito orgulho em ti, Adam.
 - Obrigado. - E Adam hesitou: - Tambm tenho lido muitas coisas a teu respeito.
 Ela foi sensvel ao tom da sua voz.
 - Mas no te orgulhas de mim.
 - Parece que tens muitos clientes do Sindicato.
 Jennifer sentiu-se irritar.
 - Pensei que o teu sermo tinha acabado.
 - No se trata de nenhum sermo, Jennifer. Estou preocupado  contigo. A minha comisso anda atrs de Michael Moretti e  vamos apanh-lo.
 Jennifer percorreu com os olhos o bar cheio de advogados.
 - Pelo amor de Deus, Adam, no devamos estar a falar nisso, especialmente aqui.
 - Nesse caso, onde?
 - Em lado nenhum. Michael Moretti  meu cliente. No posso falar-te dele.
 - Quero conversar contigo. Onde?
 Ela abanou a cabea.
 - J te disse que eu. . .
 - Preciso falar de ns.
 - No h nenhum ns?,. - E Jennifer fez meno de se levantar.
 Adam pousou-lhe a mo no brao.
 - Por favor, no te vs embora. No posso deixar-te ir. Ainda no.
 Jennifer voltou a sentar-se de m vontade.  Os olhos de Adam estavam cravados no seu rosto.
 - Continuas a pensar em mim?
 Jennifer ergueu os olhos para ele e ficou sem saber se devia rir ou chorar. Se continuava a pensar nele! Ele vivia em casa dela: Dava-lhe um beijo todas as manhs,
arranjava-lhe o pequeno-almoo, andava com ele de barco, amava-o.
 - Sim - respondeu finalmente Jennifer. - Penso em ti.
 - Ainda bem. s feliz?
 -  claro. - Reconhecia que tinha respondido demasiado depressa. Tentou dar um tom mais natural  sua voz: - Tenho  uma carreira brilhante, vivo sem dificuldades
financeiras, viajo muito, encontro muitos homens atraentes. Como est a tua mulher?
 - Est boa. - Falava em voz baixa.
 - E a tua filha?
Ele acenou com a cabea e apareceu-Lhe no rosto uma expresso  de orgulho.
 - Samantha  maravilhosa. Mas creio que est a crescer depressa de mais.
  Deve ser da idade de Joshua. ?,
 - Nunca casaste?
 - No.
 Seguiu-se um longo silncio e Jennifer tentou continuar, mas hesitou muito tempo. Era tarde de mais. Adam perscrutara-lhe os olhos e compreendera logo.
 Apertou-lhe a mo entre as dele.
 - Oh, Jennifer! Oh, minha querida!
 Jennifer sentiu o sangue subir-lhe ao rosto. Soubera sempre que isto seria um erro terrvel.
 - Preciso de ir, Adam. Tenho um encontro.
 - Anula-o - suplicou ele.
 - Lamento. No posso. - Aquilo que desejava era sair dali, afastar o filho daquele lugar, regressar a casa.
 - Devo voltar a Washington num avio da tarde - dizia Adam. - Mas poderei ficar, se te encontrares comigo logo  noite.
 - No. No !
 - Jennifer no posso perder-te outra vez. Assim no.
Precisamos conversar. Vem jantar comigo.  Apertava-lhe a mo com mais violncia. Olhou para ele, lutou com todas as suas foras e viu que comeava a ceder.
 - Por favor, Adam - suplicou. - No devemos ser vistos  juntos. Se andas atrs de Michael Moretti...
 - Isto no tem nada a ver com Moretti. Um amigo meu emprestou-me o seu barco. Chama-se Paloma Blanca. Est ancorado no Iate Clube. s oito horas.
 - No irei.
 - Eu vou. Estarei  tua espera.
 Do outro lado da sala, no bar repleto de gente, Nick Vito estava sentado com duas puttanas mexicanas que um amigo lhe enviara. Eram ambas bonitas, vulgares e de
menor idade, tal como Nick Vito gostava. O amigo tinha-lhe prometido que elas seriam excepcionais e no se enganara. Estavam a  esfregar-se nele, murmurando-lhe
promessas excitantes ao  ouvido, mas Nick Vito no as escutava. Estava a olhar atravs da sala, para a mesa onde se encontravam Jennifer Parker e Adam Warner.
 - Porque no vamos para o teu quarto, querido '? - sugeriu  uma das raparigas a Nick.
 Nick Vito sentia-se tentado a ir ter com Jennifer e com o desconhecido que a acompanhava, para a cumprimentar, mas as mos das duas raparigas encontravam-se entre
as suas  pernas e ele comeava a ficar excitado. la ser uma bela  sanduche. Est bem, vamos para cima - concordou Nick Vito. O Paloma Blancu era um veleiro a motor
que brilhava  orgulhoso, branco e cintilante  luz da Lua. Jennifer  aproximou-se devagar, olhando em redor para se certificar de  que ningum a tinha visto. Adam
dissera-lhe que ia tentar  esquivar-se aos homens do servio secreto e, aparentemente,  tinha-o conseguido. Depois de ter instalado Joshua e Mrs. Mackey no Maria
Elena, Jennifer tomara um txi e pedira ao motorista que a deixasse ficar um ou dois quarteires antes  do  cais.  Jennifer tinha pegado meia dzia de vezes no
telefone para falar com Adam e dizer-lhe que no iria ter com ele. Tinha comeado a escrever uma mensagem, mas depois rasgara-a. Desde o momento em que deixara
Adam no bar, Jennifer tinha-se  debatido com uma indeciso enorme. Pensou em todos os motivos pelos quais no devia ver Adam. Nada de bom poderia resultar dali,
e isso poderia acarretar srios prejuzos. A carreira de Adam poderia ser posta em perigo. Ele gozava de uma enorme popularidade entre o pblico, era um idealista
numa poca de cinismo, era a esperana do pas para o futuro.  Era o menino querido dos meios de informao, mas a mesma imprensa que ajudara a elev-lo estaria
pronta a lan-lo no abismo se ele trasse a imagem que tinham dele.  Por todos estes motivos, Jennifer decidira no o ver. Era outra mulher, vivendo outra vida,
e agora pertencia a  Michael.  Adam esperava-a ao cimo da prancha de embarque.
 - Tive tanto medo que no viesses - confessou ele.
 E ela estava nos seus braos e beijavam-se.
 - E a tripulao? - perguntou finalmente Jennifer.
 - Mandei-os embora. Ainda sabes velejar?
 - Ainda.
 Iaram a vela, manobraram para estibordo e, passados dez minutos, o Paloma Blanca abandonava o porto em direco ao mar alto. Durante a primeira meia hora entregaram-se
 pilotagem, mas no havia um nico momento em que no estivessem plenamente conscientes da presena um do outro. A tenso continuava a aumentar, e ambos sabiam
que ia  acontecer o inevitvel.  Quando por fim, abandonaram o porto e comearam a navegar  para o Pacfico iluminado pelo luar, Adam aproximou-se de  Jennifer
e envolveu-a com os braos.  Fizeram amor no convs, sob as estrelas, com a brisa suave     e perfumada refrescando-lhes os corpos nus.  Esqueceram o passado e
o futuro e ficou apenas o presente, unindo-os nos seus momentos efmeros. Jennifer sabia que esta noite entre os braos de Adam no era um princpio; era um fim.
No havia possibilidade de unir os mundos que os separavam. Tinham-se afastado demasiadamente um do outro e no podiam voltar atrs. Nem agora, nem nunca. Para
ela, Joshua seria uma parte de Adam, e isso bastava-lhe, teria de lhe bastar.  Era preciso que esta noite perdurasse para o resto da sua vida.  Estavam deitados
lado a lado, escutando o sussurro brando do mar de encontro ao barco.
 - Amanh comeou Adam.
 - No fales - segredou Jennifer. - Ama-me, Adam.
 Cobriu os lbios dele de pequenos beijos e traou-lhe  suavemente com os dedos as linhas slidas e esguias do corpo. Foi descendo as mos, em crculos lentos at
o encontrar, e os seus dedos comearam a acarici-lo.
 - Santo Deus, Jennifer - murmurou Adam, e a boca dele comeou a mover-se lentamente ao longo do seu corpo nu.
 - O safado continuava a deitar-me malocchio ? - queixava-se  o pequeno Salvatore Fiore -, por isso fui obrigado a liquid-lo.
 Nick Vito riu, pois algum que fosse to estpido para  tentar enganar o ?.Florzinha deveria ser completamente  louco. Nick Vito encontrava-se na cozinha da casa
de campo,  divertindo-se a recordar o passado com Salvatore Fiore e  Joseph Colella, enquanto esperava que terminasse a reunio que  estava a decorrer na sala.
O ano e o gigante eram os seus melhores amigos. Tinham enfrentado juntos muitas  dificuldades. Nick Vito olhou para os dois homens e pensou,  satisfeito: ?. como
se fossem meus irmos."
 - Como est o teu primo Pete? - perguntou Nick ao gigantesco  Colella.
 - Meteu-se numa encrenca e puseram-lhe a cabea a prmio,  mas h-de safar-se.
 - Ele  espantoso.
 - Se ! Pete  boa pessoa; teve foi pouca sorte. Planeou o assalto a um banco, mas isso no era a especialidade dele e  os malditos chuis apanharam-no e meteram-no
dentro. Passou um mau bocado. Os guardas da priso tentaram faz-lo falar, mas no conseguiram nada.
 - Que diabo! Pete tem classe!
 - Se tem! Gostou sempre de muito dinheiro, de mulheres boas e de carros de luxo.
 Da sala de estar ouviu-se o som elevado de vozes irritadas. Ficaram  escuta por uns momentos.
 - Parece que Colfax est muito aborrecido.
 Thomas Colfax e Michael Moretti encontravam-se sozinhos na sala, a discutir uma importante operao de jogo que a Famlia ia iniciar nas Bahamas. Michael tinha
encarregado Jennifer de fazer os preparativos para o negcio.
 - No podes fazer isso, Mike - protestava Colfax. - Conheo  os tipos todos de l. Ela no. Tens de me deixar tratar deste assunto. - Sabia que estava a falar
muito alto, mas no conseguia controlar-se.
 -  demasiado tarde - respondeu Michael.
 - No confio na rapariga. O mesmo se passava com Tony.
 - Tony j no est entre ns. - A voz de Michael aparentava  uma calma perigosa.
 Era Thomas Colfax que preocupava Michael. O inqurito da Comisso Anti-crime presidida por Warner estava em plena actividade. Quando apanhassem Colfax, quanto
tempo iria resistir o velho antes de dar  lngua? Ele sabia mais coisas a respeito da Famlia do que Jennifer Parker chegaria a saber alguma vez. Colfax era o
nico que podia destru-los a todos, e Michael no confiava nele.
 - Manda-a embora por uns tempos - dizia Thomas Colfax. - S  at o inqurito acalmar. Ela  mulher. Se comearem a exercer  presso sobre ela, falar.
 Michael observou-o e decidiu-se.
 - Muito bem, Tom. Talvez tenhas razo nesse aspecto. Jennifer pode no ser perigosa mas, por outro lado, se ela  no est cem por cento connosco, para qu correr
riscos  desnecessrios?
 -  isso que estou a sugerir, Mike. - Thomas Colfax levantou-se da cadeira, aliviado. - Ests a tomar a atitude mais sensata.
 - Eu sei. - Michael voltou-se na direco da cozinha e gritou. - Nick !
 Nick Vito apareceu quase imediatamente.
 - Por favor, leva o consigliere outra vez para Nova Iorque,  Nick.
 - Com certeza, chefe.
 - Ah! De caminho, quero que pares e entregues uma coisa da minha parte. - Voltou-se para Thomas Colfax: - No se importa?
 -  claro que no, Mike. - Sentia-se entusiasmado com a sua vitria.
 - Anda comigo - disse Michael Moretti a Nick Vito. - Est l  em cima.
 Nick seguiu Michael at ao quarto deste. Entraram, e Michael  fechou a porta.
 - Importas-te de parar antes de sares de New Jersey?
 - Com certeza, chefe.
 - Quero que deites fora um certo lixo. - Nick Vito olhou-o com ar intrigado. - O consigliere - explicou Michael.
 - Ah! Okay. Como queira.
 - Leva-o para a lixeira. No haver l ningum a esta hora da noite.
 Passados quinze minutos, a limusina seguia em direco a Nova Iorque. Nick Vito ia ao volante, com Thomas Colfax no banco do passageiro, ao lado dele.
 - Estou satisfeito por Michael ter decidido pr de lado aquela puta - declarou Thomas Colfax.
 Nick deu uma olhadela furtiva para o advogado que, sentado  junto dele, no desconfiava de nada.
 - Hmm, hmm.
 Thomas Colfax consultou o relgio de ouro Baume & Mercier  que trazia no pulso. Eram trs horas da madrugada, e a sua hora habitual de ir para a cama j h muito
fora  ultrapassada. Tivera um dia difcil e sentia-se cansado.  Estou a ficar muito velho para estas batalhas?, , pensou.
 - Vamos fazer um grande desvio?
 - No muito - respondeu Nick entre dentes.
 O pensamento de Nick Vito estava num torvelinho. Matar fazia  parte do seu trabalho e agradava-lhe porque Lhe dava uma sensao de poder. Quando matava, Nick sentia-se
 como um deus; era omnipotente. Todavia, esta noite, estava aborrecido. No conseguia compreender por que motivo lhe tinham ordenado que liquidasse Thomas Colfax.
Colfax era o consigliere, o homem para quem todos se voltavam  quando se encontravam em dificuldades. Logo a seguir ao Padrinho, o consigliere era o homem mais
importante  da Organizao. Livrara Nick da cadeia por diversas vezes.  Merda!?,, pensou Nick. Colfax tinha razo. Mike nunca devia ter deixado entrar uma mulher
no negcio. Os homens usavam os miolos. As mulheres pensavam com as passarinhas.  Como ele gostaria de deitar as mos a Jennifer Parker! Fod-la-ia at ela gritar
por socorro e depois. . . "
 - Cuidado! Ests a ir para fora da estrada!
 - Desculpe. - Nick trouxe rapidamente o carro para a sua via.
 A lixeira ficava a pouca distncia. Nick sentia o suor escorrer-lhe debaixo dos braos. Deu mais uma olhadela a  Thomas Colfax.  Liquid-lo seria canja. Seria
como adormecer um beb mas, que diabo ! era o beb errado. Algum estava a manipular  Mike. Isto era um pecado. Era como assassinar o seu prprio  pai ! "  Gostava
de ter podido conversar a este respeito com  Salvatore e com Joe. Talvez lhe tivessem dito o que devia  fazer.  Nick divisou a lixeira l  frente, do lado direito
da estrada. Os seus nervos comearam a ficar tensos, como sempre  acontecia antes de um golpe. Apertou o brao de encontro ao  lado esquerdo do corpo e sentiu o
volume encorajador da Smith & Wesson 38 de cano curto.
 - Preciso de uma boa noite de sono - declarou Thomas Colfax, bocejando.
 - Pois . - la dormir um sono muito, muito longo.
 O carro estava agora a aproximar-se da lixeira. Nick olhou pelo espelho retrovisor e perscrutou a estrada  sua frente. No havia carros  vista.  De sbito, ps
o p no travo e exclamou:
 - Que raio, parece que tenho um furo!
 Parou o carro, abriu a porta e saiu para a estrada. Retirou a arma do coldre e segurou-a junto ao corpo. Em seguida  aproximou-se do lado oposto do carro e pediu:
 - Quer dar-me uma ajuda?
 Thomas Colfax abriu a porta e apeou-se.
 - No tenho muito jeito para. . . - Viu a arma apontada na mo de Nick e calou-se. Tentou engolir em seco. - O... o que se passa, Nick? - As palavras saam-lhe
com dificuldade.
- O que  que eu fiz?
 Era a pergunta que tinha trabalhado durante toda a noite no pensamento de Nick Vito. Algum estava a fazer um jogo sujo com Mike. Colfax encontrava-se do lado
deles, era um
deles. Quando o irmo mais novo de Nick se metera em  complicaes com os Feds 1, fora Colfax quem tratara do  assunto  e salvara o rapaz. At Lhe tinha arranjado
um emprego. Que  diabo, devo-lhe muito,?, pensou Nick.  Baixou a mo que empunhava a arma.
 - Juro por Deus que no sei, Mr. Colfax. Isto no  justo.
 Thomas Colfax olhou-o por um momento e suspirou.
 - Tens mesmo de o fazer, Nick?
 - Jesus, no posso faz-lo. O senhor  o meu consigliere.
- Mike mata-te se me deixares fugir.
 Nick sabia que Colfax estava a dizer a verdade. Michael ;? Moretti no era um homem que tolerasse desobedincias.  Nick pensou em Tommy Angelo. Angelo tinha sido
o motorista  de um roubo de peles. Michael ordenara-lhe que pegasse  no carro que tinham utilizado e o mandasse triturar na prensa  de um ferro-velho que a Famlia
possua em New Jersey.  Tommy Angelo estava com muita pressa para comparecer a  um encontro, por isso abandonou o carro numa rua de East  Side, onde os detectives
o encontraram. Angelo desapareceu  no dia seguinte, e constou que o corpo tinha sido metido na  mala de um velho Chevy e prensado. Ningum que trasse  Michael
Moretti conseguia sobreviver. Mas h uma
hiptese, pensou Nick.
 - Mike no precisa de saber - declarou Nick. O seu crebro,  de uma maneira geral lento, estava a trabalhar depressa, com uma clarividncia fora do comum. - Olhe
- disse   o que tem a fazer  sair do pas. Vou dizer a Mike que o  enterrei no lixo, para que ningum possa encontr-lo. Pode  esconder-se na Amrica do Sul, ou
em qualquer outro lugar.  Deve ter um pequeno p-de-meia em qualquer lado.  Thomas Colfax tentou que a sua voz no deixasse transparecer  a esperana sbita que
o invadia.
 - Possuo muito dinheiro, Nick. Dou-te o que...  Nick abanou energicamente a cabea.
 - No estou a fazer isto por dinheiro. Estou a faz-lo por  que... - Como poderia traduzi-lo por palavras?,? - tenho  respeito por si. S preciso que me proteja.
Pode apanhar esta  manh um avio pra a Amrica do Sul?
 - No h problema, Nick - respondeu Thomas Colfax.
 - Deixa-me ficar em minha casa. Tenho l o passaporte.
 Duas horas depois, Thomas Colfax estava a bordo de um avio da Eastern Airlines, com destino a Washington, D.C.  Era o ltimo dia que passavam em Acapulco, uma
manh maravilhosa com brisas mornas e suaves que tocavam melodias  por entre as folhas das palmeiras. A praia de La Concha estava a abarrotar de turistas que pareciam
querer esgotar o sol antes de regressarem  rotina das suas vidas quotidianas.  Joshua aproximou-se a correr da mesa do pequeno-almoo, em fato de banho e com o
corpo atltico forte e bronzeado. Mrs. Mackey arrastava-se pesadamente atrs dele.
 - J tive tempo de sobra para digerir a comida, Me -  declarou Joshua. - Posso ir agora fazer esqui aqutico?
 - Joshua, acabaste agora mesmo de comer.
 - Tenho um metabolismo muito elevado - explicou ele com um ar muito grave. - Digiro depressa aquilo que como.
 Jennifer riu.
 - Est bem. Diverte-te.
 - Obrigado. Fica a ver-me, est bem?
 Jennifer viu Joshua correr ao longo do molhe, em direco a um gasolina ancorado. Viu-o contratar o condutor com um ar muito srio, e depois voltaram-se ambos
para olharem  Jennifer. Ela fez um gesto de aquiescncia, o condutor acenou com a cabea e Joshua comeou a colocar os esquis aquticos.  O gasolina roncou e Jennifer
viu Joshua comear a erguer-se  nos esquis.
 -  um atleta inato, no ? - comentou Mrs. Mackey cheia de orgulho.
 Naquele momento, Joshua voltou-se para acenar a Jennifer mas, perdendo o equilbrio, caiu de encontro s estacas. Jennifer levantou-se de um salto e comeou a
correr para o  molhe. Pouco depois viu a cabea de Joshua aparecer   superfcie da gua e ele olhou-a, sorridente.  Jennifer deixou-se ficar ali, com o corao
a bater  precipitadamente, vendo Joshua colocar de novo os esquis  aquticos. O barco descreveu um crculo e comeou a mover-se outra vez para a frente at adquirir
velocidade suficiente para  Joshua se levantar. Ele voltou-se mais uma vez para acenar a Jennifer e em seguida deslizou para a crista das ondas. Ela deixou-se ficar
a contempl-lo com o corao a bater ainda de medo. Se lhe acontecesse alguma coisa... Perguntou a si  prpria se as outras mes amariam tanto os filhos como ela
 amava Joshua, mas achava que isso era impossvel. Teria  morrido por Joshua, teria matado por ele. J matei por causa dele, pela mo de Michael Moretti,?, pensou.
 - Podia ter sido uma queda perigosa - comentou Mrs. Mackey.
 - Mas no foi, graas a Deus.
 Joshua andou na gua durante uma hora. Quando o barco se aproximou do molhe, ele largou a corda de arrasto e  deslizou para a areia com graciosidade.  Correu para
Jennifer, muito excitado.
 -Devias ter visto o desastre, Me. Foi incrvel! Um grande veleiro voltou-se, ns parmos e salvmo-Lhes a vida.
 - Isso  maravilhoso filho. Quantas vidas salvaste?
 - Ao todo eram seis.
 - E tiraste-os da gua?
 Joshua hesitou.
 - Bem, no os tirmos propriamente da gua. Estavam sentados na borda do barco. Mas teriam morrido  fome se no tivssemos aparecido.  Jennifer mordeu os lbios
para evitar um sorriso.
 - Compreendo. Ficaram muito felizes por vocs terem aparecido, no ficaram?
 - Foi o que disseram.
 - Magoaste-te ao cair, querido?
 -  claro que no. - Sentia uma dor na nuca. - Fiz s um galo.
 - Deixa-me ver.
 - Para qu? Sabes muito bem o que  um galo.
 Jennifer estendeu a mo e apalpou suavemente a nuca de Joshua.  Os seus dedos sentiram um grande alto.
 -  do tamanho de um ovo, Joshua.
 - No  nada.
 Jennifer ps-se de p.
 - Creio que  melhor irmos andando para o hotel.
 - No podemos ficar mais um bocadinho?
 - Receio bem que no. No queres perder o teu jogo de futebol de sbado, pois no?
 Ele suspirou.
 - No. O Terry Waters est  espera de ocupar o meu lugar.
 - No tem a menor possibilidade. Atira a bola como uma rapariga.
 Joshua fez um ar presunoso.
 -  mesmo, no ?
 Quando regressaram a Las Brisas, Jennifer telefonou ao gerente e pediu que lhe mandasse um mdico ao quarto. O mdico chegou meia hora depois. Era um corpulento
mexicano de  meia-idade, vestido com um antiquado fato branco. Jennifer f-lo entrar no bangal.
 - Em que posso ser-Lhe til? - perguntou o Dr. Raul Mendonza.
 - O meu filho deu uma queda esta manh. Tem um enorme galo  na cabea. Quero ter a certeza de que se encontra bem.  Jennifer acompanhou-o ao quarto de Joshua,
onde ele estava a  arrumar uma mala.
 - Joshua, este  o Doutor Mendonza.
 Joshua ergueu os olhos e inquiriu:
 - Est algum doente?
 - No. No est ningum doente, meu rapaz. S quero que o mdico veja a tua cabea.
 - Oh, pelo amor de Deus, Me! O que tem a minha cabea?
 - Nada. Mas ficarei mais descansada se o Doutor Mendonza a  observar. Faz-me a vontade, sim?
 - Mulheres! - exclamou Joshua. Olhou para o mdico com um ar desconfiado. - No vai espetar-me agulhas nem nada semelhante, pois no?
 - No, senor, sou um mdico que no faz doer.
 - Assim  que eu gosto.
 - Sente-se, por favor.
 Joshua sentou-se  beira da cama e o Dr. Mendonza percorreu  com os dedos a nuca de Joshua. Joshua estremeceu de dor mas no gritou. O mdico abriu o estojo e
tirou um  oftalmoscpio.
 - Abra bem os olhos, por favor.
 Joshua obedeceu. O Dr. Mendonza observou atravs do instrumento.
 - V raparigas nuas a danar?
 - Joshua !
 - Estava s a perguntar.
O Dr. Mendonza examinou o outro olho de Joshua.
 - Est so como um pro.  assim que dizem os americanos,  no? - Ps-se de p e fechou o estojo. -  melhor colocar-lhe gelo - aconselhou ele a Jennifer. - O rapaz
amanh estar fino.  Era como se tivessem tirado um enorme peso dos ombros de Jennifer.
 - Obrigada - agradeceu ela.
 - Eu trato da conta com o tesoureiro do hotel, senora. Adeus, jovem.
 - Adeus, Doutor Mendonza.
 Quando o mdico saiu, Joshua voltou-se para a me.  - Gostas mesmo de atirar o dinheiro pela janela fora, Me !
 - Pois gosto. Agrada-me gast-lo em comida, com a tua sade. . .
- Sou o homem mais saudvel da minha equipa.
 - Continua assim.
 Ele sorriu.
 - Prometo.
 Apanharam o avio das seis horas para Nova Iorque e chegaram  a Sand Points j muito tarde. Joshua dormiu durante todo o percurso at casa. A sala estava povoada
de fantasmas. Adam Warner encontrava-se no seu gabinete a preparar um importante discurso
que ia proferir na televiso, mas era-lhe impossvel  concentrar-se. Jennifer ocupava-Lhe o pensamento. No  conseguia pensar em mais nada desde que regressara
de Acapulco. O facto de a ter visto s servir para confirmar aquilo que  Adam soubera desde o princpio. Tinha feito a escolha errada.  Nunca deveria ter desistido
de Jennifer. O ter estado com ela  fazia-o recordar tudo o que tivera e que deitara fora, e no  podia suportar essa ideia.
 Encontrava-se numa situao inverosmil. Blair Roman ter-lhe-ia chamado uma situao de no-vencedor.  Ouviu-se uma pancada na porta e Chuck Morrison, assessor
de  Adam, entrou com uma cassette na mo.
 - Pode dispensar-me um minuto, Adam?
 - Isso no pode esperar, Chuck? Estou a meio de. . .
 - No me parece. - A voz de Chuck Morrison denotava excitao.
 - Est bem. O que  assim to urgente?
 Chuck Morrison veio para mais perto da secretria.
 - Acabo de rec eber um telefonema. Pode ser que se trate de um louco mas, se no for, o Natal chegou mais cedo este ano. Oua isto.
 Colocou a cassette no aparelho que se encontrava na secretria de Adam, premiu um boto e comeou a ouvir-se a  gravao.  Como disse que se chamava?"  No interessa.
S falarei com o Senador Warner.  Neste momento o Senador est ocupado. Porque no lhe envia uma mensagem e eu farei com que. . . "  No! Escute. Isto  muito importante.
Diga ao Senador Warner que lhe posso entregar Michael Moretti. Ao fazer este telefonema, estou a pr em perigo a minha vida. D o recado ao Senador Warner."  Muito
bem. Onde se encontra o senhor,  No Capitol Motel, na Rua Trinta e Dois. Quarto Catorze. Diga-lhe que no venha antes do anoitecer e que se assegure de que no
 seguido. Sei que isto est a ser gravado. Se mostrar a gravao a algum que no seja ele, serei um homem  morto. ,.  Ouviu-se um estalido e a gravao chegou
ao fim.
 - Que lhe parece? - inquiriu Chuck Morrison.
 Adam franziu o sobrolho.
 - A cidade est cheia de pessoas excntricas. Por outro
lado, o nosso homem sabe muito bem qual o isco a utilizar, no  verdade? Michael - Santo Deus - Moretti!
 s dez horas dessa mesma noite, Adam Warner, acompanhado de  quatro agentes do servio secreto, bateu cautelosamente   porta do quarto 14 do Capitol Motel. A
porta entreabriu-se.  No momento em que Adam viu a cara do homem que se encontrava no interior do quarto, voltou-se para os homens que o acompanhavam e ordenou:
 - Esperem l fora. No deixem que ningum se aproxime.
 A porta abriu-se um pouco mais e Adam penetrou no quarto.
 - Boa noite, Senador Warner.
 - Boa noite, Mr. Colfax.
 Os dois homens ficaram a observar-se mutuamente. Thomas  Colfax parecia mais velho do que quando Adam o vira pela ltima vez, mas existia outra diferena, quase
 impossvel de definir. De sbito, Adam compreendeu o que era. Medo.  Thomas Colfax estava amedrontado. Fora sempre um homem seguro de si mesmo, quase arrogante,
e agora essa segurana tinha desaparecido.
 - Obrigado por ter vindo, Senador. - A voz de Colfax denotava um profundo esgotamento e nervosismo.
 - Suponho que pretende falar-me a respeito de Michael Moretti.
 - Posso entreg-lo nas suas mos.
 - O senhor  o advogado de Moretti. Por que motivo o faria?
 - Tenho as minhas razes.
 - Suponhamos que eu decido aceitar a sua proposta. O que espera em troca?
 - Em primeiro lugar, total imunidade. Em segundo lugar, quero sair do pas. Preciso de um passaporte e de papis -  uma nova identidade.
 Ento Michael Moretti tinha tentado livrar-se de Thomas Colfax. Era a nica explicao possvel para o que estava a suceder. Adam mal conseguia acreditar na sua
boa estrela. Era a melhor coisa que podia ter acontecido.
 - Se eu lhe conseguir imunidade - disse Adam -, e no estou ainda a prometer nada. . . Compreende que espero que o senhor preste declaraes em tribunal. Vou querer
que me diga tudo o que souber.
 - Dir-lho-ei.
 - Moretti sabe onde o sehor est agora?
 - Pensa que estou morto. - Thomas Colfax esboou um sorriso nervoso. - Se me encontrar, no me safo.
 - No o encontrar. Se fizermos um acordo,  claro.
 - Eston a entregar a minha vida nas suas mos, Senador.
 - Para dizer a verdade - informou-o Adam -, no dou nada por si.  Moretti que me interessa. Vamos estabelecer as regras. Se chegarmos a um acordo, o senhor ter
toda a  proteco que o governo lhe puder dar. Se eu ficar satisfeito  com o seu depoimento, arranjar-lhe-emos dinheiro suficiente para que possa viver num pas
 sua escolha, com uma identidade falsa. Em troca disso, ter de concordar co m o seguinte:  quero que me conte tudo a respeito das actividades de   Moretti. Ter
de depor perante um jri de acusao e, quando Moretti for julgado, espero que o senhor seja testemunha pelo  governo. Est de acordo?  Thomas Colfax desviou os
olhos. Por fim disse:
 - Tony Granelli deve estar aos saltos na sepultura. O que se passa com as pessoas? O que aconteceu  dignidade?
 Adam no conseguiu responder. Este homem tinha intrujado a  lei centenas de vezes, tinha conseguido libertar assassinos  profissionais, tinha ajudado a planear
as actividades da mais  perigosa organizao criminosa que o mundo civilizado conhecera. E agora perguntava o que tinha acontecido   dignidade.  Thomas Colfax
voltou-se para Adam:
 - Estamos entendidos. Quero isso por escrito, e assinado pelo Procurador-Geral.
 - Assim ser - Adam percorreu com os olhos o miservel  quarto de motel. - Vamos embora daqui.
 - No quero ir para nenhum hotel. Moretti tem ouvidos por todo o lado.
 - No  para a que vai.
  meia-noite e dez, um camio militar e dois jipes,  tripulados por fuzileiros navais, pararam em frente do Quarto Quatro elementos da polcia militar entraram
no quarto e regressaram pouco depois, escoltando rigorosamente Thomas Colfax at  traseira do camio. O cortejo afastou-se do  motel, com um dos jipes  frente
do camio e o outro atrs, em direco a Quantico, na Virgnia, a trinta e cinco milhas pra sul de Washington. A caravana composta pelos trs carros seguia a alta
velocidade e, quarenta minutos mais tarde, chegou  Unidade dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos,baseada em Quantico.  O comandante da base, o General Roy Wallace,
acompanhado por um destacamento de fuzileiros, estava  espera junto do porto. Quando a caravana parou, o General Wallace disse ao capito encarregado do destacamento:
 - O prisioneiro vai ser levado directamente para a cadeia.
Que ningum fale com ele.  O General Wallace viu o cortejo transpor a cerca. Teria dado um ms de ordenado para saber a identidade do homem que se encontrava no
camio. A unidade pela qual o general era responsvel consistia numa base area de Fuzileiros de trezentos e dez acres, e em parte da Academia do FBI, e era o principal
centro de treino dos oficiais fuzileiros dos  Estados Unidos. Nunca Lhe tinham pedido que desse guarida a um prisioneiro civil. Isso era contra todos os regulamentos.
 Duas horas antes, tinha recebido um telefonema do prprio comandante dos Fuzileiros.
 - Vai um homem a caminho da sua base, Roy. Quero que esvazie a cadeia e que o conserve l at novas ordens.
 O General Wallace pensou que tinha ouvido mal.
 - Disse esvaziar a cadeia, sir ?
 - Exactamente. Quero este homem sozinho. Ningum est autorizado a aproximar-se dele. Quero que redobre a vigilncia da cadeia. Entendido?
 - Sim, meu General.
 - Mais uma coisa, Roy. Se acontecer algo a esse homem enquanto se encontrar sob a sua custdia, nem sei o que lhe fao.
 E o comandante desligara.  O General Wallace viu o camio afastar-se pesadamente em direco  cadeia. Em seguida regressou ao gabinete e chamou o seu ajudante
de campo, o Capito Alvin Giles.
 - A respeito do homem que vamos pr na cadeia comeou o General Wallace.
 - Sim, meu General?
 - O nosso primeiro objectivo  a segurana dele. Quero que seja voc mesmo a escolher os guardas. Ningum mais se poder aproximar dele. Nem visitas, nem correio,
nem  encomendas. Entendido?
 - Sim, senhor.
 - Quero-o presente na cozinha sempre que as refeies dele estiverem a ser preparadas.
 - Sim, meu General.
 - Se algum manifestar uma curiosidade excessiva a respeito  dele, quero que mo comunique imediatamente. Tem alguma pergunta a fazer?
 - No, senhor.
 - Muito bem, A1. Fique atento. Se acontecer alguma coisa,  nem sei o que lhe fao.
Jennifer foi acordada pelo suave tamborilar da chuva  matinal, e deixou-se ficar na cama a ouvi-la bater de  mansinho contra a casa.  Olhou para o despertador.
Era altura de comear o seu dia de trabalho.  Meia hora mais tarde, Jennifer desceu para o jardim a fim de tomar o pequeno-almoo com Joshua. No o encontrou.
Mrs. Mackey apareceu, vinda da cozinha.
 - Bom dia, Mrs. Parker.
 - Bom dia. Onde est Joshua?
 - Pareceu-me to cansado que achei melhor deix-lo dormir um  pouco mais. S amanh  que tem de ir para a escola.
 Jennifer aprovou com a cabea.
 - Foi uma boa ideia.
 Tomou o pequeno-almoo e subiu as escadas para se despedir de Joshua. Ele estava deitado e dormia profundamente.
 - Eh, dorminhoco, no me queres dizer adeus?
 Muito a custo, ele abriu um olho.
 -  claro, amiga. Adeus - A sua voz estava pesada de sono. - Tenho de me levantar?
 - No. Olha uma coisa. Porque no ficas hoje a descansar?
Podes brincar dentro de casa. Est a chover muito para andares na rua.
 Ele acenou com um ar sonolento.
 - Est bem, Me.
 Os olhos fecharam-se-lhe de novo e voltou a adormecer.  Jennifer passou a tarde no tribunal e, quando chegou a casa, depois do trabalho, j passava das sete horas.
A chuva, que no parara durante todo o dia, era agora torrencial e,  medida que Jennifer percorria o caminho particular, teve a sensao de que a casa era um castelo
sitiado, rodeado por um fosso de gua, cinzenta e agitada.  Mrs. Mackey abriu a porta da frente e ajudou Jennifer a
despir o impermevel, que pingava.  Jennifer sacudiu a gua do cabelo e perguntou:
 - Onde est Joshua?
 - Est a dormir.
 Jennifer olhou Mrs. Mackey com um ar preocupado.
 - Dormiu durante todo o dia?
 -  claro que no. Tem andado por a. Preparei-lhe o jantar,  mas quando fui l acima levar-lho, tinha adormecido outra vez  e resolvi no o acordar.
,- Vou v-lo.
Jennifer dirigiu-se ao quarto de Joshua e entrou sem fazer barulho. Joshua dormia. Jennifer inclinou-se para ele e  tocou-lhe na testa. No tinha febre; a sua cor
era normal.  Tomou-Lhe o pulso. Tudo estava em ordem; era ela que  imaginava coisas. Estava a tirar concluses precipitadas. Joshua devia ter brincado muito durante
todo o dia e era natural que se sentisse cansado. Jennifer deslizou para fora do quarto e  voltou para o rs-do-cho.
 - Porque no lhe arranja umas sanduches, Mrs. Mackey?
Deixe-lhas ficar ao lado da cama. Ele come-as quando acordar.  Jennifer jantou  secretria, trabalhando em instrues, preparando o testemunho de um julgamento
para o dia seguinte.  Pensou telefonar a Michael para lhe dizer que estava de volta, mas hesitou em falar com ele logo a seguir  noite que passara com Adam. .
. Ele era demasiado perspicaz. J passava da meia-noite quando acabou de ler. Levantou-se e  espreguiou-se, tentando aliviar a tenso que sentia nas  costas e
no pescoo. Guardou os papis na pasta, apagou as luzes e subiu ao primeiro andar. Passou pelo quarto de Joshua e espreitou l para dentro. Continuava a dormir.
 As sanduches, na mesa-de-cabeceira, estavam intactas.   Na manh seguinte, quando Jennifer desceu para o pequeno- almoo, encontrou Joshua vestido e preparado
para ir para a escola.
 - Bom dia, Me.
 - Bom dia, querido. Como te sentes?
 - ptimo. Estava mesmo cansado. Deve ter sido daquele sol mexicano.
 - Pois deve.
- Acapulco  realmente agradvel. Podemos voltar l nas prximas frias?
 - No vejo nada em contrrio. Ests satisfeito por regres sares  escola?
 - Recuso-me a responder, porque isso poderia incriminar-me.
 A meio da tarde, quando Jennifer estava a ouvir um depoimento, Cynthia falou pelo intercomunicador:
 - Desculpe incomod-la, mas est uma tal Mrs. Stout ao telefone e. . .
 Era a directora de turma de Joshua.
 - Eu atendo.
 Jennifer levantou o auscultador.
 - Boa tarde, Mrs. Stout. Aconteceu alguma coisa?
 - No, est tudo bem, Mrs. Parker. No era minha inteno alarm-la. S pensei sugerir-lhe que talvez fosse boa ideia se Joshua dormisse mais.
 - O que quer dizer com isso?
 - Ele hoje dormiu durante a maior parte das aulas. Miss Williams e Mrs. Toboco queixaram-se disso. Talvez fosse bom mand-lo mais cedo para a cama.  Jennifer olhou
para o telefone, preocupada.
 - Eu... sim, vou tratar disso.
 Muito devagar, pousou o auscultador e voltou-se para as pessoas que se encontravam na sala, a observ-la.
 - Tenho muita pena - disse. - Desculpem-me.
 Dirigiu-se a toda a pressa para a recepo.
 - Cynthia, procure Dan. Pea-lhe que acabe o depoimento por mim. Surgiu um contratempo.
 - Muito. . . - Jennifer transpusera j a porta.
 Conduziu at casa como uma louca, excedendo o limite de velocidade, ignorando os sinais vermelhos, imaginando que algo de terrvel acontecera a Joshua. O caminho
parecia nunca mais acabar e, quando a casa surgiu  distncia, Jennifer estava quase  espera de ver a estrada particular cheia de ambulncias e de carros da polcia.
O caminho estava deserto. Jennifer estacionou em frente da porta principal e entrou apressadamente em casa.
 - Joshua !
 Estava na sala, a assistir a um desafio de basebol pela televiso.
 - Ol, Me. Vieste cedo. Foste despedida?
 Jennifer ficou  porta, a contempl-lo, transbordando de alvio. Sentia-se como uma idiota.
 - Devias ter visto a ltima jogada. Craig Swan foi fantstico !
 - Como te sentes, filho?
 - ptimo.
 Jennifer ps-lhe a mo na testa. No tinha febre.
 - Tens a certeza de que ests bem?
 -  claro que estou. Porque  que ests com esse ar? H alguma coisa que te preocupe? Queres ter uma conversa de homem para homem?  Ela sorriu.
 - No, querido, eu s. . . di-te alguma coisa?
 Ele suspirou.
 - Os Mets esto a perder por seis a cinco. Sabes o que aconteceu na primeira jogada?
 Comeou a fazer um relato excitado das proezas da sua equipa favorita. Jennifer ficou a olh-lo, adorando-o e pensando: Que imaginao a minha!  claro que ele
est bem!"
 - Continua a ver o desafio. Vou tratar do jantar.
 Jennifer foi para a cozinha, sentindo o corao aliviado. Resolveu fazer um bolo de banana, uma das sobremesas preferidas de Joshua.  Meia hora mais tarde, quando
Jennifer regressou  sala, Joshua estava cado no cho, inconsciente.  A corrida para o Blinderman Memorial Hospital pareceu durar uma eternidade. Jennifer ia sentada
na parte de trs da ambulncia, apertando a mo ? Joshua. Um enfermeiro aplicava uma mscara de oxignio ao rosto de Joshua. No recuperara ainda os sentidos.
A sirene da ambulncia tinha um som penetrante, mas o trnsito era muito e a ambulncia seguia devagar, enquanto algumas pessoas curiosas assomavam s janelas,
olhando para a mulher plida e para o rapaz inconsciente. Jennifer considerava isso uma revoltante violao da intimidade.
 - Porque  que as ambulncias no podem utilizar vidro transparente de um s lado?
 O enfermeiro ergueu os olhos, surpreendido.
 - Como?
 - Nada. . . nada.
 Aps o que pareceu uma eternidade, a ambulncia parou junto da entrada da urgncia nas traseiras do hospital. Dois internos esperavam  porta. Ao ver Joshua ser
retirado da ambulncia e transportado para uma maca rolante, Jennifer ficou sem saber o que fazer.
 - A senhora  a me do garoto? - perguntou um enfermeiro.
 - Sim.
 - Por aqui, por favor.
 O que se seguiu foi um confuso caleidoscpio de som, cor e movimento. Jennifer viu Joshua ser levado atravs de um extenso corredor branco para uma sala de raios-X.
 Fez meno de o seguir, mas o enfermeiro informou-a:
 - Primeiro tem de o registar.
 Uma mulher magra, que se encontrava ao balco, perguntou a  Jennifer:
 - Como est a pensar pagar? Tem Blue Cross ' ou qualquer  outro tipo de seguro?
 Jennifer desejava poder gritar  mulher, queria voltar para junto de Joshua, mas esforou-se por responder s perguntas. Quando o questionrio terminou e depois
de Jennifer ter  preenchido vrios impressos, a mulher deixou-a ir embora.  Dirigiu-se rapidamente para a sala de raios-X e entrou. A sala estava deserta. Joshua
j tinha sido levado. Jennifer correu  e novo para o trio, olhando em redor com  inquietao. Passou por ela uma enfermeira.
 Jennifer agarrou-a pelo brao.
 - Onde est o meu filho?
 - No sei - respondeu a enfermeira. - Como  que ele se chama?
 - Joshua. Joshua Parker.
 - Onde  que a senhora o deixou?
 - Ele. . . ele estava a fazer radiografias. . . ele. . .  Jennifer comeava a ser incoerente. - O que  que lhe fizeram? Diga-me.  A enfermeira olhou para Jennifer
com mais ateno e pediu:
- Espere aqui. Vou ver se consigo descobrir Regressou passados poucos minutos.
 - O Dr. Morris deseja falar-lhe. Venha comigo, por favor.
 Jennifer sentia as pernas a tremer. Tinha dificuldade em caminhar.
 - Sente-se bem? - A enfermeira estava a olhar para ela.
 O medo secara-lhe a boca.
 - Quero o meu filho.
 Entraram numa sala cheia de aparelhos estranhos.
 - Espere aqui, por favor.
 O Dr. Morris apareceu pouco depois. Era um homem muito forte, com um rosto corado e tinha os dedos manchados de nicotina.
 - Mrs. Parker?
 - Onde est Joshua?
 - Venha para aqui por uns momentos, por favor. - Conduziu  Jennifer para um pequeno gabinete do outro lado da sala onde se encontravam os aparelhos estranhos.
- Sente-se,
por favor.  Jennifer obedeceu.
 - Joshua est... no ... no  nada de grave, pois no, Doutor?
 - Ainda no sabemos. - A sua voz era surpreendentemente  suave para um homem daquela estatura. - Preciso que me d algumas informaes. Que idade tem o seu filho?
 - Apenas sete anos.
 Pronunciara aquele apenas?, como se fosse uma censura a Deus.
 - Ele sofreu algum acidente nos ltimos tempos?
 Jennifer recordou a imagem de Joshua a voltar-se para lhe dizer adeus, a perder o equilbrio e a bater de encontro s estacas.
 - Ele. . . teve um acidente quando fazia esqui aqutico. Bateu com a cabea.  O mdico tomava apontamentos.
 - H quanto tempo foi isso?
 - H... h alguns dias. Em Acapulco. - Era-lhe difcil coordenar as ideias.
 - Ele no sofreu perturbaes depois do acidente?
 - No. Ficou com um alto na nuca mas, tirando isso, parecia  estar ptimo.
 - Notou-lhe alguma falha de memria?
 - No.
- Alguma mudana de personalidade?
 - No.
 - No teve convulses, torcicolos, dores de cabea?
 - No.
 O mdico parou de escrever e ergueu os olhos para Jennifer.
 - Mandei que lhe fizessem uma radiografia, mas isso no chega. Quero fazer-lhe um exame CAT.
 - Um...?
 -  um novo aparelho computorizado de origem inglesa que tira fotografias ao interior do crebro. Talvez depois seja necessrio fazer-lhe mais testes. Est de
acordo?
 - Se. . . se. . . se. . . - gaguejou ela -, for necessrio. N. . . no vai fazer-lhe doer, pois no?
 - No. Talvez precise tambm de lhe fazer uma puno espinal.  Estava a assust-la.
 Fez um esforo para fazer a pergunta.
 - O que lhe parece que ? O que se passa com o meu filho? - No reconhecia o som da sua prpria voz.
 - Prefiro no me deitar a adivinhar, Mrs. Parker. Sab-lo-emos daqui a uma ou duas horas. Se quiser v-lo agora, ele est acordado.
 - Oh, por favor !
 Uma enfermeira acompanhou-a ao quarto de Joshua. Ele jazia no leito, uma figurinha plida. Ergueu os olhos quando Jennifer entrou.
 - Ol, Me.
 - Ol! - Sentou-se na borda da cama. - Como te sentes?
 - Um bocado esquisito.  como se aqui no estivesse.
 Jennifer pegou-lhe na mo.
 - Mas ests, querido. E eu estou contigo.
 - Vejo as coisas a dobrar.
 - Disseste. . . disseste isso ao mdico?
 - Disse. Tambm o via a dobrar. Espero que no te v mandar duas contas.
 Jennifer abraou Joshua com ternura e apertou-o a si. O corpo dele parecia frgil e chupado.
 - Me?
 - Sim, querido.
 - No vais deixar-me morrer, pois no?
 De sbito, sentiu que os olhos lhe ardiam.
 - No, Joshua, no vou deixar-te morrer. Os mdicos vo
pr-te bom e depois levo-te para casa.
 - Okay. E prometeste que um dia me levavas outra vez a Acapulco.
 -  claro. Assim que. . .
 Ele tinha adormecido.  O Dr. Morris entrou no quarto acompanhado por dois homens de  bata branca.
 - Gostaramos de comear agora com os testes, Mrs. Parker.  No vo demorar muito. Porque no espera aqui e tenta descansar?
 Jennifer viu-os levar Joshua para fora do quarto. Sentou-se  beira da cama, sentindo-se como se Lhe tivessem dado uma tareia. A energia tinha-a abandonado. Deixou-se
ficar ali, a olhar para a parede branca, como em transe.
 - Mrs. Parker... - disse uma voz, passados alguns momentos.  Jennifer ergueu os olhos e viu o Dr. Morris.
 - V fazer os testes - pediu Jennifer.
 Ele contemplou-a com uma expresso estranha no rosto.
 - J terminmos.
 Jennifer olhou para o relgio da parede. Tinha estado ali durante duas horas. Como era possvel que o tempo tivesse passado to depressa? Perscrutou o rosto do
mdico, tentando ler nele, procurando os pequenos indcios que lhe diriam se  as notcias eram boas ou ms. Quantas vezes tinha ela feito  isso, lido o rosto dos
jurados, adivinhando, pelas suas expresses, qual iria ser o veredicto? Cem vezes? Quinhentas? Mas agora, devido ao pnico que a invadia, Jennifer no conseguia
chegar  a nenhuma concluso. O corpo comeou a tremer-lhe  descontroladamente.
 - O seu filho sofre de um hematoma subdural - declarou o Dr. Morris. - Isto , o crebro dele sofreu um grande traumatismo.
 A garganta de Jennifer ficou de sbito to seca, que lhe era impossvel falar.
 - O. . . . - engoliu em seco e tentou de novo. - O que  que isso. . . ? - No conseguiu completar a frase.
 - Quero oper-lo imediatamente. Preciso da sua autorizao .
Ele devia estar a pregar-lhe uma partida cruel. Dali a uns momentos ia sorrir e dizer-lhe que Joshua estava bom. Estava apenas a castig-la, Mrs. Parker, por me
ter feito perder  tempo. No h nada de grave com o seu filho, o que ele  precisa  de dormir. O garoto est a crescer. A senhora no deve  roubar-nos o nosso tempo,
pois temos pessoas realmente  doentes para tratar. la sorrir-lhe e dizer: "Pode levar o seu filho para casa.",?
 O Dr. Monis prosseguiu:
 - Ele  jovem e parece forte. Temos todas as razes para esperar que a operao seja bem sucedida.  "Ele ia abrir o crebro do seu filhinho, cort-lo com  instrumentos
afiados, talvez at destruir e que fazia de  Joshua aquilo que ele era. Talvez... mat-lo.,?
 - No! - Era um grito angustiado.
 - No nos autoriza a operar?
 - Eu. . . - Tinha o esprito to confuso que no conseguia pensar. - O q-que vai acontecer se no operarem?
 - O seu filho morre - declarou o Dr. Monis com simplicidade.
- O pai dele est c?
 Adam! Oh, como ela desejava Adam, como desejava sentir os braos dele  sua volta, confortando-a. Desejava ouvi-lo dizer que tudo ia correr bem, que Joshua ia
ficar bom.
 - No - replicou Jennifer por fim -, no est. Eu. . . eu dou autorizao. Pode operar.
 O Dr. Monis preencheu um impresso e estendeu-lho.
 - Importa-se de assinar isto, por favor?
 Jennifer assinou o papel sem o ler.
 - Quanto tempo vai demorar?
 - S poderei sab-lo depois de abrir. . . - Reparou na expresso do rosto dela. - At comear a operao. Quer esperar aqui?
 - No! - As paredes fechavam-se sobre ela, oprimindo-a. No  conseguia respirar. - H algum stio onde eu possa rezar?
 A capela era pequena e, sobre o altar, havia um quadro representando Jesus. Jennifer era a nica pessoa que se  encontrava na sala. Ajoelhou-se, mas no foi capaz
de rezar.  No era uma pessoa religiosa, por que motivo iria Deus escut-la agora? Tentou acalmar o esprito para conseguir falar com Deus, mas o medo era demasiado
forte: tinha-a dominado completamente. Pensou: ?`Se eu no tivesse levado Joshua para Acapulco. . . Se no o tivesse deixado fazer esqui aqutico. . . Se no tivesse
confiado naquele mdico  mexicano. . .Se. Se. Se.,? Fez contratos com Deus. "Pe-no outro vez bom e farei tudo o que me pedires.?,  Renegou Deus. "Se Deus existisse,
faria isto a uma criana que nunca prejudicou ningum? Que Deus  este que deixa morrer crianas inocentes?"  Por fim, completamente exausta, o pensamento de Jennifer
tornou-se mais lcido e ela recordou-se daquilo que o Dr. Monis tinha dito. `?Ele  jovem e parece forte. Temos todas as razes para esperar que a operao seja
bem sucedida."  "Tudo havia de correr bem.  claro que sim. Quando tudo isto terminasse, levaria Joshua para um stio onde ele  pudesse descansar. Acapulco, se
fosse esse o seu desejo. Haviam de ler, jogar, conversar. . .   Quando, por fim, Jennifer estava j demasiado esgotada para continuar a pensar, afundou-se numa
cadeira, com o  crebro completamente desorientado e vazio. Sentiu que algum lhe tocava no brao. Ergueu os olhos e viu o Dr. Monis de p, ao lado dela. Jennifer
fitou-lhe o rosto e no  necessitava de fazer perguntas.  Perdeu os sentidos.  Joshua jazia numa estreita mesa de metal, com o corpo imvel. Parecia mergulhado
num sono profundo, o seu belo rostozinho sorrindo a sonhos secretos e distantes. Jennifer tinha visto aquela expresso milhares de vezes, quando Joshua se enroscava
na cama morna, e Jennifer ficava sentada ao lado dele, contemplando o rosto do filho, sentindo por ele um amor to intenso que a sufocava. E quantas vezes lhe tinha
ela aconchegado suavemente os cobertores, para o  proteger do frio da noite?  Agora o frio estava dentro do corpo de Joshua. Nunca mais voltaria a aquecer. Aqueles
olhos vivos nunca mais voltariam a abrir-se para a fitar e nunca mais voltaria a ver-lhe o sorriso nos lbios, nem a ouvir a sua voz, nem a sentir aqueles  bracinhos
fortes em volta dela. Estava nu sob o lenol.
 - Quero que o cubra com um cobertor - disse Jennifer ao mdico. - Pode constipar-se.
 - Ele no. . . - O Dr. Morris contemplou os olhos de  Jennifer e aquilo que viu neles f-lo dizer:
 - Sim, com certeza Mrs. Parker - E voltando-se para a enfermeira. - V buscar um cobertor.
 No quarto encontravam-se diversas pessoas, a maior parte  delas de uniformes brancos e todas pareciam estar a falar com Jennifer, mas ela no conseguia ouvir o
que lhe diziam. Era como se estivesse metida dentro de um balo de vidro, isolada  de todos os outros. Via-os mexer os lbios, mas no ouvia nenhum som. Queria
gritar-lhes que se fossem embora, mas tinha receio de assustar Joshua. Sentiu que algum lhe  abanava o brao e o encanto quebrou-se; de sbito, o quarto  ficou
cheio de um rudo ensurdecedor e todos pareciam falar ao mesmo tempo.  . necessrio fazer uma autpsia - dizia o Dr. Morris.
 - Se volta a tocar no meu filho, mato-o - declarou Jennifer  com muita calma.
 E sorriu para os que a rodeavam, pois no queria que  ficassem zangados com Joshua.  Uma enfermeira tentou convencer Jennifer a abandonar o quarto, mas ela sacudiu
a cabea.
 - No posso deix-lo sozinho. Algum poderia apagar a luz. Joshua tem medo do escuro.
 Algum lhe agarrou no brao e Jennifer sentiu a picadela de uma agulha. Passados uns momentos, foi tomada por uma sensao de calor e de paz, e adormeceu. Quando
Jennifer acordou, a tarde estava quase no fim. Encontrava-se num pequeno quarto de hospital, e tinham-lhe tirado a roupa e vestido uma bata. Levantou-se, vestiu-se
e foi  procura do Dr. Morris. Sentia uma calma anormal.
 - Ns tratamos do funeral, Mrs. Parker - disse o Dr. Morris. - A senhora no precisa de...
 - Eu encarrego-me disso.
 - Muito bem. - Ele hesitou, embaraado: - A respeito da autpsia, sei que a senhora disse aquilo sem pensar. Eu. .
. - Est muito enganado.
 Durante os dois dias que se seguiram, Jennifer passou por todos os rituais da morte. Foi a uma agncia funerria local  e tomou as disposies para o enterro.
Escolheu uma urna branca forrada de cetim. Estava tranquila e tinha os olhos secos e, mais tarde, quando tentou pensar nisso, no  conseguiu lembrar-se de nada.
Era como se qualquer outra  pessoa tivesse tomado conta do seu corpo e do seu esprito e  estivesse a agir por ela. Encontrava-se num profundo estado  de choque,
mas escondia-se atrs da sua concha protectora  para no enlouquecer.  Quando Jennifer ia a sair do escritrio do cangalheiro,
ouviu-o dizer:
 - Se desejar que o seu filho seja enterrado com algum fato especial, Mrs. Parker, faa-no-lo chegar s mos, que ns vestimos-lho.
 - Eu mesma vestirei Joshua.
 Ele olhou-a, surpreendido.
 - Se  isso que deseja,  claro, mas...
 Viu-a partir, perguntando a si prprio se ela saberia o que era vestir um cadver. Jennifer dirigiu-se para casa, estacionou o carro no caminho  particular e entrou.
 Mrs. Mackey encontrava-se na cozinha, com os olhos vermelhos  e o rosto crispado de dor.
 - Oh, Mrs. Parker! No posso acreditar. . .
 Jennifer no a viu nem ouviu. Passou por Mrs. Mackey e subiu ao quarto de Joshua. Estava exactamente na mesma. Nada tinha mudado, a no ser o facto de o quarto
se encontrar agora vazio. Os livros de Joshua, os jogos, o equipamento de basebol e de esqui aqutico estavam l,  espera dele.  Jennifer parou  entrada, contemplando
o quarto, tentando  lembrar-se por que motivo tinha ali ido. Ah, sim. A roupa  para Joshua.,? Dirigiu-se ao roupeiro. Havia l um fato azul-escuro que lhe tinha
comprado no ltimo aniversrio. Joshua usara-o na noite em que o tinha levado a jantar ao Lutce. Lembrava- se perfeitamente dessa noite. Joshua parecia to adulto
que Jennifer pensara, sentindo um sobressalto: Um dia estar aqui sentado com a rapariga com quem h-de casar." Mas agora, esse dia nunca havia de chegar. No ia
haver homem adulto. Nem rapariga. Nem vida.  Ao lado do fato azul havia diversos pares de blue jeans, calas e T-shirts, uma delas com o nome da equipa de basebol
de Joshua. Jennifer deixou-se ali ficar, passando inconscientemente as mos pelas roupas, perdendo toda a noo  do tempo.  Mrs. Mackey veio para junto dela.
 - Sente-se bem, Mrs. Parker?
 - Sim, Mrs. Mackey, obrigada - respondeu Jennifer com delicadeza.
 - Quer que a ajude em alguma coisa?
 - No, obrigada. Vou vestir Joshua. O que lhe parece que ele gostaria de usar? - A sua voz era viva e alegre, mas os olhos estavam mortios.  Mrs. Mackey viu-lhe
a expresso do olhar e assustou-se.
 - Porque no se deita um bocado, minha querida? Vou telefonar ao mdico.
 As mos de Jennifer percorreram os fatos pendurados no roupeiro. Tirou para fora o uniforme de basebol.
 - Creio que Joshua gostaria deste. Agora, de que mais precisa ele?
 Sem saber o que fazer, Mrs. Mackey viu Jennifer encaminhar- se para a cmoda e tirar roupa branca, pegas e uma camisa.
 Joshua precisava destas coisas porque ia para frias. Para umas longas frias."
 - Acha que ficar suficientemente agasalhado com isto?
 Mrs. Mackey desfez-se em lgrimas.
 - Por favor, no faa isso - suplicou ela. - Deixe ficar essas coisas. Eu trato de tudo.
 Mas Jennifer j estava a descer as escadas, levando as  roupas consigo.  O corpo encontrava-se na casa morturia. Tinham colocado Joshua numa grande mesa que o
fazia parecer ainda mais pequeno.  Quando Jennifer regressou com as roupas de Joshua, o armador fnebre fez nova tentativa.
 - Falei com o Dr. Morris. Ambos somos da opinio que seria muito melhor, Mrs. Parker, que nos deixasse tratar  disto. Estamos mais habituados e...  Jennifer sorriu-lhe.
 - Saia.
 - Sim, Mrs. Parker - respondeu ele, engolindo em seco.
 Jennifer esperou que ele abandonasse a sala e, em seguida, voltou-se para o filho.
 Contemplou-lhe o rosto adormecido e disse:
 - A tua me vai tratar de ti, meu querido. Vais vestir o teu uniforme de basebol. Gostas dele, no gostas?
 Afastou o lenol, olhou-lhe o corpo nu e emagrecido e depois principiou a vesti-lo. Comeou a enfiar-lhe as cuecas, mas aquela carne gelada f-la recuar. O corpo
estava duro e rgido como mrmore. Jennifer tentou convencer-se de que este pedao de carne enregelada e sem vida no era o seu filho, que Joshua se encontrava
noutro lado qualquer, quente e feliz, mas no foi capaz de fingir que acreditava. Era Joshua que se encontrava sobre esta mesa. O corpo de Jennifer comeou a tremer.
Era como se o frio que estava dentro de Joshua tivesse penetrado nela, gelando-a at aos ossos.  Ordenou a si prpria, num tom violento: Pra! Pra! Pra!  Pra!
Pra !  Respirou rpida e profundamente e, quando se sentiu mais calma, recomeou a vestir o filho, ao mesmo tempo que ia conversando com ele. Vestiu-Lhe as cuecas,
depois as calas e, quando o levantou para lhe vestir a camisa, a cabea dele escorregou e bateu na mesa. Jennifer exclamou: Desculpa, Joshua, perdoa-me! E comeou
a chorar.  Jennifer levou quase trs horas a preparar Joshua. Ficou vestido com o uniforme de basebol e com a sua T-shirt preferida, pegas brancas e tnis. O bon
de basebol tapava- lhe parcialmente o rosto e Jennifer acabou por colocar-lho sobre o peito. Podes lev-lo contigo, meu amor."  Quando o cangalheiro chegou e espreitou
para dentro da sala viu Jennifer inclinada para o cadver j vestido,  segurando a mo de Joshua e conversando com ele.  O homem aproximou-se e anunciou com suavidade:
 - Vamos lev-lo agora.
 Jennifer lanou ao filho um ltimo olhar.
 - Tenha cuidado com ele, por favor. Magoou-se na cabea,  como sabe.
 O funeral foi simples. Jennifer e Mrs. Mackey foram as nicas pessoas que viram o pequeno caixo branco descer  cova acabada de abrir. Jennifer pensara avisar
Ken Bailey, pois Ken e Joshua tinham sido muito amigos, mas Ken j no fazia parte das vidas deles.  Quando a primeira p de terra foi lanada sobre o caixo, Mrs.
Mackey disse :
 - Venha, querida. Vou lev-la para casa.
 -Estou bem - respondeu Jennifer educadamente. - Joshua e eu  j no precisamos de si, Mrs. Mackey. Vou pagar-lhe os  ordenados de um ano e entregar-lhe uma carta
de recomendao. Joshua e eu estamos-lhe gratos por tudo.  Mrs. Mackey viu Jennifer dar meia volta e afastar-se.  Caminhava com cuidado, muito direita, como se
estivesse a  percorrer um corredor interminvel com largura para uma nica pessoa.
 A casa estava silenciosa e tranquila. Subiu ao quarto de Joshua, fechou a porta e deitou-se em cima da cama,  contemplando as coisas que lhe tinham pertencido,
as coisas  que ele tinha amado. Este quarto era agora o mundo dela. Nada mais lhe restava, j no tinha para onde ir. Havia apenas Joshua. Jennifer comeou no dia
em que ele nasceu e recordou-se de
tudo.  Joshua a dar os primeiros passos... Joshua a dizer p-p? e Mam, vai brincar com os teus brinquedos. . . ,? Joshua a ir pela primeira vez sozinho para a
escola, uma figurinha  minscula e decidida. . . Joshua de cama com sarampo, o corpo torturado pelo sofrimento. . . Joshua a executar uma jogada que fez a sua equipa
ganhar o jogo. . . Joshua a praticar vela. . . Joshua a dar de comer a um elefante no Jardim Zoolgico. . . Joshua a cantar Shine On, Harvest Moon, no Dia da Me...
As recordaes projectavam-se como um filme no seu esprito.  Terminavam no dia em que Jennifer e Joshua tinham partido  para Acapulco.  Acapulco. . . onde ela
tinha encontrado Adam e feito amor com ele. Estava a ser castigada por ter?ensado apenas em si mesma. Jennifer disse para consigo: E claro.  este o meu castigo.
 o meu inferno."  E voltou ao princpio, comeando no dia em que Joshua nasceu. . . Joshua a dar os primeiros passos. . . Joshua a dizer Kp-pu e Mam, vai brincar
com os teus brinquedos...?,  O tempo ia passando. Por vezes, Jennifer ouvia tocar um telefone num ponto distante da casa e, em certa ocasio,  ouviu algum bater
 porta principal, mas esses sons no  tinham para ela o menor significado. No permitiria que nada a  impedisse de estar com o filho. Permaneceu no quarto, sem
comer nem beber nada, perdida no seu mundo prprio com Joshua. Perdera a noo do tempo, no sabia h quanto tempo ali se encontrava.  Cinco dias mais tarde, Jennifer
ouviu de novo a campainha e que algum dava murros na porta, mas no prestou ateno. Quem quer que fosse, faria melhor em ir-se embora e deix-la em paz. Pareceu-lhe
ouvir o som de um vidro a estilhaar-se e, passados alguns momentos, a porta do quarto de Joshua abriu-se com violncia e o vulto de Michael Moretti desenhou-se
na entrada.  Ele contemplou a figura emagrecida e de olhos encovados
que o fitava da cama, e exclamou:
 - Santo Deus!
 Michael Moretti teve de recorrer a toda a sua fora para conseguir arrastar Jennifer para fora do quarto. Lutou com  ele histericamente, dando-lhe socos e arranhando-lhe
os olhos. Nick Vito estava  espera no rs-do-cho, e s a muito custo conseguiram met-la no carro. Jennifer no fazia a menor ideia de quem eles eram, nem por
que motivo se encontravam ali. Sabia apenas que estavam a afast-la do filho. Tentou dizer-lhes que morreria se o fizessem, mas estava demasiado exausta para continuar
a lutar. Ento adormeceu.  Quando Jennifer despertou, viu-se num quarto alegre e limpo atravs de cuja janela panormica se via,  distncia, uma montanha e um
lago azul. Junto da cama, sentada numa cadeira a ler uma revista, encontrava-se uma enfermeira  fardada. Esta ergueu a cabea quando Jennifer abriu os olhos.
 - Onde estou? - A simples aco de falar provocava-lhe dores de garganta.
 - Est entre amigos, Mrs. Parker. Mr. Moretti trouxe-a para aqui. Tem andado muito preocupado consigo. Vai ficar muito satisfeito quando a souber acordada.  A
enfermeira saiu do quarto a toda a pressa. Jennifer ficou deitada, com o esprito vazio, tentando no pensar. Mas as recordaes comeavam a regressar, espontaneamente,
e no podia furtar-se a elas, no podia escapar-lhes. Jennifer  compreendeu que tinha tentado suicidar-se sem, no entanto,  ter tido coragem para o fazer. Tinha
apenas querido morrer e desejara que isso acontecesse. Michael salvara-a. Era uma ironia. No tinha sido Adam, mas sim Michael. Achou que era injusto censurar Adam.
Tinha-lhe ocultado a verdade,  fizera-o ignorar o filho que nascera e que agora estava  morto. Joshua estava morto. Jennifer conseguia enfrentar agora a realidade.
O sofrimento era profundo e angustiante, e sabia que aquele sofrimento a acompanharia enquanto vivesse. Mas conseguia suport-lo. Seria obrigada a isso. Era a justia
exigindo o seu tributo.  Jennifer ouviu passos e ergueu os olhos. Michael acabava de entrar no quarto. Ficou de p, a contempl-la com uma expresso fascinada.
Tinha ficado desesperado quando Jennifer  desaparecera. Quase enlouquecera com medo que lhe tivesse  acontecido alguma coisa.  Aproximou-se da cama e olhou para
ela.
 - Porque no me disseste? - Michael sentou-se  beira da cama. - Lamento muito.
 Ela pegou-lhe na mo.
 - Obrigada por me teres trazido para aqui. Creio. . . creio que estava meia louca.
 - Um pouco.
 - H quanto tempo estou aqui?
 - H quatro dias. O mdico tem estado a alimentar-te por via intravenosa.
 Jennifer fez um aceno com a cabea, e at aquele ligeiro movimento lhe exigiu um grande esforo. Sentia-se  excessivamente fatigada.
 - Vem a o pequeno-almoo. O mdico recomendou-me que te fizesse engordar.
 - No tenho fome. Acho que nunca mais voltarei a sentir apetite.
 - Mas vais comer.
 E, para surpresa de Jennifer, Michael tinha razo. Quando a enfermeira lhe trouxe um tabuleiro com ovos quentes,  torradas e ch, Jennifer descobriu que estava
esfomeada.  Michael ficou a contempl-la, e quando Jennifer terminou, disse:
 - Sou obrigado a regressar a Nova Iorque para tratar de alguns assuntos. Volto daqui a uns dias.
 Inclinou-se para ela e beijou-a com suavidade.  - At sexta-feira. - Muito devagar, traou-lhe com os dedos as linhas do rosto. - Quero-te boa depressa. Ests
a ouvir?
 - Estou - respondeu Jennifer, olhando para ele.

Carlos Eduardo

A enorme sala de conferncias da base dos Fuzileiros Navais  dos Estados Unidos estava a abarrotar de gente. No exterior  da sala, encontrava-se de preveno um
peloto de guardas  armados. L dentro decorria uma reunio extraordinria. Um jri de acusao especial estava sentado em cadeiras  encostadas  parede. De um
dos lados de uma comprida mesa, encontravam-se sentados Adam Warner, Robert Di Silva e o Director-Adjunto do F.B.I. Em frente deles estava instalado Thomas Colfax.
 Fora Adam quem tinha dado a ideia de trazer  base o jri de acusao.
 -  a nica maneira de conseguirmos proteger Colfax.
 O jri de acusao tinha aceite as sugestes de Adam, e a reunio secreta estava prestes a comear.
 - Quer identificar-se, por favor? - pediu Adam a Thomas  Colfax?
 - Chamo-me Thomas Colfax?
 - Qual  a sua profisso, Mr. Colfax?
 - Sou advogado, autorizado a exercer no Estado de Nova Iorque, assim como em muitos outros estados deste pas.
 - H quanto tempo exerce advocacia?
 - H mais de trinta e cinco anos.
 - Tem uma clientela vasta?
 - No, senhor. Tenho apenas um cliente.
 - Quem  o seu cliente?
 - Ao longo dos ltimos trinta e cinco anos, foi Antonio Granelli, falecido h pouco. O seu lugar foi ocupado por Michael Moretti. Represento Michael Moretti e
a sua  Organizao.
 - Est a referir-se ao crime organizado?
 - Sim, senhor.
 - Dado o cargo que desempenhou durante tantos anos, ser lcito supor que se encontra numa posio nica para conhecer as manobras secretas daquilo a que passaremos
a designar por Organizao?
 - Aconteceram muito poucas coisas de que eu no tivesse conhecimento.
 - Havia actividades criminosas envolvidas?
 - Sim, Senador.
 - Pode descrever-nos a natureza de algumas dessas  actividades?
 Thomas Colfax falou durante as duas horas que se seguiram. A  sua voz era firme e segura. Indicou nomes, locais e datas e, por vezes, a sua narrativa era to fascinante
que as pessoas que ocupavam a sala se esqueciam do lugar onde se encontravam, arrebatadas pelas histrias de terror que Colfax  contava.  Falou em assassnios premeditados,
em testemunhas  assassinadas para no poderem depor; em fogo posto,  mutilaes, escravatura branca - era uma descrio digna de Hieronymus  Bosch ?. Pela primeira
vez, o funcionamento mais secreto da   maior organizao de crime do mundo estava a ser revelado aos  olhos de toda a gente.  De vez em quando, Adam ou Robert Di
Silva faziam uma pergunta, instigando Thomas Colfax, levando-o a preencher lacunas sempre que necessrio.  A reunio estava a correr muito melhor do que Adam poderia
 ter esperado quando, de sbito, perto do fim, quando j s restavam alguns minutos, se deu a catstrofe.
 Um dos membros do jri de acusao tinha feito uma pergunta  a respeito de uma operao de desvio de dinheiro.
 - Isso foi h perto de dois anos. Michael manteve-me afastado dos golpes mais recentes. Foi Jennifer Parker quem se ocupou disso.  Adam ficou gelado.
 - Jennifer Parker? - repetiu Robert Di Silva. Havia na sua pergunta uma ansiedade incontida.
 - Sim, senhor. - A voz de Thomas Colfax denotava um desejo de vingana. - Ela  agora a consultora jurdica da Organizao.
 Adam desejava desesperadamente faz-lo calar, para que aquilo que ele estava a dizer no fosse registado, mas era tarde de mais. Di Silva ficara excitado e nada
poderia det-lo agora.
 - Fale-nos dela - pediu Di Silva num tom severo.
 Thomas Colfax continuou.
 - Jennifer Parker est envolvida na fundao de empresas fictcias, em desvios de dinheiro. . . Adam tentou interromp-lo.
 - Eu no. . .  . . em assassnios.
 Aquela palavra deixou a sala suspensa.  Adam quebrou o silncio.
 - Temos de... de limitar-nos aos factos, Mr. Colfax. Por certo no est a tentar dizer-nos que Jennifer Parker esteve envolvida num assassnio?
 -  exactamente isso que estou a dizer-lhe. Mandou atacar um  homem que lhe raptou o filho. Chamava-se Frank Jackson. Disse a Moretti que o matasse, e foi isso
que ele fez.
 Ouviu-se um murmrio de vozes excitadas.  O filho dela! Adam pensava: Deve haver engano."
 - Creio. . . - gaguejou ele -. . Creio que j possumos evidncias suficientes sem termos necessidade de ouvir  boatos. Ns. . .
 - No  boato - asseverou Thomas Colfax. - Eu estava junto de Michael quando ela telefonou.
 Por baixo da mesa, as mos de Adam apertavam-se com violncia tal que o sangue lhes fugiu.
 - A testemunha parece fatigada. Penso que por hoje j chega.
 Robert Di Silva voltou-se para o jri especial de acusao:  - Gostaria de fazer uma sugesto a respeito do processo. . .  Adam j no o ouvia. Perguntava a si
prprio onde estaria Jennifer. Tinha desaparecido outra vez. Adam fizera diversas tentativas para a encontrar. Mas agora sentia-se desesperado. Precisava de a descobrir
o mais depressa possvel. Deu-se incio  maior operao secreta dos Estados Unidos, para a deteco de ilegalidades.  A Polcia Federal de Luta Contra o Crime
Organizado e Contra a Corrupo estava a colaborar com o FBI, com os Servios dos Correios e da Alfndega, com o Servio Fiscal Internacional, com o Departamento
Federal de Narcticos e com mais alguns departamentos.  O mbito da investigao inclua o assassnio, a  premeditao de assassnios, a corrupo, a extorso,
a fuga  aos impostos, fraudes sindicais, fogo posto, usura e drogas.  Thomas Colfax entregara-lhes a chave de uma boceta de Pandora de crime e corrupo que ia
ajudar a desmantelar uma parte significativa do crime organizado.  A Famlia de Michael Moretti ia ser a mais atingida, mas a evidncia afectava dzias de outras
Famlias de todo o pas.  Por todos os Estados Unidos e no estrangeiro, os  representantes governamentais interrogavam discretamente os  amigos e os scios de negcios
a respeito dos homens cujos nomes constavam das suas listas. Agentes na Turquia, no Mxico, em So Salvador, em Marselha e nas Honduras entravam em contacto com
os seus duplos, informando-os das actividades ilegais levadas a cabo nesses pases. Alguns vigaristas de menor importncia eram apanhados e, assim que falavam,
punham-nos em liberdade em troca da evidncia contra as figuras mais importantes do mundo do crime. Estava a ser feito tudo com muita discrio, para que os principais
 perseguidos no desconfiassem da tempestade que estava  prestes a abater-se sobre as suas cabeas.  Na sua qualidade de presidente da Comisso de Inqurito do
Senado, Adam Warner recebia visitas frequentes na sua casa de Georgetown, e as reunies no seu gabinete  prolongavam-se, muitas vezes, at s primeiras horas da
 madrugada.  No restavam dvidas de que, quando tudo terminasse e aOrganizao de Michael Moretti fosse desmantelada, a eleio  presidencial seria uma vitria
fcil para Adam.  Deveria sentir-se feliz. No entanto, estava desesperado, debatendo-se com o maior dilema da sua vida. Jennifer Parker encontrava-se profundamente
envolvida, e Adam precisava de a avisar de Lhe dizer que fugisse enquanto era tempo. Por outro lado, tinha outro dever: um dever para com a comisso que tinha o
seu nome, um dever para com o prprio Senado dos Estados Unidos. Ele era o acusador de Jennifer. Como poderia ser, ao mesmo tempo, o seu defensor? Se se viesse
a descobrir que a tinha avisado, isso iria destruir a credibilidade da sua comisso de inqurito e de tudo o que fora realizado. Destruir-lhe-ia o futuro, a famlia.
 A referncia que Thomas Colfax fizera ao filho de Jennifer deixar Adam desorientado.  Reconhecia que tinha de falar com Jennifer.  Adam marcou o nmero do escritrio
dela e foi atendido por uma secretria.
 - Lamento, Mr. Adams, mas Miss Parker no est.
 - . . .  muito importante. Sabe onde poderei encontr-la?
 - No, senhor. Algum mais pode ajud-lo?
 Ningum podia ajud-lo.  Durante a semana que se seguiu, Adam tentou comunicar com Jennifer vrias vezes ao dia. A secretria dela dava-Lhe sempre a mesma resposta.

 - Lamento, Mr. Adams, mas Miss Parker no se encontra no escritrio.
 Adam estava sentado no gabinete de trabalho e preparava-se  para telefonar a Jennifer pela terceira vez naquele dia, quando Mary Beth entrou na sala. Adam pousou
o auscultador
com um ar muito natural.  Mary Beth aproximou-se dele e passou-lhe os dedos pelo cabelo.
 - Pareces fatigado, querido.
 - Estou ptimo.
 Ela dirigiu-se para uma poltrona de camura colocada em frente da secretria de Adam e sentou-se.
 - Est tudo a correr bem, no est, Adam?
 - Parece que sim.
 - Espero que acabe depressa, por tua causa. A tenso nervosa  deve ser horrvel.
 - Estou a suport-la bem, Mary Beth. No te preocupes comigo.
 -  claro que me preocupo. O nome de Jennifer Parker est naquela lista, no est?
 Adam olhou-a com uma expresso penetrante.
 - Como soubeste?
 Ela riu.
 - Meu amor, tu fizeste: desta casa um local pblico de reunio. No posso deixar de ouvir um pouco do que se passa.
Toda a gente parece terrivelmente ansiosa por apanhar Michael Moretti e a sua amante. - Observou o rosto de Adam, mas no descobriu nele qualquer reaco.  Mary
Beth olhou o marido com ternura e pensou: Como os homens so ingnuos !  Sabia mais coisas a respeito de Jennifer Parker do que Adam. Mary Beth sentira-se sempre
surpreendida com o facto de os homens conseguirem ser to perspicazes para os negcios e para a poltica e de, pelo  contrrio, serem to imbecis quando se tratava
de mulheres.  Bastava pensar no nmero de homens verdadeiramente ilustres que se tinham casado com umas mulherezinhas quaisquer. Mary Beth compreendia que o marido
tivesse uma ligao com Jennifer Parker. Afinal de contas, Adam era um homem muito atraente e desejvel. E, tal como todos os homens, era susceptvel. A filosofia
dela era perdoar mas nunca esquecer.  Mary Beth sabia o que convinha ao marido. Tudo o que fazia era para bem de Adam. No entanto, assim que tudo isto estivesse
terminado, levaria Adam para qualquer lado. Ele parecia realmente fatigado. Deixariam Samantha entregue  governanta e iriam para um lugar romntico. Talvez para
o Taiti.  Mary Beth olhou atravs da janela e viu dois homens do servio secreto conversando. A presena deles perturbava-a.  Mary Beth no gostava daquela intromisso
na sua vida privada  mas, ao mesmo tempo, o facto de eles estarem ali fazia-a  recordar-se de que o marido era um candidato  presidncia  dos Estados Unidos. Mas
no, que disparate! O marido ia ser o  prximo Presidente dos Estados Unidos. Toda a
gente o dizia. A ideia de morar na Casa Branca era to  palpvel que, s de pensar nisso, ficava excitada. O seu  passatempo preferido, enquanto Adam se ocupava
com as suas  reunies, era idealizar uma nova decorao para a Casa  Branca. Ficava sozinha no quarto, durante horas, trocando moblias em pensamento, planeando
todas as coisas excitantes que iria fazer quando se tornasse First Lady '.  J tinha visto as salas cujo acesso era vedado  maior parte dos visitantes: a Biblioteca
da Casa Branca com os seus quase trs mil livros, a Sala Chinesa e a Sala de Recepes ao  Corpo Diplomtico, os aposentos particulares e os sete  quartos de hspedes
do segundo andar.  Ela e Adam iam viver naquela casa, iam tornar-se parte da sua histria. Mary Beth estremecia s de pensar em como Adam estivera quase a atirar
pela janela a sorte de ambos por causa dessa tal Parker. Mas, graas a Deus, tudo tinha  terminado.  Agora observava Adam, sentado  secretria, com um ar
esgotado e macilento.
 - Queres que te arranje um caf, querido?
 Adam esteve quase a recusar, mas depois mudou de ideias.
 - Saber-me-ia bem.
 - No demora nada.
 Assim que Mary Beth saiu da sala, Adam pegou de novo no telefone e comeou a marcar um nmero. Era j noite e sabia que o escritrio de Jennifer estava fechado,
mas devia haver algum no servio de recepo de mensagens. Aps o que lhe pareceu uma eternidade, a telefonista atendeu.  -  urgente - disse Adam. - H muitos
dias que estou a tentar entrar em contacto com Jennifer Parker. Fala Mr. Adams.
 - Um momento, por favor. - A voz voltou a fazer-se ouvir atravs do fio: - No tenho indicao nenhuma de onde possa estar Miss Parker. Quer deixar algum recado?
 - No - Adam pousou o auscultador, sentindo uma frustrao  enorme, sabendo que, mesmo que deixasse uma mensagem para  Jennifer lhe telefonar, ela nunca o faria.
 Continuava sentado no gabinete, contemplando a noite, pensando nas dzias de mandatos de captura que em breve iriam ser redigidos. Um deles seria por assassnio.
 Traria escrito o nome de Jennifer.  Faltavam cinco dias para que Michael Moretti regressasse  casa da montanha onde Jennifer se encontrava. Ela tinha  passado
aqueles dias a descansar, a comer, a dar longos  passeios pelas veredas. Quando sentiu aproximar-se o carro de Michael,  Jennifer saiu para o receber.  Michael
olhou-a de alto a baixo e comentou:
 - Ests com muito melhor aspecto.
 - Sinto-me melhor. Ob?gada.
 Caminharam ao longo da vereda que conduzia ao lago.
 - Preciso que me faas uma coisa - comeou Michael.
 -O que ?
 - Quero que partas amanh para Singapura.
 - Singapura?
 - Um comissrio de bordo foi apanhado l no aeroporto com um carregamento de cocana. Chama-se Stefan Bjork.
Est na cadeia. Quero que o soltes sob fiana antes que ele comece a dar  lngua.
 - Muito bem.
 - Volta assim que puderes. Vou sentir a tua falta.
 Puxou-a para ele, beijou-a ternamente nos lbios e murmurou:
 - Amo-te, Jennifer.
 E ela sabia que ele nunca tinha dito aquelas palavras a mais ningum.
 Mas era demasiado tarde. Estava acabado. Algo morrera nela para sempre, e restava-lhe apenas o remorso e a solido. Tinha resolvido dizer a Michael que ia partir.
No haveria nem Adam nem Michael. Tinha de ir para algures, sozinha, e recomear. Tinha uma dvida para pagar. Prestaria este ltimo favor a Michael e falar-Lhe-ia
dos seus planos quando  regressasse.  Partiu para Singapura na manh seguinte.  Nick Vito, Tony Santo, Salvatore Fiore e Joseph Colella estavam a almoar em Tony's
Place. Encontravam-se sentados a  uma mesa da frente e, sempre que a porta se abria, olhavam instintivamente para verem quem tinha entrado. Michael Moretti estava
na sala das traseiras, e, ainda que  no existisse um conflito actual entre as Famlias, era sempre melhor jogar pelo seguro.
 - O que aconteceu a Jimmy? - perguntava o enorme Joseph  Colella.
 - Astutatu - morte - elucidou Nick Vito. - O parvo do filho da puta apaixonou-se pela irm de um detective. A gaja era um monumento, justia lhe seja feita. Ela
e o mano  detective convenceram Jimmy a fazer uma gravao. Jimmy teve um encontro com Mike e levou um fio escondido na perna das calas.
 - O que aconteceu ento? - inquiriu Fiore.
 - O que aconteceu foi que Jimmy ficou to nervoso que teve de ir mijar. Quando abriu a braguilha, apareceu o  maldito fio.
 - Merda !
 - Foi o que Jimmy fez. Mike entregou-o a Gino, que se serviu do fio de Jimmy para o estrangular. Morreu suppilu suppilu - muito devagarinho.
 A porta abriu-se e os quatro homens ergueram os olhos. Era o vendedor de jornais com a edio da tarde do New York Post.  Joseph Colella chamou.
 - Anda c, filho! - Voltou-se para os outros: - Quero ver o que diz sobre a corrida de Hialeah. Havia l hoje um cavalo meu.
 O jornaleiro, um velhote dos seus setenta anos, estendeu um jornal a Joseph Colella e Colella deu-lhe um dlar. -  Guarda o troco.
 Era o que Michael teria dito. Joe Colella comeou a abrir o jornal e a ateno de Nick Vito foi despertada por uma  fotografia que vinha na primeira pgina.
 - Ol! - exclamou. - J vi esse tipo!
 Tony Santo espreitou por cima do ombro de Vito.
 - E claro que viste, meu lindo.  Adam Warner.  candidato   Presidncia.
 - No - insistiu Vito. - Eu vi-o mesmo. - Franziu a testa, fazendo um esforo para se recordar. De sbito,  lembrou-se.
 - J sei! Era o tipo que estava no bar, em Acapulco, com Jennifer Parker.
 - O que ests tu a dizer?
 - Lembram-se de quando l fui, no ms passado, para entregar uma encomenda? Vi este tipo com Jennifer Parker.
Estavam a tomar um copo juntos.  Salvatore Fiore arregalou os olhos.
 - Tens a certeza?
 - Tenho. Porqu ?
 - Acho que  melhor contares isso a Mike - respondeu Fiore muito devagar.
 Michael Moretti olhou para Nick Vito e exclamou:
 - Ests doido! O que poderia estar Jennifer Parker a fazer com o Senador Warner?
 - Sei l, chefe! S sei que estavam sentados no bar, a beber um copo.
 - Sozinhos?
 - Sim.
 - Achei que seria melhor saber disto, Mike - disse Salvatore  Fiore. - O filho da me do Warner anda atrs de ns.
Por que motivo estaria Jennifer a beber com ele?  Era exactamente isso que Michael gostaria de saber. Jennifer tinha falado de Acapulco e da conveno, e referira-se
a algumas pessoas que tinha encontrado. No entanto, no dissera uma nica palavra a respeito de Adam Warner.  Voltou-se para Tony Santo:
 - Quem  agora o presidente do sindicato dos porteiros?
 - Charlie Corelli.
 Passados cinco minutos, Michael falava pelo telefone com Charlie Corelli.
. . nas Torres Belmont - disse Michael. - Uma amiga minha morou l h nove anos. Gostaria de falar com o sujeito que era porteiro nessa altura. - Michael ficou
uns momentos  escuta. - Obrigado, amigo. Fico-lhe muito grato. - E desligou.
 Nick Vito, Santo, Fiore e Colella estavam a observ-lo.
 - No tm mais nada para fazer, seus filhos da me? Ponham-se daqui para fora!
 Os quatro homens saram precipitadamente.  Michael continuou sentado, a meditar, imaginando Jennifer e Adam Warner juntos. Porque  que nunca se ter referido
a ele? E o pai de Joshua, que morrera na guerra do Vietname? Porque seria que Jennifer nunca tinha falado dele?,?  Michael Moretti comeou a percorrer o escritrio
a passos largos.
 Trs horas mais tarde, Tony Santo fez entrar na sala um homem tmido e pobremente vestido, que devia andar pelos setenta anos e estava visivelmente aterrorizado.
 - Este  Wally Kawolski - anunciou Tony.
 Michael levantou-se e apertou a mo de Kawolski.
 - Obrigado por ter vindo, Wally. Estou-lhe muito grato.
Sente-se. Quer beber alguma coisa?
 - No, no, obrigado, Mr. Moretti. No vale a pena, senhor.
Muito obrigado. - S Lhe faltou fazer uma vnia.
 - No esteja nervoso. Quero apenas fazer-lhe algumas perguntas, Wally.
 - Com certeza, Mr. Moretti. Pergunte tudo o que quiser. Tudo.
 - Continua a trabalhar nas Torres Belmont?
 - Eu? No, senhor. Sa de l j vai para cinco anos. A minha sogra sofre de uma grave artrite e. . .
 - Lembra-se dos inquilinos?
 - Sim, senhor. De quase todos, creio. Eram uma espcie de...
 - Lembra-se de uma tal Jennifer Parker?
 O rosto de Walter Kawolski iluminou-se.
 - Ah,  claro. Era uma senhora muito simptica. At me lembro do nmero do apartamento. Mil novecentos e vinte e nove. Como o ano em que o mercado ruiu, sabe?
Gostava muito dela.
 - Miss Parker recebia muitas visitas, Wally?
 Wally coou a cabea devagar.
 - Bom,  difcil dizer, Mr. Moretti. Eu s a via quando ela entrava ou saa.
 - Houve noites em que alguns homens tivessem dormido no apartamento dela?
 Wally Kawolski abanou a cabea.
 - Oh, no, senhor.
 Ento tinha-se preocupado sem necessidade. Sentiu uma enorme onda de alvin. Soubera sempre que Jennifer nunca. . .
 - O namorado dela poderia chegar a casa e apanh-la.
 Michael pensou que tinha compreendido mal.
 - O namorado dela?
 - Sim. O tipo com quem Miss Parker vivia.
 As palavras atingiram Michael no estmago como um martelo de forja. Ficou descontrolado. Agarrou Walter Kawolsky pela gola do casaco e obrigou-o a pr-se de p.
 - Seu safado! Perguntei-lhe se... como se chamava ele?
 O homenzinho estava em pnico.
 - No sei, Mr. Moretti. Juro por Deus que no sei!
 Michael soltou-o bruscamente. Pegou no jornal e meteu-o debaixo do nariz de Walter Kawolski.  Kawolski olhou para a fotografia de Adam Warner e exclamou, muito
excitado:
 -  ele!  o namorado dela!
 E Michael sentiu o mundo desmoronar-se  sua volta. Jennifer tinha-lhe mentido desde o princpio; tinha-o trado com Adam Warner! Ambos tinham andado a engan-lo,
conspirando contra ele, fazendo pouco dele. Ela pusera-lhe os cornos.  Os antigos desejos de vingana despertaram em Michael Moretti, e ele soube que ia mat-los
a ambos. Jennifer voou de Nova Iorque para Londres e dali para Singapura, com uma escala de duas horas no Bahrain. O novo aeroporto do emirado do petrleo estava
j transformado numa pocilga, repleto de homens, mulheres e crianas em trajos nativos, que dormiam no cho e em bancos. Em frente da loja de bebidas alcolicas
do aeroporto havia um letreiro avisando que se algum fosse encontrado a beber num lugar pblico seria preso. A atmosfera era hostil e Jennifer sentiu-se satisfeita
quando o voo foi anunciado.  O jacto 747 aterrou no Aeroporto de Changi, em Singapura, s quatro horas e quarenta minutos da tarde. Era um aeroporto de construo
recente, a catorze milhas do centro da cidade, que substitua o antigo aeroporto internacional e, enquanto o avio deslizava pela pista, Jennifer verificou que
as obras no estavam ainda concludas.  O edifcio da Alfndega era grande, arejado e moderno, e havia filas de carrinhos de bagagem para comodidade dos passageiros.
Os funcionrios da Alfndega eram eficientes e delicados e, passados quinze minutos, Jennifer estava despachada e encaminhava-se para a praa de txis.  J no exterior
do edifcio, foi abordada por um chins forte e de meia-idade.
 - Miss Jennifer Parker?
 - Sim.
 - Sou Chou Ling. - Era o contacto de Moretti em Singapura. - Tenho uma limusina  sua espera.
 Chou Ling orientou a arrumao da bagagem de Jennifer na mala da limusina e, volvidos alguns minutos, iam a caminho da cidade.
 - Fez boa viagem? - informou-se Chou Ling.
 - Sim, obrigada. - Mas Jennifer estava a pensar em Stefan Bjork.
 Como se lhe tivesse adivinhado os pensamentos, Chou Ling indicou com a cabea um edifcio em frente. -  a Priso Changi.  l que se encontra Bjork.  Jennifer
voltou o pescoo para ver melhor. A Priso Changi era um enorme edifcio afastado da estrada, rodeado por um gradeamento verde e arame farpado electrificado. Em
cada esquina havia uma torre de vigia com guardas armados no interior, a entrada estava bloqueada por uma segunda cerca de arame farpado e, no porto por trs dela,
encontravam-se mai s guardas.
 - Durante a guerra - explicou Chou Ling a Jennifer - todos os ingleses que viviam na ilha foram levados para ali  - Quando poderei ver Bjork?
 -  uma situao muito delicada, Miss Parker - replicou Chou Ling com suavidade. - O governo  quase inflexvel no que respeita  droga. At aqueles que prevaricam
pela primeira vez so castigados implacavelmente. As pessoas que negoceiam em drogas. . . - Chou Ling fez um encolher de ombros significativo. - Singapura  controlada
por algumas famlias poderosas. A famlia Shaw, C. K. Tang, Tan Chin Tuan e Lee Kuan Yew, o Primeiro-Ministro. Estas famlias controlam as operaes financeiras
e o comrcio de Singapura. No querem c drogas.
 - Devemos ter aqui alguns amigos influentes.
 - H um inspector da polcia, David Touh - um homem muito sensato.
 Jennifer teria gostado de saber at que ponto iria aquela sensatez", mas no perguntou nada. Teria muito tempo para o descobrir. Recostou-se no assento e contemplou
a paisagem.  Estavam agora a atravessar os subrbios de Singapura e parecia haver verdura e flores por toda a parte. De ambos os lados de MacPherson Road erguiam-se
modernos centros comerciais a par de antigos santurios e pagodes. Algumas das pessoas que caminhavam pelas ruas usavam fatos antigos e turbantes, ao passo que
outras se apresentavam  elegantemente vestidas com as mais recentes criaes da moda  ocidental. A cidade parecia uma mistura colorida de uma  cultura antiga e
de uma metrpole moderna. Os centros comerciais eram novos e tudo estava impecavelmente limpo. Jennifer fez um comentrio a esse respeito.  Chou Ling sorriu.
 - A explicao  simples. H uma multa de quinhentos dlares para quem deitar lixo no cho, e  severamente aplicada.
O carro entrou em Stevens Road e, numa colina sobranceira,  Jennifer viu um encantador edifcio branco totalmente rodeado de rvores e de flores.
 -  o Shangri-La, o seu hotel.
 O trio era enorme, branco e de um asseio imaculado, com colunas de mrmore e vidro por todo o lado.  Enquanto Jennifer se registava, Chou Ling disse:
 - O Inspector Touh vai entrar em contacto consigo. -  Entregou um carto a Jennifer. - Pode encontrar-me sempre neste nmero.  Um empregado sorridente pegou na
bagagem de Jennifer e, atravessando o trio, conduziu-a ao elevador. Havia um enorme jardim ao fundo de uma cascata, e uma piscina. O Shangri-La era o hotel mais
luxuoso que Jennifer tinha visto em toda a sua vida. A sua suite, no segundo andar, era  composta por uma grande sala de estar, um quarto e um terrao que dava
para um mar colorido de antrios brancos e  vermelhos, buganvlias cor de prpura e coqueiros.  como  se estivesse no meio de um Gauguin", pensou Jennifer.  Soprava
uma brisa ligeira. Joshua adorava os dias como este. Podemos ir fazer vela esta tarde, Me? Pra com isso!,?, ordenou Jennifer a si prpria.
 Dirigiu-se ao telefone.
 - Queria pedir uma chamada para os Estados Unidos.
Cidade de Nova Iorque. Particular para Mr. Michael Moretti.
- E deu o nmero do telefone.
 - Lamento - respondeu a telefonista. - As linhas esto todas ocupadas. Volte a tentar mais tarde.
 - Obrigada.
 No rs-do-cho, a telefonista olhou, como se pedisse  aprovao, para o homem que se encontrava junto da mesa.
 Ele fez um aceno com a cabea.
 - Bem - disse ele. - Muito bem.
 O telefonema do Inspector Touh veio uma hora depois de Jennifer ter chegado ao hotel.
 - Miss Jennifer Parker?
 -  a prpria.
 - Fala o Inspector David Touh. - Tinha um sotaque ligeiro e  indefinvel.
 - Sim, Inspector. Estava  espera do seu telefonema. Estou  ansiosa por conseguir. . .
O inspector interrompeu-a.
 - Quer dar-me o prazer de jantar comigo esta noite?
 Era um aviso. Talvez ele receasse que o telefone estivesse sob escuta.
 - Ficarei encantada.
 O Great Shanghai era um restaurante enorme e barulhento cheio, na sua maior parte, com nativos que comiam e  conversavam em voz alta. Num estrado actuava um trio
musical,  e uma atraente rapariga com um cheongsam estava a cantar canes populares americanas.
 - Mesa para uma pessoa? - perguntou o matre a Jennifer.
 - Estou  espera de algum. Do Inspector Touh.
 O rosto do matre abriu-se num sorriso.
 - O inspector est  sua espera. Por aqui, por favor. -  Conduziu Jennifer a uma mesa, na parte da frente da sala, junto ao estrado do conjunto.
 O Inspector David Touh era um homem alto, magro e atraente,  de quarenta e poucos anos, com feies delicadas e suaves  olhos negros. Vestia um elegante e quase
formal fato escuro.  Ajudou Jennifer a sentar-se e instalou-se, por sua vez. O conjunto estava a tocar um rock ensurdecedor.  O Inspector Touh inclinou-se para
Jennifer e perguntou:
 - Posso encomendar uma bebida para si?
 - Sim, obrigada.
 - Tem de provar um chendol.
 - Um qu?
 -  feito com leite de coco, acar de coco e pedacinhos de gelatina. Vai gostar.  O inspector fez um sinal com os olhos e, quase ao mesmo tempo, apareceu uma
empregada ao lado dele. O inspector pediu as duas bebidas e dim sum, aperitivos chineses.
 - Espero que no se importe que seja eu a escolher o seu jantar.
 - De modo nenhum. Terei muito prazer.
 - Sei que, no seu pas, as mulheres esto habituadas a pedir o que querem. Aqui  ainda o homem quem trata disso.  Um machista,?, pensou Jennifer. Mas no se sentia
com disposio para discutir. Precisava deste homem. Devido ao incrvel barulho e  msica, era quase impossvel conversar. Jennifer recostou-se na cadeira e percorreu
a sala com os  olhos. Jennifer j tinha estado em outros pases orientais, mas  as pessoas de Singapura pareciam extraordinariamente belas,  tanto os homens como
as mulheres.  A empregada colocou a bebida em frente de Jennifer. Pare cia  um batido de chocolate com bocadinhos de uma massa  informe e escorregadia. O Inspector
Touh notou-Lhe o ar per  plexo.
 - Tem de mexer.
 - No ouo.
 - Tem de mexer! - gritou ele.
 Jennifer mexeu obedientemente a bebida. Provou-a.
 Tinha um paladar horrvel, demasiado doce, mas Jennifer  acedeu com a cabea e declarou:
 - . . .  fora do vulgar.
 Foram trazidas para a mesa diversas tigelas de dim sum. , Algumas delas continham acepipes de feitios estranhos que  Jennifer nunca tinha visto, mas decidiu no
perguntar o que  eram. A comida era deliciosa.  O Inspector Touh explicou, gritando para se fazer ouvir por  entre o barulho da sala:
 - Este restaurante  famoso pela sua cozinha Nonya.   uma mistura de ingredientes chineses e de especiarias  malaias. As receitas nunca foram escritas.
 - Gostava de falar consigo a respeito de Stefan Bjork disse  Jennifer.
 - No ouo. - O barulho do conjunto era ensurdecedor.  Jennifer inclinou-se mais para a frente.
 - Quero saber quando  que posso ver Stefan Bjork.
 O Inspector Touh encolheu os ombros e, por mmica, fez -lhe  compreender que no conseguia ouvir. De sbito, Jennifer  perguntou a si mesma se ele tinha escolhido
esta mesa
 para poderem conversar em segurana ou se, pelo contrrio, o  fizera para no conseguirem falar.  Uma sucesso interminvel de pratos seguiu o dim sum, e  foi
uma refeio soberba. A nica coisa que perturbava Jennifer era o facto de no ter tido oportunidade de falar  sobre  Stefan Bjork.  Quando acabaram de comer e
abandonaram o restaurante, o Inspector Touh disse:
 - Tenho aqui o meu carro.
 Deu um estalo com os dedos e um Mercedes preto, que estava estacionado num local discreto, parou junto deles. O inspector abriu a Jennifer a porta de trs. Ao
volante  encontrava-se um enorme polcia fardado. Passava-se algo de  estranho. Jennifer pensou: Se o Inspector Touh quisesse  falar-me de assuntos confidenciais,
ter-se-ia encontrado comigo a ss. "  Sentou-se no banco traseiro do carro e o inspector instalou-se ao lado dela.
 -  a primeira vez que est em Singapura, no ?
 - Sim.
 - Ah! Nesse caso ainda tem muitas coisas para ver.
 - No vim para fazer turismo, Inspector. Tenho de regressar o mais depressa possvel.
 O Inspector Touh suspirou.
 - Vocs, caucasianos, passam a vida a correr. J ouviu falar da Rua Bugis?
 - No.
 Jennifer endireitou-se no banco para poder observar o  Inspector Touh. O seu rosto tinha uma grande mobilidade e os gestos eram expressivos. Parecia aberto e comunicativo
mas, apesar disso, quase no proferira palavra durante todo o  jantar.  O carro deteve-se para deixar passar um trishaw, um daqueles  veculos de trs rodas pedalados
por nativos. O Inspector  Touh contemplou com ar desdenhoso o trishaw que transportava  dois turistas rua abaixo.
 - Um dia havemos de acabar com isto.
 Jennifer e o Inspector Touh apearam-se do carro, um quarteiro antes da rua Bugis.
 - Os automveis no podem circular l - explicou o Inspector  Touh.
 Deu o brao a Jennifer e comearam a andar ao longo do movimentado passeio. Dentro de poucos minutos, a multido era to compacta que lhes era quase impossvel
continuar. A rua Bugis era estreita, ladeada de tendas de fruta e de  legumes, e de outras que vendiam peixe e carne. Havia  restaurantes ao ar livre com cadeiras
colocadas em volta de  pequenas mesas. Jennifer deteve-se, arrebatada pelo cenrio, pelos sons, pelos cheiros e pela orgia de cores. O Inspector Touh pegou-Lhe
no brao e, empurrando com os ombros, foi abrindo  caminho por entre a multido. Chegaram a um restaurante com trs mesas  frente, todas elas ocupadas. O inspector
agarrou o cotovelo de um empregado que passava e, pouco depois, o proprietrio estava junto deles. O inspector disse-lhe qualquer coisa em chins. O proprietrio
dirigiu-se a uma das mesas, falou com os clientes que, olhando para o  inspector, se levantaram rapidamente e saram. O inspector e  Jennifer sentaram-se  mesa.
 - Quer tomar alguma coisa?
 - No, obrigada.
 Jennifer contemplou o vasto mar de gente que enchia os passeios e as ruas. Noutras circunstncias, talvez isto lhe tivesse agradado. Singapura era uma cidade fascinante,
uma cidade para se partilhar com algum de quem se gostasse.  - Esteja atenta.  quase meia-noite - disse o Inspector Touh.  Jennifer ergueu os olhos. Primeiro
no viu nada. Depois reparou que todos os comerciantes comeavam a fechar ao mesmo tempo as suas tendas. Passados dez minutos, todas as tendas se encontravam fechadas
e trancadas, e os seus  proprietrios tinham desaparecido.
 - O que se passa? - perguntou Jennifer.
 - J vai ver.
 Ouviu-se um murmrio entre a multido, ao fundo da rua, e as pessoas comearam a afastar-se para o passeio, deixando um espao livre na rua. Uma rapariga chinesa,
com um vestido  de noite comprido e justo, caminhava pelo meio da rua. Jennifer nunca tinha visto uma mulher to bela. Tinha um modo de andar orgulhoso e lento,
detinha-se junto de vrias
mesas para cumprimentar algumas pessoas, e depois continuava.  Quando a rapariga se aproximou da mesa onde se encontravam  Jennifer e o inspector, Jennifer pde
observ-la melhor e, vista de perto, era ainda mais bonita. As suas feies  eram suaves e delicadas, e o corpo era escultural. O vestido de seda branca era aberto
dos lados, de modo a deixar ver a curva  delicada dos seios, que eram firmes e pequenos e de uma forma perfeita.  Quando Jennifer se voltou para falar com o inspector,
 apareceu outra rapariga. Esta era, se possvel, ainda mais  bonita do que a primeira. Ao lado dela vinham outras duas e, num abrir e fechar de olhos, a rua Bugis
ficou cheia de raparigas jovens e belas. Eram uma mistura das raas malaia, indiana e chinesa.
 - So prostitutas - conjecturou Jennifer.
 - Sim. Transsexuais.
 Jennifer olhou-o, surpreendida. No era possvel. Voltou-se  para contemplar de novo as raparigas. No conseguia descobrir nelas nenhuma caracterstica masculina.
 - Est a brincar.
 - So conhecidos por Billy Boys.
 Jennifer sentia-se confusa.
 - Mas eles. . .
 - Foram todos sujeitos a uma operao. Consideram-se mulheres. - Ele encolheu os ombros. - E porque no? No fazem mal a ningum. Compreende - acrescentou -, esta
prostituio  ilegal aqui. Mas os Billy Boys so teis ao  turismo e, enquanto no incomodarem os clientes, a polcia  vai fechando os olhos.  Jennifer fitou de
novo os delicados jovens que desciam a rua, parando junto de algumas mesas para negociarem com os clientes.
 -Ganham bem. Chegam a cobrar duzentos dlares. Quando j no tm idade para trabalhar, tornam-se Mamasans.  A maior parte das raparigas encontrava-se agora sentada
s mesas com homens, regateando os seus servios. Uma a uma, comearam a levantar-se e a sair com os respectivos clientes.  - Fazem duas ou trs transaces por
noite - explicou o
inspector. - Invadem a rua Bugis  meia-noite e tm de a abandonar por volta das seis da manh, para que as tendas possam reabrir. Podemos ir embora assim que desejar.
 - Pode ser j.
 Enquanto percorriam a rua, a imagem de Ken Bailey veio subitamente ao esprito de Jennifer e, em pensamento, ela desejou-lhe: Espero que sejas feliz."
 Durante o regresso ao hotel, Jennifer decidiu que, com ou sem motorista, ia mencionar o nome de Bjork.  Quando o carro virou para Orchard Road, Jennifer disse
num tom resoluto:
 - Acerca de Stefan Bjork. . .
 - Ah, sim. Preparei tudo para que v visit-lo s dez horas  da manh.
Em Washington, D. C. , Adam Warner foi chamado a meio de uma reunio para atender um telefonema urgente de Nova Iorque.  Era o Procurador Distrital Robert Di Silva.
Parecia muito satisfeito.
 - O jri especial de acusao acaba de entregar as acusaes  escritas que pedimos. No falta nenhuma! Estamos todos prontos para avanar. - No houve resposta.
- Est a ouvir,  Senador?
 - Estou - Adam esforou-se por demonstrar entusiasmo.
-  uma ptima notcia.
 - Devemos poder comear a agir dentro de vinte e quatro horas. Se o Senador puder vir a Nova Iorque, creio que  deveramos ter, amanh de manh, uma reunio final
com todos os departamentos para podermos coordenar as nossas aces.
Tem possibilidade disso, Senador?
 - Tenho - respondeu Adam.
 - Eu trato de tudo. Amanh de manh, s dez horas.
 - L estarei. - E Adam pousou o auscultador.
 O jri especial de acusao acaba de entregar todas as acusaes escritas que pedimos. No falta nenhuma!?,
 Adam pegou de novo no telefone e comeou a marcar um nmero.
A sala de visitas da Priso Changi era uma sala pequena com paredes nuas de estuque branco, e cujo mobilirio se compunha de uma mesa comprida com desconfortveis
cadeiras de  madeira colocadas de ambos os lados. Jennifer estava sentada numa das cadeiras,  espera. Ergueu os olhos quando a porta se abriu para dar passagem
a Stefan Bjork e ao guarda fardado que o acompanhava.  Bjork devia andar pelos trinta anos, era alto e tinha um rosto taciturno com olhos salientes.  uma deficincia
da tiride?,, pensou Jennifer. O rosto e a testa apresentavam equimoses recentes. Sentou-se em frente de Jennifer.
 - Sou Jennifer Parker, a sua advogada. Vou tentar tir-lo daqui.
 -  melhor despachar-se - respondeu ele, fitando-a.
 Podia tratar-se de uma ameaa ou de uma splica. Jennifer recordou-se das palavras de Michael: ?.Quero que o soltes sob fiana antes que ele comece a dar  lngua."
 - Est a ser bem tratado?
 Ele olhou disfaradamente para o guarda que se encontrava junto da porta.
 - Sim. Muito bem.
 - Solicitei a sua liberdade condicional.
 - Que hipteses tenho? - Bjork no conseguia ocultar a sua ansiedade.
 - Creio que bastantes. Demorar dois ou trs dias, quando muito.
 - Preciso de sair daqui.
 Jennifer ps-se de p.
 - V-lo-ei em breve.
 - Obrigado - disse Stefan. E estendeu-lhe a mo.
 - No! - exclamou o guarda em tom spero.
 Voltaram-se ambos.
 - No pode haver contactos fsicos.
Stefan Bjork olhou para Jennifer e depois pediu-lhe, com voz rouca:
 - Despache-se !
 Quando Jennifer regressou ao hotel, havia uma mensagem a dizer que o Inspector Touh tinha telefonado. Quando estava a "l-la, tocou o telefone. Era o inspector.
 - Enquanto aguarda, Miss Parker, pensei que talvez gostasse  de dar uma volta pela cidade.
 Jennifer sentiu vontade de recusar, mas depois compreendeu  que no poderia fazer nada at conseguir meter Bjork num avio. At l, era importante conservar as
boas graas do Inspector Touh.
 - Obrigada. Gostaria imenso - respondeu Jennifer.
 Pararam para almoar em Kampachi e depois dirigiram-se para o campo, seguindo para norte ao longo de Bukit Timah Road, a estrada que conduzia  Malsia, e atravessaram
uma srie de aldeiazinhas coloridas com as suas mltiplas tendas de comida e lojas. As pessoas andavam bem vestidas e pareciam  viver sem dificuldades. Jennifer
e o Inspector Touh pararam  no Cemitrio e Monumento aos Mortos da Guerra, em Kranji, subiram os degraus e transpuseram os portes azuis abertos de par em par.
Em frente deles, erguia-se uma enorme cruz de mrmore e, por trs, uma colina gigantesca. O  cemitrio era um mar de cruzes brancas.
 - Sofremos muito com a guerra - informou o Inspector Touh. - Todos perdemos muitos amigos e familiares.
 Jennifer no respondeu. Viera-lhe  memria uma certa campa, em Sands Point. No entanto, no queria pensar no que se encontrava por baixo do pequeno montculo
de terra.  Em Manhattan, na Unidade da Polcia Secreta, em Hudson Street, estava a decorrer uma reunio de departamentos  executivos. Pairava na sala apinhada de
gente uma atmosfera  de regozijo. Muitos daqueles homens tinham-se ocupado da  investigao pouco convictos, pois j no era a primeira vez que passavam por casos
como este. Ao longo dos ltimos anos, tinham conseguido acumular provas esmagadoras sobre desordeiros, assassinos e chantagistas e, caso aps caso,  advogados talentosos
e muito conceituados tinham obtido a absolvio dos criminosos que representavam. Mas desta vez ia ser diferente. Tinham o testemunho do Consigliere Thomas Colfax,
e ningum iria conseguir destru-lo. Durante mais de vinte e cinco anos ele tinha sido a cavilha de segurana da ral. Ele iria ao tribunal, indicaria nomes, datas,
factos e nmeros. E agora estavam a receber ordem para entrarem em aco.  Adam tinha trabalhado mais do que qualquer outra pessoa presente na sala para que este
momento acontecesse. Deveria ter sido o carro triunfal que o levaria  Casa Branca. Mas, agora que tinha chegado a altura, sentia-se desfeito.  Adam tinha  sua
frente uma lista de pessoas inculpadas pelo jri especial de acusao. O quarto nome da lista era o de Jennifer Parker, e as acusaes em frente do nome dela eram
assassnio e premeditao de meia dzia de outros crimes  contra o estado.  Adam Warner percorreu a sala com os olhos e fez um esforo  para falar.
 - Dou-vos. . . dou-vos os meus parabns.
 Tentou dizer mais qualquer coisa, mas as palavras no lhe saam da garganta. A repugnncia que sentia por si prprio provocava-lhe uma dor fsica.  Os espanhis
 que tm razo", pensou Michael Moretti. A vingana  um prato que sabe melhor depois de frio.., A nica razo pela qual Jennifer Parker continuava viva era por
se encontrar longe. Mas ela ia regressar em breve. E,  entretanto, Michael ia saboreando o que estava para lhe  acontecer.
Ela trara-o por todas as formas que uma mulher pode trair um homem. Era por isso que ele lhe reservava um castigo especial.  Em Singapura, Jennifer estava a fazer
nova tentativa para telefonar a Michael.
 - Lamento - disse-lhe a telefonista -, as linhas para os Estados Unidos esto ocupadas.
 - Pode continuar a tentar, por favor?
 - Com certeza, Miss Parker.
 A telefonista ergueu os olhos para o homem que estava de sentinela  central telefnica, e ele respondeu-lhe com um sorriso conspirador.  No seu quartel-general
do centro da cidade, Robert Di Silva  olhava para um mandato de captura que acabara de ser redigido. Trazia o nome de Jennifer Parker.  Finalmente apanhei-a?,,
pensou ele. E sentiu uma alegria selvagem.
" - O Inspector Touh est  sua espera no trio - anunciou a telefonista.
 Jennifer ficou surpreendida, pois no o esperava. Devia trazer-Lhe notcias de Stefan Bjork.
 Jennifer entrou no elevador e desceu para o trio.
 - Perdoe-me por no lhe ter telefonado - comeou o Inspector  Touh. - Achei que seria melhor falar consigo pessoalmente.
 - Tem algumas notcias?
 - Podemos conversar no carro. Quero mostrar-lhe uma coisa.
 Seguiram ao longo de Yio Chu Kang Road.
 - Passa-se alguma coisa? - perguntou Jennifer.
 - De modo nenhum. A cauo ser estabelecida depois de amanh.
 Nesse caso, onde a levaria ele?"
 Estavam a passar em frente de um grupo de edifcios, em Jalan Goatopah Road e o motorista estacionou o carro.  O Inspector Touh voltou-se para Jennifer.
 - Estou certo de que isto Lhe vai interessar.
 -O que ?
 - Venha. J vai ver.
 O interior do edifcio era velho e parecia estar em runas, mas o que mais a impressionou foi o cheiro selvagem,  primitivo e almiscarado. Era algo que Jennifer
nunca tinha  cheirado antes.  Uma rapariguinha aproximou-se deles imediatamente e perguntou:
 - Querem que os acompanhe? Eu. . .
 O Inspector Touh afastou-a com um gesto.
 - No precisamos de ti.
 Deu o brao a Jennifer e saram para os jardins. Havia meia dzia de grandes tanques cheios de gua e, l de dentro,  ouviam-se os sons estranhos de algo que deslizava.
Jennifer e  o Inspector Touh aproximaram-se do primeiro tanque. Havia um letreiro: Conserve as Mos Afastadas do Tanque.  Perigo?,. Jennifer olhou l para dentro.
Estava cheio de aligtores e de crocodilos, dzias deles, todos em contnuo movimento, deslizando uns por cima dos outros.  Jennifer estremeceu.
 - O que  isto?
 -  um viveiro de crocodilos. - Olhou para os rpteis.
- Quando tm entre trs e seis anos de idade, so esfolados e transformados em carteiras, cintos e sapatos. Repare que a maioria deles tem a boca aberta. Esto
a descansar.  quando fecham a boca que devemos acautelar-nos.  Foram at outro tanque onde havia dois enormes aligtores.
 - Estes tm quinze anos. So utilizados apenas para criao.  Jennifer arrepiou-se.
 - So to feios! No compreendo como conseguem suportar-se  um ao outro.
 - No conseguem - replicou o Inspector Touh. - Para dizer a verdade, no acasalam muitas vezes.
 - Parecem monstros pr-histricos.
 - Precisamente. So iguais h milhes de anos, com os mesmos mecanismos primitivos que tinham nos tempos mais remotos.
 Jennifer perguntava a si prpria por que motivo a teria ele levado ali. Se o inspector pensava que aquelas feras  horrveis a poderiam interessar, estava muito
enganado.
 - J podemos ir embora? - perguntou Jennifer.
 - Daqui a pouco. - O inspector olhou para a rapariguinha que  os tinha recebido l dentro. Estava a transportar uma selha para o primeiro tanque.
 - Hoje  dia de serem alimentados - informou o inspector. -  Observe.
 Regressou com Jennifer ao primeiro tanque.
 - Do-lhes peixe e pulmes de porco de trs em trs dias.
 A rapariga comeou a atirar comida para o tanque, que, instantaneamente, se transformou numa massa agitada e  turbilhonante de actividade. Os aligtores e os crocodilos
  atacaram a comida crua e em sangue, rasgando-a com as suas presas de surios. Enquanto Jennifer contemplava a cena, dois deles precipitaram-se para o mesmo pedao
de carne e, no mesmo instante, voltaram-se um para o outro, atacando-se  furiosamente, mordendo-se e golpeando-se at que o tanque  comeou a encher-se de sangue.
O olho de um deles tinha sido arrancado, mas os seus dentes continuavam cravados nas maxilas do seu atacante e no o soltava. Quando o sangue comeou a brotar com
maior intensidade, tingindo a gua, os outros crocodilos aproximaram-se, atacando os companheiros feridos, dilacerando-lhes as cabeas at Lhes arrancarem a pele.
Comearam a devor-los vivos.  Jennifer sentiu-se desfalecer.
 - Por favor, vamos embora.
 O Inspector Touh colocou a mo no brao dela.
 - Um momento.
 Continuou a observar a cena e, pouco depois, conduziu Jennifer para a sada.  Naquela noite, Jennifer sonhou com os crocodilos que se mordiam e despedaavam. De
sbito, dois deles transformaram-se em Michael e em Adam e, a meio do pesadelo, Jennifer  acordou a tremer. No conseguiu voltar a adormecer.  Os ataques comearam.
Os funcionrios federais e locais entraram em aco em doze estados diferentes e em pases estrangeiros, e tudo foi planeado para ser executado  simultaneamente.
 Em Ohio, foi preso um senador quando descursava, num clube feminista, sobre a honestidade do governo.  Em Nova Orlees, foi desmantelada uma rede de apostas ilegais
que operava por todo o pas.  Em Amsterdo, foi descoberta uma rede de contrabando de di amantes.  Um director bancrio de Gary, em Indiana, foi preso por desviar
dinheiros da Organizao.  Em Kansas City, foi fechada uma enorme casa de penhores cheia de mercadorias roubadas.  Em Phoenix, no Arizona, foram presos alguns detectives
da brigada de costumes.  Em Npoles, foi desmantelada uma rede nacional de ladres de  automveis.  Na impossibilidade de encontrar Jennifer pelo telefone, Adam
Warner foi ao escritrio dela.  Cynthia reconheceu-o imediatamente.
 - Tenho muita pena, Senador Warner, mas Miss Parker encontra-se no estrangeiro.
 - Onde est ela?
 - No Hotel Shangri-La, em Singapura.
 Adam sentiu-se mais animado. Podia telefonar-lhe e  aconselh-la a no regressar.  A governanta do hotel entrou no momento em que Jennifer saa do duche.
 - Desculpe. A que horas se vai hoje embora?
 - No me vou embora hoje. S saio amanh.
 A governanta ficou perplexa.
 - Disseram-me que preparasse esta suite para um grupo que chega esta noite.
 - Quem lhe mandou fazer isso?
 - O gerente.
 No rs-do-cho, um telefonema transcontinental chegava  central telefnica. Havia outra telefonista de servio e, junto dela, encontrava-se tambm outro homem.
 A telefonista falou para o bocal.
 - Cidade de Nova Iorque para Miss Jennifer Parker?
 Olhou para o homem ao seu lado. Ele abanou a cabea.
 - Lamento. Miss Parker j no est no hotel.
 As rusgas continuavam por toda a parte. Foram feitas prises  nas Honduras, em So Salvador, na Turquia e no Mxico. A rede  apanhou negociantes, assassinos, assaltantes
de bancos e incendirios. Houve represlias em Fort Lauderdale, Atlantic City e Palm Springs.  E continuaram.  Em Nova Iorque, Robert Di Silva seguia de perto os
progressos que iam sendo feitos. O corao batia-lhe mais depressa quando pensava na rede que se apertava em torno de Jennifer Parker e de Michael Moretti.  Michael
Moretti escapou por mero acaso  rede da polcia. Era o aniversrio da morte do sogro, e Michael e Rosa tinham ido ao cemitrio prestar homenagem ao pai dela.
Cinco minutos depois de terem sado, um carro cheio de agentes do FBI chegou a casa de Michael Moretti, e um outro ao seu escritrio. Quando souberam que ele no
se encontrava em nenhum dos lados, os agentes puseram-se  espera. Jennifer lembrou-se de que se esquecera de reservar a passagem area de Stefan Bjork para os
Estados Unidos. Telefonou para a Singapure Airlines.
 - Fala Jennifer Parker. Tenho uma reserva no vosso Vo Um-Doze de amanh  tarde para Londres. Quero fazer mais uma reserva.
- Obrigado. Importa-se de aguardar um momento, por favor?
 Jennifer ficou  espera e, passados alguns minutos, a voz soou novamente atravs do fio.
 - Disse Parker? P-A-R-K-E-R?
 - Sim.
 - A sua reserva foi cancelada, Miss Parker.
 Jennifer teve um ligeiro sobressalto.
 - Cancelada? Por quem?
 - No sei. O seu nome foi retirado da nossa lista de passageiros.
 - Deve ter havido algum engano. Gostaria que voltasse a incluir-me nessa lista.
 - Tenho muita pena, Miss Parker. O Voo Um-Doze est completo.
Jennifer achou que o Inspector Touh era a pessoa indicada para esclarecer tudo. Tinha aceite um convite dele para jantar. Iria descobrir o que estava a acontecer.
 Ele foi busc-la cedo.  Jennifer contou ao inspector a confuso gerada no hotel e o problema com as passagens areas.  Ele encolheu os ombros.
 -  a nossa famosa ineficcia. Verei o que se passa.
 - E Stefan Bjork?
 - Est tudo em ordem. Vai ser solto amanh de manh.
 O Inspector Touh falou em chins ao motorista e o carro deu meia volta.
 - Ainda no viu Kallang Road. Vai ach-la muito  interessante.
 O carro cortou  esquerda para Lavender Street e, um  quarteiro adiante, voltou  direita para Kallang Bahru. Havia enormes letreiros anunciando floristas e agncias
funerrias. Percorridos mais alguns quarteires, o carro fez novo desvio.
 - Onde estamos?
O Inspector Touh voltou-se para Jennifer e, com muita calma, respondeu:
 - Estamos na Rua sem Nome.
 O carro comeou a avanar muito lentamente. De ambos os lados da rua viam-se apenas agncias funerrias, umas a  seguir s outras; Tan Kee Seng, Clin Noh, Ang
Yung Long, Goh Soon.  frente deles decorria um funeral. Todos os acompanhantes estavam vestidos de branco, e havia um trio que tocava: uma tuba, um saxofone e
tambor. Sobre uma mesa rodeada de coroas de flores encontrava-se um cadver e, num cavalete em frente, via-se uma enorme fotografia do morto. Os acompanhantes estavam
sentados em volta, a comer.  Jennifer virou-se para o inspector.
 - O que  isto?
 - So as casas da morte. Os nativos chamam-lhe die houses.
Tm dificuldade em pronunciar a palavra morte. Olhou para Jennifer e acrescentou: - Mas a morte  apenas uma parte da vida, no  verdade?
 Jennifer fitou-lhe os olhos glaciais e sentiu um receio  sbito.  Foram para o Grand Phoenix, e s quando se sentaram  que Jennifer teve oportunidade de o interrogar.
 - Inspector Touh, teve algum motivo para me levar ao viveiro de crocodilos e s casas da morte?
 -  claro que sim - declarou ele, fitando-a. - Pensei que pudessem interessar-lhe. Especialmente porque veio c para libertar o seu cliente, Mr. Bjork. Muitos
dos nossos  jovens morrem por causa das drogas que so trazidas para o nosso pas, Miss Parker. Eu podia t-la levado ao hospital onde tentamos salv-los, mas pensei
que talvez ficasse melhor informada se visse o lugar onde eles acabam.
 - Isso nada tem a ver comigo.
 - Depende do ponto de vista. - A voz dele perdera toda a cordialidade.
 - Olhe, Inspector Touh - disse Jennifer -, tenho a certeza  de que est a ser bem pago para. . .
 - No h dinheiro que chegue para me comprar.
 Levantou-se, acenou para algum e Jennifer voltou-se.
Dois homens vestidos de cinzento aproximavam-se da mesa.
 - Miss Jennifer Parker?
 - Sim.
No precisaram de mostrar os cartes do FBI. Ela adivinhou-o  antes de eles falarem.
 - FBI. Temos uma ordem de extradio e um mandato de captura contra si. Vamos lev-la para Nova Iorque no avio da meia-noite.
Quando Michael Moretti deixou o tmulo do sogro, estava j atrasado para um encontro. Resolveu telefonar para o  escritrio e combin-lo para outro dia. Parou numa
cabina  telefnica  beira da estrada e marcou o nmero. O telefone  tocou uma vez e em seguida ouviu-se uma voz.
 - Construtora Acme.
 - Fala Mike - anunciou Michael. - Diz. . .
 - Mr. Moretti no est. Telefone mais tarde.
 Michael sentiu que o seu corpo ficava tenso.
 - Tony's Place - disse apenas.
 Desligou e voltou a toda a pressa para o carro. Rosa olhou para ele e perguntou:
 - Est tudo bem, Michael?
 - No sei. Vou deixar-te em casa da tua prima. Fica l at teres notcias minhas.
 Tony acompanhou Michael ao escritrio situado nas traseiras  do restaurante.  Ouvi dizer que os Feds esto em tua casa e no escritrio da cidade, Mike.
 - Obrigado pela informao - respondeu Michael. No quero  ser incomodado.
 - Com certeza.
 Michael esperou que Tony abandonasse a sala e fechasse a porta. Ento pegou no telefone e, com um ar furioso, comeou  a marcar um nmero.  Michael Moretti levou
menos de vinte minutos a saber que estava a acontecer uma grande calamidade. Quando as notcias  das rusgas e das prises comearam a surgir, Michael recebeu-as
com uma incredulidade cada vez maior. Todos os seus soldados e lugares-tenentes estavam a ser apanhados. Os contrabandistas estavam a ser atacados; as operaes
de jogo estavam a ser descobertas; os livros e os registos  confidenciais estavam a ser confiscados. O que estava a  acontecer era um pesadelo. A polcia devia
estar a obter informaes de algum ligado  Organizao.
 Michael telefonou a outras Famlias de todo o pas, e todas elas exigiram saber o que se passava. Estavam a ser  terrivelmente prejudicadas e ningum sabia de
onde vinha a  fuga de informaes. Todas elas suspeitavam que tinha origem na Famlia Moretti.  Jimmy Guardino, de Las Vegas, fez-lhe um ultimato.
 - Estou a telefonar em nome da Comisso, Michael. - A Comisso Nacional era a autoridade suprema que substitua o poder de qualquer Famlia individual quando surgiam
 problemas. - A polcia anda a prender todas as Famlias.  Algum muito importante deu com a lngua nos dentes. Constou-nos que foi um dos teus rapazes. Damos-te
vinte e quatro horas para o descobrires e tratares dele.  At quele momento, as batidas policiais tinham apanhado sempre os insignificantes, os explorados. Agora,
pela primeira vez, eram os cabecilhas que estavam a ser presos.  Algum muito importante deu com a lngua nos dentes.  Constou-nos que foi um dos teus rapazes."
Deviam ter razo. A Famlia de Michael fora a mais atingida, e a polcia  procurava-o. Algum lhes devia ter fornecido provas  concretas, caso contrrio nunca teriam
iniciado uma campanha destas. Mas quem poderia ser? Michael recostou-se na cadeira, a meditar.  Quem quer que fosse que estivesse a informar as autoridades,  encontrava-se
a par de coisas conhecidas apenas por Michael e pelos seus dois mais importantes auxiliares,  Salvatore Fiore e Joseph Colella. S os trs sabiam onde  estavam
escondidos os registos, e o FBI tinha-os descoberto. A outra nica pessoa que poderia ter dado a informao era Thomas Colfax, mas Colfax estava enterrado numa
lixeira em New Jersey.   Michael continuava sentado, pensando em Salvatore Fiore e em Joseph Colella. Tinha dificuldade em acreditar que algum  deles pudesse ter
quebrado a omert e falado. Estavam com ele desde o incio; tinha-os escolhido a dedo. Permitira-lhes que tivessem o seu negcio particular de usura e que dirigissem
uma pequena rede de prostituio. Por que motivo o teriam trado? A resposta era simples: o lugar que ocupava. Queriam o lugar dele. Se o afastassem, poderiam tomar
conta do imprio. Os dois formavam uma equipa; deviam estar ambos metidos nisto.  Apoderou-se de Michael uma fria sanguinria. Aqueles filhos da me estavam a
tentar destru-lo, mas no iam chegar a ter esse prazer. A primeira coisa a fazer era conseguir a fiana dos seus homens que tinham sido presos. Precisava de um
advogado de confiana - Colfax estava morto, e Jennifer
- Jennifer! Michael sentiu o desprezo invadir-lhe de novo o corao. Recordou as palavras que lhe dissera: Volta assim que puderes. Vou sentir a tua falta. Amo-te,
Jennifer. "
Tinha-Lhe dito aquilo e ela trara-o. Mas ela havia de pagar  por isso.  Michael fez um telefonema e, em seguida, recostou-se na cadeira,  espera. Passados quinze
minutos, Nick Vito entrou precipitadamente no escritrio.
 - O que se passa? - perguntou Michael.
 - Aquilo continua cheio de Feds, Mike. Dei vrias voltas ao quarteiro, mas fiz como disseste. Conservei-me afastado.
 - Tenho um trabalho para ti, Nick.
 - Com certeza, chefe. Em que posso ser-lhe til?
 - Trata de Salvatore e de Joe.  Nick Vito arregalou os olhos.
 - N-no compreendo. Quando diz trata deles?,, no se refere a...
 - Quero que Lhes estoires os miolos! - gritou Michael.
- Precisas de um plano?
 - N-no - gaguejou Nick Vito. -  q-que. . . Sal e Joe so os seus homens mais importantes!
 Michael Moretti ps-se de p, com uma expresso perigosa no olhar.
 - Ests a querer dizer-me o que devo fazer?
 - No, Mike. Eu...  claro. Eu trato deles. Quando... ?
 - Agora. Imediatamente. No quero que cheguem a ver a Lua esta noite. Compreendes?
 - S im. Compreendo.
 Michael apertou os punhos.
 - Se tivesse tempo, eu prprio me encarregava deles. Quero que sofram, Nick. Faz as coisas devagar, ests a ouvir?  Suppilu suppilu.
 - Com certeza.
 A porta abriu-se e Tony entrou a toda a pressa, com o rosto cor de cinza.
- Esto l fora dois agentes do FBI com um mandato de captura em teu nome. Juro que no sei como souberam que te encontravas aqui. Eles. . .  Michael Moretti virou-se
para Nick Vito e ordenou-lhe bruscamente:
 - Sai pelas traseiras. Depressa! - Em seguida voltou-se , para Tony. - Diz-lhes que estou na casa de banho. J vou  ter com eles.
 Michael pegou no telefone e marcou um nmero. Passado um minuto, estava a falar com o juiz do Supremo Tribunal de Nova Iorque.
 - Esto l fora dois Feds com um mandato de captura em meu nome.
 - Quais so as acusaes, Mike?
 - No sei, nem me interessa. Estou a telefonar-Lhe para que faa que eu seja posto em liberdade condicional. No posso ficar na cadeia. Tenho muito que fazer.
 O juiz ficou silencioso e por fim declarou, medindo bem as palavras:
 - Creio que desta vez no o poderei ajudar, Michael. Est tudo efervescente e, se eu tentar interferir. . .
 Quando Michael Moretti voltou a falar, havia um tom ameaador na sua voz.
 - Escute, seu filho da puta, mas escute bem. Se eu passar uma hora que seja na cadeia, farei com que voc fique atrs das grades para o resto da sua vida. Ando
a vigi-lo h muito tempo. Quer que conte ao P.D. quantas vezes trabalhou para mim? Quer que d ao IRS t o nmero da sua conta bancria na Sua? Quer. . .
 - Pelo amor de Deus, Michael !
 - Ento despache-se!
 - Vou ver o que posso fazer - disse o Juiz Lawrence Waldman. - Vou tentar. . .
 - No tente! Faa-o! Est a ouvir-me, Lany? Faa-o! Michael  pousou o auscultador com violncia.
 O seu pensamento trabalhava rpida e friamente. No o preocupava o facto de ir para a cadeia. Sabia que o Juiz Waldman faria o que ele lhe tinha mandado e confiava
em Nick Vito para tratar de Fiore e de Colella. Sem o testemunho de ambos, o governo no poderia provar nada contra ele.  Michael contemplou-se ao pequeno espelho
pendurado na parede, penteou o cabelo para trs, endireitou a gravata e  foi ao encontro dos dois agentes do F.B.I.
 O Juiz Lawrence Waldman tratou de tudo, tal como Michael sabia que iria acontecer. Na audincia preliminar, um  advogado escolhido pelo Juiz Waldman requereu a
fiana, que  foi
estabelecida em quinhentos mil dlares.  Di Silva deixou-se ficar imvel, furioso e desiludido,  enquanto Michael Moretti abandonava a sala de audincias. Nick
Vito era um homem de inteligncia limitada. Era  precioso para a Organizao porque cumpria as ordens sem  protestar e as executava com eficincia. Nick Vito  defrontara-se
dzias de vezes com pistolas e com facas, mas nunca tinha conhecido o medo. Conhecia-o agora. Estava a passar-se algo que no conseguia entender e tinha o pressentimento
de que, de certo modo, o responsvel era ele.  Durante todo o dia ouvira falar dos ataques que estavam a efectuar-se, das numerosas prises que estavam a ser feitas.
Dizia-se que andava um traidor  solta, algum muito  importante ligado  Organizao. Apesar da sua inteligncia  limitada, Nick Vito era capaz de relacionar o
facto de ter  deixado viver Thomas Colfax e que, pouco depois, algum comeara a denunciar a Famlia s autoridades. Nick Vito sabia que no podia tratar-se nem
de Salvatore Fiore nem de Joseph Colella. Considerava os dois homens como seus irmos e sabia que, tal como ele, ambos dedicavam a Michael Moretti uma profunda
lealdade. Mas no tinha a menor possibilidade de conseguir explicar isso a Michael Moretti sem que este o liquidasse  dado que o outro nico responsvel s poderia
ser Thomas Colfax, e Michael estava convencido de que Colfax morrera.  Nick Vito estava entre a espada e a parede. Gostava do Florzinha e do gigante. Fiore e Colella
tinham-lhe prestado
dzias de favores, tal como Thomas Colfax; no entanto, ele  ajudara Colfax num momento difcil e isso no lhe tinha  trazido nada de bom. Por fim, Nick Vito decidiu
que no iria deixar-se enternecer novamente. Agora precisava de proteger a sua prpria vida. Depois de matar Fiore e Colella, pr-se-ia ao fresco. Mas como os considerava
como irmos, ia fazer com que morressem depressa.  Nick Vito teve facilidade em descobrir o paradeiro deles, pois tinham de estar sempre disponveis para o caso
de  Michael precisar deles. O pequeno Salvatore Fiore encontrava-se no apartamento da amante, na Rua Oitenta e Trs, perto do Museu de Histria Natural. Nick sabia
que Salvatore saa sempre de l s cinco horas de regresso a casa, para junto da mulher. Eram ainda trs horas. Nick lutava consigo mesmo. Podia ficar a rondar
o edifcio de apartamentos, ou subir e apanhar Salvatore l dentro. Achou que estava demasiado nervoso para aguardar. O facto de estar nervoso fez Nick Vito
enervar-se ainda mais. Os acontecimentos comeavam a  perturb-lo. Pensou: Quando tudo terminar, vou pedir umas  frias a Michael. Talvez arranje umas pequenas
e v para as Baamas." Este pensamento f-lo sentir-se melhor.  Nick Vito estacionou o carro  esquina do prdio de  apartamentos e dirigiu-se para o edifcio. Abriu
a porta da  frente com um bocado de celulide, ignorou o elevador e subiu as escadas at ao terceiro andar. Aproximou-se da porta ao fundo do corredor e, quando
chegou junto dela, bateu com violncia.
 - Abram ! Polcia !
 Ouviu rudos apressados no interior e, poucos momentos depois, a porta entreabriu-se presa com uma forte corrente, e ele viu parte do corpo nu de Marina, a amante
de Salvatore Fiore.
 - Nick! - exclamou ela. - Grande idiota! Pregaste-me um destes sustos!
 Retirou a corrente da porta e abriu-a.
 - Sal,  Nick !
 O pequeno Salvatore Fiore saiu do quarto completamente despido.
 - Ol, Nick! Que raio ests aqui a fazer?
 - Sal, trago um recado de Mike para ti.
 Nick Vito ergueu uma pistola automtica.22 com silenciador e  premiu o gatilho. O percutor bateu no cartucho de calibre.22,  e a bala saiu pela boca da arma a
uma velocidade de mil ps por segundo. A primeira bala esmigalhou a cana do nariz de Salvatore Fiore. A segunda bala arrancou-lhe o olho esquerdo. Quando Marina
abriu a boca para gritar, Nick Vito voltou-se e meteu-lhe uma bala na cabea. Quando ela caiu no cho, disparou-lhe ainda outra bala para o peito,  cautela. 
uma pena, mas Mike no gostaria que eu deixasse ficar testemunhas?,, pensou Nick. Um dos cavalos do grande Joseph Colella ia competir na oitava corrida de Belmont
Park, em Long Island. Belmont era uma pista de milha e meia, a distncia ideal para o potro apresentado pelo gigante. Este tinha aconselhado Nick a  apostar nele.
Outrora Nick ganhara muito dinheiro com os  palpites de Colella. Colella punha sempre algum dinheiro por Nick q?ando os seus cavalos corriam. Enquanto se encaminhavam
para a box t de Colella, Nick Vito ia pensando, amargurado, que nunca mais haveria palpites. A oitava corrida tinha  comeado. Colella estava de p na sua box,
encorajando o  cavalo. Era uma corrida muito importante e a multido gritava,  fazendo um enorme alarido quando os cavalos entraram na  primeira curva.  Nick Vito
penetrou na box, sem que Colella desse por isso, e perguntou:
 - Como ests, amigo?
 - Eh, Nick! Chegas mesmo a tempo. O Beauty Queen vai ganhar. Vou fazer uma apostazinha por ti.
 Nick Vito encostou a pistola de calibre.22 s costas de Joseph Colella e disparou trs vezes. O rudo abafado passou despercebido por entre os aplausos da multido.
Nick viu  Joseph Colella tombar pesadamente no solo. Durante uns breves momentos, ficou sem saber se havia de tirar os bilhetes  parimutuel z do bolso de Colella,
mas depois decidiu no o  fazer. Afinal de contas, o cavalo podia perder.  Nick Vito deu meia volta e, com toda a calma, encaminhou-se  para a sada, uma figura
annima entre milhares.  O telefone particular de Michael tocou:
 - Mr. Moretti?
 - Quem deseja falar com ele?
 - Sou o Comandante Tanner.
 Michael identificou de imediato o nome. Um comandante da polcia. Esquadra de Queens. Inscrito na folha de  pagamentos.
 - Fala Moretti.
 - Acabo de receber uma informao que julgo poder interess-lo.
 - De onde est a telefonar?
 - De uma cabina pblica.
 - Continue.
 - Descobri de onde partiu tudo isto.
 - Chega tarde de mais. J foram liquidados.
 -Foram? Ah, eu s ouvi falar de Thomas Colfax.
 - No compreendo ao que se refere. Colfax est morto.  Foi a vez de o Comandante Tanner ficar confundido.
 - O que est o senhor a dizer. Neste momento, Thomas Colfax encontra-se na Base Naval de Quantico, falando para quem o quiser ouvir.
 - Voc est doido - atalhou Michael. - Acontece que sei. . . - Fez uma pausa. Afinal, o que sabia ele? Tinha dito a Nick Vito que matasse Thomas Colfax, e Vito
dissera que o tinha feito. Michael meditou um pouco. - Tem a certeza do que diz, Tanner?
 - Mr. Moretti, acha que lhe telefonava se no tivesse a certeza?
 - Vou investigar. Se tiver razo fico-lhe muito grato.
 - Obrigado, Mr. Moretti.
 O Comandante Tanner pousou o auscultador, satisfeito consigo mesmo. Descobrira h muito tempo que Michael Moretti era um homem que sabia agradecer. Esta poderia
ser a sua grande oportunidade, a oportunidade que lhe permitiria reformar-se. Saiu da cabina telefnica para a aragem fresca  de Outubro.  No exterior da cabina
encontravam-se dois homens e, quando o comandante fez meno de dar um passo para se desviar, um deles impediu-lhe a passagem. Mostrou um carto  de identificao.
 - Comandante Tanner? Sou o Tenente West, da Diviso de Segurana Internacional. O Comissrio da Polcia gostava de falar consigo.
 Michael Moretti pousou lentamente o auscultador. Sabia, por instinto natural, que Nick Vito lhe tinha mentido. Thomas Colfax continuava vivo. Isso explicava tudo
o que estava a acontecer. Era ele o traidor. E Michael ordenara a Nick Vito que matasse Fiore e Colella. Santo Deus, como fora estpido! Levado por um estpido
pistoleiro mercenrio a desfazer-se dos seus dois homens principais! Sentiu-se dominar por uma raiva surda.  Marcou um nmero e falou rapidamente ao telefone. Aps
ter feito um segundo telefonema, recostou-se na cadeira e  ficou  espera.  Quando ouviu a voz de Nick Vito atravs do fio, Michael esforou-se para que a sua voz
no demonstrasse a fria que o possua.
 - Como correram as coisas, Nick?
 -Muito bem, chefe. Foi como disse. Sofreram ambos bastante.
 - Posso contar sempre contigo, no  verdade, Nick?
 - Sabe bem que sim, chefe.
 - Nick, quero que me prestes um ltimo favor. Um dos rapazes deixou um carro na esquina de York com a rua Noventa  e Cinco.  um Camaro castanho. As chaves esto
por trs da pala do pra-brisas. Vamos utiliz-lo esta noite para um trabalho. Tr-lo para aqui, est bem?
 - Com certeza, chefe. A que horas precisa dele? Eu ia. . .
 - Preciso dele agora. Imediatamente, Nick.
 - Vou j a caminho.
 - Adeus, Nick.
 Michael desligou. Desejava poder ver Nick Vito ir pelos ares, mas tinha algo mais urgente para fazer.  Jennifer Parker ia regressar em breve, e queria preparar
tudo para ela.
 como uma produo cinematogrfica de Hollywood, em que o meu prisioneiro  o actor principal", pensou o General Roy Wallace.  A vasta sala de conferncias da
base dos Fuzileiros dos Estados Unidos estava repleta de tcnicos militares de  transmisses que corriam de um lado para o outro, montando  cmaras e equipamentos
de som e de luz, e empregando um calo incompreensvel.
 - Mata o animal e acerta as tintas. Traz para aqui um beb. . .
 Estavam a preparar-se para filmar o depoimento de Thomas Colfax.
 -  uma medida suplementar de segurana - argumentara o Procurador Distrital Di Silva. - Sabemos que ningum pode aproximar-se dele mas, de qualquer forma,  melhor
registarmos tudo. - E os outros tinham concordado.  A nica pessoa ausente era Thomas Colfax. Seria trazido  ltima hora, quando tudo estivesse j pronto.  Tal
como um maldito actor de cinema.,.  Thomas Colfax encontrava-se na sua cela, reunido com David Terry, do Departamento de Justia, e que era o homem encarregado
de criar novas identidades para as testemunhas que desejavam desaparecer.
 - Vou dar-lhe alguns pormenores a respeito do Programa de Segurana das Testemunhas pelo Estado - dizia Terry.
Quando o julgamento terminar, envi-lo-emos para o pas que escolher. A sua moblia e outros bens sero despachados para um armazm em Washington, com um nmero
em cdigo. Mais tarde, receber tudo. Ningum poder seguir o seu rasto.  Fornecer-lhe-emos uma identidade e um passado novos e, se quiser, uma nova aparncia.
 - Eu trato disso. - No queria que ningum soubesse o que tencionava fazer da sua aparncia.
- De uma maneira geral, quando fornecemos s pessoas uma nova identidade, arranjamos-lhe empregos no campo de actividade a que melhor se adaptam, e entregamos-lhe
algum dinheiro. No seu caso, Mr. Colfax, creio que o dinheiro no constitui problema.  Thomas Colfax perguntava a si prprio o que diria David Terry se soubesse
quanto dinheiro estava economizado nas suas contas bancrias da Alemanha, da Sua e de Hong Kong. O prprio Thomas Colfax no conseguia saber ao certo quanto possua
mas, numa estimativa muito modesta, calculava  que devia andar perto de nove ou dez milhes de dlares.
 - No - confirmou Colfax. - No me parece que o dinheiro  constitua um problema.
 - Ento, muito bem. A primeira coisa a decidir  o lugar para onde gostaria de ir. Tem algo especial em vista?  Embora fosse uma pergunta to simples, tinha muito
que se lhe dissesse. O que o tipo queria na verdade perguntar era: Onde  que deseja passar o resto da sua vida?., Pois Colfax sabia que, assim que chegasse ao
seu destino, nunca mais poderia sair de l. Seria o seu novo habitat, a sua capa protectora, e no estaria em segurana em nenhuma outra parte  do mundo.
 - O Brasil.
 Era a escolha lgica. J possua l uma plantao de duzentos mil acres, registada em nome de uma companhia panamiana, e onde no poderia ser descoberto. A plantao
era como uma fortaleza. Dispunha de meios para comprar uma proteco tal que, mesmo que Michael Moretti acabasse por  descobrir onde ele se encontrava, ningum
poderia tocar-lhe. Podia comprar tudo, incluindo todas as mulheres que quisesse. Thomas Colfax gostava das mulheres latinas. As pessoas pensavam que quando um homem
atingia os sessenta e  cinco anos de idade estava sexualmente acabado, que deixava de ter interesse, mas Colfax descobrira que o seu desejo ia aumentando  medida
que envelhecia. O seu  passatempo favorito era estar na cama juntamente com duas ou trs beldades que o fossem excitando. Quanto mais jovens melhor.
 - Ser fcil mand-lo para o Brasil - dizia David Terry.
- O nosso governo compra-lhe l uma casinha, e...
 - No  necessrio. - Colfax quase deu uma gargalhada pela ideia de ter de viver numa casinha. - Tudo o que lhe peo  que me arranje a nova identificao e um
transporte seguro. Eu trato do resto.
 - Como quiser, Mr. Colfax. - David Terry ps-se de p.
- Parece-me que falmos de tudo. - Fez um sorriso  tranquilizador. - Isto vai ser extremamente fcil. Vou  comear a dar andamento ao processo. Assim que acabar
de depor, tomar  um avio para a Amrica do Sul.
 - Obrigado. - Thomas Colfax viu sair o visitante e sentiu-se  invadido por um enorme jbilo. Tinha conseguido!
Michael Moretti cometera o erro de o subestimar, mas ia ser o ltimo erro de Moretti. Colfax ia enterr-lo to fundo que nunca mais conseguiria levantar-se.  E
o seu depoimento ia ser filmado. Seria interessante.  Perguntou a si prprio se iriam maquilh-lo. Observou-se ao pequeno espelho na parede. No estou mal para
um homem da minha idade,?, pensou. Ainda tenho bom aspecto. As  raparigas sul-americanas adoram homens mais velhos, com cabelo grisalho.   Sentiu que a porta da
cela se abria e voltou-se. Era um sargento com o almoo de Colfax. Teria muito tempo para comer antes do incio da filmagem.  No primeiro dia, Thomas Colfax queixara-se
da comida que lhe serviam e, desde ento, o General Wallace fizera com que todas as refeies de Colfax fossem melhores. Durante as semanas em que Colfax tinha
estado preso no forte, a mais leve sugesto da sua parte era uma ordem para eles. Queriam fazer tudo para lhe agradar, e Colfax aproveitava-se disso. Mandara vir
boas moblias e um aparelho de televiso, e  recebia um fornecimento dirio de jornais e de revistas.  O sargento colocou o tabuleiro do almoo em cima de uma mesa
posta para duas pessoas e fez o mesmo comentrio de todos os dias.
 - A comida tem bom aspecto, senhor.
 Colfax esboou um sorriso delicado e sentou-se  mesa. Rosbife mal passado, tal como ele gostava, pur de batata e pudim Yorkshire. Esperou que o fuzileiro trouxesse
uma  cadeira e se sentasse em frente dele. O sargento pegou numa faca e num garfo, cortou um bocado de carne e comeou a comer. Fora outra das ideias do General
Wallace. Thomas Colfax tinha o seu provador privativo. Como os reis de  antigamente?,, pensou ele. Viu o fuzileiro provar o rosbife,  o pur  e o pudim Yorkshire.
 - Como est?
 - Para dizer a verdade, senhor, prefiro o bife bem passado.
 Colfax pegou na faca e no garfo e comeou a comer. O  sargento estava enganado. A carne estava excelente, o pur  cremoso e quente e o pudim Yorkshire muito bem
 confeccionado.
 Colfax estendeu a mo para o molho picante e espalhou-o  ao de leve sobre a carne. Foi ao dar a segunda dentada que  Colfax percebeu que algo estava terrivelmente
errado. Teve  uma sbita sensao de queimadura na boca, que pareceu ; propagar-se a todo o corpo. Era como se todo ele estivesse  a  arder. A garganta cerrava-se-lhe,
paralisada, e ele comeou a  ofegar. O sargento continuava sentado  sua frente,  contemplando-o. Thomas Colfax levou as mos  garganta e  tentou  dizer ao sargento
o que estava a passar-se, mas as palavras  no saram. O fogo que sentia nas entranhas espalhava-se  agora mais depressa, provocando-lhe um sofrimento  insuportvel.
O corpo retesou-se-lhe num espasmo terrvel, e  tombou  de costas no cho.  O sargento olhou-o durante alguns momentos, em seguida  debruou-se para o corpo e levantou
a plpebra de Thomas  Colfax, para se certificar de que estava morto.  S ento chamou por socorro. O Voo 246 das Singapore Airlines aterrou no Aeroporto de Heathrow,
em Londres, s sete e meia da manh. Os outros passageiros ficaram retidos nos seus lugares at Jennifer e  os dois agentes do FBI abandonarem o avio para se dirigirem
 sala de segurana do aeroporto.  Jennifer desejava ardentemente ler um jornal, para descobrir  o que se estava a passar nos Estados Unidos, mas os seus dois silenciosos
acompanhantes ignoraram o pedido dela e recusaram-se a entabular conversa.  Duas horas mais tarde, os trs embarcaram num avio
TWA com destino a Nova Iorque.  No palcio da Justia dos Estados Unidos, em Foley Square,  estava a decorrer uma reunio de emergncia. Encontravam-se  presentes
Adam Warner, Robert Di Silva, o General Roy Wallace e diversos representantes do FBI, do Departamento  da Justia e do Departamento do Tesouro.
 - Como diabo ter acontecido isto? - A voz de Robert
Di Silva tremia de raiva. Voltou-se para o general: - O  senhor sabia que Thomas Colfax era muito importante para ns.   O general estendeu as mos num gesto de
impotncia.
 - Tommos todas as precaues possveis, senhor. Estamos  agora a investigar como  que tero conseguido meter cido prssico no. . .
 - Estou-me nas tintas para o modo como o fizeram! Colfax  est morto!
 O representante do Departamento do Tesouro tomou a palavra:
 - At que ponto a morte de Colfax nos poder prejudicar?
 - Pode prejudicar-nos muito - replicou Di Silva. - Uma
coisa  levar um homem ao banco das testemunhas. Apresentar uma srie de registos e de facturas  algo completamente diferente. Aposto que vai aparecer um advogado
esperto a dizer que aqueles livros podem ter sido viciados.
- O que vamos fazer agora? - perguntou um dos funcionrios do  Departamento do Tesouro.
 - Vamos para a frente com o processo - replicou o Procurador  Distrital. - Jennifer Parker est a chegar de Singapura.
Temos provas suficientes para a afastarmos para sempre. Enquanto ela se afunda, vamos fazer com que ela prpria ajude a afundar Michael Moretti. - E voltando-se
para Adam:
- No concorda, Senador?
 Adam sentiu-se mal.
 - Desculpem-me.
 Abandonou precipitadamente a sala.
 O sinalizador de placa, usando uns auscultadores  descomunais, agitava os dois semforos, guiando o Jumbo 747  para a rampa de estacionamento. O avio deteve-se
na zona que lhe
estava destinada e, a um sinal, o piloto desligou os quatro reactores Pratt & Whitney.  No interior do gigantesco avio, a voz de uma hospedeira fez-se ouvir atravs
do altifalante:
 - Senhoras e senhores, acabmos de aterrar no Aeroporto Kennedy, em Nova Iorque. A TWA agradece a vossa preferncia.
Pedimos a todos os passageiros que se conservem sentados at  novo aviso. Obrigada.
 Ouviram-se murmrios de protesto geral. Passado um momento, o pessoal de terra abriu as portas. Os dois agentes do FBI, sentados com Jennifer na frente do avio,
puseram-se de p.  Um deles voltou-se para Jennifer e disse:
 - Vamos.
 Os passageiros contemplaram com ar curioso as trs pessoas  que abandonavam o avio. Minutos depois, a voz da hospedeira soou de novo atravs do altifalante.
 - Obrigada pela vossa compreenso, senhoras e senhores. Podem desembarcar agora.
 Uma limusina do governo aguardava  entrada do aeroporto. A  primeira paragem foi no Centro Correccional Metropolitano, no  Nmero 150 de Park Row, que comunicava
com o Palcio da Justia dos Estados Unidos, em Foley Square.  Depois de Jennifer ter sido registada, um dos homens do F.B.I. disse-lhe:
 - Desculpe, mas no podemos deix-la aqui. Temos ordens para  a conduzirmos para Riker's Island.
 A viagem para Riker's Island foi feita em silncio.  Jennifer, sentada no banco de trs entre os dois homens do  FBI, no dizia nada, mas o seu pensamento trabalhava
intensamente.  Os dois homens tinham sido pouco comunicativos durante toda a travessia do oceano, pelo que Jennifer no conseguia saber at que ponto se encontrava
metida em complicaes. Sabia que o caso era grave, pois no era fcil obter-se uma ordem de extradio.  Nada podia fazer a seu favor enquanto estivesse na cadeia.
A primeira coisa seria tratar da fiana.  Estavam agora a atravessar a ponte de Riker's Island e  Jennifer contemplou a paisagem familiar, uma paisagem que  vira
centenas de vezes quando ia falar com clientes. E agora era ela a prisioneira.  Mas no por muito tempo", pensou Jennifer. Michael vai tirar-me daqui."  Os dois
homens do FBI escoltaram Jennifer at ao edifcio da recepo e um deles entregou ao guarda a ordem de  extradio.
 - Jennifer Parker.
 O guarda leu-a rapidamente.
 - Temos estado  sua espera, Miss Parker. Tem uma reserva na
Cela de Deteno Nmero Trs.
 - Tenho direito a fazer um telefonema.
 O guarda indicou com a cabea o telefone que estava em cima da secretria.
 - Com certeza.
 Jennifer levantou o auscultador, rezando em silncio para que Michael Moretti se encontrasse no escritrio. Comeou a marcar o nmero.  Michael Moretti tinha estado
 espera do telefonema de Jennifer. No conseguira pensar noutra coisa durante as  ltimas vinte e quatro horas. Tinha sido informado no momento em que Jennifer
aterrara em Londres, quando o avio sara de Heathrow e quando ela chegara a Nova Iorque. Estivera sentado  secretria, traando mentalmente o caminho de Jennifer
para Ricker's Island. Imaginara-a a entrar na priso. Iria pedir para fazer um telefonema antes de a meterem na cela. Comunicaria com ele. Era isso mesmo que ele
queria. Tir-la-ia de l numa hora e depois ela viria procur-lo. Michael Moretti ansiava pelo momento em que Jennifer Parker transpusesse a porta.  Jennifer fizera
algo imperdovel. Entregara o seu corpo ao homem que estava a tentar destnz-lo. E que mais Lhe teria  ela dado? Que segredos lhe teria revelado?  Adam Warner era
o pai do filho de Jennifer. Michael tinha agora a certeza disso. Jennifer mentira-lhe desde o  princpio, dissera-lhe que o pai de Joshua estava morto. Bom, foi
uma profecia que em breve se realizar", comentou Michael para si mesmo. Debatia-se com um conflito irnico. Por um lado, possua uma arma poderosa que podia utilizar
para  desacreditar e destruir Adam Warner. Podia fazer chantagem  com Warner, ameaando-o de revelar as suas relaes com Jennifer  mas, se o fizesse, estaria a
expor-se a si prprio. Quando as Famlias soubessem - e sab-lo-iam - que a amiga de Michael era a amante do presidente da Comisso de Inqurito do Senado, Michael
ficaria numa posio ridcula. Nunca mais seria capaz de levantar a cabea nem de comandar os seus homens. Um corno no era a pessoa indicada para um lugar de chefia.
 A ameaa de chantagem era um pau de dois bicos e, por muito tentadora que parecesse, Michael sabia que nunca  ousaria servir-se dela. Teria de destruir de outro
modo os  seus inimigos.  Michael olhou para o pequeno mapa toscamente esboado que tinha em cima da secretria. Era o caminho que Adam Warner ia seguir nessa noite
para o local onde devia assistir a um jantar particular para recolha de fundos. O mapa custara a Michael cinco mil dlares. Mas, a Adam Warner, iria custar a vida.
 O telefone tocou na secretria de Michael e ele estremeceu involuntariamente. Pegou no auscultador e ouviu a voz de  Jennifer no outro lado do fio. Aquela voz
que Lhe tinha  murmurado palavras carinhosas ao ouvido, que lhe tinha  suplicado que a possusse, que. . .
 - Michael. . . ests a ouvir?
 - Estou. Onde te encontras?
 -Trouxeram-me para Ricker's Island. Fui acusada de assassnio. Ainda no estabeleceram a fiana. Quando  podes...?
 - Vou tirar-te imediatamente da. Tem calma. Est bem?
 - Sim, Michael. - Ele percebeu-lhe o alvio na voz.
 - Vou dizer a Gino que te v buscar.
 Passados alguns momentos, Michael estendeu a mo para o telefone e marcou um nmero. Falou durante vrios minutos.
 - No me importa que a fiana seja muito elevada. Quero que ela seja libertada agora.
Pousou o auscultador e premiu um boto instalado na  secretria. Gino Gallo entrou.
 - Jennifer Parker est em Ricker's Island. Deve ser  libertada dentro de uma ou duas horas. Vai busc-la e tr-la  para aqui.
 -  para j, chefe.
 Michael recostou-se na cadeira.
 - Diz-lhe que a partir de hoje, no teremos de nos preocupar  mais com Adam Warner.
 O rosto de Gino Gallo iluminou-se.
 - No?
 - No. Est a dirigir-se para o stio onde devia fazer um discurso, mas no chegar ao seu destino. Vai sofrer um  acidente na ponte de New Canaan.
 Gino Gallo sorriu.
 - Esplndido, chefe!
 Michael fez um gesto em direco  porta.
 - Pe-te a andar!
 O Procurador Distrital Di Silva tentou, utilizando todos os estratagemas ao seu alcance, que a fiana de Jennifer fosse indeferida. Estavam perante William Bennett,
um juiz do Supremo Tribunal de Nova Iorque.
 - Vossa Honra - disse Robert Di Silva -, a arguida  acusada de uma dzia de crimes de felonia. Tivemos de a extraditar de Singapura. Se lhe for concedida a fiana,
 fugir para um lugar onde no haja extradio. Peo a Vossa Honra que recuse a fiana.  John Lester, um antigo juiz que estava a representar  Jennifer, replicou:
 - O Procurador Distrital est a distorcer os factos, Vossa Honra. A minha cliente no fugiu para lado nenhum.  Encontrava-se em Singapura em servio. Se o governo
lhe  tivesse edido para regressar, ela t-lo-ia feito voluntariamente.  uma advogada muito bem conceituada e possui aqui uma vasta clientela. Seria inconcebvel
que fugisse.  Os argumentos continuaram durante mais de trinta minutos.   Por fim, o juiz Bennett declarou:
 - A fiana  concedida no montante de quinhentos mil dlares.
 - Obrigado, Vossa Honra - disse o advogado de Jennifer. -  Pagaremos a fiana.
 Quinze minutos depois, Gino Gallo ajudava Jennifer a  instalar-se no banco de trs de uma limusina Mercedes.
 - No levou muito tempo - comentou ele.
 Jennifer no replicou. Meditava no que estava a acontecer. Tinha estado completamente isolada em Singapura. No fazia a menor ideia do que se tinha passado nos
Estados Unidos, mas estava convencida de que a sua priso no fora um  incidente isolado. No deviam andar apenas atrs dela.  Desejava ardentemente falar com Michael
para descobrir o que estava a suceder. Di Silva devia estar muito seguro de si mesmo para a ter feito regressar com uma acusao de assassnio. Ele...  Gino Gallo
pronunciou duas palavras que despertaram a ateno de Jennifer.  . . . Adam Warner. . .  Jennifer no tinha estado a escut-lo.
 - O que disse?
 - Disse que nunca mais precisamos de nos preocupar com Adam Warner. Mike vai encarregar-se dele.
 Jennifer sentiu que o corao comeava a bater-lhe com violncia no peito.
 - Vai? Quando?
 Gino Gallo retirou a mo do volante para consultar o  relgio.
 - Dentro de quinze minutos. Est tudo planeado para que parea um acidente.
 A boca de Jennifer ficou subitamente seca.
 - Onde. . . - Tinha dificuldade em pronunciar as palavras. -  Onde... onde  que isso vai acontecer?
 - Em New Canaan. Na ponte.
 Estavam a atravessar Queens. Em frente havia um centro comercial com uma farmcia.
 - Gino, pode estacionar em frente daquela farmcia? Preciso  de comprar uma coisa.
 - Com certeza. - Virou o volante com destreza e parou  entrada do centro comercial. - Quer que a ajude?
 - No, no. ...  s um minuto.
 Jennifer saiu do carro e entrou a toda a pressa, com os nervos em franja. Havia uma cabina telefnica ao fundo da loja. Jennifer meteu a mo na carteira. No tinha
dinheiro trocado, a no ser algumas moedas de Singapura. Dirigiu-se rapidamente ao caixa e estendeu-lhe um dlar.
 - Pode arranjar-me troco, por favor? Um pouco enfadado, o  caixa pegou no dinheiro de Jennifer e deu-lhe uma mo-cheia de moedas. Jennifer precipitou-se de novo
para o telefone. Uma mulher gorda tinha pegado no auscultador e marcava um nmero.

 - Tenho uma emergncia - disse Jennifer. - Posso...
 A mulher deu-lhe uma olhadela rpida e continuou a marcar. '
 - Ol, Hazel! - exclamou a mulher. - O meu horscopo estava  certo. Tive um dia pavoroso! Lembras-te dos sapatos que eu ia  comprar ao Delman's? Sabes que venderam
o nico par que me servia?
 Jennifer tocou no brao da mulher e suplicou:
 - Por favor!
 - Procure outro telefone - sibilou a mulher. Voltou-se outra vez para o auscultador. - Lembras-te daqueles que vimos em camura? J l no estavam! Sabes o que
fiz ento?
Disse quele empregado que. . .
 Jennifer fechou os olhos e continuou no mesmo stio,  esquecida de tudo excepto do tormento que a oprimia. Michael no podia matar Adam. Ela tinha de fazer os
possveis para o salvar.  A mulher desligou e voltou-se para Jennifer.
 - Eu devia fazer outra chamada, s para lhe dar uma lio - disse.
 Quando ela se afastou, sorrindo da sua pequena vitria, Jennifer agarrou precipitadamente no telefone. Ligou para o escritrio de Adam.
 - Lamento - respondeu a secretria dele -, mas o Senador  Warner no est. Quer deixar algum recado?
 -  urgente - explicou Jennifer. - Sabe onde poderei encontr-lo?
 - No, no sei. Se quiser...
 Jennifer desligou. Ficou imvel por uns momentos, a pensar,  e depois marcou rapidamente outro nmero. O de Robert Di Silva.
 - Gabinete do Procurador Distrital - disse algum, aps uma espera interminvel.
 - Preciso de falar com Mr. Di Silva. Sou Jennifer Parker.
 - Tenho muita pena. Mr. Di Silva est numa reunio. No pode ser in. . .  - Pea-lhe para atender esta chamada.  uma emergncia.
Depressa! - A voz de Jennifer tremia.
 A secretria de Di Silva hesitou.
 - Um momento.
 Pouco depois, Robert Di Silva estava ao telefone.
 - Sim? - A sua voz era hostil.
 - Oua, mas oua bem - disse Jennifer. - Adam Warner vai ser  assassinado. Vai acontecer daqui a dez ou quinze minutos. Esto a planear faz-lo na ponte de New
Canaan.  E desligou. Nada mais podia fazer. Imaginou o corpo  dilacerado de Adam e estremeceu. Consultou o relgio e rezou em silncio para que Di Silva conseguisse
ajud-lo a tempo.
 Robert Di Silva colocou o auscultador no descanso e olhou para a meia dzia de homens que se encontravam no seu  gabinete.
 - Acabo de receber um telefonema muito estranho.
 - Quem era?
 - Jennifer Parker. Disse que o Senador Warner vai ser assassinado.
 - Porque lhe telefonou ela?
 - Quem sabe?
 - Acha que  verdade?
 - No - respondeu o Procurador Distrital Di Silva.
 Jennifer transps a porta do escritrio e, embora contra a sua vontade, Michael no conseguiu deixar de se sentir  impressionado pela beleza dela. Sentia a mesma
coisa sempre que a via. Aparentemente, era a mulher mais encantadora que tinha conhecido. Todavia, no seu ntimo, era traioeira, fatal. Olhou para os lbios que
tinham beijado Adam Warner e para o corpo que tinha estado nos braos de Adam Warner.
 - Michael estou to contente por te ver - dizia ela,  aproximando-se. - Obrigada por teres tratado de tudo to  depressa.
 - No tem importncia. Tenho estado  tua espera, Jennifer.
- Ela nunca saberia at que ponto estava a ser sincero.
 Jennifer deixou-se cair numa poltrona.
 - Michael, o que se passa? O que aconteceu?
 Ele contemplou-a num misto de admirao. Tinha ajudado a derrubar o seu imprio, e agora estava ali sentada,  perguntando-lhe inocentemente o que se passava!
 - Sabes porque  que me fizeram regressar?
  claro?,, pensou ele. .? para Lhes poderes contar mais coisas." Recordou-se do pequeno canrio amarelo com o pescoo  partido. Muito em breve, Jennifer ia ser
como ele.
 Jennifer contemplou-lhe os olhos negros.
 - Sentes-te bem?
 - Nunca me senti melhor. - Recostou-se na cadeira. Dentro de  alguns minutos vo acabar todos os nossos problemas.
 - O que queres dizer com isso?
 - O Senador Warner vai ter um acidente. Isso far arrefecer  bastante os nimos da comisso. - Consultou o relgio de parede. - Devo estar a receber um telefonema.
 Havia algo de estranho nos modos de Michael, algo de  sinistro. Jennifer teve um sbito pressentimento de perigo.
Compreendeu que tinha de sair dali.
 Levantou-se.
 - Ainda no tive tempo de desfazer as malas. Vou...
 - Senta-te. - O tom gelado da voz de Michael provocou-lhe um  arrepio.
 - Michael. . .
 - Senta-te.
 Deu uma olhadela para a porta. Gino Gallo estava de p, encostado  porta, observando Jennifer com um ar  inexpressivo.
 - No vais a lado nenhum - declarou-lhe Michael.
 - No compre. . .
 - No fales. No digas nem mais uma palavra.
 Ficaram sentados  espera, olhando um para o outro, e o nico som que se ouvia na sala era o pesado tiquetaque do relgio de parede. Jennifer tentou ler nos olhos
de Michael, mas estavam inexpressivos, vazios, no deixando transparecer  nada.
 O sbito retinir do telefone quebrou o silncio da sala.
Michael levantou o auscultador.
 - Est?. . . Tens a certeza?. . . Muito bem. Vem-te embora.
- Pousou o auscultador e ergueu os olhos para Jennifer. A  ponte de New Canaan est cheia de chuis.
 Jennifer sentiu o alvio invadir-lhe o corpo. Tornou-se numa sensao de hilaridade. Michael estava a observ-la e esforou-se por no deixar transparecer as suas
emoes.
 - O que quer isso dizer? - inquiriu ela.
 - Nada - respondeu Michael devagar. - Porque no  l que Adam Warner vai morrer.
As pontes gmeas da Alameda Garden State no vinham no mapa. A Alameda Garden State atravessava o rio Raritan entre  os Amboys, bifurcando-se nas duas pontes, uma
para o norte e a outra em direco ao sul.  A limusina encontrava-se a ocidente de Perth Amboy, e dirigia-se para a ponte sul. Adam Warner ia sentado atrs, com
um homem do servio secreto a seu lado, e dois homens do servio secreto na parte da frente.  O Agente Clay Reddin tinha sido designado h seis meses para guarda-costas
do senador, e conhecia bem Adam Warner.  Considerara-o sempre um homem aberto e acessvel mas, durante todo o dia, o senador estivera singularmente  silencioso
e reservado. Profundamente preocupado", foram as  palavras que acudiram ao esprito do Agente Reddin. No lhe  restavam dvidas de que o Senador Warner ia ser o
futuro  Presidente dos Estados Unidos, e era da responsabilidade de  Reddin velar para que nada lhe acontecesse. Passou em revista as medidas de segurana que tinham
sido tomadas para proteger o senador, e sentiu-se satisfeito por nada poder falhar.  O Agente Reddin olhou de novo para o provvel futuro Presidente e perguntou
a si prprio no que estaria ele a pensar.  Adam Warner meditava na provao por que estava a passar. Di  Silva informara-o de que Jennifer Parker tinha sido presa.
A ideia de ela se encontrar encarcerada como um animal  era um antema para ele. No conseguia esquecer os momentos maravilhosos que tinham partilhado. Tinha amado
Jennifer como nunca amara nenhuma outra mulher.  L  frente, um dos homens do servio secreto estava a dizer:
 - Devemos chegar a Atlantic City  hora prevista, Senhor Presidente.
 Senhor Presidente. Outra vez aquela frase. De acordo com as votaes mais recentes, ele levava uma grande  vantagem. Era o novo heri popular do pas, e Adam sabia
que,  em  grande parte, isso se devia  investigao criminal que ele  dirigira,  investigao que ia destruir Jennifer Parker.  Adam ergueu os olhos e viu que
estavam a aproximar-se  das pontes gmeas. Havia uma estrada secundria pouco antes  da ponte e,  entrada desta, do lado oposto da via, encontrava-se parado um
camio com um atrelado. Quando a  limusina
 se aproximou da ponte, o camio comeou a avanar, de  modo que os dois veculos chegaram  ponte ao mesmo  tempo.  O motorista do servio secreto travou e abrandou
a marcha.
 - Olhem para aquele idiota.
 O rdio de ondas curtas emitiu alguns rudos.
 - Carro Um! Responda, Carro Um!
 O agente que seguia no banco da frente, ao lado do  motorista, pegou no transmissor.
 - Carro Um a responder.
 O enorme camio colocara-se agora a par da limusina, que  comeava a atravessar a ponte. Era um monstro, tapando  completamente a visibilidade do lado esquerdo
do carro. O   motorista da limusina comeou a acelerar para lhe passar   frente, mas o camio aumentou tambm a velocidade.
 - Que raio pensa ele que est a fazer? - resmungou o  motorista.
 - Recebemos um telefonema urgente do gabinete do Pro curador  Distrital. Raposa Um corre perigo! Compreendem?
 Sem fazer sinal, o camio desviou-se para a direita,  atingindo a limusina de lado, impelindo-a de encontro s  guardas  da ponte. Em poucos segundos, os trs
homens do servio  secreto que seguiam no carro tinham puxado das pistolas.
 - Abaixe-se !
 Adam sentiu-se empurrado para o cho, enquanto o Agente ' Reddin lhe protegia o corpo. Os agentes do servio secreto  desceram os vidros do lado esquerdo da limusina,
de pistolas  apontadas. Mas no havia para onde disparar. O lado do  enorme atrelado encobria tudo. O motorista estava l no alto,  fora de vista. Houve outro solavanco
e sentiram que algo se amolgava quando a limusina foi de novo atirada contra as  guardas. O motorista guinou o volante para a esquerda, lutando por conservar o
carro em cima da ponte, mas o camio  continuava a empurr-lo para trs. O gelado rio Raritan redemoinhava duzentos ps abaixo deles. O agente do servio secreto
que se encontrava ao lado do motorista tinha agarrado no microfone de rdio e falava com precipitao.
 - Carro Um chama ! Mayday ! Mayday t ! Chamando todas as unidades !
 Mas todos os que se encontravam no interior da limusina sabiam que era demasiado tarde para poderem ser salvos. O motorista tentou parar o carro, mas os enormes
pra-choques do camio estavam presos nele, arrastando a limusina. No faltariam muitos segundos para que o gigantesco camio os atirasse da ponte abaixo. O agente
que conduzia o carro  tentou tcticas evasivas, usando alternadamente o travo e o  acelerador para reduzir e aumentar a velocidade, mas o camio tinha conseguido
encurralar o carro de encontro s guardas da ponte. O carro no tinha espao para manobrar. O camio impedia todas as hipteses de sada pelo lado esquerdo e, do
lado direito, a limusina estava a ser empurrada de encontro  ao gradeamento de ferro da ponte.  O agente lutou desesperadamente com o volante quando o camio exerceu
uma presso mais forte sobre a limusina, e todos os que se encontravam no seu interior sentiram que as guardas da ponte comeavam a ceder.  O camio encostava-se
agora com mais fora, empurrando a limusina para o lado. Os ocupantes do carro sentiram a  inclinao sbita quando as rodas da frente atravessaram as
guardas e saram pela borda da ponte. O carro oscilava   beira e cada um deles, a seu modo, se preparou para morrer.  Adam no sentia medo, mas sim uma inefvel
tristeza pela derrota, pela perda. Era com Jennifer que devia ter  partilhado a sua vida, de quem devia ter tido filhos - e, de sbito,  algo no ntimo de Adam
lhe disse que tinham tido um filho.  A limousine balanou de novo e, por uma nica vez, Adam gritou pela injustia do que tinha acontecido, do que estava  a acontecer.
 Por cima deles ouviu-se o ronco de dois helicpteros da polcia que se aproximavam e, pouco depois, sentiram-se  disparos de metralhadora. O atrelado deu outro
solavanco e,  de sbito, todo o movimento cessou. Adam e os outros ouviam os helicpteros descreverem crculos por cima deles. Os  homens deixaram-se ficar imveis,
sabendo que o menor movimento poderia atirar o carro, por cima da ponte, para a gua  que corria l no fundo.  O som estridente de sirenes da polcia tornava-se
cada vez  mais ntido e, alguns minutos depois, ouviram-se vozes que atiravam ordens rpidas. O motor do camio ps-se de novo em funcionamento. O camio moveu-se
lenta e cuidadosamente,  afastando-se do carro enjaulado, deixando de exercer presso contra ele. Por um instante terrvel, a limusina  oscilou e, em seguida, imobilizou-se.
Pouco depois, o camio  tinha sido tirado do caminho e Adam e os outros puderam  olhar atravs das janelas do lado esquerdo.  Havia meia dzia de carros-patrulha
e a ponte estava cheia   e polcias fardados, com armas apontadas.  Um capito da polcia encontrava-se junto do carro amolgado.
 - Nunca conseguiremos abrir as portas - disse ele. - Vamos  tirar-vos pelas janelas -  muito fcil.
 Adam foi o primeiro a ser retirado pela janela, devagar e com todo o cuidado, para evitar que o carro entrasse em  desequilbrio e se precipitasse pela borda fora.
Seguiram-se-lhe os trs homens do servio secreto.  Depois de todos os ocupantes terem sido retirados do carro, o capito da polcia voltou-se para Adam e perguntou:
 - Sente-se bem, senhor?
 Adam olhou para o carro suspenso  beira da ponte e, em seguida, para a gua escura do rio, l em baixo.
 - Sim - respondeu. - Sinto-me bem.
Michael Moretti consultou rapidamente o relgio de parede.
- Acabou - Voltou-se para olhar Jennifer: - A esta hora j o teu namorado est no rio.
 Ela contemplava-o, com o rosto lvido.
 - No podes. . .
 - No te preocupes. Vais ter um julgamento imparcial. E  dirigindo-se a Gino Gallo: - Disseste-lhe que Adam Warner ia  ser liquidado em New Canaan?
 - Tal como me ordenou, chefe.
 Michael olhou para Jennifer.
 - O julgamento terminou.
Ps-se de p e aproximou-se de Jennifer, que continuava  sentada. Agarrou-a pela blusa e obrigou-a a levantar-se.
 - Amei-te - murmurou ele. Deu-lhe uma bofetada violenta.  Jennifer no estremeceu. Ele bateu-lhe de novo, com  mais fora e ainda uma terceira vez, at ela cair
no cho.
 - Levanta-te. Vamos fazer uma viagem.
 Jennifer no se mexeu entontecida pelas pancadas, tentando
coordenar as ideias. Michael levantou-a com brutalidade.
 - Quer que me encarregue dela? - ofereceu Gino Gallo.
 - No. Traz o carro para as traseiras.
 - Sim, chefe. - Saiu rapidamente da sala.
 Jennifer e Michael ficaram sozinhos.
 - Porqu? - perguntou ele. - Possuamos o mundo, e tu  deitaste tudo a perder. Porqu?
 Ela no respondeu.
 - Queres que te fornique outra vez, em recordao dos  tempos antigos? - Michael encaminhou-se para ela e agarrou-a  pelo brao. - Gostavas? - Jennifer no replicou.
Nunca mais  fornicars com ningum ests a ouvir? Vou atirar-te para o  rio com o teu amante! Podero fazer comanhia um ao outro.  Gino Gallo regressou  sala,
muito plido.
 - Chefe ! H um. . .
 Ouviu-se rebentar algo l fora. Michael abriu precipitada  mente a gaveta da secretria e tirou de l a pistola. Segurava-a na mo quando a porta se abriu com
violncia. Dois agentes federais transpuseram a porta, de armas apontadas.
 - Quietos !
 Numa fraco de segundo, Michael resolveu-se. Ergueu a pistola, voltou-se e disparou para Jennifer. Viu as bala penetrarem-na um segundo antes de os agentes abrirem
fogo.  Viu o sangue brotar-lhe do peito, depois sentiu-se atingido por uma segunda bala, e ainda por uma terceira. Viu Jennifer  cada no cho, e Michael no soube
qual dos sofrimentos era maior, se a morte dela ou a sua. A ltima coisa que sentiu  foi o impacto de outra bala.
Dois internos estavam a conduzir Jennifer da sala de  operaes para o Tratamento Intensivo. Um polcia fardado  seguia ao lado de Jennifer. O corredor do hospital
era uma confuso de polcias, detectives e reprteres.  Um homem aproximou-se do balco da recepo.
 - Quero ver Jennifer Parker - disse.
 -  da famlia dela?
 - No. Sou um amigo.
 - Lamento. Ela no pode receber visitas. Est no Tratamento  Intensivo.
 - Eu espero.
 - Poder demorar muito tempo.
 - No faz mal - respondeu Ken Bailey.
 Abriu-se uma porta lateral e Adam Warner, emagrecido e plido entrou acompanhado por um grupo de homens do servio  secreto.  Havia um mdico  espera dele.
 - Por aqui, Senador Warner. - Acompanhou Adam at um pequeno gabinete.
 - Como est ela? - perguntou Adam.
 - No estou muito optimista. Extramos-lhe trs balas.
 A porta abriu-se para dar passagem ao Procurador Distrital Robert Di Silva.
 - Ainda bem que no lhe aconteceu nada - exclamou ele, olhando para Adam Warner.
 - Sei que  a si que lho devo - replicou Adam. - Como  que soube?
 - Jennifer Parker telefonou-me. Disse-me que iam atac-lo em  New Canaan. Calculei que talvez se tratasse de uma brincadeira mas,  cautela, tomei providncias.
Entretanto, informei-me do caminho que o senhor levava e mandei alguns helicpteros no seu alcano para o protegerem. Tenho a  impresso de que a Parker tentou
liquid-lo.
 - No - disse Adam. - No.
 Robert Di Silva encolheu os ombros.
 - Pense o que quiser, Senador. O importante  que se  encontra vivo. - Como numa reflexo tardia, voltou-se para  o mdico. - Ela salva-se?
 - No tem muitas hipteses.
 O Procurador Distrital reparou na expresso do rosto de  Adam Warner e interpretou-a mal.
 - No se preocupe. Se ela escapar, no vai ficar  solta.  Observou Adam mais de perto.
 - Est com um aspecto terrvel. Porque no vai para casa descansar um bocado?
 - Primeiro quero ver Jennifer Parker.
 - Ela encontra-se em estado de coma - informou o mdico. -  Pode nunca mais sair dele.
 - Gostava de a ver, por favor.
 O mdico encaminhou-se para fora da sala, seguido de Adam e de Di Silva. Percorreram o corredor at chegarem junto de um letreiro que dizia: UNIDADE DE TRATAMENTO
 INTENSIVO - ENTRADA PROIBIDA.  O mdico abriu a porta e segurou-a para que os dois homens  pudessem entrar.
 - Est no primeiro quarto.
 A porta encontrava-se guardada por um polcia. Este ps-se em sentido assim que viu o Procurador Distrital.
 - Ningum pode aproximar-se daquele quarto sem a minha  autorizao escrita. Compreende? - perguntou Di Silva.
 - Sim, senhor.
 Adam e Di Silva penetraram no quarto. Havia trs camas, duas das quais vazias. Jennifer encontrava-se na terceira,  com tubos metidos nas narinas e nos pulsos.
Adam aproximou-se da cama e olhou para ela. O rosto de Jennifer estava muito plido sobre as almofadas brancas e tinha os olhos fechados. Em repouso, o rosto dela
parecia mais jovem e suave. Adam contemplava a rapariga inocente que conhecera h alguns anos, a rapariga que lhe tinha dito em tom furioso: ?.Se  algum me tivesse
subornado, acha que eu estaria a viver num stio destes? Estou-me nas tintas para o que tencionam fazer. S quero que me deixem em paz." Recordou a sua coragem,
o seu idealismo, a sua vulnerabilidade. Ela estivera do lado dos anjos, acreditando na justia e disposta a lutar por ela. O que teria falhado? Amara-a e continuava
a am-la, mas fizera uma escolha errada que lhes envenenara as vidas e sabia que, enquanto vivesse, nunca mais deixaria de se sentir culpado.
 Voltou-se para o mdico:
 - Diga-me quando ela. . . - No conseguiu pronunciar as palavras. -. . . o que acontecer.
 - Com certeza - respondeu o mdico.
 Ad?m Warner olhou longamente para Jennifer pela ltima vez e disse-lhe um adeus silencioso. Em seguida voltou-se e saiu para enfrentar os reprteres que o esperavam.
 Por entre uma sombria e vaga bruma de semi-inconscincia, Jennifer ouviu sair os homens. No compreendera o que tinham estado a dizer, pois as palavras deles soavam
confusamente  por entre o sofrimento que a dominava. Imaginou ter ouvido a voz de Adam, mas sabia que isso era impossvel. Ele estava morto. Tentou abrir os olhos,
mas o esforo era demasiado.   Os pensamentos de Jennifer comearam a misturar-se. . . Abraam Wilson entrou a correr no quarto, com uma caixa na mo. Tropeou,
a caixa abriu-se e l de dentro voou um  canrio amarelo... Robert Di Silva gritava: Apanhem-no! No  o deixem fugir !. . .  e Michael Moretti segurava-o, rindo,
e o Padre Ryan dizia: Olhem!  um milagre!?, e Connie Garrett danava pelo quarto e todos aplaudiam... Mrs. Cooper dizia: Vou oferecer-lhe Wyoming. . . Wyoming.
. . Wyoming. . .  e Adam entrou com dzias de rosas vermelhas e Michael dizia: So da minha parte" e, Jennifer respondeu: Vou p-las numa jarra com gua?, , e elas
murcharam e morreram e a gua espalhou-se pelo cho e transformou-se num lago, e ela e Adam faziam vela, e Michael perseguia-os com esquis aquticos  e transformou-se
em Joshua e ele sorriu a Jennifer e acenou e comeou a perder o equilbrio, e ela gritou: No caias. . . No caias. . . No caias", e uma onda enorme  atirou Joshua
ao ar e ele abriu os braos como Jesus e desapareceu.  Por uns momentos, o esprito de Jennifer ficou lcido.  Joshua tinha morrido.
 Adam tinha morrido.  Michael tinha morrido.  Estava sozinha. No fim, toda a gente est sozinha. Cada um tem de morrer a sua prpria morte. Seria fcil morrer agora.
 Uma sensao de paz abenoada comeou a invadi-la. O sofrimento deixou de a atormentar. Foi num dia gelado de Janeiro que Adam Warner prestou juramento como quadragsimo
Presidente dos Estados Unidos, no  Capitlio. A sua mulher usava um chapu de zibelina e um casaco escuro, tambm de zibelina, que lhe fazia realar a tez plida
e quase lhe ocultava a gravidez. Encontrava-se  ao lado da filha e ambas viram, orgulhosas, Adam prestar  juramento, e o pas regozijou-se pelos trs. Eram os melhores
 da Amrica: decentes, honestos e bons, e o lugar deles era a Casa Branca.  Num pequeno escritrio jurdico em Kelso, Washington, Jennifer Parker encontrava-se
sozinha a assistir pela televiso  investidura. Esperou que a cerimnia terminasse, que Adam, Mary Beth e Samantha abandonassem o estrado, rodeados  por homens
do servio secreto. Ento Jennifer desligou a  televiso e viu a imagem desvanecer-se. E foi como se tivesse encerrado o passado; cortado com tudo o que tinha acontecido,
com o amor e com a morte, com a alegria e com o sofrimento. Nada tinha conseguido destru-la. Era uma  sobrevivente.  Ps o chapu e o casaco e saiu para a rua,
detendo-se por um instante a contemplar a tabuleta que anunciava: Jennifer Parker, Licenciada em Direito.,. Por uns instantes pensou no jri que a tinha absolvido.
Continuava a ser advogada, tal como o pai tinha sido advogado. E iria continuar,  procura daquela coisa vaga a que chamavam justia. Deu meia volta e comeou a
dirigir-se para o Palcio da Justia.  Jennifer caminhava devagar pela rua deserta e aoitada pelo vento. Tinha comeado a cair uma. neve fina que envolvia o mundo
num vu de gaze. De um prdio de apartamentos prximo  ouviu-se uma gargalhada repentina e o som pareceu-lhe to estranho que se deixou ficar  escuta por uns momentos.
Apertou o casaco com mais fora e continuou a descer a rua, olhando atravs da cortina de neve, como se tentasse  perscrutar o futuro.  No entanto, era para o passado
que olhava, tentando  compreender em que momento  que o riso se extinguira.


FIM DO LIVRO.
